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domingo, 21 de novembro de 2010

The Guardian analisa como Bolsa Família tem ajudado a melhorar a vida dos mais pobres

O êxito do Bolsa Família em seu objetivo central – a redução da pobreza absoluta nos quatro cantos do Brasil – tem repercutido internacionalmente, servindo inclusive de modelo para a implementação de programas de transferência de renda semelhantes ao brasileiro em outras partes do mundo. Na sexta-feira, 19, o jornal britânico The Guardian publicou uma matéria muito interessante, na qual são analisados os efeitos positivos que o Bolsa Família alcançou desde sua implantação no Brasil e a inspiração dada pelo programa a outros países do mundo, que adotaram ações semelhantes.

Destacando o Bolsa Família como “provavelmente o maior e mais conhecido de todos os programas de transferência de renda no mundo em desenvolvimento”, o The Guardian aponta resultados que, incontestavelmente, atestam o sucesso do programa desenvolvido ao longo do governo Lula. “Desde 2003, 12 milhões de famílias são beneficiadas pelo programa e recebem mensalmente uma pequena quantia em dinheiro. A desigualdade social caiu 17% em apenas cinco anos, o que é talvez uma das mais acentuadas conquistas já registradas no campo do bem-estar social. A taxa de pobreza, por sua vez, recuou de 42,7% para 28,8% em igual período”.

De acordo com a reportagem do periódico britânico, “esse é o fascínio desta ‘tecnologia social’ que leva o Brasil agora a ser procurado para aconselhamento sobre programas de transferência de renda em países da África (Gana, Angola, Moçambique), Oriente Médio (Egito, Turquia) e Ásia (Índia). Até mesmo a cidade de Nova York implementou uma versão do programa”. Um dos movimentos mais interessantes apontados pelo jornal diz respeito ao fato observado pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social, Rômulo Paes de Souza: enquanto o Brasil está expandindo o seu Estado de bem-estar social, a Europa está recuando.

The Guardian aponta efeitos positivos do programa
Três aspectos centrais do programa Bolsa Família são destacados pela matéria do The Guardian. O primeiro deles diz respeito à condicionalidade dos benefícios. “Os pagamentos do benefício são condicionados aos filhos da família permanecerem na escola até os 17 anos de idade, sendo que a freqüência às aulas deve ser de pelo menos 85% até os 14 anos e 75% para os adolescentes entre 15 e 17 anos. Outra condicionalidade é que as crianças estejam em dia com o calendário de vacinação em seus primeiros cinco anos e que as mães recebam atendimento pré e pós-natal”, aponta a reportagem, destacando que “o Bolsa Família tem contribuído definitivamente para a redução da mortalidade infantil e materna que estamos vendo no Brasil".

Conforme avaliado pelo The Guardian, essa é uma das grandes vantagens do Bolsa Família, uma vez que “por apenas 1% do PIB, o Brasil tem conseguido, simultaneamente, aumentar os níveis de educação, melhorar os índices de saúde e reduzir a pobreza extrema”. O segundo grande aspecto destacado pelo jornal em relação ao programa de transferência de renda brasileiro diz respeito à sua transparência. “Todos os nomes de beneficiários estão disponíveis ao público em um site. Os pagamentos individuais podem e têm sido verificados. Qualquer pessoa pode denunciar o abuso”. O jornal prossegue dizendo que “avaliações independentes descobriram que 80% do dinheiro está chegando aos pobres; esse índice é muito bom em um país que tem sido marcado por corrupção”.

Um “aspecto inteligente” do programa, conforme apontado pela reportagem, “foi realizar todos os pagamentos através do sistema bancário”. Como os “beneficiários usam um cartão de débito para sacar o dinheiro de suas contas bancárias nos caixas eletrônicos”, diminui-se a probabilidade de desvios do dinheiro. O terceiro aspecto interessante avaliado pelo The Guardian é a contrapartida de uma grande crítica recebida pelo Bolsa Família: a de que ele geraria “uma cultura de dependência”. Vale lembrar que a própria oposição sustentava esse discurso até chegarem as eleições deste ano, quando, de uma hora para outra, PSDB e DEM passaram a tecer elogios ao Bolsa Família.

Como apontado pelo jornal a partir de uma explicação do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social, “o valor do benefício recebido pelas famílias é baixo por isso: o Bolsa Família é projetado para complementar a renda de um trabalho, nunca substituí-lo”. A matéria aponta que “estudos têm mostrado que a maior parte do dinheiro é gasta em gêneros de primeira necessidade, tais como alimentos, materiais escolares, roupas e sapatos – ajudando a destruir argumentos que se você der dinheiro aos pobres, eles simplesmente irão gastá-lo com álcool”. O The Guardian segue afirmando que “essas avaliações (incluindo publicações do Banco Mundial) têm contribuído para o programa ganhar legitimidade”.

O jornal britânico encerra sua reportagem dizendo que “o Bolsa Família é um exemplo de como as economias emergentes - como Brasil e China - estão cada vez mais ativas no debate global sobre ajuda e desenvolvimento”, destacando também que “agora o Brasil está no banco do motorista, ajudando a forjar novos modelos de políticas públicas de bem-estar social para serem exportadas”.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Jornal britânico destaca que Petrobras deve ser maior produtora mundial de petróleo até 2015

O extraordinário crescimento da Petrobras nos últimos anos, sobretudo após a descoberta do pré-sal, tem chamado atenção em todo o mundo. A estatal, que há uma década estava totalmente desacreditada pelo então governo FHC e estava na lista das próximas empresas a serem privatizadas, tornou-se uma das mais importantes empresas do mundo e caminha para dominar o setor de petróleo até 2015. Nesta terça-feira, 16, o jornal britânico The Guardian publicou uma matéria de página inteira destacando as excelentes perspectivas para a estatal brasileira. Confira abaixo a íntegra da reportagem.

Petrobras aspira ser maior produtora mundial de petróleo
A Petrobras pretende ser o maior produtor mundial de petróleo até 2015, de acordo com o diretor financeiro do grupo brasileiro de energia. Uma série de enormes blocos do “pré-sal” encontrados ao longo da costa do Brasil impulsionaram as riquezas da companhia e catapultaram o Brasil ao grupo dos líderes mundiais de energia e potências econômicas.

Em uma de suas primeiras entrevistas a um jornal britânico, Almir Guilherme Barbassa, disse ao The Guardian que a Petrobras seria um dos maiores beneficiários da nova legislação que irá conceder à empresa uma participação mínima de 30% em cada nova descoberta, e também será a principal operadora em todos os novos projetos. Isso significa que o "Big Oil" - empresas como a BP, Shell e ExxonMobil – ficará em segundo plano, atrás da Petrobras, para o acesso às vastas reservas do Brasil.

A Petrobras pretende mais do que dobrar sua produção na próxima década para 5,4 milhões de barris de petróleo e gás por dia, o que é provavelmente o maior valor produzido por qualquer empresa cotada em bolsa no mundo. A BP foi o maior produtor do ano passado, com pouco menos de 4 milhões de barris por dia, mas já deu indicativos que, no futuro, produzirá menos em função de reestruturações e venda de ativos após o desastre do Golfo do México. ExxonMobil - que tinha sido ultrapassada pela BP – está projetando um crescimento anual de cerca de 2% a 3% nos próximos anos.

Barbassa indicou que a Petrobras pode atingir seu objetivo mais cedo, tornando-se maior produtora mundial de petróleo, com capital aberto, já em 2015. "Nós vamos trabalhar duro para atingir esta meta [de se tornar produtor mundial de petróleo], logo que pudermos", disse ele. "O nosso mercado [de produção] está crescendo rapidamente. Mercados de outros países estão estabilizados ou em tendência de retardamento. Entre 2015 e 2020, a meta pode ser alcançada."

Apenas 10-15% da produção total de hidrocarbonetos da Petrobras vem do gás natural, em contraste com outras empresas de energia de capital aberto, disse Barbassa. Mais de um terço da produção da BP é composta por gás, enquanto a Shell pretende produzir mais gás do que petróleo até 2012. Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), na semana passada disse que "Big Oil" estava sofrendo uma "crise de identidade", porque as empresas viram-se afastadas de regiões produtoras de petróleo, como o Oriente Médio, forçando-os a se reposicionarem como produtores de gás.

Segundo Barbassa, "você não vai encontrar outra empresa que tem o mesmo potencial que a Petrobras em todo o mundo A maioria das grandes empresas estão produzindo 40% ou mais de gás. É um tipo diferente de energia em termos de preço e capacidade comercial”. Em setembro, a Petrobras captou US$ 70 bilhões (R$ 43 bilhões) na maior oferta pública de ações do mundo, deixando o governo brasileiro com uma participação de 55%.

Uma série de descobertas de enormes blocos de petróleo nos últimos dois anos está por trás da ascensão meteórica da Petrobras. Eles são chamados de "pré-sal", porque estão quatro quilômetros abaixo do fundo do mar, sob uma camada maciça de sal compactado. A Petrobras ampliou suas reservas em 15 bilhões de barris de petróleo e gás, para pelo menos 30 bilhões de barris a partir de apenas 11,5 bilhões de barris de reservas comprovadas em 2006. Com a continuidade da exploração do pré-sal, essas reservas podem atingir entre 50 bilhões e 100 bilhões de barris, no mesmo nível que as reservas da Rússia e do Kuwait.

Juliette Kerr, analista da IHS Global Insight, disse que a Petrobras tinha sido relativamente cautelosa em anunciar reservas recuperáveis, que precisam ser verificadas antes de serem classificados como "comprovadas" pelos reguladores. Mas ela advertiu que a Petrobras teria de superar importantes desafios tecnológicos para explorar o petróleo.

A Petrobras pretende investir US$ 224 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para desenvolver as novas descobertas. Segundo a AIE, em 2010 a Petrobras vai investir US$ 44,8 bilhões - mais do que qualquer outra empresa cotada em bolsa no mundo e mais de duas vezes o valor gasto pela BP - , representando um crescimento de 28% sobre o ano anterior.

sábado, 19 de junho de 2010

Deu no The Guardian: "oposição brasileira adota discurso de política externa dos Republicanos"

É interessante notar que, por vezes, um olhar externo sobre uma questão na qual nos debruçamos exaustivamente para entender pode revelar um traço que não conseguíamos enxergar. Na última quinta-feira, 17, o jornal britânico The Guardian trouxe uma análise muito apropriada do discurso adotado pelo candidato tucano à sucessão presidencial brasileira, José Serra, sobre a política externa adotada pelo Brasil durante o governo Lula. Nesta disputa, vale lembrar que a política externa tem sido um dos pontos de divergência entre a candidatura da oposição e a candidatura governista de Dilma Rousseff.

O artigo do The Guardian constrói um retrospecto dos mais recentes posicionamentos de Serra sobre questões relativas à política externa, como as críticas à Bolívia e também à postura do Brasil na questão do programa nuclear iraniano. Resgatando a infeliz frase na qual o presidenciável tucano diz que o governo boliviano é cúmplice do tráfico de drogas, a matéria também destaca que Serra tem atacado “os esforços de mediação do Brasil e as relações com o Irã, além de ter anunciado que iria enfraquecer o Mercosul, o bloco comercial da região sul-americana”. As críticas da oposição à Venezuela também foram lembradas na excelente reportagem do periódico britânico.

Segundo o artigo, “a direita brasileira também tem sido hostil à Venezuela, com senadores do grupo tentando impedir sua participação no Mercosul há mais de três anos e juntando-se a campanhas de propaganda norte-americana contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Assim como em os Estados Unidos, a grande mídia brasileira tem apresentado uma caricatura da Venezuela e do governo Chávez, com alguma influência na opinião pública. Serra tem evitado até agora atacar a Venezuela, talvez porque ele sabe que Chávez poderia revidar duro e empurrar essas questões de política externa para uma visibilidade maior do que ele pode desejar para a sua campanha”.

Visão política de Serra alinhada aos Republicanos dos EUA
Tomando como ponto de partida esta postura crítica do tucano à política externa do governo Lula, o The Guardian lança a seguinte questão: “José Serra não é um político de direita por natureza: como ministro da Saúde, levantou-se contra poderosas empresas farmacêuticas estrangeiras apoiadas pelos Estados Unidos a fim de garantir preços mais baixos para medicamentos genéricos essenciais. Então, por que ele e seu partido promovem tal visão de política externa alinhada à direita estrangeira?”. Tão logo é apresentada a questão, o artigo do jornal britânico emenda a resposta, que soa a todos de maneira bastante óbvia: “a resposta mais provável é que a economia tem se saído muito melhor durante os oito anos de governo Lula do que durante os oito anos anteriores do PSDB, incluindo aí o crescimento do país”.

“Com o maior aumento real do salário mínimo, uma expansão do programa Bolsa Família para os pobres e um crédito imobiliário para os consumidores de baixa renda, não será tão fácil para Serra fazer campanha contra Dilma e o Partido dos Trabalhadores adotando como centro as questões econômicas”, avalia o jornal. E eis que nesse ponto o economista Mark Weisbrot, responsável pelo brilhante artigo, faz uma associação que é certeira: “Os republicanos nos Estados Unidos há muito têm procurado atrair eleitores indecisos a partir de questões não relacionadas à economia, incluindo aí a idéia de que seu partido possuía uma visão mais ‘agressiva’ de política externa”.

No caso da abordagem do Partido Republicano dos Estados Unidos, o jornal britânico avalia que “foi a melhor estratégia possível para a maior parte das últimas quatro décadas, e, claro, quando a recessão finalmente passou a chamar a atenção dos eleitores sobre questões econômicas, em 2008, eles perderam “. Ou seja, assim como para os republicanos, nos Estados Unidos, não era vantajoso focar questões econômicas, uma vez que até 2008 a economia norte-americana ia aparentemente muito bem, o candidato tucano José Serra também não tira proveito de focar o debate em aspectos da economia, uma vez que o Brasil vive um dos melhores períodos de sua História nesta área.

Segundo o The Guardian, “o PSDB pode estar caminhando em uma linha muito tênue. Houve uma grande transformação histórica na América Latina, e especialmente na América do Sul, na última década. A região tornou-se muito mais independente dos Estados Unidos, e foi claramente beneficiada por esta mudança enorme, que marcou época. Embora exista uma parte poderosa da elite brasileira e da grande mídia que se sente desconfortável com essas mudanças, e prefere tornar as coisas de volta para um aconchegante relacionamento com Washington, isso é arriscado. O PSDB não quer ser percebido como estando do lado errado da transição histórica”.

Sobre a questão da Bolívia, o artigo acerta em cheio quando diz que “a maioria dos eleitores que o PSDB está tentando alcançar, provavelmente, entende que não faz sentido nenhum associar a Bolívia ao comércio ilegal de drogas no Brasil. O governo de Evo Morales tem lutado contra o tráfico de drogas com mais esforço e menos corrupção do que seus antecessores; há uma clara distinção para o governo de Morales entre a coca, que é um estimulante legal que faz parte da cultura da Bolívia há séculos, e a cocaína. Tente convencer os norte-americanos a abrirem mão de seu café”. E acrescenta: “se o Brasil quer reduzir o tráfico de drogas vai encontrar na Bolívia um importante parceiro”.

Em relação às críticas de Serra sobre a atuação da diplomacia brasileira no caso iraniano, o The Guardian vai ao ponto: “não está claro que os ataques de Serra sobre os esforços diplomáticos de Lula no Oriente Médio serão mais bem sucedidos. O acordo de troca de combustível nuclear que o Brasil e a Turquia negociaram com o Irã no mês passado foi um avanço histórico na diplomacia internacional”. Segundo o jornal, “o resultado final é que o Brasil ajudou a preservar um espaço para uma solução negociada num momento em que a administração Obama está cedendo à pressão da direita no Congresso norte-americano, que quer que ele abandone essa estratégia, ampliando, assim, as chances de um confronto militar”.

De uma forma lúcida e coerente, o artigo do The Guardian contesta esse alinhamento do discurso de Serra às posições da direita norte-americana, sentenciando que “o Brasil não é os Estados Unidos. Lula e seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, têm feito um grande esforço para tentar impedir uma guerra horrível, desnecessária no Oriente Médio; além de se esforçarem para ampliar os benefícios de solidariedade, independência e integração regional na América do Sul. Esta mensagem positiva é mais eficiente para ganhar votos no Brasil”.