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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O equívoco de certos setores da esquerda sobre o que é austeridade na política econômica

Se existe uma palavra que provoca calafrios em certos setores da esquerda, essa palavra é “austeridade”. Muitos companheiros da esquerda, movidos por uma compreensão equivocada do termo ou até mesmo por uma interpretação maliciosa, associam imediatamente “austeridade” a um vocábulo da cartilha neoliberal, de forma que basta o governo anunciar que seguirá adotando medidas austeras para que esses setores comecem a acusá-lo de rompimento com os interesses da classe trabalhadora. Após a recente elevação da taxa básica de juro pelo Copom (Comitê de Política Monetária), o corte de gastos anunciados pela equipe econômica e a discussão em torno do salário mínimo, essa confusão voltou a pautar os debates dentre os diversos partidos de esquerda.

De um lado estão esses setores que, equivocadamente, entendem “austeridade” como a simples elevação dos juros e o corte de gastos, associando-a a uma política econômica neoliberal, ao passo que do outro estão setores da esquerda que entendem a importância do governo implementar uma política econômica austera. Do ponto de vista da economia, a austeridade é o comportamento por parte do governo que permite um crescimento sustentável ao longo do tempo, através da manutenção da estabilidade dos fundamentos macroeconômicos. Podemos dizer que a austeridade de um governo se baseia em dois princípios: 1) a associação correta entre variáveis-instrumento e variáveis-alvo para solucionar possíveis desequilíbrios macroeconômicos; e 2) a manipulação adequada dessas variáveis levando-se em conta os aspectos conjunturais.

Neste sentido, é muito simplismo dizer que uma política econômica austera é aquela que eleva os juros e corta os gastos públicos, “penalizando a classe trabalhadora e enchendo os bolsos dos banqueiros” como gostam de afirmar alguns companheiros da esquerda. É preciso esclarecer, em primeiro lugar, que se o governo não adota políticas austeras, com vista à sustentabilidade do crescimento no longo prazo, ele estará inevitavelmente prejudicando a economia, sobretudo os trabalhadores e as pessoas de baixa renda, que são os primeiros a sentirem os efeitos de um revés macroeconômico. Quem formula a política econômica, o policy maker, não pode levar em conta apenas os aspectos de curto prazo: ele deve ter em mente que toda decisão tomada hoje tem reflexos posteriores, criando ciclos que podem positivos ou negativos para toda economia.

A austeridade no campo da política monetária
Exatamente por isso estabelecemos como condição da austeridade a manipulação adequada das variáveis-instrumento levando-se em conta a conjuntura econômica em dado momento. Tomemos como exemplo a política econômica, cuja variável-instrumento é a taxa de juro e a variável-alvo é a inflação. Dizemos que a política monetária é austera à medida que o governo faz as alterações na taxa de juro de acordo com o que o cenário conjuntural permite. No caso recente da economia brasileira, por exemplo, tivemos um período, entre 2005 e 2009, sem grandes pressões inflacionárias, o que permitiu à autoridade monetária reduzir gradualmente a taxa Selic. Houve austeridade aí, pois o Copom, levando em conta o cenário macro, manipulou a taxa de juro em sintonia com o que o ambiente econômico permitia.

Por outro lado, a partir de 2010, a pressão dos preços dos alimentos e o excesso de liquidez no mercado (devido à forte expansão do crédito) fizeram com que surgisse uma bolha inflacionária, que foi crescendo sistematicamente ao longo de todo o ano passado. Isso significa que o Banco Central errou anteriormente na condução da política econômica? Não. Isso reflete apenas um movimento comum na economia dada aquela conjuntura. Entretanto, embora a pressão inflacionária tivesse sido causada inicialmente por problemas ligados à oferta de alimentos e ao excesso de crédito, logo esse aumento dos preços começou a contaminar outros setores da economia, que não tinham aparentemente nada a ver com esses fatores iniciais. Essa contaminação de outros setores se deu via inércia inflacionária.

Ora, tendo isso em vista, é necessário perceber que houve uma mudança de conjuntura e que o repique inflacionário, que por enquanto é apenas uma bolha, poderia ser agravado se a autoridade monetária não fosse austera, isto é, se não manipulasse a taxa de juro da maneira adequada. Por isso, para garantir a estabilidade de longo prazo, fez-se necessário o aumento da taxa Selic em janeiro desse ano, onde novamente o Copom mostrou sua austeridade na condução da política econômica. Percebam que austeridade, em termos de política monetária, não significa apenas elevar a taxa de juros, como alguns dizem, mas sim reduzi-la quando a conjuntura permitir e aumentá-la quando a conjuntura exigir. Suponha que a austeridade monetária tivesse sido deixada de lado nessa última reunião do Copom: certamente a inflação teria caminho livre para galgar patamares mais elevados nos próximos meses.

Não é preciso diploma de economia para saber que, num cenário de inflação elevada, quem mais é penalizado é o trabalhador, que vê dia-a-dia seu salário perder poder de compra. Ou seja, é melhor adotar um remédio amargo (elevação do juro) agora, quando a febre (inflação) ainda está no começo, do que deixá-la correr solta e mais tarde debilitar por completo o paciente. Essa leitura de que o Banco Central elevou o juro para “agradar a banqueiros” é totalmente equivocada e beira o pueril, uma vez que uma economia instável prejudica não somente os banqueiros, como todo sistema produtivo e principalmente a classe trabalhadora e mais pobre. O mesmo raciocínio se aplica a discussão do corte nos gastos públicos e à rejeição de propostas do salário mínimo superiores a R$ 545. Num ambiente em que há risco inflacionário, a elevação dos gastos públicos pode piorar o quadro de duas formas: 1) ou reduzindo o superávit primário (diferença entre receitas e gastos públicos); 2) ou ainda incorrendo em déficit primário (quando os gastos crescem tanto, que passam a ser maiores que as receitas).

Austeridade fiscal para assegurar estabilidade de longo prazo
O leitor que viveu nos anos 80 certamente deve se lembrar do quão pernicioso foi para a economia brasileira o déficit fiscal do governo naquela época. As altas taxas de inflação, diga-se de passagem, tinham muito a ver com esse déficit crônico que na ocasião o governo brasileiro tinha, já que o financiamento desse déficit era feito mediante expansão da base monetária. Ou seja: o governo não controlava seus gastos, gastava mal e, no final de tudo, quem pagava a conta era o trabalhador, o cidadão, que via seu salário ser achatado dia-a-dia, perdendo poder de compra. É por isso que tanto se fala em austeridade em relação às contas públicas: fazer uma política fiscal austera não significa cortar gastos e investimentos sociais, como muitos adoram dizer, mas, assim como no caso da política monetária, elevar os gastos quando a conjuntura permitir e cortá-los quando o cenário macro exigir.

Tomando como exemplo o corte de R$ 50 bilhões nos gastos públicos anunciado na semana passada: esse corte, é importante que se repita, não atinge investimentos em programas sociais nem em obras de infra-estrutura do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas afeta sim os gastos de custeio, que são gastos com pessoal, administração interna etc. Da mesma maneira que um chefe de família tem que “apertar os cintos” quando passa por alguma dificuldade, o governo também tem que cortar gastos diante de certos cenários, sob o risco de, se persistir nesses gastos, ir reduzindo o superávit primário até transformá-lo em déficit. E como dito acima, o passo seguinte ao déficit fiscal é a aceleração inflacionária e tudo que vem junto com ela no pacote, como o arrocho salarial, por exemplo. Notem que ao ser austero em relação às contas públicas, o governo não está privilegiando “os banqueiros” como muitos esquerdistas dizem, mas principalmente o trabalhador.

Por essa razão, é preciso que esses setores da esquerda que se equivocam em relação ao que é de fato austeridade aceitem debater esse tema de uma forma honesta e direta, sem argumentos pueris. Antes de criticar o partido que está no governo, é preciso que esses setores pensem com a responsabilidade que tem que pensar o governo e que entendam que por mais que todos queiramos um salário mínimo como aquele calculado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), isso não é possível no curto prazo. Pode até ser possível no longo prazo, só que para isso os fundamentos macroeconômicos devem estar sólidos e maduros e essa estabilidade passa, necessariamente, por uma política econômica austera, tanto no campo monetário quanto no campo fiscal.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A recente trajetória da inflação e as razões para o Copom elevar a taxa básica de juro brasileira

A primeira reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do governo Dilma Rousseff começa nesta terça-feira, 18, com a perspectiva do mercado de que a autoridade monetária deverá elevar a taxa básica de juro da economia – a Selic – para conter pressões inflacionárias. De acordo com a mediana das projeções do mercado resumidas no relatório Focus, do Banco Central, o Copom deverá aumentar em 0,5 ponto percentual a taxa Selic, para 11,25% ao ano, frente à atual taxa de 10,75% ao ano. Na última reunião do Copom, em dezembro do ano passado, optou-se pela manutenção da taxa básica de juro, sem viés.

De fato, o controle da inflação é uma das preocupações do governo Dilma na área econômica, especialmente após o processo de aceleração do crescimento do nível de preços registrado ao longo do ano passado. Em 2010, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo) registrou variação positiva de 5,91%, bem acima da inflação de 4,31% medida em 2009 e também superior ao centro da meta de inflação definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), que é de 4,50%. Essa forte aceleração da inflação em 2010 reflete, basicamente, o comportamento dos preços livres, uma vez que os preços administrados cresceram de forma desacelerada no decorrer do ano.

Choques de oferta e maior liquidez impulsionam preços
O grande “vilão” da aceleração inflacionária em 2010 foram os alimentos. Para se ter uma idéia, o grupo registrou elevação de 10,39% em todo o ano passado, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), responsável por auferir o IPCA. Essa forte elevação do preço dos alimentos decorreu, sobretudo, de choques de oferta, tanto no mercado doméstico quanto no internacional, e que foram potencializados pelo ambiente de elevada liquidez nos mercados financeiros internacionais. Embora a maior alta percentual tenha sido verificada nos preços do feijão, que subiram 51,49% em 2010, quando analisamos a cesta de consumo das famílias, percebemos que o maior impacto na inflação decorreu do aumento nos preços da carne.

Neste sentido, a carne ficou 29,64% mais cara em 2010, contribuindo com 0,64 ponto percentual na composição do índice de preços. Enquanto isso, apesar de ter tido maior alta percentual, o feijão, por ter um menor espaço no orçamento das famílias, contribuiu com apenas 0,13 ponto percentual no índice geral. Como efeito direto da elevação do nível geral dos preços dos alimentos, impulsionados pelo feijão e pela carne, comer fora de casa também ficou 10,62% mais caro ao longo do ano passado. Assim, a refeição fora de casa contribuiu com 0,46 ponto percentual do IPCA. Vale destacar que o grupo alimentos como um todo participou com 2,34 ponto percentual na composição geral do IPCA do ano passado, respondendo, dessa maneira, por 40% da inflação registrada no período.

Observando a figura abaixo, perceberemos que a inflação já começou 2010 em um nível acelerado em relação ao início do ano anterior, refletindo, portanto, não somente uma transmissão inflacionária via inércia, mas também via demanda. É evidente que o primeiro trimestre do ano carrega uma sazonalidade, em função dos efeitos do IPVA, do material escolar e também de impactos pontuais nos preços de certos alimentos, em decorrência de variações na oferta ocasionadas pelas chuvas do mês. Contudo, não se pode desprezar o fato de que a velocidade de crescimento do nível de preços no primeiro trimestre de 2010 foi bem superior àquela registrada em igual período do ano anterior. Após uma ligeira desaceleração, os preços voltaram a acelerar a partir de julho, dando sinais de perda do fôlego somente em dezembro.

Maior crédito ao consumidor também impulsionou inflação
Se por um lado tivemos uma forte pressão pelo lado da oferta, também não pode se desconsiderar a pressão oriunda da maior demanda, impulsionada em 2010 pela maior oferta de crédito ao consumidor. O crédito à pessoa física teve uma importância central entre 2008 e 2010 por auxiliar no processo de resposta à crise econômica mundial. Foi graças à elevação do crédito ao consumidor, dentre outras medidas tomadas pelo governo do então Presidente Lula, que o Brasil foi o último país a entrar e o primeiro país a sair da crise. Entretanto, passado esse cenário de crise, é importante que o governo Dilma daqui para frente enxugue o excesso de crédito ao consumidor na economia brasileira, convertendo-o em crédito ao setor produtivo, que é uma forma de crédito mais saudável e coerente com o crescimento de longo prazo.

Afinal de contas, se o governo troca parte do crédito ao consumidor pelo crédito ao setor produtivo, ele estará incentivando investimentos privados que, dentre outras coisas, significarão maior crescimento do nível de empregos na economia, formando, assim, um ciclo virtuoso melhor do que o que temos hoje. Isto porque o crédito ao consumidor amplia a liquidez de curto prazo, mas no longo prazo ele significa endividamento ou menor renda futura disponível das famílias, uma vez que determinada parcela do orçamento familiar estará comprometida com o pagamento do empréstimo. Dessa maneira, o melhor dos mundos, como dito acima, é que paulatinamente o governo vá transformando uma parte desse crédito ao consumidor em crédito ao setor produtivo, que é mais sustentável no longo prazo.

Uma boa forma de o governo incentivar esse processo seria o estabelecimento de juros maiores na tomada por empréstimos para pessoas físicas, adotando, em contrapartida, taxas menores para o setor produtivo. Isso ajudaria a frear a escalada inflacionária no curto prazo (pela contenção da demanda das famílias) sem prejudicar o crescimento econômico, já que as empresas, com maior acesso ao crédito a taxas menores, continuariam investindo e contratando. Assim, ao invés das famílias terem uma renda transitória presente em suas mãos (que significa menor renda disponível futura), elas terão uma maior renda permanente, o que é muito mais saudável para a economia como um todo.

Razões para o aumento da taxa básica de juro
É cedo ainda para dizer se a ligeira desaceleração registrada em dezembro pelo IPCA corresponde a uma inflexão de fato na trajetória inflacionária ou se não passa de um mero ajuste frente à progressiva escalada de preços nos meses anteriores. Isto porque ainda não foram divulgados índices conclusivos referentes ao mês de janeiro. Por enquanto, no terreno dos índices de preços, tivemos a divulgação do IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas, que mostrou uma boa desaceleração da inflação; por outro lado, as duas prévias de janeiro do IPC da Fipe mostraram que a aceleração da inflação permanece, pelo menos na região metropolitana de São Paulo, onde é feita a coleta de dados para cálculo do índice. Ou seja, diante desse cenário é melhor permanecer com o sinal “amarelo” ligado.

É certo que esta aceleração não corresponde a um ciclo inflacionário, mas sim a uma bolha. Contudo, um relaxamento da política monetária nesse cenário pode fazer com que efeitos exógenos que aceleraram a inflação nos últimos meses possam ser transmitidos para mecanismos endógenos de formação dos preços, o que aí sim seria perigoso, pois poderia incorrer em um ciclo inflacionário no longo prazo. A questão, portanto, é: não temos ainda um ciclo de inflação, mas se não tomarmos as medidas cabíveis neste momento, poderemos ter. Por isso é mais que justificado um aumento da taxa básica de juro por parte da autoridade monetária. É preciso já no curto prazo tomar medidas para trazer a inflação de volta ao centro da meta.

Embora as expectativas apontem para uma inflação menor em 2011 do que aquela registrada em 2010, as projeções ainda sugerem um crescimento dos preços a um patamar bem acima da meta. De acordo com o relatório Focus, o IPCA deve encerrar este ano com elevação de 5,42%, o que certamente é menor que a inflação de 5,91% auferida em 2010, mas é quase um ponto percentual superior à meta de 4,50%. Vale lembrar que o risco baixo de uma inflação subjacente no curto prazo tende a reduzir as incertezas em relação ao comportamento futuro da inflação plena, tendo reflexos diretos sobre os agentes econômicos, sobretudo, os formadores de preços. Em outras palavras, se a inflação converge para a meta já no curto prazo, as incertezas para o longo prazo são diluídas e a inflação permanece sob controle.

Por esta razão, qualquer aumento da taxa básica de juro neste início de governo – e é praticamente certo que a Selic seja aumentada nesta quarta-feira – deve ser entendido como um movimento de austeridade monetária. Afinal de contas, quem tem mais de 30 anos sabe bem o que significa inflação alta: arrocho salarial para os trabalhadores, redução do poder de compra (já que os salários não absorvem todo aumento do nível de preços) e encurtamento do horizonte de planejamento, tanto das famílias quanto do setor produtivo. Dessa forma, é fundamental promover no curto prazo os ajustes necessários para que a inflação volte a gravitar em torno do centro da meta. Como dito anteriormente, isso não significa comprometer o crescimento econômico, mas tão somente criar condições cada vez mais propícias a um crescimento que se sustente no longo prazo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Formação do novo Ministério: há motivos reais para dúvidas sobre rumo da política econômica?

O processo de escolha do novo Ministério, sobretudo em relação aos nomes que ocuparão as pastas de Economia a partir de 1º de janeiro, parece estar gerando mais discussões fora do que dentro do próprio governo de transição. As especulações, num primeiro momento, eram direcionadas à permanência ou não do atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seu cargo. Após a sinalização na semana passada de que Mantega deverá ser mantido por Dilma à frente da Fazenda, o que pode ser confirmado ainda esta semana, a onda de especulações se volta, agora, para o comando do Banco Central.

Na tarde de segunda-feira, 22, a imprensa começou repercutir boatos de que uma fonte ligada ao governo dava como garantido de que o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não será mantido no cargo pela Presidente eleita, Dilma Rousseff. A razão, segundo esse boato, seria de que Dilma ficou profundamente irritada com uma declaração de Meirelles dada na semana passada, em Frankfurt, na qual ele condicionava sua permanência no Banco Central à autonomia operacional da instituição. Trocando em miúdos, seria como se Meirelles estivesse duvidando que, no governo Dilma, teria a mesma autonomia que teve no governo Lula.

A questão é que esses boatos serviram para criar um frisson no mercado financeiro e deixar os investidores de orelha em pé, a ponto dos contratos de juros futuros negociados na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) sofrerem um ligeiro aumento no final do dia para os vencimentos de mais curto prazo. O próprio periódico britânico Financial Times publicou nestas terça-feira, 23, uma matéria repercutindo essa ansiedade dos investidores pela definição da nova equipe que comandará a política econômica no governo Dilma. De acordo com o FT, “ao nomear Mantega primeiro, dizem os investidores, Dilma sinalizaria um apoio à ala menos ortodoxa do atual governo”.

Compromisso com austeridade monetária
Posto isso, cabe aqui a questão: até que ponto existem motivos reais para essa onda de especulações no mercado? Em primeiro lugar, é importante esclarecer que o posicionamento deste blog em defesa da permanência de Henrique Meirelles à frente do Banco Central. Afinal de contas, Meirelles tem feito uma condução exitosa da política monetária e garantido uma melhora consistente dos fundamentos econômicos do país, através da austeridade com que o BC tem conduzido a taxa básica de juro brasileira. É importante que se diga, por outro lado, que a análise que se segue não é contaminada pelo posicionamento deste blog, uma vez que os sinais emitidos por Dilma são de uma garantia da autonomia operacional da autoridade monetária.

Como bem se sabe, existe uma pressão tanto de natureza econômica quanto política para maiores reduções da taxa de juros no próximo governo. Os benefícios oriundos de uma taxa de juro menor são bastante óbvios: além de contribuir para uma aceleração do investimento privado e, com isso, ampliar a taxa de crescimento econômico e impulsionar a geração de empregos, há também o benefício direto sobre o câmbio. Em um cenário no qual o real está sobrevalorizado em relação ao dólar, uma redução da taxa de juro poderia reconduzir a moeda doméstica a um novo patamar de equilíbrio, no qual ela se estivesse em níveis que não deteriorassem as exportações brasileiras.

Por outro lado, temos que considerar o cenário interno de alta da inflação nos últimos meses, que não dá espaço para cortes abruptos na taxa de juros, pelo menos ao longo dos primeiros meses do governo Dilma. A Presidente eleita tem reforçado sistematicamente seu compromisso com a manutenção do tripé da política econômica: câmbio flutuante, metas de inflação e controle fiscal; e, como experiente economista que é, além de excelente gestora, isso por si só já deveria tranquilizar os mercados. O que se quer dizer aqui é que independentemente da permanência ou não de Meirelles à frente do Banco Central, a austeridade na condução da política monetária deve ser a mesma. E Dilma tem dado sua garantia em relação a isso.

Ou seja: os juros têm que cair sim, mas em um ritmo que não comprometa o equilíbrio geral do nível de preços. E diante das recentes pressões inflacionárias, é muito pouco provável que quem quer que esteja à frente do BC a partir de 1º de janeiro se aventure em promover uma mudança radical na atual forma de conduzir a política monetária. É claro que todos gostaríamos de que a política monetária fosse mais ousada no sentido de reduzir os juros, mas o BC tem a autonomia e responsabilidade de assegurar a convergência da inflação para o centro da meta. E num contexto de aceleração inflacionária, sobretudo da chamada “inflação de baixa renda”, há que se adotar mesmo uma postura mais rígida no que diz respeito à condução dos juros.

Logo, não existem motivos reais para tanta inquietação do mercado em relação aos nomes que integrarão a nova equipe econômica. Seja com Meirelles ou com outro à frente do Banco Central, Dilma já deu todas as garantias de que 1) a autoridade monetária continuará tendo autonomia operacional para decidir os rumos da política monetária; 2) o próximo governo continuará fundamentando a política econômica na manutenção do tripé; e 3) a convergência da taxa de juros para níveis menores ocorrerá de forma gradual, respeitando as condições macroeconômicas, e não à base de “canetadas”. Assim, toda essa especulação que vem sendo feita no mercado parece fruto mais de boatos da imprensa do que de sinais emitidos pelo governo de transição.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Como o governo Lula gerou mais de 12 milhões de empregos formais?



É bastante razoável que avaliemos o desempenho de um governo usando como um dos critérios de análise a geração de empregos obtida no período. Um outro indicador importante seria o equilíbrio macroeconômico desse governo, especialmente no que diz respeito ao controle inflacionário. Por esse prisma, é plausível dizermos que um governo será melhor que outro à medida que gerar mais empregos mantendo um cenário de inflação sob controle.

A afirmação pode parecer estranha se pensarmos na Teoria Econômica de inspiração neoclássica que diz que, no curto prazo, existe um trade-off entre inflação e desemprego, o que é chamado pelos economistas de “Curva de Philipps”. Ou seja, o que a teoria econômica clássica ensina é que os policy makers se defrontam com a seguinte opção conflitiva: se combatem a inflação, aumentam necessariamente o desemprego; e se combatem o desemprego, aceleram a inflação. O que fazer então?

Ora, uma análise mais profunda do governo Lula mostra que as coisas não são bem assim com reza a cartilha clássica da Economia. Isto porque desde o seu início, o governo Lula vem sendo atingindo marcas extraordinárias de geração de emprego dentro de um ambiente de controle inflacionário: ou seja, o emprego é gerado e o equilíbrio macroeconômico segue inabalado, contrariando a curva de Phillips. E mais que isso: os resultados alcançados pelo governo Lula contrariam até mesmo as projeções pessimistas da oposição, feitas ao longo da campanha de 2002.

Mais de 12 milhões de empregos formais
Para se ter uma idéia, de acordo com declaração do Ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), em março deste ano, a geração de empregos formais atingiu um novo recorde no país, superando a marca histórica de 204 mil novas vagas de trabalho. Com a superação desse número, o total de empregos formais gerados pelo governo Lula desde janeiro de 2003, quando teve seu início, atinge um patamar próximo a 12,4 milhões de novas vagas, considerando os dados da Rais e do Caged.

O ministro Lupi projeta, ainda, que até o final deste ano, quando termina o governo Lula, o total de novos postos formais de trabalho deve atingir um valor entre 14 e 15 milhões. Façamos alguns cálculos, considerando o total de empregos formais criados até março deste ano – a saber 12,4 milhões. Com este volume de vagas, a média registrada pelo governo Lula é de 1,55 milhão de novos postos de trabalho formais por ano, desde 2003. Essa média por si só é bem superior ao total de empregos gerados no governo FHC, que foi de aproximadamente 800 mil novas vagas.

Voltemos à calculadora então: com um volume de geração de emprego de 800 mil vagas em 8 anos, o governo FHC teve uma média anual de 100 mil novos postos de trabalho. Isso quer dizer que se levarmos em conta os dados preliminares de março, que apontam para uma geração de empregos acima de 204 mil novas vagas, podemos perceber que em um único mês o governo Lula criou mais que o dobro de empregos da média anual do governo FHC. E tudo isso, dentro de um cenário de controle inflacionário, já que a inflação medida pelo IPCA encerrou 2009 em 4,31%.

Oposição não acreditava na geração de empregos
O êxito alcançado pelo governo Lula no que diz respeito à geração de empregos torna-se mais interessante se relembrarmos o debate eleitoral de 2002. Naquele momento, o então candidato Lula assumia o compromisso de criar em seu governo 10 milhões de novos postos de trabalho, incluindo aqui tanto emprego formal quanto informal. Quando declarou isso, Lula foi criticado por boa parte da imprensa e inclusive pelo seu principal adversário, o ex-ministro da Saúde de FHC e atual pré-candidato (novamente) à Presidência da República, José Serra (PSDB). Serra chegou inclusive a cobrar explicações de Lula, conforme pode ser visualizado em matéria da Folha de S.Paulo daquela época.

Serra declarou ao jornal naquela época que “para frases de efeito, o Lula é craque. Precisa mostrar que é craque em como fazer e isso ele ainda não mostrou”, também dizendo que Lula teria que explicar “questões como a criação de empregos”. Como será que hoje, oito anos depois, o pré-candidato Serra avalia essa criação de empregos feita pelo governo Lula? Será que o êxito do governo Lula em criar não apenas 10 milhões (entre formais e informais) e sim 12,4 milhões de empregos formais até o momento, responde ao Serra?

Muitas vozes da oposição e da imprensa podem dizer que Lula conseguiu esse êxito por ter seguido a mesma política econômica de FHC. Ora, mas se Lula seguiu o mesmo receituário, como gostam de dizer erroneamente os opositores, por que FHC criou apenas 800 mil vagas de trabalho em seu governo? Se a política econômica foi a mesma (e sabemos que não foi), então FHC também tinha que ter criado milhões de novos empregos. Mas, naturalmente, a oposição prefere se comportar como a avestruz, enfiando a cabeça no chão e fazendo de conta que nada aconteceu.

Projeto político do governo Lula foi fundamental
O que devemos atentar é que essa extraordinária geração de empregos alcançada no governo Lula foi fruto de um projeto de desenvolvimento para o país totalmente distinto do projeto tucano. O governo Lula, ao contrário do tucanato, deu ao Estado o papel de planejar e induzir os investimentos, através de políticas públicas transversais, como o PAC, que contribuíram para a geração de empregos. Aliado a isso, os incentivos dados pelo governo através da concessão de novas linhas de financiamento para o setor privado também foram decisivos.

E, naturalmente, não podemos esquecer que a política de valorização da renda, através dos ganhos reais no salário mínimo, e também as políticas de transferência de renda impulsionaram o consumo – sem, contudo, elevar a inflação -, favorecendo, assim, o setor de serviços e o comércio em geral. Dentro de um contexto de estabilidade econômica e perspectivas otimistas para a economia, o setor privado sentiu-se à vontade para ampliar o nível de investimentos ao longo desse período, o que acabou resultando em novos postos de trabalho com carteira assinada.

O que se percebe com tudo isso é que o êxito da política de criação de empregos do governo Lula está diretamente relacionado com o projeto político desenvolvido ao longo destes 8 anos, que coloca o Estado como indutor do investimento e ao mesmo tempo favorece a expansão dos investimentos privados. Para os oposicionistas que achavam surreal quando Lula dizia que criaria 10 milhões de novos empregos em seu governo, resta apenas admitir o êxito desse projeto. Afinal de contas, nem o mais idiota dos opositores pode negar que o Brasil avançou muito nesta questão ao longo do governo Lula!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Expansão do investimento deve impulsionar PIB em 2010, aponta Ipea

Passados os efeitos da crise, a economia brasileira deve apresentar crescimento vigoroso este ano. É o que aponta o Sensor Econômico, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas) nesta quinta-feira, 25 de março. De acordo com a mediana das projeções do setor produtivo, o PIB brasileiro deve registrar um crescimento de 5,2% em 2010.

Esse bom desempenho do PIB deve ser impulsionado, sobretudo, pela expansão do nível de investimento privado (formação bruta de capital fixo), que deve ficar na casa dos 12,1%, segundo o documento do Ipea. É importante destacar o investimento é o principal indicador de confiança do setor produtivo na economia: um nível de crescimento desta magnitude revela que os empresários estão confiantes no cenário econômico.


Mais empregos e inflação sob controle
A elevação do investimento ocorre, neste sentido, paralelamente a um crescimento do nível de emprego. As projeções coletadas pelo Ipea apontam para a criação de 1,5 milhão de novas vagas de emprego formal, mostrando o quanto o setor produtivo encontra-se otimista com o cenário econômico. Ou seja: as firmas devem ampliar mais o seu capital fixo e elevar também o número de contratações.

Este crescimento, impulsionado pelos maiores investimentos e pela criação de novos postos de trabalho, deve se dar de uma forma sustentável, sem ocasionar repiques inflacionários. De acordo com o Sensor Econômico, a mediana das expectativas do setor produtivo aponta para uma inflação medida pelo IPCA de 4,7% em 2010, o que representa um nível bastante satisfatório.

Excelente desempenho do setor externo
O setor externo também deve apresentar um bom desempenho, com as exportações atingindo US$ 170 bilhões em 2010. Enquanto isso, as importações deverão somar US$ 155 bilhões neste ano, de acordo com as expectativas. Com isso, considerando as medianas dos agentes do setor produtivo, a balança comercial brasileira deve encerrar 2010 com superávit de US$ 15 bilhões.

A taxa de câmbio, por sua vez, deverá encerrar o ano em R$ 1,89 por dólar, apontam as projeções. Percebe-se, dessa maneira, que o cenário econômico deve ser muito bom neste ano e que o setor produtivo aposta em um melhor desempenho da economia brasileira do que o registrado em 2009. Isso mostra que a condução da política macroeconômica pelo governo federal está sendo acertada.

Sobre o Sensor Econômico
O Sensor Econômico, pesquisa feita pelo IPEA nos meses de fevereiro, abril, junho, agosto, outubro e dezembro, expressa o que prevê para a conjuntura macroeconômica entidades que se caracterizam como de indústria, de comércio, de serviços e de agropecuária. Também respondem à pesquisa algumas entidades de trabalhadores e uns poucos institutos e centros de estudos setoriais.

Participam da pesquisa 85 entidades. As entidades fornecem projeções para o comportamento no ano corrente das principais variáveis macroeconômicas, como o PIB, inflação e emprego.