sábado, 3 de abril de 2010

Vox Populi mostra crescimento de Dilma e desmoraliza Datafolha



Pesquisa Vox Populi divulgada na noite deste sábado, 3, confirma o bom cenário para a candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência da República. De acordo com o levantamento, a pré-candidata petista cresceu 4 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, passando, assim, de 27% para 31% das intenções de voto. Enquanto isso, o pré-candidato tucano José Serra ficou estagnado, com 34% das intenções de voto.

Ciro Gomes (PSB), por sua vez, aparece com 10% das intenções de voto, o que representa um recuo de 1 ponto percentual em relação a janeiro, quando o pré-candidato aparecia com 11% das intenções de voto. A pré-candidata do PV, Marina Silva, também apresentou uma variação negativa de 1 ponto percentual em relação à pesquisa anterior, passando de 6% para 5% das intenções de voto. Votos brancos e nulos somam 7%, contra 13% dos entrevistados que não opinaram ou não quiseram responder.

Considerando um cenário sem Ciro Gomes, Serra lidera o quadro sucessório, com 38% das intenções de voto. Logo atrás vem Dilma, com 33%, e Marina Silva, com 7% das intenções de voto. Neste cenário, os votos brancos ou nulos chegam a 7%, contra 15% dos entrevistados que não souberam ou não quiseram responder. A margem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais, sendo que a pesquisa foi feita entre os dias 30 e 31 de março, ouvindo 2000 pessoas.

Desmoralização do Datafolha
A pesquisa Vox Populi foi feita uma semana depois do levantamento do Datafolha, revelando uma diferença gigantesca em relação a esta. Feito entre os dias 24 e 25 de março, o levantamento do Datafolha mostrava uma diferença de 9 pontos percentuais entre Serra (38%) e Dilma (27%), que na pesquisa de fevereiro do mesmo instituto estavam separados apenas por 4 pontos percentuais – a petista com 28% e o tucano com 32%.

Logo que o Datafolha foi divulgado, muitos questionamentos começaram a surgir, pois não havia fato concreto que explicasse o crescimento de 6 pontos percentuais do pré-candidato tucano no período: nenhuma aliança diferente foi feita nem houve fato novo na candidatura. É óbvio que não está sendo desconsiderada a diferença na metodologia de pesquisa dos dois institutos, mas o fato é que a pesquisa Datafolha de março causa estranheza até mesmo quando comparada com a do mesmo instituto feita em fevereiro.

Assim, o levantamento do Vox Populi divulgado neste sábado faz muito mais sentido por aproximar-se mais da tendência que já vinha sendo mostrada desde dezembro, a saber, o crescimento da candidatura Dilma e a estagnação da candidatura Serra. Os números do Vox Populi desmoralizam, dessa maneira, o levantamento do Datafolha de março, já que deixam claro que este último é um ponto fora da curva, que nem mesmo os analistas políticos da grande imprensa souberam explicar.

Qual a diferença entre Dilma e Serra?




Uma das coisas mais incômodas – e falaciosas – que vêm sendo repercutidas recentemente pela imprensa brasileira diz respeito ao discurso de que a pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, e o tucano José Serra têm perfis muito próximos. Sem contar que se convencionou dizer que, independentemente de quem vença o pleito de outubro, os rumos do governo não tendem a mudar.

Nada mais mentiroso do que estas duas afirmações, que refletem, no fundo, a visão economicista de grande parte da mídia e também uma tentativa ardilosa desses segmentos de fomentar o debate administrativo ao invés do debate político, que é o que realmente interessa. Afinal de contas, mais importante do que se discutir estilos de gestão é se debater visão política de cada candidato, ou seja, o projeto ao qual ele está atrelado.

Até mesmo porque o candidato que vencer as eleições não governará sozinho: ele carrega consigo um projeto, uma forma específica de enxergar a política e a realidade brasileira. E no caso de Dilma e Serra, os projetos políticos são totalmente distintos! Enquanto a petista representa um projeto progressista, que procura fortalecer o Estado e implementar um desenvolvimento econômico com inclusão social, o tucano representa o projeto neoliberal, que procura minimizar o papel do Estado e deixar que o mercado se auto-regule.

Projetos políticos distintos
Neste sentido, é praticamente impossível não traçarmos uma comparação entre as aplicações desses projetos na História recente do nosso país: enquanto Serra é herdeiro do governo FHC (1994-2002), Dilma é herdeira do governo Lula (2002-2010). Isto por si só já nos mostra que o modelo de desenvolvimento a ser adotado no pós-Lula depende invariavelmente de quem vencer as eleições. Enquanto Dilma representa a continuidade do governo vitorioso do presidente Lula, Serra representa o retrocesso ao período de FHC.

E há quem goste de afirmar que o governo Lula foi uma continuação do governo FHC, especialmente na política econômica. Nada mais errado do que essa afirmação: o governo Lula é totalmente distinto do anterior. Enquanto o projeto desenvolvido e defendido pelos tucanos (FHC/Serra) se pautava na lógica do Estado Mínimo e no neoliberalismo privatizante, o projeto abraçado pelo petismo (Lula/Dilma) ampliou a presença do Estado e o colocou como indutor do investimento, acabando com a onda de privatizações do governo anterior.

Desenvolvimento com inclusão social
Fora o fato de que a política econômica desenvolvida pelo governo Lula avançou anos-luz com relação àquela que foi adotada no tucanato: verificamos o desenvolvimento de uma política industrial vitoriosa, favorecida pelos financiamentos dos bancos estatais (que tiveram papel crucial para que o Brasil superasse a crise internacional). Além do que, o projeto petista mostrou que é possível termos desenvolvimento com inclusão social, através de políticas públicas redistributivas (como o Bolsa Família), emancipatórias e de desenvolvimento regional.

Percebe-se, dessa maneira, que os resultados alcançados por um governo estão diretamente associados à visão política dos componentes desse governo, ou seja, o projeto político é determinante no processo de desenvolvimento de um país. Tentar colocar Dilma e Serra em um “saco só” é fruto de falta de conhecimento da imprensa acerca do projeto político de cada um ou, no limite, de desonestidade intelectual da mesma.

O que a Veja tem contra a Sociologia e a Filosofia?



Muito se sabe que o trabalho do Sociólogo e do Filosofo é compreender a realidade em que habitam os humanos e suas estruturas sociais e de pensamento. Essa compreensão sempre foi perigosa para uma parcela dos agentes políticos que está mais preocupada em perpetuar a institucionalização acrítica da qual fazem parte, do que promover as mudanças de que o povo necessita. Assim, a Sociologia e a Filosofia sempre se mostraram perigosas para estes políticos demagogos, por colocarem em xeque os seus valores conservadores acerca dos Sistemas Sociais.

Ora, mas ao mesmo tempo em que essa parcela da classe política de caráter demagogo vê a filosofia e a sociologia como riscos, ela também se apóia em veículos da grande imprensa que lhes servem como verdadeiros panfletos políticos. Neste sentido, a revista Veja é, há décadas, um poderoso instrumento da direita para disseminar seus conceitos e valores políticos. Tanto que na edição desta semana, a Veja publicou uma matéria que critica a introdução de jovens nessas duas matérias, o que nos lembra, como sempre, que o Sistema Social possui anticorpos.

Um trabalho importantíssimo por parte dos Sociólogos, Antropólogos e Cientistas Políticos é exatamente estudar a estrutura da Ideologia e apresentar as sociedades que o que se tem como divino; é humano, o que se tem como eterno; é temporal, o que se tem como criador; é criatura, o que se tem como natural; é social. Assim, é de se esperar que essa revista elabore uma matéria tão portadora de Ideologismo e conservadorismo, que já em muito prejudicou a sociedade brasileira. Se apoiando na muleta, talvez, que o Brasil esquece fácil sua história.

A todo tempo se propaga nesta revistinha a biologização do social, a perpetuação de idéias que, no século XIX, se baseavam na biologia para justificar preconceitos e desigualdades sociais. Como se os preconceitos e as desigualdades sociais fossem algo de uma “natureza humana”, que, todo Sociólogo, Antropólogo e Cientista Político bem sabe, não existe. O humano é, em seu nascimento, uma inespecificidade biológica.

“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro,
as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos
rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...”
(De: Veja)

Impossível negar a importância da Matemática. No entanto, da forma retrograda que é ensinada na escola, pouco contribui para um desenvolvimento critico do aluno. Mas é exatamente dessa forma que os anticorpos sociais desejam que as matérias sejam lecionadas, para não representar nenhum potencial perigo no controle da massa social. Não é de hoje que os dois grupos de profissionais criticados pela matéria vêm denunciando isso. Agora o desejo é calar-nos.

“Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original".” (De: Veja)

Sim, as faculdades de Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Ciência Política) e Filosofia se posicionaram duramente contra a ditadura apoiada largamente pela Direita, o que é totalmente aceitável, e um trabalho nosso, contrariar a opressão e a ausência de liberdade democrática. Vejamos o disparate proferido pela Dra. Eunice Durham, de que boa parte das universidades brasileiras se baseiam na superficialidade do conhecimento social e dos estudos referentes aos textos de Marx. Onde, posso constatar, a UFRN e o curso de Ciências Sociais se baseia completamente no estudo sobre os textos originais, não só de Marx, mas de tantos outros pensadores importantes.

“Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda.” (De: Veja)

O vendedor Fernando Henrique Cardoso, direitista como era e é, naturalmente iria se opor a doação dessas armas políticas para a População, já que, conhecedor dos sistemas sociais e do potencial que a educação tem sobre uma Sociedade, não iria querer ver seu império conservador sendo analisado e criticado por grande parte dos estudantes brasileiros. Como já foi dito, os Sistemas Sociais têm anticorpos. Se basear na não distribuição desse conhecimento para os jovens, na falsa idéia que o Brasil não tem dinheiro para tal, é culpar o termômetro pela febre, já que, através de políticas que priorizem a educação superior - como foi feito a posteriori pelo governo Lula - é possível sim abrir essas possibilidades. Exatamente baseado nesse conceito de falta de verba, as universidades brasileiras não investem em cadeiras para Sociólogos, Antropólogos, Cientistas Políticos e Filósofos.

"Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil" (De: Veja)

Claro que é absolutamente irreal esperar que TODOS os estudantes consigam a maturidade intelectual suficiente nos temas sociológicos e filosóficos, como é de se esperar que nem todos os estudantes consigam aprender os cálculos matemáticos, as leis físicas e as organizações químicas celulares. Mas esse argumento não é usado para desestabilizar a Matemática, Física, Química e Biologia na grade curricular do ensino médio. Tão importante quanto fazer cálculos e estudar os compostos orgânicos, é entender o pensamento racional humano e as estruturas sociológicas da realidade.

(Texto de Leonardo Antunes, graduando em Ciências Sociais pela UFRN)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O mito da Serrolândia



Desde fevereiro deste ano, o dinheiro do contribuinte paulista tem sido utilizado para custear a exibição diária na TV, inclusive no horário nobre, dos feitos e ações do ex-governador José Serra (PSDB) no reino em que ele governava. Muitos podem pensar que Serra governava São Paulo: engano, já que todas aquelas obras e políticas públicas não existem por aqui. Na verdade, tudo aquilo era feito na Serrolândia.

A Serrolândia é muito diferente do Estado de São Paulo. Aliás, quem dera que São Paulo fosse daquele jeito: com educação de qualidade, com escolas repletas de infra-estrutura em cada canto do Estado, com saúde de primeiro mundo, com transporte eficiente, com valorização do funcionalismo público etc. Costumam dizer que inveja não é um sentimento bom, mas como não ter inveja de quem vive na Serrolândia? Lá tudo é tão organizado, planejado, não tem enchente e não se fala em pedágio!

A educação na Serrolândia
A educação é o ponto forte na Serrolândia: lá os professores estaduais são valorizados, com salários dignos, e os alunos recebem todo tipo de apoio e infra-estrutura para o aprendizado. Nas séries mais fundamentais, inclusive, existem dois professores por sala. Coisa de primeiro mundo. Sem contar que, como os professores são valorizados, recebendo um salário justo, não existem razões para greve. E quando elas ocorrem, são atos isolados de baderneiros, que não mobilizam nem 1% da rede.

Tudo muito diferente aqui do Estado de São Paulo. Infelizmente, nós paulistas não temos a mesma sorte dos habitantes da Serrolândia. Os professores estaduais são verdadeiros heróis, já que o Estado não lhes dá condições básicas para o ensino: a infra-estrutura das escolas é péssima e os salários pagos aqui fazem o Professor Raimundo parecer um sultão. Para se ter uma idéia, o salário do magistério paulista está defasado em 34,3% e o ticket alimentação recebido pelos mestres tem valor diário de R$ 4,00, o que lhe vale o apelido de “vale-coxinha”.

Em São Paulo, educação não é prioridade, já que em 2002 o orçamento da área representava pouco mais de 24% da receita total do Estado. Agora, em 2010, o orçamento destinado à educação responde por menos de 15% da receita total. E se os professores fizerem quaisquer reivindicações, são tratados como bandidos, já que o ex-governador daqui e atual candidato à Presidência da República coloca a Polícia Militar para distribuir cassetadas e gás de pimenta nos professores.

A saúde na Serrolândia
Saúde é prioridade na Serrolândia, assunto tratado com a mais absoluta seriedade. Na Serrolândia, não existem filas nos hospitais, os pacientes são tratados de uma forma humana e acolhedora. Dizem até que a pessoa que vai para um hospital da Serrolândia não quer sair nunca mais, pois parece que ela está em um hotel de luxo. Os recursos repassados pelo SUS são totalmente aproveitados e investidos na compra de medicamentos, na ampliação dos leitos e em programas de prevenção de doenças.

Já no Estado de São Paulo, a Saúde vai de mal a pior. Aqui as filas nas portas dos hospitais são maiores que as filas em estádios em dia de clássico. Sem contar que boa parte dos repasses do SUS é aplicada no mercado financeiro, para render juros e fazer frente ao equilíbrio fiscal. O ex-governador Serra chama isso de choque de gestão. E o povo sente na pele a falta de medicamentos nos postos de saúde e nos hospitais da rede pública.

Nestes últimos anos de governo Serra em São Paulo, iniciou-se um processo de terceirização dos serviços da saúde, bem característico das gestões tucanas. A conseqüência direta foi o maior sucateamento do SUS no Estado. E os servidores da saúde, estes estão acumulando perda salarial de 40%, já que há anos o governo do Estado não lhes concede aumento real nos salários.

A segurança pública na Serrolândia
No tocante à segurança pública, a Serrolândia é o paraíso na Terra. Quem vai para a Serrolândia relata que é como uma viagem no tempo: as pessoas têm a liberdade de andar pelas ruas na hora que bem entender, os vizinhos colocam as cadeiras nas portas de casas e ficam conversando madrugada a dentro, sem maiores preocupações. Furtos? Nem de galinhas! Assassinatos? Isso não existe na Serrolândia. Tráfico? Ninguém lá sabe o que é isso!

Os paulistas não têm essa mesma sorte. Andar pelas ruas de qualquer cidade do Estado de São Paulo em determinadas horas é um teste de coragem, especialmente em bairros mais periféricos, onde a segurança pública não chega. Roubos, assaltos, assassinatos e uma rede de tráfico de drogas que não engloba somente a capital, mas muitas cidades do interior paulista! A Polícia não tem seu trabalho reconhecido pelo Estado: é mal paga e não passa por cursos de aperfeiçoamento.

Esses são apenas alguns pontos da Serrolândia, uma terra que evoca a concepção de paraíso terrestre, e que ao mesmo tempo é o oposto do Estado de São Paulo. Sem dúvida, um passeio ideal para quem quer fugir dos problemas de São Paulo! É o destino certo para o próximo feriado prolongado! Só não sei onde fica. Quem tiver um mapa de como chegar à Serrolândia, por favor me envie um e-mail.

Mauro Santayana: A Paixão e a política



Quando os teólogos atribuíram a Jesus uma natureza divina, sua intenção era a de obter, para todos os homens, a mesma condição, com a necessária legitimação da fé e dos atos que a confirmassem. O evangelho cristão, monoteísta, nisso continuador do politeísmo grego, é manifestação da ética, astúcia da espécie para vencer os instintos, com a ajuda da razão e da solidariedade. Jesus, um homem como os outros, teria vindo ao mundo pelo milagre da concepção divina; mas, de acordo com a doutrina, é possível fazer, de qualquer um de nós também filho das entranhas de Deus, se formos capazes de seguir o seu exemplo de amor, de repartir o pão e alguns peixinhos com os famintos. A comunhão é a mais forte mensagem cristã.

Há, na dimensão humana de Cristo, identidade que as igrejas cristãs buscam sublimar, quando não esconder: a de homem público e, não evitemos o vocábulo, de político. Cristo não foi perseguido, julgado e condenado porque ameaçasse a fé judaica, com pregação herética, mas, sim, porque ameaçava o Estado romano e o reino de Herodes. Ele se insurgia contra a ordem política, ainda que não chamasse claramente ao confronto, mas seus seguidores o entendiam. Os sumo-sacerdotes que o inquiriram, torturaram-no e o condenaram, não o fizeram contra quem se identificava como filho de Deus, mas, sim, contra o suspeito de querer tornar-se rei dos judeus. Como ocorrera a Sócrates, muito antes, seu julgamento foi político.

Pilatos assim o entendeu, em seu sarcasmo, ao mandar que colocassem sobre sua cabeça a coroa de espinhos, com a inscrição, em aramaico, grego e latim, “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”. A menção a Nazaré – ainda que ele tivesse, por acaso, nascido em Belém – era intencional. A cidade não gozava de boa reputação na Palestina daquele tempo. Jesus, o Nazareno, morria com o indiferente desprezo do representante de Roma e de parcela alienada de seu povo, que não soubera ouvi-lo. Não há como negar a evidência histórica, pelo menos dos registros posteriores que conhecemos: Cristo foi um réu de “crime” político. Ele sucedera a João Batista, que o batizara com as águas do Jordão, no combate a contra Herodes Antipa, filho do primeiro Herodes, colocado no poder pelos romanos.

Essa conclusão não reduz a grandeza do Nazareno. Ele não foi o único jovem judeu daquele tempo a criar seitas que contestavam a realidade social. Não obstante, destacou-se, entre os demais, pela coragem de sua palavra, dirigida ao coração dos homens. Seu radicalismo estava na mensagem ousada: para que se salvassem (e “salvar” significa muitas coisas) era preciso que cada um reconhecesse no outro a si mesmo, e assim se amassem. Foi essa pregação que levou as massas a seguirem seus passos, convencidas pelas suas parábolas. Foi um líder e, se seu caminho não fosse tolhido no momento certo, era de esperar-se que as multidões se adensassem, e, sob seu comando, destruíssem a ordem social e jurídica de então. É de imaginar-se que, no caso de uma sublevação exitosa naquela província do Império, o movimento se estendesse, atingindo todo o Mediterrâneo, para abreviar o declínio de Roma.

A imanência de Cristo – quase podemos vê-lo, ao nosso lado, tocando-nos o ombro e mostrando-nos os pedregosos caminhos, que não levavam ao mar, mas, sim, aos discretos lagos interiores – é o mais sólido pilar do Ocidente. Estando entre nós, ainda que não consiga evitar a o egoísmo e a estupidez das guerras, sua presença mítica nos impõe a resistência, em busca da igualdade e da justiça. Todos os anos – e essa reminiscência sagrada devemos às Igrejas cristãs, sobretudo à Católica, com sua forte liturgia – relembramos a Paixão, com os seus símbolos: o cirineu, convocado a ajudá-lo a carregar a cruz, o lenço com que a mulher do povo lhe enxuga a face, os companheiros da hora final, cada um em sua cruz; o desabafo, ao sentir-se abandonado, a taça de fel e o jogo de dados, com que os soldados disputaram sua túnica inconsútil.

Cada um desses fatos nos relembra os valores e os limites da condição humana. Sem essa memória, ainda que existíssemos, não viveríamos.

(Mauro Santayana é jornalista e escreve na coluna "Coisas da Política", do Jornal do Brasil)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Marta Suplicy lidera com folga corrida pelo Senado, aponta Datafolha



A disputa pelas duas vagas do Senado em São Paulo começa com Marta Suplicy (SP) disparada na frente. Segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 1º, a petista aparece com 43% das intenções de voto. Considerando-se as regiões do Estado, o melhor desempenho de Marta ocorre na capital, onde a petista alcança 48% das intenções de voto.

Se considerarmos toda a região metropolitana de São Paulo (capital + outros municípios da Grande SP), a intenção de votos em Marta, segundo o Datafolha, é de 45%. No interior, a ex-prefeita possui 41% das intenções de voto. É interessante notar que Marta lidera as intenções de voto em praticamente todos os segmentos do eleitorado. A única exceção ocorre na faixa do eleitorado com 60 anos ou mais, onde Marta aparece com 30% das intenções de voto, atrás de Romeu Tuma (PTB), que tem 39% neste segmento.

Entre os entrevistados com faixa etária entre 16 e 24 anos, Marta possui 51% das intenções de voto, de acordo com o levantamento do Datafolha. Considerando-se o critério de escolaridade, Marta aparece como favorita em todos os segmentos: entre os que têm nível fundamental, a petista tem 42% da intenções de voto, entre os de nível médio, a ex-prefeita alcança 44% e entre os de nível superior, 41%.

Outros candidatos
Bem atrás de Marta na pesquisa do Datafolha aparece o nome do senador Romeu Tuma, com 25% das intenções de voto. O mandato de Tuma termina esse ano, de forma que o petebista é candidato à reeleição. O ex-governador Orestes Quércia, do PMDB, aparece com 22% das intenções de voto, enquanto o vereador Netinho de Paula (PCdoB), tem 19% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

A ex-vereadora Soninha (PPS) aparece com 18% das intenções de voto, sendo seguida por Gabriel Chalita (PSB), com 8%, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), com 6%, e Ricardo Young (PV), com 3%. Brancos e nulos somaram 33% e entre os que não souberam ou não quiseram responder, 24%. A pesquisa Datafolha foi feita entre os dias 25 e 26 de março, ouvindo 2001 paulistas. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

Dilma e a luta pelas liberdades democráticas e contra a ditadura



Há 46 anos, o Brasil amanhecia um dia diferente: estava começando a era mais negra da nossa História, marcada pelo fim das liberdades individuais, pelo fim do voto direto, pela censura e por um processo de grande repressão. A manhã de 1º de abril de 1964 inaugurava a era da ditadura militar, a partir de um golpe de Estado dado pelos generais do Exército brasileiro, com o apoio da direita, e que retirou do poder o então presidente João Goulart.

O governo de Jango, como era conhecido o presidente, foi marcado por medidas de caráter esquerdista, que procuravam beneficiar a maior parte da população brasileira, especialmente através das reformas estruturais planejadas pelo presidente – as chamadas reformas de base. Deve-se lembrar que a oposição da direita a Jango começou antes mesmo de sua posse, já que, após a renúncia de Jânio Quadros, setores militares tentaram impedir a posse de Jango, que se encontrava em visita oficial à China. Contudo, graças à intervenção do general Lott, Jango conseguiu tomar posse.

De qualquer forma, os militares e a direita brasileira não engoliram o contra-golpe dado pelo general Lott e que garantiu a posse de João Goulart, articulando, assim, desde 1961 um golpe para tira-lo do poder. A reação militar finalmente ocorreu na madrugada do dia 1º de abril de 1964, tendo começado em Minas Gerais, mas logo recebendo adesão de unidades militares dos estados da Guanabara, de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Na manhã do dia 1º, Jango abandonou Brasília rumo a Porto Alegre. Começavam os anos de chumbo no país.

O fim das liberdades e a caça aos “subversivos”
Com a promulgação do Ato Intitucional n° 1, o poder político foi transferido aos militares e estes iniciaram um processo de cassações de mandato no Congresso Nacional e uma série de outras medidas. Assim, todas as instituições classificadas pelos militares como “subversivas”, a exemplo da CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), as Ligas Camponesas e a UNE (União Nacional dos Estudantes), foram imediatamente dissolvidas, em nome da “revolução”. De igual maneira, todas as pessoas consideradas “subversivas” eram presas e submetidas aos IPMs – Inquéritos Policiais Militares.

Com o passar do tempo, a repressão dos militares foi ficando cada vez mais violenta. Todos aqueles que eram considerados subversivos, comunistas, passavam a ser “monitorados” pelos órgãos de informação do governo militar. Naturalmente, os principais inimigos da “revolução” eram os esquerdistas, que não aceitavam aquela situação de perseguição política e ditadura. Neste momento, a esquerda brasileira começa a se organizar em grupos de resistência, tanto no campo quanto na cidade e, à medida que o governo militar endurecia, as células de resistência esquerdista se multiplicavam.

Lideranças políticas de grande importância nos dias de hoje, como José Dirceu, José Genoíno, Carlos Minc, Fernando Pimentel, dentre outros, foram duramente perseguidos e torturados pelos militares, simplesmente pelo fato de não concordarem com o regime político que o golpe de 64 estabeleceu no país. E uma figura que também lutou pelo retorno da liberdade e por isso foi perseguida e torturada pelo governo militar foi Dilma Rousseff, atual pré-candidata do PT à Presidência da República.

Dilma e a luta contra a repressão dos militares
Já na adolescência, quando cursava o ensino médio, Dilma passou a ter contato com o movimento estudantil e passou a integrar a POLOP (Política Operária), uma organização oriunda do Partido Socialista Brasileiro (que havia entrado na clandestinidade desde o golpe militar). Tendo uma proximidade maior do grupo que acreditava ser necessário combater de todas as formas o regime militar, Dilma e outros companheiros passam a integrar o Colina (Comando de Libertação Nacional), a partir de 1967.

A luta armada era uma forma de resistência ao regime militar extremamente coerente naquele período, afinal de contas estamos falando de um momento da nossa História em que a repressão partia do regime militar. Ou seja, como o ditado popular sabiamente diz: “não existe diálogo entre a corda e o pescoço”! De acordo com companheiros de Dilma desta fase, ela tinha uma capacidade de liderança muito grande, conseguindo impor-se em um meio predominantemente masculino. Foi nessa fase que Dilma conheceu Fernando Pimentel.

Em 1969, Dilma foi uma das articuladas da fusão do Colina com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), de Carlos Larmarca, dando origem, assim, a uma nova organização da esquerda clandestina: a VAR Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Neste momento, enquanto Lamarca defendia uma visão mais militarista, Dilma propunha um trabalho político pelas bases. Em 1970, já em São Paulo, Dilma foi capturada pelos militares, sendo levada para a Oban (Operação Bandeirante), onde foi torturada por 22 dias.

Da tortura à Casa Civil
Segundo relatos, Dilma foi torturada com palmatórias, socos, pau de arara e choques elétricos, tendo ficado presa no Presídio Tiradentes, em São Paulo, até 1972. Após sair da prisão, Dilma passou um tempo na casa de sua família, em Minas Gerais, mas como havia sido acusada de subversão, não poderia retornar ao seu curso na UFMG. Diante disso, Dilma mudou-se para Porto Alegre, onde em 1973 iniciou o curso de Ciências Econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo se graduado em 1977.

No ano seguinte, Dilma voltou para São Paulo e passou a freqüentar a Unicamp, onde pretendia fazer um mestrado. Ali integrou um grupo de estudos, formado por ex-integrantes da VAR-Palmares, que tinha como objetivo principal pensar a melhor forma de retornar à vida política. Em 1979, com o fim do bipartidarismo, Dilma se aproxima de Leonel Brizola e é uma das fundadoras do PDT (Partido Democrático Trabalhista) naquele mesmo ano. Assim, Dilma Rousseff recomeça sua militância política.

O que veio depois, já é sabido por todos: Dilma foi secretária da Fazenda de Porto Alegre, na gestão Alceu Collares (1985-1988), secretária de Energia, Minas e Comunicações, quando Collares foi governador do Rio Grande do Sul e, posteriormente, em 1998, na gestão Olívio Dutra. Em 2000, Dilma deixa o PDT e se filia ao PT, sendo nomeada ministra das Minas e Energia do governo Lula em 2003, onde permaneceu até 2005, quando assumiu a função de ministra-chefe da Casa Civil.

Vê-se dessa maneira que Dilma sempre foi uma grande lutadora em prol do Brasil. No momento em que o país sofria nas mãos dos militares, Dilma arriscou sua própria vida pelo direito à liberdade de todos os brasileiros. Neste ponto, nada melhor do que citar o rapper Gog, de Brasília: “Você lutaria pelas liberdades democráticas e contra a ditadura? Eu lutaria. Dilma lutou”!