domingo, 11 de julho de 2010

Fogo amigo: colunista da Folha diz que Serra não confia nos seus aliados

Às vezes até a Folha de São Paulo consegue nos surpreender. Embora se esconda sob o manto da imparcialidade jornalística, pode-se dizer que esta neutralidade é um tanto quanto questionável quando se trata das matérias que saem da redação dos Frias. Quase sempre a cobertura eleitoral feita pela Folha é tendenciosa, com reportagens que buscam denegrir a candidatura governista de Dilma Rousseff e apontar supostas “vantagens” do seu principal oponente, o tucano José Serra.

Mas neste domingo, 11, a Folha Online trouxe uma matéria bem interessante feita pelo colunista Marcelo Coelho, que faz parte do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno Ilustrada. Coelho destaca, em uma matéria em forma de podcast, o centralismo e individualismo de Serra, afirmando que, ao que tudo indica, o tucano “não acredita na fidelidade dos seus aliados”. Segundo o colunista “ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele”, se referindo ao imbróglio que se tornou a escolha do vice do tucano.

Em um tom bastante crítico, Coelho também colocou em xeque a capacidade de Serra, caso se eleja, formar o seu ministério, já que a escolha do seu vice (que aparentemente é um processo muito mais simples) foi bastante “espinhosa”. Abaixo, este blog transcreve o podcast de Marcelo Coelho, torcendo para que o colunista não tenha o mesmo destino de seu colega Heródoto Barbeiro. Em tempo, Heródoto foi demitido da TV Cultura (do governo do estado de São Paulo) poucos dias depois de ter perguntado para Serra, em uma entrevista no Roda Viva, sobre os pedágios caros de São Paulo. Aguardemos!

Serra e o individualismo ao extremo
“A candidatura Serra hesita: gostaria de ter uma identidade oposicionista, mas também não quer bater de frente com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita, mas Serra não se sente confortável nesse papel. O vice do tucano, assim, teria que ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado. A questão não é só política, mas também pessoal: fulano não suporta Serra, beltrano Serra não engole. Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.

Fico lembrando a velha história do casamento da Dona Baratinha, ‘com fita no cabelo e dinheiro na caixinha’, recusando um a um os pretendentes ao noivado. A mensagem psicanalítica do conto infantil não é outra senão a da fobia ao sexo. Haveria em Serra, incrivelmente, algo como uma fobia à política, ou pelo menos à negociação política, à convivência política. Não o recrimino: talvez seja apenas um individualismo levado ao extremo. Tanto que ele se dispõe a acumular o cargo presidencial com o de Superintendente da Sudene e não sei com qual outro ministério.

Imagino que gostaria de ser também Secretário do Planejamento e o Presidente do Banco Central. Se a escolha do vice foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem do seu ministério? Entendo melhor assim o estranhíssimo e desastrado conselho de Serra feito a Índio da Costa, recomendando-lhe que tivesse amantes, desde que fosse discreto. Traduzindo em termos políticos: Serra não acredita na fidelidade de seus aliados, mas espera que não apareçam, que sejam discretos, que fiquem à sombra, que não existam. Índio da Costa quase não existe.

Olho as suas fotos: é um belo rapagão moreno, não muito diferente de Aécio Neves, com a vantagem de não ser Aécio Neves. O enigma se dissolve. É como se ele fosse um similar, um genérico de Aécio. Trata-se do remédio sem marca para os males de Serra”.

Serra e a arte da mentira: discurso falacioso do tucano é desmontado pelas centrais sindicais

É incrível como Maquiavel permanece atual. As lições passadas pelo escritor florentino em sua obra-prima “O Príncipe” nos ajudam a entender bastante certos tipos de comportamento na política nos dias de hoje. É assim, por exemplo, com a candidatura do tucano José Serra, que parece seguir à risca o conselho dado pelo escritor renascentista no capítulo 18 de sua grande obra: “todos vêem aquilo que tu aparentas, poucos sentem aquilo que tu és”. De fato, Serra vem aparentando ser uma coisa que definitivamente ele não é: basta ver suas recentes entrevistas, as inserções do PSDB na TV, seus discursos etc.

O candidato, que sempre passou longe das questões sociais, agora quer se apresentar como paladino da causa, chegando ao despropósito de dizer que ele e seu partido criaram quase tudo que existe hoje no Brasil de política social. Ao fazer isso, o candidato tucano debocha dos seus eleitores, uma vez que com a massificação da internet é praticamente impossível sustentar uma mentira por muito tempo. Basta uma rápida busca e logo nos deparamos com as verdades: alguém tem que advertir o ex-governador de São Paulo sobre isso. As mais recentes investidas do tucano têm sido dizer que ele criou o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), bem como o seguro-desemprego.

Aliás, esse discurso não é novo: Serra sempre usou essa retórica desde a campanha presidencial de 2002. Só que agora, com o crescimento da blogosfera e o maior peso das redes sociais, seu discurso falacioso foi desmascarado e provou-se que Serra não criou nada do que ele diz. Tanto que as centrais sindicais redigiram um Manifesto que é reproduzido abaixo na íntegra, mostrando a verdadeira face de José Serra e revelando o que já era óbvio: que ele nunca foi defensor dos interesses dos trabalhadores.

"Serra: impostura e golpe contra os trabalhadores
O candidato José Serra (PSDB) tem se apresentado como um benemérito dos trabalhadores, divulgando inclusive que é o responsável pela criação do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e por tirar do papel o Seguro-Desemprego. Não fez nenhuma coisa, nem outra. Aliás, tanto no Congresso Nacional quanto no governo, sua marca registrada foi atuar contra os trabalhadores. A mentira tem perna curta e os fatos desmascaram o tucano.

A verdade
Seguro-Desemprego - Foi criado pelo decreto presidencial nº 2.284, de 10 de março de 1986, assinado pelo então presidente José Sarney. Sua regulamentação ocorreu em 30 de abril daquele ano, através do decreto nº 92.608, passando a ser concedido imediatamente aos trabalhadores.

FAT – Foi criado pelo Projeto de Lei nº 991, de 1988, de autoria do deputado Jorge Uequed (PMDB-RS). Um ano depois Serra apresentou um projeto sobre o FAT (nº 2.250/1989), que foi considerado prejudicado pelo plenário da Câmara dos Deputados, na sessão de 13 de dezembro de 1989, uma vez que o projeto de Jorge Uequed já havia sido aprovado.

Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988) - José Serra votou contra os trabalhadores:

a) Serra não votou pela redução da jornada de trabalho para 40 horas;
b) não votou pela garantia de aumento real do salário mínimo;
c) não votou pelo abono de férias de 1/3 do salário;
d) não votou para garantir 30 dias de aviso prévio;
e) não votou pelo aviso prévio proporcional;
f) não votou pela estabilidade do dirigente sindical;
g) não votou pelo direito de greve;
h) não votou pela licença paternidade;
i) não votou pela nacionalização das reservas minerais.
Por isso, o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), órgão de assessoria dos trabalhadores, deu nota 3,75 para o desempenho de Serra na Constituinte.

Revisão Constitucional (1994)
Serra apresentou a proposta nº 16.643, para permitir a proliferação de vários sindicatos por empresa, cabendo ao patrão decidir com qual sindicato pretendia negociar. Ainda por essa proposta, os sindicatos deixariam de ser das categorias, mas apenas dos seus representados. O objetivo era óbvio: dividir e enfraquecer os trabalhadores e propiciar o lucro fácil das empresas. Os trabalhadores enfrentaram e derrotaram os ataques de Serra contra a sua organização, garantindo a manutenção de seus direitos previstos no artigo 8º da Constituição.

É por essas e outras que Serra, enquanto governador de São Paulo, reprimiu a borrachadas e gás lacrimogênio os professores que estavam reivindicando melhores salários; jogou a tropa de choque contra a manifestação de policiais civis que reivindicavam aumento de salário, o menor salário do Brasil na categoria; arrochou o salário de todos os servidores públicos do Estado de São Paulo.

As Centrais Sindicais brasileiras estão unidas em torno de programa de desenvolvimento nacional aprovado na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, em 1º de junho, com mais de 25 mil lideranças sindicais, contra o retrocesso e para garantir a continuidade do projeto que possibilitou o aumento real de 54% do salário mínimo nos últimos sete anos, a geração de 12 milhões de novos empregos com carteira assinada, que acabou com as privatizações, que descobriu o pré-sal e tirou mais de 30 milhões de brasileiros da rua da amargura.

Antonio Neto – presidente da CGTB
Wagner Gomes – presidente da CTB
Artur Henrique – presidente da CUT
Miguel Torres – presidente da Força Sindical
Jose Calixto Ramos – presidente da Nova Central"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A oposição, o Bolsa Família e o caso do falso verniz

Não é preciso ser um gênio da carpintaria para saber que ao reformar um móvel antigo é preciso primeiro lixá-lo, removendo o verniz anterior para que somente então seja aplicada uma nova mão de verniz. Caso contrário, se aplicado diretamente sobre o velho verniz, o novo não terá fixação ou ainda, caso consiga se obter mesmo assim fixação em algumas áreas, esta não resistirá muito tempo. Um móvel velho que tentou ser vernizado sem antes, contudo, lixar o verniz antigo. Esta parece ser uma associação apropriada à atual situação da oposição brasileira que, devido à popularidade do governo Lula, não pode ser tão oposicionista assim.

Os partidos que se uniram em torno da candidatura do tucano José Serra à Presidência da República parecem ter se esforçado para cobrir seus pensamentos velhos (e críticos a Lula) com uma camada de verniz novo. Mas para seu insucesso, se esqueceram de lixar o verniz antigo e, à medida que a campanha vai transcorrendo, o falso verniz, que a priori teria a função de restaurar o móvel, vai pouco a pouco se desgastando e revelando o que há por baixo dele. O tempo age, aqui, como o crítico que busca encontrar imperfeições na aparente restauração de um móvel que todos sabem ser bem antigo e, por isso, conhecem muito bem. No caso da oposição, as contradições do discurso aos poucos vão sendo reveladas.

Passemos aos fatos: o falso verniz de que falamos aqui se refere ao novo discurso da oposição sobre o Bolsa Família. Desde que foi criado pelo governo Lula, em 2003, o programa de transferência de renda que beneficia atualmente 12 milhões de famílias brasileiras, ganhou da oposição a pecha de “assistencialista”. Ao longo de sete anos, setores do PSDB, DEM e PPS repetiram como mantra argumentos invariavelmente baseados em puro preconceito, afirmando que o programa deixava “mal acostumados” os seus beneficiários. Repentinamente, ao se aproximarem as eleições, esta mesma oposição, que criticava ferozmente o Bolsa Família, passou a defendê-lo, ao ponto de Serra declarar nesta semana que pretende duplicar, se eleito, a cobertura do Bolsa Família.

Aliado de Serra critica duramente Bolsa Família
A mudança no discurso de Serra se deve muito mais a fatores eleitoreiros do que a convicções ideológicas acerca da eficácia do programa. E isto fica muito claro quando constatamos que não é uniforme o pensamento do grupo político de Serra sobre o Bolsa Família. Lembram-se do verniz? Pois bem, aqui o falso verniz passado diretamente sobre o antigo já começa a descascar, revelando o que há por baixo dele. Quase que ao mesmo tempo em que o candidato tucano defendia a ampliação do Bolsa Família, um de seus principais aliados, o ex-comunista e atual presidente do PPS, Roberto Freire, disparava, por meio de sua página no serviço de microblog Twitter, críticas profundas contra o programa social do governo Lula.

Declarando que o “Bolsa Família tem funcionalidade conservadora. Nada muda e ajuda manter status-quo, gerando euforia e eleitoralismo”, Roberto Freire não deixa dúvidas de que a oposição não tem unidade firme de pensamento sobre o programa. Mais à frente, o presidente do PPS dispara que o Bolsa Família tem “caráter mais assistencialista e eleitoreiro”, comparando-o com o Bolsa Escola, programa de transferência de renda desenvolvido pelo governo FHC: “anteriormente com a contra prestação social,o caráter era mais compensatório”. Percebam que ao mesmo tempo em que revela a verdadeira opinião da oposição sobre o Bolsa Família, Roberto Freire mostra que também não tem conhecimento sobre o Programa. Afinal, ignora as contrapartidas na Educação e Saúde que o governo federal exige dos beneficiários.

Perguntado por um de seus seguidores porque então Serra estava defendendo o Bolsa Família, Roberto Freire tentou se esquivar, dizendo que “creio que Serra está seguindo mais sua visão, na critica oposicionista a Lula, que a minha”, emendando logo em seguida: “Serra vai manter e ampliar a Bolsa Família mas agregará bônus [de] educação técnica. Quem sabe,oferecer saída pela dignidade do trabalho”. Novamente, Roberto Freire mostra total desconhecimento (ou então desonestidade intelectual) acerca da estrutura do Bolsa Família, que ao contrário do que ele afirma oferece sim porta de saída. Se Freire procurasse se informar melhor, poderia facilmente constatar que são oferecidos cursos de capacitação profissional aos beneficiários do programa, criando as condições para que eles arrumem empregos melhores.

Mas o propósito aqui não é exatamente o de mostrar o desconhecimento da oposição sobre o Bolsa Família (até porque isto é bastante óbvio), mas sim revelar as contradições de pensamento e discurso sobre o programa presentes no grupo político de Serra. Ora, Roberto
Freire não é o único que tem esse pensamento sobre o Bolsa Família: outros aliados de Serra, inclusive o próprio candidato, deram muitas declarações negativas a respeito do programa. Naturalmente que este ano, por se tratar de ano eleitoral, alguns se calaram ao passo que outros mudaram o discurso e começaram a defender o Bolsa Família. Cabe aqui a questão: levando em conta essa dissonância de pensamento sobre a importância do Bolsa Família, dá para acreditar que Serra irá manter o programa se eleito?

Que fique claro uma coisa: o que este blog questiona não é a manutenção institucional do programa, mas sim a manutenção do formato e da essência do Bolsa Família. Afinal de contas, o êxito do programa não está no nome, mas sim na forma como ele está estruturado e que levou o mesmo a ser destacado inclusive pela ONU (Organização das Nações Unidas). Serra, se eleito, poderia até manter o nome (sob pretexto de dizer que estaria mantendo o programa), mas quem garante que ele não desvirtuaria os mecanismos de funcionamento? É preciso lembrar que por mais centralizador que seja o tucano, é impossível que ele governe sozinho. Nem mesmo os reis do auge do absolutismo conseguiam governar totalmente sozinhos: eles tinham seus conselheiros, seus ministros de Estados, que “palpitavam” sobre os destinos dos reinos.

E é nesse fato que se encontra a questão levantada neste artigo: os “conselheiros” de Serra não têm unanimidade de pensamento sobre o Bolsa Família. A julgar pelas declarações de muitos deles, como as expostas anteriormente, o programa poderia ser bastante alterado, fugindo muito do seu atual desenho, embora mantivesse o nome apenas para passar batido na opinião pública. Este tipo de risco não existirá em um possível governo Dilma, pois a candidata do PT foi uma das que ajudaram o presidente Lula a formular e gerir o programa. Do lado de Dilma, ao contrário do que acontece no grupo de Serra, existe uma unanimidade quanto à importância do Bolsa Família e a petista é genuinamente a candidata que oferece risco zero no que se refere a mudanças negativas no programa.

Quanto à oposição, dia a dia torna-se mais nítida a fragilidade de seu discurso. Voltando ao exemplo do verniz, é como se ao longo dessa campanha (e percebam que estamos apenas começando) o seu falso verniz fosse pouco a pouco cedendo, mostrando as idéias antigas e retrógradas que aparentemente estavam cobertas pelo novo verniz. E é muito bom que isto aconteça, para que o eleitor brasileiro não seja enganado por promessas eleitoreiras de um grupo político que até outro dia só fazia criticar o Bolsa Família. No caso desse falso verniz da oposição, é bom que se diga: nem óleo de peroba pode esconder o que há por baixo dele.

A mulher, o amor e a poesia: uma entrevista de Vinícius de Moraes a Clarice Lispector

Vinícius de Moraes dispensa apresentações. Trinta anos após sua partida (sim, pois gênios como ele nunca morrem), completados neste dia 9 de julho, sua obra continua mais viva do que nunca e aqui é impossível deixar de recorrer a este clichê. Com uma sensibilidade extraordinária, o homem que foi diplomata, compositor e, sobretudo, poeta soube retratar de forma singular a mulher, o amor e a vida. O poeta nasceu no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, em uma noite de forte tempestade, que parecia prenunciar as tempestades de sua vida, vivida intensamente na boemia carioca.

“Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu...”, dizia o poeta que também se definiu, certa vez, como o “branco mais negro de todos”. Abaixo transcrevemos uma entrevista dada por Vinícius de Moraes à grande escritora Clarice Lispector, que foi publicada na Revista Manchete no final dos anos 60. Com a maestria que lhe era pertinente, Vinícius fala sobre as diversas formas de amor, sobre a mulher (seu tema recorrente) e também sobre a poesia. É sugestão deste blog que se leia esta entrevista ouvindo alguns de seus versos como “Chega de Saudade” ou “Eu não existo sem você”.

- Vinícius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é m grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.

- Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.

- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.

- Mas você acaba um caso porque encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.

- Você sabe que você é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.

- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.

- Qual é a artista de cinema que você amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tem outro.

- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.

- Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.

- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e consequentemente mais bela.

- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius.
Para mim é a mulher, certamente.

- Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...

(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho). Vinícius disse, tomando um gole de uísque:
É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no sei da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

- Como e que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.

- Como pessoa, Vinícius, o que é que desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.

- Quero lhe pedir uma favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
Clarice
Lispector
Acho lido o teu nome, Clarice.

- Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.

- Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.

Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinícius.

- Como é que você se sente casada com Vinícius?

Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas”.

Depois conversei com uma mocinha inteligente:
“A música de Vinícius", disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”

- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de “repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.

Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Moraes.
(Entrevista extraída do site Tiro de Letra)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Cartunista tenta justificar o injustificável e defende charge preconceituosa contra Dilma

Pior do que cometer um erro grave é tentar justificar o erro mesmo quando se tem a consciência da gravidade da prática. É uma maneira de tentar justificar o injustificável. Foi exatamente isto que o cartunista Nani fez em entrevista ao Portal Terra, no final desta tarde, quando defendeu a polêmica charge em que compara a candidata do PT Dilma Rousseff a uma garota de programa. Ao invés de se retratar, Nani fez o contrário: reforçou sua visão machista e preconceituosa, tentando se proteger sob o manto da liberdade de expressão.

O cartunista tenta se defender dizendo que “eu usei uma metáfora. Pode ter sido ruim, mas eu simplesmente fiz humor”. Ora, até que ponto o humor pode ser legitimado como ponto de defesa que justifique qualquer tipo de desrespeito? Que espécie de blindagem é essa que se construiu em torno do chamado “humor” e que é usada como prerrogativa para que os tais “humoristas” simplesmente façam sua arte explorando preconceitos e deixando de lado o respeito às outras pessoas? Não, não estamos fazendo aqui discurso moralista até porque este tipo de argumentação não condiz com este blog.

Estamos simplesmente questionando se o humor pode ser ilimitado a ponto de ser usado como instrumento para denegrir a imagem de pessoas ou grupos sociais. E vale reforçar que o denegrir aqui não é pelo fato do cartunista ter comparado Dilma a garotas de programa, pois estas, assim como a candidata e qualquer outra espécie de profissional, são dignas de todo respeito. O que se coloca em pauta aqui é o humor que é construído sobre as bases da exploração do preconceito, do machismo e do sexismo. Não é possível que se tolere esse tipo de prática apenas porque “o humor usa metáforas”, como diz Nani em sua entrevista.

Vale fazer humor baseado em preconceitos?
O cartunista deve ser livre para criar sua arte, mas assim como qualquer outro profissional não deve fazer do seu trabalho um instrumento que fomente o preconceito que tanto se busca combater na nossa sociedade. Ao ser indagado pelo Terra como ele encarou as críticas à sua charge, Nani justificou que “não discutiram o conteúdo, a mensagem da charge. O cartunista usa uma metáfora pra falar do assunto. Hoje, eu usei a panela do programa da Dilma. O cozido, o pirão dela. É a mesma metáfora: todo mundo tá querendo, os outros partidos querem interferir no programa”. Certo, até aí nada contra o que Nani diz. Mas porque o cartunista usa uma metáfora preconceituosa se pode se valer de outra que não carregue preconceito?

Aqui, este blog dá até uma sugestão ao cartunista: já que ele queria pegar o gancho de que Dilma supostamente estaria “vendendo” o seu programa, poderia muito bem ter colocado a candidata atrás de uma barraca de feira efetuando a “venda”. Não haveria reclamações. Isso sim seria uma forma de humor sem preconceito, sem machismo e sem sexismo. E a mensagem passada seria exatamente a mesma, porém não de uma forma agressiva, mas simplesmente divertida, que deve ser a proposta central do humor. Humor não pode ser instrumento de agressão, mas sim de diversão e de crítica sim. Porém, como dito anteriormente, existem maneiras e maneiras de se fazer uma crítica e esta escolhida (e defendida) por Nani, certamente passa longe de ser a forma ideal.

Mas Nani não parece arrependido: pelo contrário, reforma o seu machismo na entrevista ao dizer que “machismo é essa reação das mulheres. Quando eu fiz com os homens, ninguém se importou... Ninguém se importou com ACM de Tiazinha, FHC de peitos de fora... Homem nenhum se incomodou. Por que a mulher tem essa sensibilidade? Ela é uma pessoa pública, não é dona da sua imagem. Tem que ser criticada. Eu usei uma metáfora. Pode ter sido ruim, mas eu simplesmente fiz humor”. Percebe-se a tentativa do cartunista de subverter a lógica das coisas: Nani ousa dizer que as mulheres foram machistas porque se indignaram com a “brincadeira” e não ele.

Este blog defende veementemente a liberdade de expressão e também de humor. Mas para tudo existe um limite e, nesse caso, o limite é claro: toda forma de humor construída sobre pilares do preconceito, seja ele qual for, deve ser repudiado. Caso contrário, se admitirmos que esse tipo de prática continue através desta malfadada blindagem do humor estaremos certamente perpetuando em nossa sociedade preconceitos que há muito estamos combatendo. Nani errou ao fazer uma charge preconceituosa e machista, mas errou mais ainda ao tentar defender o seu erro, reforçando sua visão sexista e retrógrada. Humor dessa espécie não tem a menor graça.

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Quando o machismo e o preconceito pautam cobertura jornalística

Quando o machismo e o preconceito pautam a cobertura jornalística

É impressionante como em época de campanha eleitoral muitas pessoas deixam de lado o respeito e a ética profissional e se entregam a um jogo de baixarias, alimentando preconceitos que infelizmente ainda estão enraizados na cultura brasileira. Nesta quinta-feira, 8, o Blog do Josias de Souza, da Folha de São Paulo, publicou uma charge do cartunista Nani carregada de preconceito e refletindo um pensamento dos mais machistas e sexistas que se pode ter.

A charge, pegando gancho na substituição no TSE do programa de governo pro-forma da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, traz a petista como uma garota de programa, em uma esquina rodando bolsa, e dizendo: “o programa, quem faz são os fregueses; PMDB: Barba, cabelo e bigode; PDT: papai e mamãe. E vai por aí...". O título da postagem evidencia a intenção pejorativa da mesma: “Candidata de programa”, não deixando dúvida nenhuma de que o desenho ali expresso reflete uma avaliação depreciativa de quem o fez e também de quem o reproduziu.

Há que se deixar claro aqui uma coisa: o problema não está em comparar Dilma a uma garota de programa, pois não há nada de errado na profissão destas mulheres. O que se critica veementemente aqui é, como muito bem dito por um colaborador deste blog, a “exploração do preconceito” que existe na sociedade contra as prostitutas. Ao sugerir a comparação da candidata com as garotas de programa, a charge revela a pior espécie de “humor”, se é que se pode chamar assim: aquela embasada no preconceito, no machismo e no sexismo, pois há a intenção de diminuir tanto as garotas de programa quanto a candidata.

Machismo alimentado pela imprensa
O machismo, infelizmente ainda arraigado na nossa sociedade, também se faz presente na política. Basta lembrarmos o discurso sexista do então candidato a prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (na época do PPB), em 2000, contra a sua oponente Marta Suplicy (PT). Naquela ocasião, Maluf cunhou a expressão depreciativa “Dona Marta”, querendo dizer nas entrelinhas que lugar de mulher era na cozinha e não na política. Outras tantas vezes naquelas eleições municipais, Maluf ridicularizava a formação acadêmica de Marta Suplicy (a petista é formada em Psicologia com pós-graduação em sexologia), chegando ao ponto de ter chamado a sua adversário de “devassa”.

Passados dez anos, o preconceito não desapareceu. Basta lembrarmos os bordões da oposição e da imprensa logo no início deste ano, que diziam que Dilma era um “poste”, revelando, com isso, uma nítida intenção de dizer que ela era mais uma mulher que estava na “garupa” de um homem, no caso o presidente Lula. O próprio candidato do PSDB ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse uma infeliz frase em junho deste ano: que o Brasil não pode ser administrado por alguém que “anda de carona” com outro. Que não haja engano: por trás dessas afirmações existe uma carga enorme de machismo, da convicção de que a mulher não está preparada para liderar e ser Presidente da República.

Existe uma boa dose de machismo também quando se diz que Dilma “é dura, é rígida”. Como muito bem dito pela ex-prefeita Marta Suplicy, em recente entrevista ao jornalista Kennedy Alencar, na Rede TV, o homem pode ser duro que ninguém vai estranhar; agora se uma mulher governa com a seriedade necessária, ela é “dura”. E o impressionante é que a imprensa, ao invés de desmontar esse tipo de preconceito velado, acaba por reproduzi-lo, retroalimentando-o, como fez nesta quinta-feira o Blog do Josias da Souza, da Folha de São Paulo. Certamente, não era essa a postura esperada de um jornalista aparentemente sério como Josias.

Não se pode confundir liberdade de imprensa e de expressão com desrespeito. E o desrespeito aqui não está na associação de Dilma com uma prostituta, como dito anteriormente, mas sim na perpetuação de um preconceito que infelizmente ainda faz parte de nossa sociedade. Quando a cobertura jornalística descamba para esse terreno, o do desrespeito e reprodução do preconceito, em nada contribui para a democracia; ao contrário, a prejudica. E que fique bem claro: a crítica feita por este blog à atitude do jornalista Josias de Souza em nada tem a ver com alguma espécie de macartismo, mas procura sim desmascarar uma atitude notadamente pautada pelo machismo e preconceito por parte de um jornal.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Desconstruindo o discurso tucano de que o governo Lula pouco fez pela Saúde no país

Não é exagero dizer que a campanha do candidato tucano José Serra vem sendo construída em torno de idéias falaciosas, que distorcem a realidade e têm como objetivo principal procurar confundir a cabeça do eleitor. Uma das falácias mais propagadas pelo candidato do PSDB diz respeito à Saúde no Brasil. Gabando-se de ter sido o “melhor Ministro da Saúde” do Brasil, Serra tem repetido quase como mantra que o governo Lula pouco fez pela área da Saúde e que se eleito ele pretende priorizar a área. As críticas de Serra à condução da Saúde pelo governo Lula fazem sentido? Vejamos a seguir.

Primeiramente, devemos lembrar que a gestão da Saúde no Brasil tem responsabilidade dividida entre a União e os Estados, cabendo ao governo federal a formulação de políticas públicas que zelem pela qualidade no atendimento da saúde da população e aos governos estaduais a administração e aplicação dos repasses que são feitos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) dentro de suas fronteiras. Ou seja: o que se vê muitas vezes é que o governo federal vem cumprindo suas responsabilidades e repassando devidamente os recursos do SUS para governos estaduais que, muitas vezes, não cumprem com suas metas. O estado de São Paulo é o maior exemplo disso.

Recentes averiguações do SUS trouxeram à tona uma questão que o candidato tucano parece se esquecer ou tentar se esquivar: de que, enquanto ele foi governador de São Paulo, uma boa parte das verbas repassadas pelo SUS ficou aplicada no mercado financeiro ao invés de ser aplicada em programas de saúde no estado. Isto quer dizer que muitas vezes a população pode ter a impressão equivocada que o governo federal está fazendo pouco pela Saúde, quando na realidade quem está administrando mal o dinheiro recebido pelo SUS é o governo do Estado. Feito este esclarecimento, vamos nos dedicar, agora, a uma análise mais específica do que foi feito ao longo desses quase oito anos de governo Lula na área da Saúde.

Saúde bucal como alvo da ação do governo federal
Inúmeros gestores do SUS, independentemente de suas posições ideológicas ou partidárias, são uníssonos quando reconhecem que a Saúde evoluiu muito no Brasil nos últimos anos, como um trabalho contínuo de vários governos. E esses profissionais concordam também que houve um grande salto de qualidade no SUS ao longo do governo Lula, com uma reestruturação do sistema, ampliação das ações e coberturas e também com a criação de programas que beneficiaram sobremaneira a população brasileira. Áreas que anteriormente eram “esquecidas” pelas políticas públicas, como a saúde bucal, ganharam no governo Lula programas específicos para sua aplicação.

É preciso dizer que até 2003 a assistência odontológica pelo SUS era praticamente inexistente em todo o Brasil, já que ao longo da década de 90 eram cobertos apenas os procedimentos mais básicos. Isto criou no Brasil um quadro crítico no que se refere à saúde bucal, uma vez que a população mais pobre, que não dispunha de verbas para efetuar procedimentos de média e alta complexidade bucal em consultórios dentários particulares, acabava sendo a mais prejudicada. Para se ter uma idéia do quadro, basta dizer que nesse período apenas 3,3% dos tratamentos odontológicos feitos no SUS eram especializados. Buscando reverter essa situação, em março de 2004, o governo Lula criou, através do Ministério da Saúde, o Programa Nacional da Saúde Bucal, chamado de “Brasil Sorridente”, que ao longo desses últimos seis anos mostrou toda sua eficácia para a população.

Os números falam por si só: enquanto em 2002, último ano do governo FHC e quando Serra ainda era ministro da Saúde, apenas 15,2% da população era atendida por programas de assistência odontológica. Com o Brasil Sorridente, a cobertura foi ampliada para 49% da população brasileira, segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde, referentes aos três primeiros meses de 2010. O número de equipes de saúde bucal no Brasil cresceu quase cinco vezes no período, passando de 4.261 em 2002 para 19.609 no balanço do primeiro trimestre de 2010, enquanto o número de municípios atendidos passou de 2.279 (41% do total) para 4.767 (85% do total) no mesmo período.

Farmácia Popular e expansão do Saúde da Família
Outro programa que foi criado pelo governo Lula e que beneficiou diretamente as famílias de baixa renda foi o “Farmácia Popular”, implantado em junho de 2004. Com o objetivo de levar medicamentos essenciais a um baixo custo para mais perto da população, o Farmácia Popular foi desenhado sobre dois eixos de ação: as unidades próprias (em funcionamento desde junho de 2004) e o sistema de copagamento (lançado em março de 2006). As unidades próprias do Farmácia Popular são operacionalizadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que coordena a estruturação das unidades e executa a compra dos medicamentos, o abastecimento das unidades e a capacitação dos profissionais.

Já o sistema de copagamento foi desenvolvido em parceria com farmácias e drogarias privadas, sendo que o governo paga uma parte do valor dos medicamentos e o cidadão paga o restante. Como o valor pago pelo governo é fixo, o cidadão pode pagar menos para alguns medicamentos do que para outros, de acordo com a marca e o preço praticado pela farmácia. Mas, em geral, segundo informações do Ministério da Saúde, a população pode pagar até um décimo do preço de mercado do medicamento. Atualmente, o programa Farmácia Popular está presente em 2.206 municípios brasileiros (40% do total), tendo 12.515 unidades de atendimento, das quais 531 são próprias e 11.984 pelo sistema de copagamento.

O governo Lula também ampliou o programa “Saúde da Família”, que foi criado em 1993 pelo governo Itamar Franco. Os números do Ministério da Saúde deixam bem claro o avanço do programa ao longo do governo Lula: enquanto em 2002 o “Saúde da Família” chegava a 32% da população brasileira, em 2010 ele já cobre 52% da população do país, sendo que atualmente as equipes do Saúde da Família estão presentes em 5.238 municípios brasileiros, o que corresponde a 94% do total de cidades no país (em 2002, o número de municípios atendidos era de 4.121 ou 74% do total). Para se ter uma idéia, o número de equipes do programa praticamente dobrou no governo Lula, passando de 16,7 mil para 31 mil nesses quase 8 anos.

UPA e SAMU para desafogar os hospitais
Outros dois programas muito bem sucedidos criados no governo Lula foram as UPA (Unidades de Pronto Atendimento) e o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e Emergência), que ajudaram de maneira considerável a desafogar os hospitais públicos em todo o Brasil, sobretudo nas grandes cidades. As UPA são unidades de complexidade intermediária entre as UBS (Unidades Básicas de Saúde) e as urgências hospitalares convencionais, prestando atendimento à população 24 horas. Existem, basicamente, três tipos de UPA, que são classificadas de acordo com o tamanho da população da região a ser coberta, a estrutura física e a necessidade de investimento do poder público.


Das 391 UPA que existem atualmente no Brasil, 136 (35%) são do Porte I, 136 do Porte II (35%) e 119 (30%) do Porte III. É interessante destacar que as UPA fazem parte de um sistema de urgência e emergência interligado com outro programa muito importante – o SAMU – que está ajudando o governo federal a reduzir o número de óbitos, o tempo de internação em hospitais e as seqüelas decorrentes da falta de socorro precoce a vítimas de acidentes. Assim com as UPA, o SAMU funciona 24 horas por dia com equipes de profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e socorristas que atendem às urgências de natureza traumática, clínica, pediátrica, cirúrgica, gineco-obstétrica e de saúde mental da população.

Atualmente, o SAMU chega a 106,3 milhões de brasileiros (55% da população total do país) em 1.337 municípios do país (25% do total). Especialmente nos grandes centros urbanos, onde as tradicionais urgências hospitalares costumavam ser mais lotadas, o SAMU e as UPA têm ajudado de forma importante a agilizar o atendimento à população, melhorando, dessa forma, a qualidade do serviço de saúde prestado. Naturalmente, ainda existem grandes desafios pela frente quando o assunto é Saúde e, sem dúvida, um governo que continue no rumo do governo Lula tem plenas condições de solucionar esses desafios. O que não se pode admitir é que um candidato, como José Serra, com claro objetivo eleitoreiro, use o discurso vazio de que nada foi feito pela Saúde ao longo do governo Lula. O Presidente Lula muito fez pela Saúde e Dilma, se eleita, fará ainda muito mais!

Para saber o que Serra fez com a Saúde de São Paulo, confira:

Como (não) se fazer um “choque de gestão” na Saúde Pública

Cartilha tucana: como recursos da Saúde podem render juros

terça-feira, 6 de julho de 2010

Para o Brasil seguir mudando

27 de outubro de 2002. Um dia em que milhões de brasileiros fizeram História elegendo pela primeira vez um trabalhador Presidente da República. Após anos de luta, primeiro pela redemocratização e pelo direito ao voto direto e posteriormente por um projeto de Brasil mais justo e menos desigual, o sonho estava se tornando real, com a esperança vencendo o medo. As palavras do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, proferidas durante seu primeiro discurso após as eleições, soaram de forma profética: “meu coração bate forte. Sei que estou sintonizado com a esperança de milhões e milhões de outros corações. Estou otimista. Sinto que um novo Brasil está nascendo”.

De fato, um novo Brasil nascia naquele dia. Não como querem fazer parecer setores da oposição, que com sua ironia descabida criticam Lula dizendo que o presidente mais popular da História desse país passa a impressão de que o Brasil nasceu em 2003. Não, o Brasil não nasceu em 2003, mas sem dúvida ele renasceu nesse ano. Renasceu porque após sucessivos governos que só contribuíram para o aumento da exclusão social, da miséria e pobreza , do crescimento para poucos, o Brasil, a partir de 1º de janeiro de 2003, teve um reencontro com a sua própria História. Após anos de estagnação, o Brasil voltou a crescer; após séculos de opressão contra os mais pobres, as pessoas de menor renda voltaram a ter vez.

O Brasil não nasceu em 2003, mas sem sombra de dúvidas, o novo Brasil sim. Um país moderno, que voltou a investir em infra-estrutura, que voltou a ter um projeto de desenvolvimento que valorizasse nossas potencialidades e diferenças regionais e que voltou, sobretudo, a pensar na população que durante séculos ficou à margem das políticas públicas. O Brasil que foi sonhado por muitos que vieram antes de nós, que lutaram, que derramaram seu sangue e pagaram até mesmo com sua vida o preço para ver um país livre em todos os sentidos. Nascia o Brasil do emprego, que voltou a valorizar os trabalhadores através de políticas de valorização do salário mínimo, acabando com o fantasma da inflação e corrosão salarial que assombrava os lares brasileiros.

Nascia, com Lula, o Brasil da oportunidade para todos. Engraçado pensar que o ex-metalúrgico que foi discriminado por muitos por não ter um diploma universitário foi o Presidente que mais construiu Universidades e Escolas Técnicas em todo o país. A educação ganhou com Lula e, com isso, todo o povo brasileiro. Não dá para esquecer a imagem de uma mãe na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, dando seu depoimento emocionado: de que graças ao ProUni, criado por Lula, o seu filho pôde entrar numa faculdade e, com isso, sonhar com um futuro melhor. Também não dá para esquecer-se de coisas aparentemente simples, mas que mudaram a vida de muitos brasileiros. O que dizer dos 11 milhões de brasileiros que pela primeira vez em suas vidas tiveram acesso à luz elétrica, graças ao Programa Luz Para Todos?

Lula trouxe a dignidade de volta para o povo brasileiro. Ao criar o maior programa de transferência de renda já visto na história desse país – o Bolsa Família – Lula foi alvo de inúmeras críticas, que tentavam colar na ação a pecha de “assistencialista”. Eram as vozes do atraso, dos que sempre acreditaram que dinheiro gasto com os mais pobres é mal aplicado. Por ironia do destino ou então puro oportunismo eleitoral, essas mesmas vozes que criticavam, hoje afirmam que se voltarem ao poder darão continuidade e até ampliarão o Bolsa Família. O programa teve sua importância reconhecida não só pelas 12 milhões de famílias que são beneficiárias, mas também por órgãos da comunidade internacional, como a ONU (Organização das Nações Unidas).

O Brasil, a partir de 2003, voltou a ser pensado levando-se em conta suas diferenças regionais e, a partir daí, formulando-se políticas públicas de desenvolvimento regional que tiveram como principal alvo as regiões Nordeste e Norte. Enquanto governos anteriores a Lula preteriram o Nordeste, a região voltou a ganhar destaque na agenda do governo federal a partir de 2003, sendo alvo de pesados investimentos públicos. Não é por menos que, durante a crise econômica mundial de 2008/2009, a região não parou de crescer e impulsionou os indicadores brasileiros de emprego e produção industrial. E a segurança? Embora muitos digam que Lula pouco fez pela segurança, a realidade é outra. Desde 2003, o governo federal voltou a pensar a segurança pública sob o seu aspecto social também.

No Brasil de Lula, o Estado voltou a ocupar territórios que antes, ao longo dos governos anteriores, foram sendo ocupados gradativamente pelo narcotráfico, justamente devido à ausência do Estado. O melhor exemplo dessa recuperação é o caso do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que, com a ação das UPPS (Unidades da Polícia Pacificadora), voltou a ter um Estado presente e atuante, através de investimentos em saúde, educação, esporte e lazer. Renascia também em 2003 o Brasil com projeto definido de política industrial: no lugar da política de privatização desenvolvida pelo governo anterior, que dilapidou o patrimônio público brasileiro, foi implantado um projeto que valorizava o nosso país e fortalecia nossa indústria. Tanto que após mais de duas décadas, o Brasil voltou a produzir o seu primeiro navio.

Impossível descrever de maneira sucinta todas as faces do processo de reconstrução do Brasil a partir de 2003. Talvez a melhor síntese para esse processo sejam os versos de uma música que se tornou hino da esperança para milhões de brasileiros: desde 2003, renasceu no coração do nosso povo a “esperança, de um Brasil criança, na alegria de se abraçar”. Aqueles que cresceram ouvindo que o Brasil seria o país do futuro viram finalmente o futuro chegar. E cá estamos nós, novamente, fazendo História. Dentro de pouco menos de 90 dias, milhões de brasileiros irão novamente às urnas para escolher que projeto vamos querer para o Brasil. Optaremos entre o projeto que representa o retrocesso a tudo aquilo que era o Brasil antes de Lula ou o projeto do Brasil moderno, que cresce e inclui, representado pela candidatura de Dilma.

Mais que uma eleição, estamos diante de uma responsabilidade histórica: a de garantir a continuidade de todos os avanços conquistados pelo governo Lula. Para garantir que o Brasil continue sendo o país que caminha rumo à justiça social, ao crescimento econômico sustentável, à geração de empregos, ao desenvolvimento integrado entre as regiões, temos que eleger Dilma Rousseff Presidente da República. Dilma é a candidata do Presidente Lula, tem experiência política e de administração pública e esteve à frente dos principais programas do governo federal nos últimos cinco anos e meio. Dilma representa a continuidade da mudança iniciada por Lula em 2003 e por isso sua eleição é a garantia de que o Brasil continuará no rumo certo. Para o Brasil seguir mudando, chegou a hora de quebrarmos mais um tabu: elegermos, em outubro, a primeira mulher à Presidência da República. Estamos unidos em um só projeto, numa única voz: queremos Dilma!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os desafios da campanha de Dilma na região Sul

A região Sul, que atende por 15% do eleitorado brasileiro, é atualmente um dos maiores desafios da campanha da petista Dilma Rousseff à Presidência da República. Isto porque, ao contrário das demais regiões, aonde Dilma vem crescendo continuadamente, no Sul a vantagem do tucano José Serra ainda é bem grande, de modo que a região vem recebendo atenção especial do alto comando da campanha do PT. Não é por menos que nesta terça-feira, 6, a candidata do PT começará no Rio Grande do Sul a sua campanha oficial à Presidência da República.

A escolha do Rio Grande do Sul, neste sentido, se mostra bastante acertada se considerarmos três fatores principais: 1) com 8 milhões de eleitores, o estado é o quinto maior colégio eleitoral do país e puxa bastante votos na região como um todo; 2) após o período de luta contra a ditadura e sua posterior prisão, Dilma reiniciou sua atuação política no Rio Grande do Sul, tendo iniciado, ali, inclusive sua vida pública, à frente da Secretaria da Fazenda de Porto Alegre (na gestão Alceu Colares); e 3) apesar da desvantagem de Dilma em relação a Serra, a petista pode se aproveitar das boas perspectivas para a campanha regional do PT, já que o candidato do partido ao Palácio Piratini, Tarso Genro, ocupa a dianteira das pesquisas.

O estado do Rio Grande revela-se, assim, como uma boa oportunidade para Dilma começar a reverter a vantagem de Serra na região, especialmente se levarmos em conta pesquisas internas do PT que mostram que a ex-ministra tem grande potencial de crescimento no estado. Neste sentido, as atuais pesquisas mostram a petista com melhor desempenho nas regiões da Campanha Gaúcha e da fronteira, sendo que o tucano abre larga vantagem, sobretudo, na região metropolitana de Porto Alegre e na Região Serrana. Exatamente por isso a escolha de Porto Alegre pela coordenação da campanha para Dilma iniciar ali a sua campanha oficial.

O Sul e o antipetismo
A resistência que o PT vem encontrando nos últimos anos na região Sul deve ser objeto de estudos acadêmicos mais aprofundados, uma vez que na década de 80 e 90 era exatamente nessa região que o Partido dos Trabalhadores tinha os seus melhores desempenhos eleitorais. Basta lembrar que o PT ficou à frente da Prefeitura de Porto Alegre durante 16 anos (entre 1988 e 2004), tendo ocupado, inclusive, o Palácio Piratini, entre 1998 e 2002, quando Olívio Dutra foi governador do Estado (vale destacar que neste período, Dilma Rousseff era a Secretária de Energia, Minas e Telecomunicações do governo Olívio Dutra). Ou seja, o PT sempre foi uma força política de destaque no Estado.

O que explicaria, então, a resistência à candidatura de Dilma no estado, já que o candidato do PT ao Piratini está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto? Sem a pretensão de enumerarmos aqui todos os fatores que podem explicar tal cenário, uma vez que estes seriam, como dito anteriormente, fruto de pesquisas acadêmicas mais aprofundadas sobre a questão, podemos especular sobre alguns motivos que explicam essa aparente dissonância. É certo que o PT sempre foi uma força política expressiva no Rio Grande, mas no plano regional sempre houve uma disputa mais acirrada entre o PT e partidos como o PP e PMDB, que estão na base de apoio nacional à candidatura de Dilma. Tanto que são essas discrepâncias regionais que levaram os diretórios gaúchos desses dois partidos a não darem o palanque para Dilma nestas eleições.

Se analisarmos também a linha histórica, poderemos constatar que o “antipetismo” ganhou maior força na região Sul, sobretudo no Rio Grande, após a crise de 2005, quando veio à tona o pseudo-escândalo do “mensalão”. Tanto existe correlação que se formos checar o desempenho do PT na região na eleição de 2006, veremos que houve uma profunda mudança com relação ao quadro de 2002. Enquanto nas eleições de 2002 Lula venceu com folga em todos os estados da região Sul, em 2006 o tucano Geraldo Alckmin teve 51% dos votos do Sul, ao passo que Lula teve 32%. Há que se considerar também o peso da questão econômica sobre a formação e decisão do voto para o eleitor da região Sul.

É fato que os três estados que compõem a região possuem uma das melhores infra-estruturas do país. Sem contar o fato de que o Sul possui o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dentre as regiões brasileiras. Se levarmos em conta esses aspectos, poderemos entender que o peso dos programas de transferência de renda e de valorização do salário mínimo promovidos pelo governo Lula é menor no Sul do que em regiões como Nordeste e Norte, onde o IDH é menor. Assim, pode-se pensar que exista um sentimento dentre o eleitor do Sul, em sua maioria de classe média, de que eles estão “pagando a conta” dos programas sociais desenvolvidos pelo governo Lula, o que pode ser um fator que explique o antipetismo na região.

No caso específico do Rio Grande do Sul existe ainda outro fator que, premeditadamente criado e alimentado pela imprensa local com clara finalidade política, contribuiu para que se ampliasse o antipetismo no estado. Trata-se da perda de uma fábrica da Ford que seria instalada em Guaíba, município da região metropolitana de Porto Alegre, ainda na gestão Olívio Dutra à frente do Piratini. A empresa, ao invés de se instalar no Rio Grande optou por construir sua planta na Bahia, em função dos incentivos fiscais oferecidos pelo governo baiano na época. Naturalmente, o governo de Olívio Dutra nada teve a ver com a decisão da Ford, mas a imprensa local encarregou-se de fazer parecer que a culpa era dele.

E é exatamente com estes desafios que a campanha de Dilma deverá saber trabalhar para reverter o quadro desfavorável na região Sul. O debate ali deve ser muito mais voltado para a área econômica, sobretudo aspectos ligados à infra-estrutura e logística, além de planejamento urbano. Dando a resposta adequada a estas demandas, a candidata do PT tem todas as condições de virar o jogo na região e ganhar a disputa presidencial também ali, consolidando uma ampla vitória em todo o Brasil.

domingo, 4 de julho de 2010

FHC e a retórica do espelho

É impressionante a facilidade que tem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em expor idéias que contradizem realidade e teoria. Sem ter algo consistente para falar contra o governo Lula, FHC acaba por dizer qualquer coisa: e o problema é que essa “qualquer coisa” dita pelo ex-sociólogo não encontra sustentação prática e o seu discurso cai na retórica fácil, movida por uma grande vaidade que parece lhe cegar o entendimento. Em seu artigo Eleição sem maquiagem, publicado pelo jornal Estadão neste domingo, 4, FHC não resiste e cai novamente na tentação de querer colocar no governo uma carapuça que não serve a Lula ou Dilma, mas sim à própria oposição.

Vejamos: o ex-presidente, sem ter algo concreto para criticar no Brasil, vai buscar no exterior o fio condutor para a sua argumentação, que mais parece um devaneio político. Começando pela dificuldade que os países desenvolvidos têm enfrentado para superar a crise econômica mundial, o ex-presidente parece tomar para si a profética missão de anunciar um futuro nebuloso para o Brasil: “mas, barbas de molho, as notícias que vêm do exterior, e não só da Europa, mas também da zigue-zagueante economia americana e da letárgica economia japonesa, afora as dúvidas sobre a economia chinesa, não são sinais de uma retomada alentadora”.

E FHC segue seu artigo dizendo que “vive-se no Brasil oficial como se nos tivéssemos transformado numa Noruega tropical”. Assumindo um tom irônico, o ex-sociólogo inicia suas críticas ao governo Lula: “a pobreza existia na época da ‘estagnação’. Agora assistimos ao espetáculo do crescimento, sem travas, dispensando reformas e desautorizando preocupações. Se no governo Geisel se dizia que éramos uma ilha de prosperidade num mundo em crise, hoje a retórica oficial nos dá a impressão de que somos um mundo de prosperidade e o mundo, uma distante ilha em crise. Baixo investimento em infraestrutura? Ora, o PAC resolve. Receio com o aumento do endividamento público e o crescente déficit previdenciário? Ora, preocupação com isso é lá na Europa. Aqui, não. Afinal, Deus é brasileiro”.

A ironia de FHC confunde-se com sua própria vaidade, atingida em cheio pelas realizações do governo Lula, que, sem dúvida nenhuma, foram muito maiores que as do seu período presidencial. Caso as realizações de Lula não tivessem sido tão grandes, como FHC explicaria uma aprovação do governo em níveis superiores aos 75%? Pior, será que a vaidade do ex-sociólogo chega ao ponto dele achar que 75% dos brasileiros estão sendo enganados pelo governo Lula e que ele, o grande sábio da nação, é que mais uma vez está correto? O que o ex-presidente quer tratar como ironia trata-se da mais pura verdade:o Brasil voltou a tomar o rumo do desenvolvimento econômico e também social, já que o crescimento econômico, ao contrário de épocas anteriores, se dá com distribuição de renda.

A ironia oriunda da vaidade ferida
E essa não é a opinião cega de um governo ou de um partido, mas sim da maioria da população brasileira. Além do mais, basta o ex-presidente tomar o cuidado de checar as estatísticas do país para verificar que nestes quase oito anos de governo Lula houve uma grande transformação, em todas as áreas da economia e da sociedade. O Brasil está exportando mais, nossa balança comercial apresenta sucessivos superávits (nos oito anos de governo FHC, a balança comercial foi deficitária em seis), a geração de empregos formais atinge níveis recordes, regiões que anteriormente eram preteridas na formulação de políticas de desenvolvimento, hoje são beneficiadas. Enfim, são inúmeras as transformações pelas quais o Brasil está passando, de modo que não há “maquiagem” como FHC insinua.

O ex-sociólogo segue dizendo que “infelizmente, estamos às voltas com distrações. Um cântico de louvor às nossas grandezas, de uma falta de realismo assustador. Embarcamos na antiga tese do Brasil potência e, sem olhar em volta, propomo-nos a dar saltos sem saber com que recursos: trem-bala de custos desconhecidos, pré-sal sem atenção ao impacto do desastre no Golfo do México sobre os custos futuros da extração do petróleo, capitalização da Petrobrás de proporções gigantescas, uma Petro-Sal de propósitos incertos e tamanho imprevisível. Tudo grandioso. Fala-se mais do que se faz”. Aqui fica claro que enquanto o governo Lula canta o “cântico de louvor às nossas grandezas”, FHC quer cantar o “cântico do atraso”, pois pelo que se pode depreender, o ex-presidente questiona projetos importantes para o país, como o trem bala, o pré-sal e a própria capitalização da Petrobras.

É bom que se lembre aqui que FHC e os tucanos como um todo nunca acreditaram na Petrobras. Para eles, a estatal é um ônus e não um bônus. Basta rememorar a tentativa (felizmente frustrada) do governo FHC de tentar trocar o nome da Petrobras para PetrobraX, ensaiando uma posterior internacionalização do capital da empresa. Agora, imagine o leitor se o capital da Petrobras tivesse sido internacionalizado como queriam os tucanos. De quem seria a maior parte dos recursos do pré-sal? Certamente não seria do Brasil. É importante que se bata nesta tecla para que se compreenda como o “cântico do atraso” entoado por FHC, Serra e seu grupo político pode comprometer o desenvolvimento do Brasil. O ex-sociólogo mais uma vez deixa escorrer pelas entrelinhas do seu discurso que sua preocupação é tão somente fazer caixa, agindo com total irresponsabilidade ao secundarizar o desenvolvimento social no país.

A maquiagem eleitoral de Serra
E como era de se esperar FHC utilizou toda essa retórica vazia para chegar ao ponto que realmente ele queria: as eleições presidenciais de outubro. Segundo o ex-sociólogo, “a encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que diga, especialmente o que o ‘mercado’ e os parceiros internacionais querem ouvir. Mas a própria candidata já alertou: não é um poste. E não é mesmo, espero. Tem uma história, que não bate com o que se quer que ela diga. Cumprirá o que disse?”. O ex-presidente segue afirmando que Dima “não pode dizer o que pensa para não pôr em risco a eleição. Estamos diante de uma personagem a ser moldada pelos marqueteiros. Antigamente, no linguajar que já foi da candidata, se chamava isso de alienação”.

Este trecho do artigo de FHC é particularmente engraçado, já que o ex-presidente quer vestir, agora em Dilma, uma carapuça que serve muito mais a Serra, o candidato tucano. Afinal de contas o “personagem a ser moldado pelos marqueteiros” nesta eleição é o ex-governador de São Paulo. A petista pode dizer o que pensa, pois ela pensa exatamente igual o presidente Lula: tanto que nos últimos cinco anos e meio, Dilma esteve à frente dos principais projetos do governo Lula. Logo, não há motivações para que a candidata do PT esconda o que pensa. Isso tem ficado bastante claro nas entrevistas da petista: ela sempre destaca que o seu governo será de continuidade, não como um simples cópia, mas com avanços. Por outro lado, o candidato da oposição que está encarnando um personagem neste processo eleitoral.

Primeiramente, não é conveniente que Serra dirija duras críticas ao governo Lula (por mais que as tenha), haja vista o elevado grau de popularidade do nosso presidente. Em segundo lugar, a tática de apresentar Serra como uma pseudo-continuidade de Lula mostrou-se infrutífera ao longo da segunda etapa da pré-campanha (entre os meses de abril e maio deste ano). Posto isso, o candidato tucano fica perdido entre criticar ou poupar o governo Lula, o que acaba por fazer com que Serra esconda a sua verdadeira face. É importante que seja salientado isso: Dilma não precisa esconder o que pensa, já Serra precisa. Logo, o “personagem moldado pelos marqueteiros”, fazendo uso da expressão utilizada por FHC, não é Dilma, mas sim o próprio candidato do ex-sociólogo. Por fim, o ex-presidente encerra o seu artigo dizendo que “está na hora de cada candidato, com a alma aberta e a cara lavada, dizer ao País o que pensa”.

E neste ponto não há como discordar de FHC: seria de fato excelente que cada um dos candidatos dissesse abertamente aos eleitores o que pensa. Dilma já está fazendo isso. Aliás, ela sempre fez. Resta, agora, que Serra faça o mesmo, pois o candidato dos comerciais e inserções de TV não é o Serra verdadeiro e sim a “criatura” produzida nos laboratórios de marketing da campanha tucana para tornar o “produto” mais “vendável”. Toda a “maquiagem” que FHC acusa a campanha de Dilma de estar usando, na verdade está sendo usada pelos próprios tucanos, que estão tentando mascarar o seu candidato, o seu projeto e o seu discurso. Ao que parece, FHC escreveu o seu artigo olhando para o espelho, mas errou o alvo, uma vez que tudo aquilo que ele acusa estar cometendo a campanha petista está sendo cometido pelos próprios tucanos.

sábado, 3 de julho de 2010

Ibope mostra Dilma e Serra empatados, após massiva exposição do tucano na TV

Pesquisa Ibope encomendada pela Associação Comercial de São Paulo e divulgada na noite deste sábado, 3, mostrou a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, empatada com o seu principal oponente, o tucano José Serra, ambos com 39% das intenções de voto. Os números causam um certo estranhamento, à medida que na semana anterior a esta coleta de dados o Ibope divulgou pesquisa mostrando Dilma com uma vantagem de 5 pontos percentuais em relação a Serra. Vale lembrar que na pesquisa CNI/Ibope, divulgada no dia 23 de junho, a petista aparecia com 40% das intenções de voto e o tucano com 35%.

Além de mostrar uma recuperação de Serra e o novo cenário de empate com Dilma, o Ibope revelou que Marina oscilou positivamente dentro da margem de erro, para 10% das intenções de voto. Brancos e nulos somaram 6% e os eleitores indecisos, 7%. Na simulação de segundo turno, o tucano também apresentou uma recuperação, empatando novamente com Dilma ao passar de 38% para 43%. Enquanto isso, a petista se movimentou dentro da margem de erro, de 45% para 43%, de acordo com os dados apresentados neste levantamento. Brancos e nulos somaram 8%, ao passo que o percentual de eleitores indecisos foi de 7%.

Maior exposição de Serra nos últimos dias
A recuperação ensaiada por Serra e traduzida nos números da recente pesquisa Ibope era mais do que esperada, haja vista a forte exposição do candidato nos últimos dias. Durante a última semana, o PSDB exibiu suas inserções que deram foco total ao tucano, destacando sua carreira política. Além disso, deve-se destacar que desde o dia 27, data que coincide com o início da pesquisa de campo, o candidato tucano teve amplo destaque no noticiário, por conta da novela em torno da escolha do seu vice.
Naquela data, teve início o desentendimento entre PSDB e DEM, após os tucanos terem indicado o nome de Álvaro Dias para vice de Serra. Dessa maneira, pode-se dizer que o eleitor “fixou” mais o nome de Serra ao longo destes últimos dias, até mesmo porque não houve inserções de Dilma no período. O Ibope ouviu 2002 eleitores entre os dias 27 e 30 de junho em 140 municípios. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número 17245/2010.

Qual a importância do tempo de TV nesta disputa presidencial?

Ao longo desta semana, em meio ao entra-e-sai de nomes cotados para a vaga de vice na chapa da oposição, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (DEM), trouxe uma discussão bem interessante por meio de seu ex-blog. Reproduzindo trechos de seu artigo na Folha de São Paulo do último dia 26 de junho e acrescentando algumas reflexões, o ex-prefeito carioca trouxe para a mesa o debate em torno da importância do tempo de propaganda na TV para as candidaturas, apresentando a tese que desde 2006 a propaganda televisiva mobiliza em menor grau os eleitores em comparação ao que mobilizava em anos anteriores.

De acordo com César Maia, “no Brasil, um tempo de TV para presidente abaixo de dois minutos elimina o candidato por falta de exposição e informação. Acima de cinco minutos é inócuo e não agrega quase nada, mas pode servir para não dar fôlego aos menores. Nos comerciais, melhor ainda para quem tem mais, pois elimina os com pouco tempo, por um ou dois dias por semana. No programa, a vantagem é zero: todos os demais juntos terão sempre muito mais tempo para distrair o eleitor”. Ou seja, segundo argumentação do ex-prefeito, um tempo de TV de dois minutos é pouco e não ajuda o candidato, mas um tempo superior a cinco minutos também é inútil, pois não prende atenção do telespectador.

O ex-prefeito também reflete que “o candidato, em sua movimentação, contatos diretos, reuniões..., vai conquistando multiplicadores. Até poucos anos atrás tinha a TV como seu instrumento básico. Na medida em que a TV emocionava e mobilizava, ia formando eleitores especiais, eleitores multiplicadores. De uns cinco anos para cá, a TV perdeu esse papel”. Naturalmente, é compreensível que César Maia defenda esse ponto de vista, uma vez que a candidata do PT a Presidência da República, Dilma Rousseff, tem 10 minutos e 26 segundos de propaganda na TV, o que representa quase o dobro do candidato do ex-prefeito, o tucano José Serra, que tem 7 minutos e 7 segundos. Mas afinal qual a importância do tempo de TV em uma campanha?

O tempo de TV nas campanhas de 2002 e 2006
Para entendermos a importância do tempo de TV em uma campanha eleitoral, devemos levar em conta dois outros aspectos que aumentam ou diminuem o grau de importância do tempo de TV. O primeiro desses aspectos diz respeito à percepção do eleitor em relação às condições de vida do país – é sabido que a maior parte dos eleitores brasileiros leva em conta o seu bem-estar para decidir o seu voto. Assim, o que se constata na maioria dos pleitos é a seguinte regra: se o eleitor acredita que o seu padrão de vida está bom ou melhorou, ele vota no governo ou no candidato governista. Por outro lado, se existe uma sensação de que houve uma piora das condições de vida, então o eleitor vota na oposição.

Esse é, digamos, o primeiro filtro do eleitor. Em seguida, outro fundamental e que influencia no grau de importância do tempo de TV é o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos. Assim, quanto menos conhecido for um candidato maior será a importância do tempo de TV para ele: a relação é óbvia, já que esse candidato precisará de maior tempo de exposição para se fazer conhecido ao eleitor. Por outro lado, se temos candidaturas bem conhecidas pelo eleitorado, o tempo de TV se torna menos importante, de fato, mas continua sendo um grande instrumento de mobilização, ao contrário do que afirma em seu artigo o ex-prefeito César Maia. Para exemplificar nossa idéia, vejamos o caso das duas mais recentes eleições presidenciais, cuja distribuição do tempo de TV entre os principais candidatos encontra-se representada na figura abaixo.

Em 2002, a esmagadora maioria da população brasileira não aprovava o governo FHC (segundo o Ibope, a aprovação do presidente FHC no final do seu mandato era de 29%). Dessa maneira, existia uma tendência dos eleitores a votar na oposição a FHC, que naquela eleição era representada pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Por outro lado, José Serra (PSDB), que se tornou mais conhecido após ser ministro da Saúde de FHC, era o candidato da situação. Tanto Lula quanto Serra eram figuras conhecidas, o que acaba, portanto, reduzindo a importância do tempo de TV na definição da eleição. Exatamente por isso que, mesmo com um tempo de TV bem menor do que Serra, Lula foi o vitorioso naquelas eleições, pois o primeiro fator pesou bastante e combinado com o segundo acabou por reduzir a importância da exposição.

No caso das eleições de 2006, a oposição, representada pelo candidato do PSDB Geraldo Alckmin continuava tendo mais tempo de TV do que Lula, que era candidato à reeleição. Aqui, ter mais tempo de TV era importante para Alckmin, uma vez que o tucano era conhecido apenas no estado de São Paulo, onde foi governador, e desconhecido no resto do país. Tanto que as propagandas televisivas ajudaram muito Alckmin subir nas pesquisas em um primeiro momento (entre maio e junho de 2006, quando foram ao ar as inserções e propagandas do PSDB, o tucano subiu 7 pontos percentuais na pesquisa Datafolha). Contudo, a alta aprovação do governo Lula acabou falando mais alto e o presidente foi reeleito no segundo turno com ampla vantagem.

O cenário de 2010
Nas eleições deste ano, temos o seguinte quadro: a esmagadora maioria dos brasileiros (78% segundo Datafolha) aprova o governo Lula, de forma que, se levarmos em conta o primeiro fator, a tendência é de que o eleitor escolha pela candidatura governista. Neste quesito a petista Dilma Rousseff já abre boa vantagem. No segundo aspecto, o candidato da oposição é mais conhecido que a candidata governista, de forma que para Dilma é essencial ter um maior tempo de TV. E aí novamente Dilma segue na vantagem, pois com o arco de alianças costurado para esta eleição, Dilma terá 10 minutos e 26 segundos de propaganda partidária nos blocos de 25 minutos, o que corresponde a 42% do tempo total.

Por outro lado, Serra terá apenas 7 minutos e 7 segundos, ou 28,5% do total. Se compararmos, poderemos visualizar que a petista terá praticamente o dobro do tempo do tucano, o que é importante para ampliar sua exposição e colar sua imagem ainda mais ao presidente Lula. A candidata do PV, Marina Silva, terá meros 1 minuto e 13 segundos, o que corresponde a 5% do tempo total e, neste caso, vale a idéia de César Maia, de que uma candidatura com menos de 2 minutos de TV não deve emplacar. O que se percebe, dessa maneira, é que o tempo de TV será um fator de grande peso nestas eleições, mais do que nos pleitos de 2002 e 2006, quando este fator não foi decisivo, em função do peso maior dos dois outros.

Porém, como em 2010 os dois fatores anteriores se equilibram então o tempo de TV funciona como um “desempate”, que é vantajoso especialmente para Dilma, que terá uma maior exposição nas propagandas de TV. Além disso, deve se reforçar que essa vantagem no tempo de TV deve ampliar ainda mais o efeito multiplicador da campanha, ao contrário do que diz César Maia, pois o eleitor que aprova o presidente Lula tenderá a “vestir a camisa” da candidata que ele apóia. E quando falamos em “vestir a camisa” estamos falando em participar do processo de convencimento daqueles que estão à sua volta, agindo de fato como um multiplicador. É claro que ainda temos toda a campanha pela frente e a propaganda partidária no rádio e na TV começa só no dia 17 de agosto, mas Dilma tem todo o favoritismo para vencer estas eleições.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Datafolha: independente do voto, mais eleitores acreditam na vitória de Dilma do que de Serra

Apesar do empate técnico entre a candidata do PT, Dilma Rousseff, e o candidato tucano, José Serra, mostrado pela pesquisa Datafolha nesta sexta-feira, 2, grande parte dos entrevistados acredita em uma vitória de Dilma nestas eleições. De acordo com o levantamento, 43% dos entrevistados, independentemente de sua intenção de voto, acreditam que Dilma será vitoriosa nas eleições de outubro, enquanto apenas 33% afirmam que Serra ganhará as eleições e 21% afirmam não saber. O favoritismo da candidata do PT é apontado principalmente por parte do eleitorado masculino, com escolaridade superior e renda acima de 10 salários mínimos por mês.

Neste sentido, os números do Datafolha revelam que 52% dos homens acreditam que a ex-ministra vencerá as eleições de outubro, ao passo que 55% dos eleitores com ensino superior têm essa mesma visão. Dilma é apontada como vencedora do pleito também por 52% dos entrevistados que ganham mensalmente acima de 10 salários mínimos. Enquanto isso, o favoritismo de Serra é visto principalmente na região Sul, onde 40% acreditam que ele será o próximo presidente da República. Como era de se esperar o maior favoritismo de Dilma se dá entre os seus eleitores: 83% dos entrevistados que declaram voto em Dilma acreditam que ela será a vencedora das eleições de outubro.

Dos entrevistados que declararam voto em José Serra, apenas 65% acreditam que ele será vitorioso. Essa percepção dos eleitores entrevistados pelo Datafolha de que Dilma tem um maior favoritismo do que Serra na disputa presidencial é bem positiva para a campanha petista, uma vez que os eleitores indecisos ou mesmo aqueles que declaram que podem mudar o voto tendem a ser influenciados de alguma forma por essa tendência de vitória de um candidato. Naturalmente devem-se levar em conta outros aspectos que moldam a orientação do voto do eleitor inicialmente indeciso, mas é inegável o forte peso que se tem a percepção de que determinada candidatura deve ser vitoriosa.

Maior parte dos votos indecisos tende a Dilma
Outro aspecto interessante revelado pela pesquisa Datafolha diz respeito à solidez da decisão de voto. Neste sentido, o levantamento mostra que 71% dos eleitores se declararam totalmente decididos quanto ao seu voto. A cristalização do voto é maior ainda dentre os eleitores que declararam voto em Dilma: segundo os números do Datafolha, de todos os entrevistados que afirmaram votar em Dilma, 78% disseram que estão com seu voto totalmente decidido. Enquanto isso, dentre aqueles que declararam voto no candidato tucano, 70% afirmaram que estão com voto definido, ao passo que entre os eleitores de Marina Silva, 58% afirmaram estar com voto totalmente definido.

Por outro lado, 26% dos entrevistados declararam que ainda podem mudar o seu voto e aqui o Datafolha traz mais uma boa notícia para a campanha petista. De acordo com o levantamento, em caso de mudança de voto, Dilma deve ser a maior beneficiada, recebendo 28% dos votos, contra 24% de Serra e 23% de Marina. Enquanto isso, 18% declararam que não sabem em quem votariam. É interessante destacar que boa parte desses eleitores indecisos está na faixa etária dos mais jovens, entre 16 e 24 anos, onde 37% afirmam que ainda podem mudar o seu voto.

O Datafolha mostra também que o apoio do Presidente Lula continua tendo forte peso na decisão dos eleitores. De acordo com o levantamento, 41% dos entrevistados afirmaram que votarão com certeza em um candidato apoiado por Lula, enquanto 24% declaram que podem votar em um candidato apoiado pelo Presidente. Por outro lado, 28% declaram que não votariam em um candidato apoiado por Lula. Segundo o levantamento, 75% dos entrevistados declararam que Dilma é a candidata apoiada pelo presidente Lula, sendo que essa identificação foi maior nas regiões Norte/Centro-Oeste (77%) e menor no Nordeste (72%), de acordo com os números da pesquisa.

A pesquisa Datafolha foi feita entre os dias 30 de junho e 1º de julho em 163 municípios de todo o Brasil. Foram feitas ao todo 2.658 entrevistas. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Essa pesquisa está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número 17162/2010.

Em descompasso com outras pesquisas, Datafolha mantém empate entre Dilma e Serra

Contrariando a tendência apresentada pelas pesquisas dos institutos Vox Populi e Ibope, que dão vantagem à candidata do PT Dilma Rousseff, o instituto Datafolha divulgou, na madrugada desta sexta-feira, 2, uma nova pesquisa de intenções de voto, revelando empate técnico entre a petista e o seu principal adversário, o tucano José Serra. De acordo com os números do Datafolha, Serra tem 39% das intenções de voto contra 38% de Dilma, empatados tecnicamente, uma vez que a margem de erro do levantamento é de 2 pontos percentuais. Em relação ao último levantamento, feito em maio, o tucano e a petista oscilaram também dentro da margem de erro.

A candidata do PT, Marina Silva, também se movimentou dentro da margem de erro, porém negativamente, passando de 12% para 10%, ao passo que votos brancos e nulos somaram 4%, enquanto o percentual de eleitores indecisos foi de 8%. De uma maneira geral, pode-se dizer que Serra foi beneficiado pelas exposições freqüentes que teve nos programas partidários do DEM, PPS, PTB e PSDB ao longo do mês de junho, nos quais ele foi protagonista em todas. Ao contrário de maio, quando apenas 29% declaravam ter visto algum programa de Serra e 37% de Dilma, neste levantamento do Datafolha 50% dos entrevistados declararam ter visto algum programa do tucano, contra 34% da petista.

Serra tem a maior rejeição
Naturalmente, essa maior exposição de Serra contribui para uma movimentação positiva dentro da margem de erro, já que os eleitores assistem ao programa e fixam o nome do tucano, especialmente pelo fato de que houve poucas inserções de Dilma neste mês. Na pesquisa espontânea, ou seja, naquela em que não são apresentados nomes aos eleitores, Dilma lidera, sendo lembrada por 22% dos entrevistados (avanço de 3 pontos percentuais), enquanto Serra aparece com 19% (crescimento de 5 pontos percentuais). É interessante destacar que 5% declaram voto no presidente Lula, enquanto 4% afirmam que votarão no candidato do presidente Lula, o que eleva o potencial de voto espontâneo em Dilma para 31%. A candidata do PV é lembrada por apenas 3%.

O cenário de empate técnico entre Dilma e Serra se repete também na simulação de um segundo turno entre os candidatos, de modo que o tucano alcança 47% das intenções de voto e a petista 45%, de acordo com os números do Datafolha. Brancos e nulos somam 5% e os eleitores indecisos são 4%. O tucano lidera, contudo, quando o assunto é rejeição: 24% dos entrevistados afirmam que não votariam de jeito nenhum em José Serra, ao passo que apenas 20% declaram não votar em Dilma. A rejeição de Marina Silva, por sua vez, é de 14%,segundo a pesquisa divulgada nesta sexta-feira.

Serra cresce 12 pontos no Sul, segundo Datafolha
Se analisarmos o corte regional da pesquisa Datafolha, constataremos que os dados referentes às intenções de voto por região destoam dos demais institutos. Na região Sul, por exemplo, o Datafolha apurou que Serra lidera com 50% das intenções de voto, contra 32% de Dilma. Em relação ao levantamento de maio, o tucano teria subido nada menos que 12 pontos percentuais na região, enquanto a petista teria caído 3 pontos percentuais. Vale destacar que na pesquisa Ibope Serra aparece com 42% no Sul, enquanto na Vox Populi o percentual de votos do tucano na região é de 44%, segundo os mais recentes levantamentos, divulgados na última semana.

Na região Nordeste, por outro lado, Dilma leva a melhor e registra 47% das intenções de voto, contra 30% de Serra. A petista cresceu 3 pontos percentuais, ao passo que o tucano recuou os mesmos 3 pontos percentuais. No Norte/Centro-Oeste, a ex-ministra avançou 2 pontos percentuais para 42% e o ex-governador de São Paulo registrou avanço de 4 pontos percentuais para 38%. No Sudeste, por sua vez, que agrega os três maiores colégios eleitorais do país (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), Dilma tem 33% enquanto Serra tem 43%. Vale destacar que no Ibope e no Vox Populi, o tucano aparece com 37% das intenções de voto na região Sudeste.

A pesquisa Datafolha foi feita entre os dias 30 de junho e 1º de julho, tendo sido entrevistados 2.658 eleitores. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eleições nos estados: Dilma tem mais palanques estaduais do que Serra e Marina juntos

Encerrado o prazo oficial estipulado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para realização das convenções partidárias e definição das chapas que disputarão as eleições Presidenciais e para governos estaduais, marcadas para outubro, podemos constatar a vantagem da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no que se refere aos palanques estaduais. Isto porque Dilma tem mais palanques nos estados do que seus oponentes José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) juntos, considerando-se neste levantamento apenas os palanques competitivos.

Para se ter uma idéia, se analisarmos o mapa eleitoral dos estados verificaremos que Dilma sai com ampla vantagem, já que possui 38 palanques fortes estaduais (uma média de 1,4 por Estado), ao passo que Serra possui 24 (média de 0,9 por Estado) e Marina Silva possui apenas 12 (média de 0,4 por Estado). No caso de Marina, devemos destacar que esses 12 palanques se referem à totalidade dos candidatos a governador que o PV irá lançar, sendo que o palanque mais forte é o do candidato ao governo do Rio, Fernando Gabeira, que ainda será dividido entre Marina e Serra.

É interessante destacar que na região Norte, onde Marina nasceu, ela não possui nenhum palanque estadual. Abaixo, apresentamos por região e estado os principais palanques de Dilma e Serra:

Nordeste
Na região Nordeste, onde Dilma tem a sua maior vantagem sobre Serra nas pesquisas de intenções de voto, a petista também leva a melhor na montagem dos palanques regionais. Ao todo, nos 9 estados que compõem a região, Dilma tem um total de 15 palanques, mais que o dobro de Serra, que possui apenas 7 palanques. Vejamos os casos de cada estado:

Norte
Na região Norte, Dilma possui 11 palanques nos 7 estados que compõem a região, contra os 6 palanques de Serra. Confira abaixo:
Centro-Oeste
Na região Centro-Oeste, os palanques estão mais equilibrados, sendo que a petista Dilma tem 5 palanques e o tucano José Serra possui 4 palanques, conforme pode ser visualizado na tabela abaixo:
Sudeste
Na região Sudeste, que possui os três maiores colégios eleitorais do país (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), Dilma possui 5 palanques, contra 4 de Serra, conforme pode ser visualizado abaixo:


Sul
A situação mais equilibrada entre Dilma e Serra ocorre justamente na região Sul, onde tanto a petista quanto o tucano possuem 3 palanques cada um. Confira abaixo:

Quando até a velha imprensa admite cenário de favoritismo para Dilma

A infindável demora para escolha do vice de José Serra e a crise instaurada em sua base de apoio, em decorrência dos desentendimentos entre DEM e PSDB na última semana, deram à campanha da oposição um ar de derrota prenunciada. No entra e sai de vices para Serra, uma coisa parece certa: a escolha de Índio da Costa, deputado federal pelo DEM-RJ em seu primeiro mandato, ocorreu muito mais no sentido de ceder às pressões do DEM pela vaga da vice do que um desejo propriamente dito de Serra. Basta lembrar que, antes da escolha, o candidato tucano só tinha visto o seu atual vice uma única vez.

E o interessante, terminado todo esse processo esquizofrênico de escolha do vice de Serra, que nem a tradicional imprensa, acostumada a apoiar incondicionalmente a oposição, conseguiu esconder o que já é bastante óbvio: que a campanha tucana vai de mal a pior. Dois grandes jornais a serviço do demo-tucanato – a Folha de São Paulo e O Globo – trouxeram nesta quinta-feira, 1º de julho, análises que mostram o que as pesquisas de intenções de voto têm traduzido em números: um cenário de amplo favoritismo para a candidatura da petista Dilma Rousseff. A saber, tanto Ibope quanto Vox Populi mostram a ex-ministra com 40% das intenções de voto, à frente do tucano, que tem 35%.

Artigo do Globo admite que situação de Serra pode piorar
De acordo com a análise do cientista político Murillo de Aragão, reproduzida no Blog do Noblat nesta quinta-feira, “a situação, ao final de junho, confirma as expectativas que tínhamos tanto quanto ao desempenho de Dilma quanto ao seu favoritismo. No momento, as melhores chances de Serra estão em levar a disputa para o segundo turno e tentar reverter a liderança de Dilma, cooptando votos que irão para Marina Silva no primeiro turno”. Nas entrelinhas podemos perceber que há um pessimismo não declarado em relação à candidatura de Serra: ainda que ele consiga levar a disputa para o segundo turno, ele terá que batalhar pelos votos que foram dados a Marina e ainda não se sabe quais são as chances dele receber de fato esses votos.

Aragão destaca como pontos positivos para a candidatura governista o fato de que “o PMDB fechou com Dilma e a coalizão resolveu o principal problema de entendimento entre os partidos em Minas Gerais. O PP – após flertar com Serra – decidiu pelo apoio informal a Dilma. Vinte diretórios do partido vão apoiar a candidata governista. Aécio Neves não topou a candidatura a vice na chapa com Serra. Pior, a escolha se arrastou por junho e terminou em conflito entre o PSDB e o DEM. Ainda a favor de Dilma, a popularidade de Lula é ampla e sólida, e o desempenho da economia continua muito positivo”. O artigo salienta também que “José Serra, pelo seu lado, além de perder a liderança, provocou um conflito com o DEM pela escolha de Álvaro Dias (PSDB/PR) para ser seu vice”.

E se o leitor pensa que o artigo do Globo admite chances de Serra voltar à liderança, engana-se. A análise do cientista político Murillo de Aragão sentencia que “aparentemente, a situação ainda pode piorar para Serra ao longo de julho. Após a Copa do Mundo, o Brasil se voltará com mais atenção para o processo eleitoral. Com a campanha oficialmente em curso, Lula poderá ser mais enfático em seu apoio a Dilma. Ou seja, sem fato novo e extraordinário, as tendências apontam para a consolidação da liderança de Dilma na abertura oficial da campanha”. Jogando uma pá de cal na esperança da oposição, Aragão destaca que “historicamente, quem lidera a pré-campanha tende a ganhar as eleições. Foi assim desde a eleição de Fernando Collor. De acordo com o Ibope, Dilma estaria a 3,3 pontos de liquidar a campanha em primeiro turno. O que antes parecia impossível, já passa a ser possível, ainda que não seja provável”.

Na Folha, Josias de Souza critica erros do PSDB
E até a Folha de São Paulo, quem diria, não poupou críticas à condução da campanha demo-tucana. O jornalista Josias de Souza publicou um texto nesta quinta-feira chamando a condução da escolha do vice por Serra de um “processo de autofagia cibernética”, afirmando que “envolto em atmosfera de volúpia e traição, o presidenciável tucano converteu a escolha de seu vice num striptease autofágico”. A massiva exposição da crise na base de apoio de Serra pesou, segundo Josias de Souza, de forma negativa sobre os rumos da campanha oposicionista. O jornalista lembrou como as relações entre DEM e PSDB foram abaladas e a dimensão que o fato ganhou sendo exposto na internet.

“Com a alcova sob holofotes, Serra portou-se com inocência inaudita. Imaginou que o DEM aceitaria o papel de mulher traída que evita um rompimento em nome da integridade da família. Esqueceu-se de que lidava com uma sigla que assumiu o poder logo após as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportarem em Porto Seguro”, anunciou o artigo de Josias de Souza, para em seguida dirigir suas críticas de forma mais veemente à forma com a qual Serra conduziu todo o processo. Chamando o PSDB de “uma agremiação de amigos integralmente composta de inimigos”, Josias de Souza afirmou que “o DEM é um partido razoavelmente coerente” se comparado aos tucanos.

Segundo Josias de Souza, “dono de estilo ‘indiocentrista’, Serra imaginou-se capaz de trafegar pela selva de sua coligação com distanciamento de antropólogo”. E assim como o cientista político Murillo de Aragão sentenciou em seu artigo publicado no Globo, Josias de Souza revelou um pensamento similar, ao dizer que “no Big Brother do tucanato, os morubixabas do DEM levaram Serra não ao paredão, mas ao caldeirão. Obrigaram-no a regurgitar Álvaro Dias e atravessaram-lhe Indio da Costa na traqueia. De erro em erro, Serra virou uma espécie de bispo Sardinha da era da internet. Em autofagia pública, foi mastigado pelos caetés do DEM à luz do twitter”.

Percebe-se, dessa maneira, que a cinco dias do começo oficial da campanha, marcado para 6 de julho, a própria imprensa, que sempre procurou dar sobrevida à campanha demo-tucana, mesmo em seus piores momentos, parece ter perdido seus argumentos. Talvez até mesmo porque se insistisse muito na idéia de que tudo vai bem para a oposição, além de perder a campanha política poderia perder mais ainda sua credibilidade. Não é exagero, neste sentido, afirmar que se a própria velha imprensa admite um cenário nebuloso para a campanha de Serra é porque de fato as coisas para a oposição estão piores do que eles gostariam que estivessem.