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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Reflexões sobre o processo de construção da democracia no Egito pós-Mubarak

Nas últimas semanas, as atenções de toda comunidade internacional estão voltadas para o norte da África e para o Oriente Médio, em função das revoluções populares ocorridas primeiramente na Tunísia e, posteriormente, no Egito. Nesses dois países, a pressão popular pôs fim a regimes ditatoriais (Ben Ali, na Tunísia, e Mubarak, no Egito) e ampliou consideravelmente as possibilidades de um avanço democrático nessas regiões marcadas por sucessos governos de caráter autocrático. Isso porque a própria essência desses levantes populares e os seus desdobramentos até o momento têm como principal mola propulsora o ingrediente essencial da democracia, que é a soberania popular.

Naturalmente, a queda dos ditadores da Tunísia e do Egito constitui apenas o ponta-pé inicial para uma verdadeira transformação democrática nesses países. Longe de querer diminuir os êxitos alcançados pelo povo desses dois países, mas é importante que se reconheça que o processo de construção democrática é muito mais complexo e lento do que a própria ruptura com um regime ditatorial. Rupturas são, em grande parte, produto de uma conjuntura endógena (como no caso tunisiano e egípcio) ou exógena que praticamente forçam uma inflexão. Nesse sentido, a simples ruptura com um regime autocrático não significa necessariamente que a democracia será construída de forma automática nessas regiões.

Desislamização política
Há que se levar em conta a dinâmica de forças políticas existentes nesses países e, sobretudo, o grau de participação que o governo militar provisório, no caso do Egito, dará aos civis nesse processo de construção da democracia. Embora todos concordem que ainda seja cedo para fazer previsões sobre o tempo ou a forma em que transcorrerá esse processo, parece que a grande maioria das análises também converge para um risco quase inexistente de constituição de um regime teocrático, como ocorreu na região em períodos anteriores. Lluís Bassets, colunista do El País, escreveu um artigo muito interessante apontando para essa “desislamização” política do Egito e regiões vizinhas.

De acordo com Bassets, “parece evidente que em nenhum dos países o islamismo organizado tem tido um papel relevante na origem nem sequer na organização das revoltas”, completando que “a percepção mais comum é que esta revolução árabe, não somente no Egito, está nas mãos de uma geração nova, muito numerosa e diferenciada das anteriores”. A visão de Bassets sobre a pouca influência do Islã político nos rumos da recente revolução árabe e mesmo no destino político dessas regiões é compartilhada por outros observadores da política internacional. Embora a Irmandade Muçulmana, ligada ao sunismo, seja uma força política de expressão no Egito, muitos analistas de política internacional concordam que ela não tem força suficiente para construir uma hegemonia no país.

Uma pesquisa feita pelo The Washington Institut no Cairo entre os dias 5 e 8 de fevereiro revelou que apenas 15% dos entrevistados aprovam a Irmandade Muçulmana, o que mostra que, embora o grupo tenha uma expressão política razoável, está bem longe de conseguir uma hegemonia para liderar o novo governo. Além disso, essa mesma pesquisa mostrou que apenas 12% dos egípcios são favoráveis à aplicação da sharia (lei muçulmana) no país. Esse distanciamento popular da opção teocrática, expresso nessa pesquisa e comungado nas mais diversas análises, nos dá indícios de que o processo de construção de um novo regime no Egito ocorrerá de uma forma distinta do que ocorreu em outras regiões do Oriente Médio em ocasiões anteriores.

Partidos egípcios devem se fortalecer
Para o cientista político egípcio Nubar Hovsepian, professor da Universidade de Chapman, na Califórnia, “acabaram-se os dias em que os egípcios dançavam ao som dos interesses de um ditador; eles tiveram êxito em pôr um fim nessa realidade. Mas agora vem o mais difícil: como transformar essa vitória em realidade política”. Segundo Hovsepian, “o desafio é construir o marco institucional da transição democrática, mas o processo é lento”. Numa entrevista dada ao jornal argentino Página 12, o cientista político egípcio destacou ainda que o Exército, que assumiu provisoriamente o comando do Egito após a renúncia de Mubarak, não é o ator mais indicado para conduzir esse processo de construção de um regime democrático.

“O Exército tem o máximo poder agora para lidar com o caos do início de uma nova realidade, mas o marco institucional tem que ser a criação de um Estado independente, levada a cabo pelo povo através da comunhão das forças políticas”, analisa Hovsepian. O momento agora, segundo o cientista político, deve ser de fortalecimento dos partidos políticos e das lideranças populares, justamente para garantir uma transição tranqüila para um regime democrático. E o grande desafio, neste sentido, deve ser justamente equacionar o quão curto ou longo será esse período de transição: se muito curto, pode incorrer numa construção democrática pouco sólida; se muito longo, pode aumentar o risco do Exército (e não o povo) assumir o protagonismo do processo.

O professor Hovsepian faz uma análise interessante: “três décadas de Mubarak destruíram o espaço público. Definhada e frágil, a oposição se dedicou a construir redes de atuação territorial, que não crescem verticalmente, mas que preenchem lacunas do espaço público. Sua estrutura necessita evoluir e incluir a estrutura vertical necessária para lutar com força no nível político. Esses grupos necessitam institucionalizar-se para poder fortalecer a representação do povo. Eles são o povo. É preciso que os egípcios se convertam em sujeito político”. Essa avaliação de Nubar Hovsepian é importante porque mostra a necessidade de institucionalizar esse movimento popular para que a construção democrática ocorra de maneira firme e sólida no Egito.

A oposição enfraquecida não será capaz de travar uma disputa por espaço no tabuleiro político, o que por si só já seria prejudicial ao processo de construção democrática, pois daria mais espaço para que o Exército, já organizado, assumisse o protagonismo. Por esta razão os analistas internacionais convergem para a percepção de que ainda é cedo para se afirmar com exatidão o que acontecerá no Egito: é preciso, antes, checar qual será a capacidade da oposição egípcia de se organizar enquanto movimento de construção de um novo regime democrático. Afinal de contas, é importante que a oposição esteja organizada e mobilizada para que tenha ampla participação na elaboração de uma nova Constituição para o país e também para o próprio processo eleitoral, que deve ocorrer em agosto desse ano.

O fortalecimento dos partidos políticos egípcios também é recomendável para evitar influências externas na construção de sua democracia. Quanto mais fortes e articulados estiverem os partidos políticos no Egito, menor será o risco de influência estrangeira no processo que se deflagra naquele país, possibilitando a construção de uma democracia legitimada pela ampla participação popular e pelo respeito às experiências políticas e históricas próprias do povo egípcio.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tarso Genro ao El País: "Dilma terá absoluta independência do PT em suas decisões"

Em viagem à Europa desde a semana passada, onde se reúne com autoridades espanholas e portuguesas, o governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, aproveita para estreitar suas relações com os dois países e criar janelas de oportunidades para futuras cooperações com o Rio Grande. Abaixo, o Boteko reproduz uma entrevista dada pelo governador ao jornal espanhol El País na última quarta-feira, 17. Tarso fala de suas prioridades para o Rio Grande do Sul, do Mercosul e também do governo Dilma.

Dilma terá independência absoluta do PT em suas decisões
A relação de Tarso Genro com a Espanha é antiga e próspera. Como assessor do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro em duas pastas, Justiça e Educação, Tarso estreitou vínculos que agora, como governador recém-eleito do Rio Grande do Sul, está mais que disposto a manter. Por isso, antes de assumir o cargo, em 1º de janeiro, quis se reunir em Madrid com lideranças políticas, econômicas, acadêmicas e sociais para “abrir canais de negociação” para o investimento privado, o apoio à “democratização institucional” e a colaboração para colocar em marcha o Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social. Tarso Genro, 63 anos, ex-prefeito de Porto Alegre, berço do Fórum Social Mundial, segue levantando a bandeira da cidadania participativa.

El País: Quais serão as suas prioridades como governador do Rio Grande do Sul?
Tarso: O combate à desigualdade regional, que é muito profunda entre o norte e o sul do Estado, e o combate às desigualdades sociais tanto no sul quanto no norte. Temos uma base produtiva rica e diversificada que oferece muitas possibilidades; estamos no centro do Mercosul e nossas relações com Espanha e Portugal terão efeitos muito positivos sobre nosso desenvolvimento.

El País: O sr menciona o Mercosul, mas o grande problema da América Latina é justamente a integração regional. Como se pode avançar?
Tarso: Para isso tem que se resolver um problema anterior: a efetividade dos direitos sociais. Não se pode falar de integração regional de forma abstrata ou somente como a integração de capitais. É preciso incluir as pessoas, os sindicatos, os movimentos sociais. É necessária uma integração com inclusão social.

El País: A Presidente eleita, Dilma Rousseff, tem insistido que dará continuidade ao legado de Lula. Mas os analistas se perguntam qual o grau de autonomia que ela terá em relação a Lula e ao Partido dos Trabalhadores (PT).
Tarso: O governo de Dilma estará sedimentado em um trabalho sólido. Todo governo democrático sério tem influência dos partidos políticos. Lula teve muita influência do PT, até mesmo porque o partido é quase que uma “criação” sua. Essa será a mesma relação de Dilma, mas ela terá uma absoluta independência na tomada das decisões de Estado. Porém, considerar que a influência do Partido é algo pernicioso é uma visão reacionária da política.

El País: Lula é criticado por sua aproximação a regimes como Irã e Cuba. Essa política externa terá continuidade?
Tarso: A política externa vai continuar com as adaptações necessárias. Cuba está libertando seus presos [políticos]. O Brasil sempre quis isso, mas foi respeitoso com sua autononia [de Cuba]. Sem dúvida, o novo contexto da guerra cambial vai marcar a agenda externa, mas sempre se manterá uma política independente, marcada pela negociação e orientada pela soberania nacional”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Xenofobia na Catalunha: partido conservador lança game que "elimina" imigrantes

Um “game” veiculado no site do conservador Partido Popular (PP), de direita, está provocando grande polêmica na campanha eleitoral da Catalunha, província autônoma situada no nordeste da Espanha. À semelhança do game Tomb Rider, no qual a heróina Lara Croft (interpretada pela atriz Angelina Jolie nos cinemas) persegue e aniquila uma série de inimigos, no jogo do PP catalão é a candidata ao governo da província, Alícia Sánchez (chamada no jogo de Alícia Croft), quem persegue os “inimigos” da Catalunha. O objetivo do jogo é, dessa forma, atirar e acertar os alvos que “criam problemas para a Catalunha”, somando, assim, pontos.

A polêmica deve-se ao fato de que, entre os inúmeros “inimigos” que aparecem para ser derrotados pela candidata Alícia Sanchez, estão os imigrantes. Na tela do jogo (que recebeu o nome de Resgate), Alícia “Croft” aparece montada em um enorme pássaro branco– símbolo do PP – chamado Pepe e logo se depara com alvos que caem com pára-quedas à sua frente: são os “imigrantes ilegais”, como aparece no jogo. Assim, o jogador é incentivado a destruir esses imigrantes e com isso somar pontos, além de ajudar, na lógica do game, a “heroína” Alícia Croft libertar a Catalunha dos problemas que assolam atualmente a região.

Socialistas repudiam xenofobia em game do PP
O jogo naturalmente causou um forte repúdio de outros partidos, como o PSC (Partido Socialista Catalão), que acusou o PP e Alícia Sanchez de xenofobia. Vale destacar que ao longo da campanha eleitoral, Alícia tem colocado como uma de suas principais bandeiras o combate à imigração “ilegal” na região, associando os imigrantes à crise econômica pela qual passa a Catalunha. De acordo com informações da BBC, em um comício realizado na região de Barcelona, Alícia Sánchez prometeu que, se eleita, criará uma “lei regional de contrato de convivência para os estrangeiros”.


De acordo com essa lei, os imigrantes (mesmo os em situação de legalidade) assinariam um contrato no qual se comprometeriam a deixar a Catalunha caso fiquem desempregados. A lei proposta pela candidata conservadora também incentiva os catalães a denunciarem imigrantes ilegais nas delegacias, a fim de que estes sejam identificados e expulsos da província. Para os socialistas, que atualmente governam a Catalunha, o jogo veiculado no site do PP revela uma campanha extremamente “racista, xenófoba e perigosa” do partido conservador. Após a polêmica, o PP retirou o game do site oficial do partido.

Em um comunicado oficial, o PP declarou que o fabricante do jogo não seguiu suas orientações. De qualquer maneira, a xenofobia do PP fica clara também nas declarações do secretário-geral de política regional do partido, Javier Arenas, que após o episódio afirmou que houve “um pequeno erro; embora o importante não seja este erro, mas a questão de fundo num país com um discurso absolutamente irresponsável do governo socialista dizendo que na Espanha cabe todo o mundo”. Ou seja, embora o PP tenha retirado o jogo do ar, o pensamento xenófobo de seus dirigentes permanece.

Eleições na Catalunha
O governo da província autônoma da Catalunha é chamado de Generalitat de Catalunya, sendo constituído por um Parlamento (com 135 deputados), um Conselho Executivo e um Presidente, eleito entre os membros do Parlamento e nomeado pelo rei da Espanha. Atualmente, o presidente da Generalitat é José Montilla, do PSC (Partido Socialista Catalão), que concorre à reeleição, com poucas chances de êxito, segundo o jornal espanhol El País.

O grande favorito para as eleições é o candidato do CiU (Convergência i Unió), Artur Más, de centro, e que possui maior número de cadeiras no Parlamento (48 deputados de um total de 135). O PSC, de Montilla, é a 2ª maior força no Parlamento Catalão, com 37 assentos. O PP, de Alícia Sánchez, ocupa o 4º lugar, com 14 cadeiras e seu principal desafio nestas eleições regionais é voltar a ser a 3ª maior força do Parlamento, posição que perdeu em 2006 para o ERC (Esquerra Republicana Catalã, de caráter separatista). As eleições regionais da Catalunha serão realizadas no próximo dia 28 de novembro.

Administrativamente, a Catalunha é dividida em 4 províncias (Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona), possuindo 41 comarcas e 946 municípios. Com informações da BBC Brasil e do El País.

sábado, 19 de junho de 2010

Ao El País, Dilma reforça que continuará governo Lula, "não para repetir e sim progredir"

Aproveitando uma rápida passagem da candidata do PT na disputa presidencial brasileira, Dilma Rousseff, por Madrid, o jornal espanhol El País realizou uma entrevista com a ex-ministra, na qual se discutiu basicamente o projeto de governo de Dilma. Em sua reportagem, o El País destacou, além das propostas gerais da candidata, o passado de Dilma: sua militância política contra a ditadura militar, sua atuação no governo Lula e o conseqüente apoio recebido do presidente que, segundo o jornal espanhol, “é o político mais popular e carismático da história brasileira”.

Segundo o jornal, a petista “tem fama de dura, mas isso é impossível de se confirmar em uma entrevista apenas. Pode-se dizer que ela é energética, que parece muito segura de si mesma e que não gosta que a interrompam”. A matéria salientou ainda, sobre Dilma, que “em Madrid esteve apenas poucas horas. E por ser quem é não é demais destacar que chegou com uma comitiva modesta e se hospedou em um hotel também modesto”. Abaixo a íntegra da entrevista de Dilma ao El País:

El País: Se ganhar seguirá o modelo político de Lula?
Dilma: Vou continuar o modelo de Lula, mas com coração e alma de mulher. Não para repetir e sim para progredir. Para mim, a mulher tem uma grande capacidade de cuidar e, ao mesmo tempo, de estimular. É claro que o homem também pode ser cuidadoso, mas o olhar feminino é distinto. No Programa Bolsa Família, por exemplo, quem recebe o dinheiro é a mãe. Em primeiro lugar, porque ela tem um papel chave na coesão da família. E em segundo lugar porque... acaso você conhece uma mãe que se lhe dão dinheiro ela não o destine ao bem estar de seus filhos? Difícil, não? No Brasil, uma das maiores tarefas pendentes é a recomposição dos laços. Melhorar a situação econômica não basta, também há que se reconstruir a família porque é a chave para melhorar a educação, para combater a violência... Enfim, para se crescer como sociedade. Essa recomposição dos laços familiares deve ser colocada no centro da agenda política. E não é tarefa para um mandado, mas sim para anos de trabalho... No Brasil, privilegiar a mulher não é uma política de gênero, é uma política social. As mulheres encabeçam 30% das famílias brasileiras. Nós mulheres somos 52% da população e os 48% restantes são nossos filhos. Não se trata de criar um matriarcado, mas sim de dar à mulher a importância que ela tem para a estrutura familiar. Lula tem uma enorme sensibilidade com este tema, ele foi criado por uma mulher forte.

El País: Não teme que a sombra de Lula prejudique sua carreira?
Dilma: Sou a ministra da Casa Civil. Sou quem coordena os ministros e os principais projetos do governo. Tenho trabalhado intimamente com o presidente Lula nos últimos cinco anos e meio. Seu êxito é o meu. Tenho sido seu braço direito e esquerdo. Ele não será meu ministro se eu chegar ao governo, mas sempre estarei aberta às suas propostas. Temos uma relação muito forte.

El País: É a primeira vez que disputa um cargo eletivo. Como se sente? Como está sua saúde?
Dilma: A pressão é a mesma de quando se está no governo, talvez até um pouco menor, porque quando se governa tem que dar respostas todos os dias. O processo eleitoral é distinto: há discussões, debates, viagens... Mas me permite estar mais perto das pessoas. E o povo brasileiro é muito alegre, muito carinhoso. Gosto muito, na verdade. E minha saúde vai muito bem.

El País: Em um eventual governo, como combinará as políticas de crescimento econômico com a proteção do meio ambiente?
Dilma: No Brasil, 87% da energia elétrica procedem das usinas hidrelétricas, quer dizer, são renováveis. Aliado a isso, a energia eólica está aumentando significativamente. Nosso parque automobilístico, por outro lado, utiliza o etanol, um combustível que não é fóssil. Se você me pergunta se teremos que derrubar árvores para plantar mais cana de açúcar, lhe digo que não. O Brasil tem uma das tecnologias agrícolas mais importantes do mundo e as pesquisas para produzir mais em menos território avançam. Não é correto dizer que se precisa de mais terra para produzir mais. O que se necessita é uma melhor tecnologia para se aproveitar melhor os terrenos de cultivo. É isso que fazemos no Brasil. E permita-me dizer que a Amazônia não só é protegida por lei, mas que também não possui um terreno fértil para o cultivo.

El País: Quais seriam as principais diferenças do seu modelo com o que propõe José Serra?
Dilma:
A diferença mais importante é que nós sabemos como construir as condições para o crescimento sustentável. Crescemos ao mesmo tempo que distribuímos riqueza. No Brasil atualmente existe mobilidade social e a gente sabe que amanhã estará melhor: 24 milhões de brasileiros deixaram a pobreza e outros 31 milhões ascenderam socialmente. Mas ainda há muito o que fazer, já que ainda existem 50 milhões de brasileiros que ganham menos de um salário mínimo. Temos que investir muito em educação de qualidade, porque isso nos permitirá estimular o emprego formal. Este ano serão criados 2 milhões de empregos deste tipo.

El País: Quais serão as linhas mestras de sua política externa?
Dilma: O Brasil sempre teve uma política externa focada em poucos países. Os grandes êxitos dos últimos anos têm sido o avanço do multilateralismo e a consciência que o país tomou de sua importância dentro da América Latina. Atuamos com respeito e sem intromissões nas políticas internas. Não somos imperialistas. Queremos a cooperação entre os países, não políticas de imposição. Não podemos ser ricos e rodeados de pobres, por isso o impulso à infra-estrutura regional é vital para nós. É muito importante também a relação com a África e com os BRICs (Rússia, Índica, China e África do Sul). O Irã tem o direito de desenvolver um programa nuclear para uso civil e submeter seu programa com a maior transparência possível ao controle por parte de organismos internacionais é a melhor política. Mas não creio que essa questão deva se resolver com sanções e sim com o diálogo. É preciso construir portas, não levantar muros.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A Copa do Mundo pode influenciar as eleições presidenciais do Brasil?

É razoável pensar que o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo da África do Sul pode influenciar as eleições brasileiras? Para o articulista Andrés Oppenheimer, do jornal espanhol El País, sim. Em uma matéria publicada nesta terça-feira, 15, intitulada O impacto do Mundial, Oppenheimer conclui que a candidata do PT Dilma Rousseff deve se beneficiar de uma suposta conquista do título pela seleção brasileira no Mundial deste ano, pois aumentaria ainda mais o sentimento entre a população brasileira de que o Brasil está vivendo um dos melhores momentos de sua História. Abaixo, alguns trechos desta interessante matéria:

“A julgar pela História, a Copa do Mundo tem um grande impacto de curto prazo sobre o ânimo dos países, criando um clima de euforia que permite aos governos vangloriar-se de que tudo caminha bem quando a seleção nacional vai bem, e uma depressão coletiva que tende a ajudar os partidos de oposição quando os resultados da equipe são decepcionantes. Tal como me recordou Ciro Murayama, professor de Economia da Universidade Autônoma do México e analista futebolístico, a ditadura militar argentina recebeu um segundo alento quando a seleção nacional ganhou a Copa do Mundo em 1978. Ao contrário, o governo conservador espanhol recebeu um duro golpe quando afirmou que ‘tudo vai bem’ no país e a sua seleção foi desclassificada na primeira rodada do Mundial de 1998”.

“Brasil celebrará eleições presidenciais em outubro. A candidata de centro-esquerda respaldada pelo governo, Dilma Rousseff, e o adversário centrista, José Serra, estão empatados nas pesquisas, mas uma vitória brasileira na Copa do Mundo indubitavelmente beneficiaria a candidata do governo. Espera-se que a economia cresça num vigoroso patamar de 6,4% este ano – o seu melhor desempenho em 15 anos -, o país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um dos líderes mais populares do mundo. Se o Brasil ganha, Lula poderá dizer que o Brasil está passando por um dos melhores momentos de sua História e que tem que manter o rumo”.

“Minha opinião: o resultado da Copa do Mundo terá um impacto político de curto prazo nos países que tenham eleições nos próximos meses. Isso significa que poderia afetar as eleições no Brasil, mas dificilmente influirá nas eleições da Argentina ou México nos próximos dois anos”.

Apesar da interessante análise “político-futebolística” de Oppenheimer, a verdade é que uma vitória do Brasil na Copa do Mundo pode repercutir positivamente sim para a candidatura de Dilma pelo motivo exposto pelo jornalista: a ampliação do sentimento de que tudo vai bem no país. Por outro lado, numa eventual derrota da seleção brasileira, a candidatura de Dilma não tende a ser abalada, uma vez que o próprio jornalista destaca que economicamente o Brasil vive atualmente um dos melhores períodos de sua História. A economia brasileira cresce como nunca, o país vem registrando recordes sucessivos na geração de empregos com carteira assinada, a diplomacia brasileira vem cada vez mais sendo respeitada na comunidade internacional e o sentimento de “brasilidade” é cada vez maior: tudo isso favorece a candidatura de Dilma.

Logo, podemos concluir que o Mundial pode ter um efeito sobre as eleições brasileiras em caso de conquista do hexacampeonato, mas não tende a impactar negativamente se o título não for conquistado. Basta lembrar na Copa anterior, em 2006, quando o Brasil foi eliminado e nem por isso o presidente Lula deixou de ser reeleito em outubro. Cada vez mais o eleitor brasileiro tem levando em conta os aspectos sócio-econômicos para definir o seu voto: ou seja, se ele considera que seu padrão de vida melhorou, ele vota pela continuidade do governo; se o eleitor considera que seu padrão de vida piorou, ele vota pela mudança. Considerando que a aprovação de Lula é recorde, fica fácil imaginar como devem votar os brasileiros nestas eleições, independente do resultado da Copa do Mundo.

Ao El País, FHC critica Lula por "governar mais com coração do que com a cabeça"

Incrível a capacidade que tem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para dizer impropérios, especialmente contra o governo Lula. Movido talvez por uma vaidade ferida, pelo fato de Lula ter conseguido avanços consideráveis no Brasil que ele próprio não conseguiu, FHC parece uma “metralhadora giratória”, disparando seu discurso falacioso e cheio de ressentimento contra o presidente Lula. Desta vez, o ex-presidente e ex-sociólogo disparou suas críticas em uma entrevista dada ao jornal espanhol El País, publicada na edição desta terça-feira, 15.

FHC voltou a criticar a política externa brasileira, sobretudo no que se refere à questão do Irã e do relacionamento do Brasil com países latino-americanos, como Bolívia, Venezuela e Cuba, deixando transparecer nas entrelinhas de suas frases a política que o ex-presidente realmente defende, a saber, a da submissão ante os países desenvolvidos. Sobre a questão iraniana, FHC mostrou que não anda lendo muito sobre a diplomacia brasileira, uma vez que declarou que o Brasil não exigiu garantias suficientes do Irã em relação à finalidade pacífica de seu programa nuclear. Ora, será que por acaso o ex-sociólogo não leu os termos do acordo assinado por Brasil, Turquia e Irã no mês passado em Teerã?

Além disso, o ex-presidente sugeriu que o Brasil deve deixar mais claro os seus valores de “paz e democracia”. Será que FHC prestou atenção na tamanha incoerência entre o seu discurso e os fatos reais? Ao pressionar os países desenvolvidos, como Estados Unidos, União Européia e Rússia, quanto à necessidade de se chegar a uma solução via diálogo para a questão iraniana, o presidente Lula mostrou exatamente os valores da diplomacia brasileira. Ou será que “paz e democracia” para o ex-sociólogo significam aumentar as sanções sobre o Irã? O ex-presidente também aproveitou a entrevista para criticar uma suposta “leniência” da política externa de Lula com os países vizinhos, como Venezuela, Bolívia e Cuba.

Não bastasse isso, FHC ainda disse que Lula “tem governado mais com o coração do que com a cabeça”. De certa forma, as críticas do ex-presidente são muito bem vindas, pois politizam o debate e mostram que ele e o seu candidato à Presidência da República, José Serra, dariam um rumo totalmente diferente à política brasileira caso reassumissem o governo. É importante que essas diferenças entre o modo de governo de FHC/Serra e de Lula/Dilma sejam evidenciadas, mostrando que Serra não dará continuidade ao governo Lula caso seja eleito e acabando, assim, com essa farsa do “Serra pós-Lula” que a oposição tem insistido. Sem dúvida nenhuma, FHC deveria falar mais vezes, acentuando as diferenças entre o projeto tucano e o projeto vitorioso do governo Lula.

Abaixo a íntegra da entrevista dada pelo ex-sociólogo ao El País:

El País: Qual a imagem que o Brasil deve passar para o mundo?
FHC: O Brasil terá cada vez mais influência, não há dúvidas. Mas não necessita de armas atômicas nem de um PIB espetacular para ser respeitado, mas sim uma ação internacional que tenha um caráter propositivo, e não apenas impositivo. Devemos ampliar a influência segundo nossos valores, que são a paz e a democracia. É isto que eu creio que Lula deve deixar mais claro. Somos um país de paz e democrático, e estes valores são os que nos garantirão um lugar mais importante no mundo.

El País: Qual a sua opinião sobre a atuação brasileira na crise iraniana?
FHC:
Creio que Lula deveria ter pedido ao Irã a garantia de que o desenvolvimento de seu programa nuclear será para fins pacíficos. O Brasil é favorável ao controle do ciclo de produção do urânio por parte da comunidade internacional. Eu estou de acordo com isso, o Brasil o controla. Temos um acordo com a Argentina de vigilância mútua referendado pela ONU e graças a isso temos desenvolvido nossa própria tecnologia. Nunca ninguém suspeitou que nosso programa atômico era para guerra. Não somente porque a Constituição Brasileira proíbe ter uma bomba atômica, mas sim porque nós temos nos submetido às regras. O Brasil deveria exigir o mesmo do Irã. Ele [Irã] deve ter a liberdade para desenvolver o seu programa mas cabe a Teerã dar as garantias de que não será para uso militar. Eu insisto, não critico o gesto do Brasil, mas sim a insuficiência do gesto, porque não pediu ao Irã as garantias suficientes.

El País: Como o sr. vê a política do Brasil em relação a Cuba?
FHC:
Lula se equivocou ao não se solidarizar com um preso político [o presidente brasileiro chegou a Havana horas após a morte do dissidente Orlando Zapata, em 23 de fevereiro deste ano]. Ele [Lula] sabe melhor que ninguém o que nos custou a democracia no Brasil. Foi um momento diplomático crítico, eu reconheço, mas não dizer nada é quase justificar essa morte... e isso não pode ser. Sempre tivemos uma relação correta com Cuba. Sempre nos posicionamos contra o embargo, mas isso não significa que não se possa dizer que eles estão equivocados. Tem que dizer: “o que é isso, companheiro?”... Creio que nos últimos seis meses Lula tem atuado mais com o coração do que com a cabeça.

El País: O que o sr. teria feito?
FHC: O Brasil pode ter um papel pedagógico no que se refere à democracia na América Latina. É claro que tenhamos uma posição de diplomacia e de não-ingerência, mas acima de tudo sempre estão esses valores de paz e dos direitos civis. A Bolívia, por exemplo, é um país pobre e com um passado muito injusto. Compreendo as razões que levaram Evo Morales ao poder. Mas as formas de agir que ele tem adotado são próprias da Guerra Fria. Por que expropriar a Petrobras? Por que não negociar o preço do gás natural ou inversões por parte da estatal brasileira? Agora perdemos todos. A Bolívia provavelmente venderá menos gás no futuro e o Brasil terá que o buscar em outra parte. Lula é um homem muito conciliador, Morales poderia ter negociado com ele o que quisesse. Na Venezuela se passa a mesma coisa: a retórica do presidente [Hugo] Chávez tem se radicalizado a um ponto que não dá pra retornar. Lula é muito indulgente com Chávez. Eu também fui, mas ele é muito mais. A região recuperou sim a estrutura da democracia, mas não a alma da mesma. Ainda há muito o que fazer para que haja igualdade perante a lei e igualdade de oportunidades.

El País: O sr. e Lula demonstram ter um caráter conciliador. Mas os dois candidatos favoritos para as eleições de outubro têm fama de duros...
FHC:
José Serra é um político duro e Dilma Rousseff creio que mais dura ainda. Conheço menos Dilma do que Serra: ele foi meu ministro e sigo em permanente contato com ele. É um homem muito determinado, um bom gestor e tem uma grande vocação para o serviço público. É também um grande latinoamericanista. E não somente por seus ideais, mas sua esposa é chilena e sua mãe argentina. Tem um conhecimento transversal e muito profundo da região. Fala espanhol melhor do que eu.

El País: Por exemplo, como teria atuado Serra na questão hondurenha?
FHC: Serra teria respeitado as eleições em que ganhou Porfírio Lobo e não haveria nenhum boicote para que Honduras participasse da última cúpula União Européia-América Latina em Madrid. Esse gesto foi o que chamamos de uma saudação a bandeira, quer dizer, a nada. Os golpes de Estado são injustificáveis e sua condenação uma obrigação. Mas creio que o progressismo da região tem se voltado demasiadamente em favor do presidente Manuel Zelaya,quando talvez nenhum dos partidos hondurenhos, nem o que estava nem o que está, são progressistas.