quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quando até a velha imprensa admite cenário de favoritismo para Dilma

A infindável demora para escolha do vice de José Serra e a crise instaurada em sua base de apoio, em decorrência dos desentendimentos entre DEM e PSDB na última semana, deram à campanha da oposição um ar de derrota prenunciada. No entra e sai de vices para Serra, uma coisa parece certa: a escolha de Índio da Costa, deputado federal pelo DEM-RJ em seu primeiro mandato, ocorreu muito mais no sentido de ceder às pressões do DEM pela vaga da vice do que um desejo propriamente dito de Serra. Basta lembrar que, antes da escolha, o candidato tucano só tinha visto o seu atual vice uma única vez.

E o interessante, terminado todo esse processo esquizofrênico de escolha do vice de Serra, que nem a tradicional imprensa, acostumada a apoiar incondicionalmente a oposição, conseguiu esconder o que já é bastante óbvio: que a campanha tucana vai de mal a pior. Dois grandes jornais a serviço do demo-tucanato – a Folha de São Paulo e O Globo – trouxeram nesta quinta-feira, 1º de julho, análises que mostram o que as pesquisas de intenções de voto têm traduzido em números: um cenário de amplo favoritismo para a candidatura da petista Dilma Rousseff. A saber, tanto Ibope quanto Vox Populi mostram a ex-ministra com 40% das intenções de voto, à frente do tucano, que tem 35%.

Artigo do Globo admite que situação de Serra pode piorar
De acordo com a análise do cientista político Murillo de Aragão, reproduzida no Blog do Noblat nesta quinta-feira, “a situação, ao final de junho, confirma as expectativas que tínhamos tanto quanto ao desempenho de Dilma quanto ao seu favoritismo. No momento, as melhores chances de Serra estão em levar a disputa para o segundo turno e tentar reverter a liderança de Dilma, cooptando votos que irão para Marina Silva no primeiro turno”. Nas entrelinhas podemos perceber que há um pessimismo não declarado em relação à candidatura de Serra: ainda que ele consiga levar a disputa para o segundo turno, ele terá que batalhar pelos votos que foram dados a Marina e ainda não se sabe quais são as chances dele receber de fato esses votos.

Aragão destaca como pontos positivos para a candidatura governista o fato de que “o PMDB fechou com Dilma e a coalizão resolveu o principal problema de entendimento entre os partidos em Minas Gerais. O PP – após flertar com Serra – decidiu pelo apoio informal a Dilma. Vinte diretórios do partido vão apoiar a candidata governista. Aécio Neves não topou a candidatura a vice na chapa com Serra. Pior, a escolha se arrastou por junho e terminou em conflito entre o PSDB e o DEM. Ainda a favor de Dilma, a popularidade de Lula é ampla e sólida, e o desempenho da economia continua muito positivo”. O artigo salienta também que “José Serra, pelo seu lado, além de perder a liderança, provocou um conflito com o DEM pela escolha de Álvaro Dias (PSDB/PR) para ser seu vice”.

E se o leitor pensa que o artigo do Globo admite chances de Serra voltar à liderança, engana-se. A análise do cientista político Murillo de Aragão sentencia que “aparentemente, a situação ainda pode piorar para Serra ao longo de julho. Após a Copa do Mundo, o Brasil se voltará com mais atenção para o processo eleitoral. Com a campanha oficialmente em curso, Lula poderá ser mais enfático em seu apoio a Dilma. Ou seja, sem fato novo e extraordinário, as tendências apontam para a consolidação da liderança de Dilma na abertura oficial da campanha”. Jogando uma pá de cal na esperança da oposição, Aragão destaca que “historicamente, quem lidera a pré-campanha tende a ganhar as eleições. Foi assim desde a eleição de Fernando Collor. De acordo com o Ibope, Dilma estaria a 3,3 pontos de liquidar a campanha em primeiro turno. O que antes parecia impossível, já passa a ser possível, ainda que não seja provável”.

Na Folha, Josias de Souza critica erros do PSDB
E até a Folha de São Paulo, quem diria, não poupou críticas à condução da campanha demo-tucana. O jornalista Josias de Souza publicou um texto nesta quinta-feira chamando a condução da escolha do vice por Serra de um “processo de autofagia cibernética”, afirmando que “envolto em atmosfera de volúpia e traição, o presidenciável tucano converteu a escolha de seu vice num striptease autofágico”. A massiva exposição da crise na base de apoio de Serra pesou, segundo Josias de Souza, de forma negativa sobre os rumos da campanha oposicionista. O jornalista lembrou como as relações entre DEM e PSDB foram abaladas e a dimensão que o fato ganhou sendo exposto na internet.

“Com a alcova sob holofotes, Serra portou-se com inocência inaudita. Imaginou que o DEM aceitaria o papel de mulher traída que evita um rompimento em nome da integridade da família. Esqueceu-se de que lidava com uma sigla que assumiu o poder logo após as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportarem em Porto Seguro”, anunciou o artigo de Josias de Souza, para em seguida dirigir suas críticas de forma mais veemente à forma com a qual Serra conduziu todo o processo. Chamando o PSDB de “uma agremiação de amigos integralmente composta de inimigos”, Josias de Souza afirmou que “o DEM é um partido razoavelmente coerente” se comparado aos tucanos.

Segundo Josias de Souza, “dono de estilo ‘indiocentrista’, Serra imaginou-se capaz de trafegar pela selva de sua coligação com distanciamento de antropólogo”. E assim como o cientista político Murillo de Aragão sentenciou em seu artigo publicado no Globo, Josias de Souza revelou um pensamento similar, ao dizer que “no Big Brother do tucanato, os morubixabas do DEM levaram Serra não ao paredão, mas ao caldeirão. Obrigaram-no a regurgitar Álvaro Dias e atravessaram-lhe Indio da Costa na traqueia. De erro em erro, Serra virou uma espécie de bispo Sardinha da era da internet. Em autofagia pública, foi mastigado pelos caetés do DEM à luz do twitter”.

Percebe-se, dessa maneira, que a cinco dias do começo oficial da campanha, marcado para 6 de julho, a própria imprensa, que sempre procurou dar sobrevida à campanha demo-tucana, mesmo em seus piores momentos, parece ter perdido seus argumentos. Talvez até mesmo porque se insistisse muito na idéia de que tudo vai bem para a oposição, além de perder a campanha política poderia perder mais ainda sua credibilidade. Não é exagero, neste sentido, afirmar que se a própria velha imprensa admite um cenário nebuloso para a campanha de Serra é porque de fato as coisas para a oposição estão piores do que eles gostariam que estivessem.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Entenda o escândalo da merenda do Rio no qual esteve envolvido o vice de Serra

Embora tenha ganhado projeção por ter sido um dos relatores do Projeto Ficha Limpa, o deputado federal Índio da Costa (DEM-RJ), oficializado nesta quarta-feira, 30, como vice de José Serra, não é unanimidade nem dentro do próprio PSDB. Alvo de investigações da CPI da Merenda Escolar do Rio de Janeiro, que apura irregularidades em contratos de fornecimento de alimentos para escolas da rede municipal do Rio durante sua gestão como Secretário da Administração Municipal (2001-2005) no governo César Maia, Índio da Costa não teve sua indicação bem recebida por muitos tucanos, entre eles a vereadora do PSDB-RJ, Andréa Gouvêa Vieira.

Andrea foi relatora da CPI da Merenda Escolar e, em dezembro de 2006, apresentou seu relatório sugerindo que o ex-Secretário da Administração Municipal Índio da Costa fosse responsabilizado civil e criminalmente pelas licitações duvidosas ocorridas sob sua gestão. Nesta quarta-feira, quando soube da indicação do ex-secretário para vice de Serra, a vereadora tucana, em seu segundo mandato, reagiu negativamente. Neste sentido, Andréa Gouvêa declarou, ao portal de notícias R7: “o que eu penso do candidato Índio da Costa está refletido neste relatório da CPI. Houve direcionamento no resultado da merenda escolar. A conduta dele não é uma conduta de Ficha Limpa”.

A vereadora ainda acrescentou que Índio da Costa “é uma pessoa que é arrogante, prepotente, que aqui no mundo político do Rio de Janeiro não é popular, um nome que poucos sabem quem é e tem dificuldade de transitar”. Gouvêa ainda afirmou: “não consigo ver como ele agrega. Até poderia dizer que, nesses circunstâncias, é um nome que não cheira, nem fede. Para mim fede. Ele não é um nome sem rejeição, ele tem rejeição”. Abaixo, transcrevemos o histórico da CPI da Merenda Escolar, que teve como um dos principais alvos o atual vice de Serra, e que foi relatava exatamente pela vereadora Andréa Gouvêa. A instalação da CPI ocorreu em junho de 2005, mas as audiências públicas começaram apenas em agosto de 2006. Os trechos a seguir são do site da vereadora Andréa Gouvêa:

"Audiência do dia 21 de agosto de 2006
Está em andamento, na Câmara de Vereadores, uma CPI que investiga supostas irregularidades na licitação para a compra da merenda para as escolas da Prefeitura. Logo na primeira audiência pública, no dia 21 de agosto, os depoentes denunciaram inabilitações irregulares feitas pela comissão de licitação. Denunciaram também a transferência dos envelopes de preços, que foram depositados em um cofre na mesma sala do 9o andar, onde se reuniram para a entrega dos documentos, para o andar de cima, junto ao gabinete do secretário de Administração, além de valores díspares para driblar a concorrência. Três das quatro empresas participantes da audiência levantaram a suspeita de que houve favorecimento da Comercial Milano, que usou a estrutura do Frigorífico Calombé, que não poderia concorrer, por estar inscrito na Dívida Ativa - as duas empresas pertencem a integrantes da mesma família.


Maurício Gomes Pacheco, da Aliforte, afirmou que a Milano ofereceu preços muito discrepantes para um mesmo produto, com os maiores em áreas onde não havia concorrentes e menores onde existiam outras propostas. A relatora da CPI, Andrea Gouvêa Vieira, comparou o sucesso da Milano, que conseguiu 76% dos contratos, ao ganho de uma Mega Sena, com acertos de cerca de 80% dos preços, de um total de 170 grupos. Os empresários Carlos Rosemberg de Aguiar, da Ovos Aguiar, e Darlan Thebas,da Express Food, relataram um atraso de duas horas na abertura dos envelopes de preços - fato que não constou na ata da licitação.

Eles também estranharam que documentos não estavam mais no cofre do 9º andar,onde foram guardados, e foram trazidos pelas mãos do presidente da comissão,Renato Tinoco.
Um único depoente, o representante comercial da Ermar Alimentos, Wanderley Ramos,não trouxe informações, alegando esquecimento. A empresa que ele representa, mesmo depois de ser inabilitada pela comissão de licitação, entrou com recursos para desqualificar outras empresas. Foi convocado a voltar a depor, com um dos proprietários da Ermar, também da família dos proprietários da Milano.

Audiência do dia 28 de agosto de 2006
Na segunda audiência da CPI da Merenda o presidente da comissão de licitação, Renato Tinoco, da Secretaria Municipal de Administração, alegou estar apoiado em parecer da Procuradoria Geral do Município (PGM), quando a relatora Andrea Gouvêa Vieira questionou a habilitação da empresa Milano na concorrência. A Milano usa instalações mão-de-obra do Frigorífico Calombé, que não poderia ser contratado pela Prefeitura por estar inscrito na Dívida Ativa. Quando a vereadora pediu para verificar o parecer da PGM que estava nas mãos de Tinoco, constatou que o documento que ele lera na audiência não tratava da relação das empresas Milano e Calombé, cujos proprietários são parentes.

A vereadora flagrou o blefe de Tinoco, que fingiu ler um parecer positivo da PGM, que daria respaldo a sua decisão. Renato Tinoco também se contradisse, ao afirmar que a abertura dos envelopes com propostas começou por volta de 10:30h, quando todos os representantes de empresas constataram que o ato começara com duas horas de atraso - o que consta na ata da reunião. Ele justificou a demora por não ter encontrado a chave da sala do cofre. Outra situação constrangedora aconteceu quando Tinoco tentou explicar porque o cofre onde estavam os envelopes foi para o andar do gabinete do então secretário de Administração, Índio da Costa. Primeiro disse ser por medida de segurança; em seguida, minimizou o fato, afirmando que não fazia diferença o andar onde o cofre estava.


Na mesma sessão da CPI, outras empresas acusaram a comissão de licitação da merenda de desclassificação irregular, favorecendo a Comercial Milano, como o representante da Home Bread, Antonio Carlos de Oliveira. Já o representante da Agrigel, Jorge Rodrigues, disse que sua empresa foi inabilitada porque apresentou certificado de inspeção sanitária de Nilópolis e Nova Iguaçu. Segundo Renato Tinoco, a desclassificação obedeceria a lei estadual. Ele, no entanto, não explicou porque a Milano não sofreu a mesma punição, já que ela apresentou o certificado de inspeção de Duque de Caxias, município onde fica a sede da empresa. Jorge Rodrigues entregou à CPI cópias de cartas que denunciavam a licitação - e que foram enviadas ao prefeito Cesar Maia, à Controladoria-Geral do Município e à Secretaria de Educação, sem ter tido qualquer resposta.

Audiência do dia 04 de setembro de 2006
Na audiência do dia 04 de setembro, Maria de Fátima França, diretora do Instituto de Nutrição Annes Dias não soube identificar a diferença dos certificados de inspeção sanitária dos veículos usados para a distribuição dos alimentos nas escolas, emitidos pela Vigilância Sanitária dos municípios de Nilópolis, Nova Iguaçu e Duque de Caxias. Foram exatamente certificados como esses que foram usados como argumento para desclassificar empresas. Maria de Fátima, que fez parte da comissão de licitação, também disse não se lembrar dos critérios usados pela comissão para rejeitar os recursos impetrados por algumas das empresas desclassificadas. O diretor de Infra-Estrutura da Secretaria de Educação, José Mauro Silva, disse que alguns problemas na entrega de material nas escolas são resolvidos pelos pelas próprias diretoras e não entram nas estatísticas oficiais do órgão que dirige.

Depois de ter afirmado na primeira audiência da CPI que não conhecia a Milano, o representante da Ermar Alimentos, Weanderley Ramos Coelho, ficou surpreendido quando a vereadora Andrea Gouvêa Vieira disse ter conhecimento de que ele trabalhara por algum tempo na empresa. Constrangido, ele confessou que depois de a Ermar ter sido eliminada da concorrência, realmente pediu para representar também a Milano, para compensar perdas financeiras pessoais. O dono da Ermar, Jorge de Luca disse que apesar de sua empresa ter sido desclassificada pela Vigilância Sanitária, entrou com liminar para reverter sua situação e, para ganhar tempo, pediu a eliminação de outras concorrentes. Dizendo-se parente distante dos donos da Milano, empresa vencedora de 76% da licitação, no valor de R$ 70 milhões, alegou pouco saber dos negócios da família.

Sessão de 11 de setembro de 2006
Na quarta audiência pública da CPI da Merenda, o Controlador Geral do Município, Lino Martins Silva, confirmou aos vereadores que os preços estabelecidos pela licitação da Prefeitura têm como parâmetro a tabela fornecida quinzenalmente pela Fundação Getúlio Vargas, e publicada no Diário Oficial do Município. Essa tabela é baseada em pesquisas de preços de alimentos à venda no atacado e no varejo, no Município do Rio de Janeiro. A metodologia aplicada nesses levantamentos, disse, é a que consta em contrato com a Prefeitura. O controlador disse que nunca questionou as pesquisas da FGV. Lino Martins Silva também disse ter sabido pela imprensa das denúncias de que a Milano subcontratou o Frigorífico Calombé, impedido de fornecer alimentos à Prefeitura por estar inscrito na Dívida Ativa do Município.


Apesar de, no contrato entre as empresas estar claro que o frigorífico estocaria, manipularia e embalaria os alimentos, a Milano aparece como simples inquilina da Calombé. O problema, segundo Lino Martins Silva, é jurídico e, por isso, não foi controlado por ele. A Controladoria também não leva em conta as diferenças de preços de um mesmo produto, que tem desconto de 3% numa área onde apareceram outros concorrentes e 35% onde entrava só, mesmo em escolas vizinhas. Para ele, ambos estão dentro dos valores da licitação e dependem da logística de entrega, não cabendo à Prefeitura esse questionamento. A agente administrativa da Secretaria de Administração e também membro da Comissão de Licitação, Luciana Cândida da Rosa Paiva, ouvida em seguida, soube apenas descrever como foi feita a reunião, não trazendo qualquer esclarecimento sobre as denúncias que estão sendo investigadas.

Vagner Ardeo, da Fundação Getúlio Vargas, explicou aos vereadores a metodologia usada para levantar os preços da Prefeitura, lembrando que também nunca discutiu os critérios usados nas pesquisas, que estão no contrato vigente com a Prefeitura há 12 anos. A audiência foi encerrada com o depoimento de Maria de Lourdes de Souza Moreira, da Vigilância Sanitária, que também não trouxe novos esclarecimentos à CPI.

Audiência do dia 18 de setembro de 2006
Na quinta audiência da CPI que investiga irregularidades na licitação da merenda escolar, três depoimentos demonstraram o descaso e o despreparo da Prefeitura para tratar do fornecimento da alimentação às escolas. Um fato que poderia ter desqualificado a maior vencedora da licitação, a Comercial Milano, que fechou contrato de R$ 75 milhões para o fornecimento de gêneros da merenda, surgiu quando Carmelo de Luca Neto, sócio da empresa, contou que, além de alugar imóvel do Frigorífico Calombé, que é de parentes seus, também aluga um imóvel do Frigorífico Tuiuti, cujo contrato e a documentação não aparecem na licitação, o que seria obrigatório, como outros documentos que comprovem sua capacidade técnica para realizar o serviço de manipulação e armazenamento de alimentos.

Outra falha grave, surgiu no depoimento de Salvador de Luca, diretor do Frigorífico Calombé, quando Andrea indagou sobre o contrato entre sua empresa e a Milano. Salvador de Luca admitiu que o valor era irrisório, por ser acordo entre parentes, mas estranhou quando viu que, pelo contrato, cedera a totalidade da área da sua empresa à Milano. Esse "equívoco" seria suficiente para desqualificar a Milano na licitação, caso a Prefeitura tivesse tido o cuidado de analisar atentamente os documentos exigidos pelo edital.

Audiência do dia 06 de outubro de 2006
Mostrando irritação, o vereador Índio da Costa acusou os perdedores da licitação, que beneficiou a empresa Milano, de formação de cartel. Indagado por Andrea Gouvêa Vieira - relatora da CPI - sobre que providência tomara a respeito do suposto cartel, disse que havia encaminhado a denúncia à Delegacia Fazendária. Mas Andrea lembrou que ele não o fez formalmente, e só falou meses depois, quando depôs a respeito do caso na própria Delegacia Fazendária. A suspeita da possibilidade de a Milano ter tido condições privilegiadas no processo de licitação também ficou evidenciada no depoimento do sócio da empresa, José Mantuano de Luca Filho.

Sobre um documento que comprova o acesso de representante da Milano aos papéis da concorrência, que foi apresentado durante seu depoimento, ele disse tratar-se de carta antecipando o pedido de vistas à documentação das adversárias. A relatora, porém, o desmentiu, mostrando que o ofício não era de consulta ao processo, mas a confirmação do conhecimento da documentação desejada, já que o texto, datado de sete dias antes do anúncio oficial das empresas inabilitadas para a licitação, dizia, textualmente: "Tive vistas". O atual secretário de Administração, Wagner Huckleberry Siqueira, disse que está implementando uma modalidade alternativa de licitação, o chamado "pregão presencial".

Nos pregões, que têm a forma de leilão, as três empresas que apresentam as melhores propostas participam de uma nova rodada na disputa,tendo a chance de baixar ainda mais os seus preços. Além disso, as eventuais inabilitações decorrentes do exame da documentação das empresas ocorrem numa fase posterior à da apresentação dos preços, garantindo um menor custo para os cofres municipais. A respeito da economia de 7,2% que a Prefeitura alegou ter conseguido na licitação de 2005, Wagner Siqueira disse que é preciso avaliar a referência dos preços das mercadorias, uma vez que se eles estiverem muito altos, esses descontos não significarão grande coisa, o que precisa ser levado em conta".

Relatório do dia 12 de dezembro de 2006
O relatório de Andrea Gouvêa Vieira foi votado e aprovado na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro no dia 12 de dezembro de 2006, revelando um prejuízo de R$ 11 milhões aos cofres públicos do Rio de Janeiro. Para ter acesso a mais detalhes sobre o relatório, que como dito anteriormente sugere a responsabilização civil e criminal de Índio da Costa pelos procedimentos duvidosos na compra da merenda escolar durante sua gestão na Secretaria da Administração Municipal do Rio, clique aqui. Percebe-se, dessa maneira, que a escolha do vice de Serra ainda deve dar muito o que falar, haja vista que segundo os próprios tucanos cariocas Índio da Costa não é tão ficha limpa quanto se pensa, conforme declarado pela vereadora Andrea Gouvêa nesta tarde.

Certamente, o fato de Índio da Costa ser jovem e ter base eleitoral no terceiro maior colégio eleitoral do país devem pesar bem menos, ao longo dessa campanha, do que as denúncias envolvendo seu nome do esquema de superfaturamento da merenda escolar na rede municipal do Rio de Janeiro. Agora é esperar para conferir.

Para resolver crise, Serra cede ao DEM e escolhe vice envolvido na CPI da Merenda do Rio

Após o impasse criado pela reação do DEM à indicação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice do candidato tucano José Serra, na última sexta-feira, 25, ampliaram-se os esforços da cúpula do PSDB e também do DEM para chegar a um acordo consensual sobre a questão. Assim, desde segunda-feira lideranças dos dois partidos estiveram reunidas por longas horas, sendo que o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi chamado na terça-feira para ajudar a apagar o incêndio na base de apoio a José Serra. Até esta madrugada, nada havia sido definido, embora a proximidade do esgotamento do prazo final para definições de chapa exigisse decisões urgentes.

Consta que durante a madrugada o nome do deputado federal do DEM pelo Rio de Janeiro, Índio da Costa, começou a ser construído, em uma reunião em que estavam presentes o presidente do DEM, Rodrigo Maia, o prefeito de São Paulo, também do DEM, Gilberto Kassab e o próprio candidato José Serra. Pouco a pouco a oposição começou a formar consenso em torno no nome do deputado federal carioca que atualmente tem 40 anos de idade e que ganhou destaque após a relatoria do projeto Ficha Limpa na Câmara dos Deputados neste ano. Assim, logo no início das tarde desta quarta-feira, 30, o nome de Índio da Costa foi anunciado oficialmente como vice de José Serra, revogando, assim, a indicação de Álvaro Dias.

Segundo a oposição foram três fatores que permitiram o consenso em torno do nome de Índio da Costa: 1) o fato dele ter sido articulador para aprovação do Projeto Ficha Limpa este ano na Câmara dos Deputados; 2) o fato dele ser jovem; e 3) o fato dele ter sua base eleitoral no 3º maior colégio eleitoral do Brasil, o Rio de Janeiro. Índio da Costa está no seu primeiro mandato como deputado federal, tendo sido eleito em 2006 com pouco mais de 91,5 mil votos, o que corresponde a 1,1% dos votos totais do estado do Rio de Janeiro. Vale destacar que, dentre os quatro deputados federais que o DEM (na época PFL) elegeu pelo Rio em 2006, Índio da Costa ficou em penúltimo lugar da legenda, atrás do Presidente do DEM, Rodrigo Maia, que alcançou 235 mil votos e de Solange Amaral, com 101 mil votos.

Índio da Costa é casado com Rafaella Cacciola, filha do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, que foi o pivô do escândalo Marka-FonteCindam, em janeiro de 1999, no então governo FHC. O vice escolhido por Serra teve o seu primeiro mandato parlamentar em 1996, quando foi eleito vereador do Rio de Janeiro e, em 2001, na gestão do prefeito César Maia (DEM) ocupou o cargo de Secretário da Administração da Prefeitura. Foi durante sua gestão como Secretário da Administração Municipal que ocorreu o escândalo do superfaturamento da merenda escolar no Rio de Janeiro. Abaixo postamos o texto retirado do site da vereadora Andrea Gouvêa (PSDB-RJ), que foi relatora da CPI da Merenda. A consulta ao site da vereadora foi feita por volta das 15 horas desta quarta-feira, 30.

Relatório da CPI da Merenda conclui que licitação prejudicou os cofres públicos
O relatório de Andrea concluiu que a licitação para a compra de gêneros alimentícios para a merenda, entre julho de 2005 e junho de 2006, realizada pela Secretaria Municipal de Administração e pela Secretaria Municipal de Educação, no valor de R$ 75.204.984,02, causaram prejuízo aos cofres públicos. 99% do fornecimento ficaram concentrados numa única empresa, a Comercial Milano, que apresentou uma engenhosa combinação de preços em suas propostas. A licitação ocorreu num único dia, mas foi dividida 10 coordenadorias de educação (CREs). O “curioso” foi que esta empresa ofertou preços diferentes para o mesmo alimento. O preço do frango da proposta da Milano, por exemplo, para Santa Cruz, era cerca de 30 % mais caro do que o preço ofertado para Campo Grande.

Detalhe: em Santa Cruz a Milano não teve concorrentes e em Campo Grande sim. Como ela soube da falta de concorrentes, um mistério. E a Prefeitura aceitou isso! Pagou à mesma empresa, pela mesma mercadoria, preços muito diferentes. Essa foi a característica geral dessa licitação: uma combinação de preços que otimizaram os ganhos de uma única empresa fornecedora em prejuízo dos cofres públicos. Na primeira parte do relatório, a CPI concluiu que o então Secretário de Administração, Índio da Costa, deveria ter cancelado a licitação porque as regras do edital levaram a um resultado que contrariou o objetivo inicial de atrair dezenas de pequenos comerciantes locais a vender para as escolas dos bairros, descentralizando o fornecimento, e pelo melhor preço. Ao contrário, a licitação acabou por provocar a maior concentração de entrega de gêneros alimentícios na história da merenda escolar.

Como evidência incontestável do prejuízo aos cofres públicos, o relatório revelou que o pregão presencial adotado depois da instalação da CPI pelo sucessor do Secretário Índio, um ano depois, possibilitou uma economia de cerca de R$ 11 milhões na compra da mesma merenda escolar. Durante o processo licitatório, segundo o relatório da CPI, foram identificadas diversas irregularidades no registro das atas das reuniões de entrega, abertura e verificação de documentos. Chamou a atenção o fato de a empresa Milano ter sido a única a ter acesso aos documentos das empresas concorrentes ainda durante o período em que a Comissão de Licitação analisava a documentação dia 23 de março de 2005, enquanto os pedidos de vista das demais só ocorreram após o dia 31 do mesmo mês, quando já havia sido anunciado o julgamento dos documentos.

Uma das empresas eliminadas - a única que conseguiu na Justiça liminar para que a Secretaria de Administração não destruísse sua proposta de preços - mostrou, quase um ano depois, quando a Justiça obrigou a abertura do envelope, que se não tivesse sido desabilitada, teria vencido a Milano em vários quesitos, com condições mais vantajosas para o Município. A Prefeitura não conseguiu demonstrar, de forma objetiva, como a empresa Milano conseguiu um resultado tão favorável. A única explicação dada pelo
então Secretário de Administração, Índio da Costa, e pelos diretores da Milano, de que o acerto se deu em virtude do estudo das concorrências anteriores, levou a CPI a duas conclusões:

1- Se era possível antecipar resultados, houve falha nas regras do edital.

2- Se a Administração municipal aceitou pagar, pelo mesmo produto, preços significativamente diferenciados, sem que houvesse uma explicação objetiva para esse fato - custo de logística, por exemplo - não cumpriu um dos preceitos da licitação que é comprar pelo menor preço.

As duas conclusões deveriam ter levado a Secretaria de Administração a, obrigatoriamente, cancelar a licitação. Na segunda parte do relatório apresentado pela vereadora Andrea Gouvêa Vieira, a CPI concluiu que houve omissão, negligência e despreparo na fiscalização do contrato assinado com a empresa Milano, que reiteradamente entregou, durante todo o ano, carne bovina e frango fora das condições exigidas, trazendo complicações ao funcionamento já precário de muitas escolas, dificultando o preparo das refeições, e, em muitas ocasiões reduzindo a quantidade de alimento, principalmente carne e frango, no prato das crianças. Depoimentos de merendeiras e o relatório das visitas às escolas feito pelo Conselho de Alimentação Escolar (CAE), enviado à CPI, comprovaram a omissão da Secretaria de Educação que, apesar da continuada e permanente reclamação das escolas, não se posicionou de forma adequada para exigir o cumprimento do contrato.

Ao contrário, disse a CPI, o total de multas, de R$ 8.330,28, ao longo do ano, num contrato de R$ 75 milhões, claramente induziu a empresa Milano a insistir na entrega do alimento fora dos padrões contratuais, diante de tão pequena penalização. Documento em poder da CPI revelou que auditoria da Controladoria Geral do Município responsabilizou a Secretaria de Educação pela fragilidade no acompanhamento da execução do contrato, vindo ao encontro das conclusões da CPI. O documento propôs as devidas ações para responsabilização civil e criminal dos infratores, em especial dos dois secretários - de Administração e de Educação, principais responsáveis, no mínimo, pela relapsia no trato da coisa e do dinheiro públicos. O primeiro, Índio da Costa, ao homologar uma licitação cujo resultado era evidentemente contrário ao interesse da administração; e a segunda, Sonia Mograbi, ao negligenciar por completo a fiscalização da execução do contrato.

“Em ambos os casos, é de ser aferida tanto a responsabilidade pessoal dos secretários quanto a dos agentes a eles subordinados, quer na condução da licitação, que levou à elaboração do contrato, no caso da SMA, quer na fiscalização e acompanhamento da sua execução, no caso da SME”. Além do Ministério Público Estadual, a CPI encaminhou o relatório ao Ministério Público Federal, uma vez que parte dos recursos da merenda escolar são repasses de verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Também foram encaminhadas cópias do relatório à Delegacia de Polícia Fazendária, ao Tribunal de Contas do Município e à Prefeitura do Rio.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vox Populi confirma dianteira de Dilma, com quase o dobro de votos de Serra no Nordeste

Em sintonia com a pesquisa CNI/Ibope divulgada na semana passada, o Instituto Vox Populi divulgou nesta terça-feira, 29, seu levantamento referente à disputa presidencial, mostrando liderança da candidata do PT Dilma Rousseff. De acordo com a Vox Populi, Dilma lidera a corrida presidencial, com 40% das intenções de voto, abrindo uma vantagem de 5 pontos percentuais sobre seu principal oponente, o tucano José Serra, que pontuou 35%. Em relação ao levantamento anterior, realizado em maio, a petista avançou 2 pontos percentuais, enquanto o tucano permaneceu estável.

A candidata do PV, Marina Silva, também ficou estável frente ao levantamento de maio, com 8% das intenções de voto. Brancos e nulos somaram 5%, ao passado que os eleitores indecisos ficaram em 11%, segundo os dados divulgados pelo levantamento. É interessante destacar que na pesquisa espontânea, ou seja, naquela onde o eleitor declara o seu voto sem ter acesso a uma lista de nomes, Dilma também leva a melhor, sendo lembrada por 26% dos entrevistados, contra 20% de Serra. No cenário de segundo turno entre Dilma e Serra, a petista também leva a melhor, com 44% das intenções de voto, contra 40% do tucano.

Dilma tem liderança isolada no Nordeste
Se analisarmos o corte regional da pesquisa Vox Populi poderemos constatar que a candidata do PT amplia sua vantagem no Nordeste, onde alcança 52% das intenções de voto, o que dá a ela quase o dobro dos votos de Serra, que tem 27% na região. Na região Norte, a petista também leva a melhor, com 39% das intenções de voto, contra 33% do ex-governador de São Paulo. No Centro-Oeste, por sua vez, os candidatos encontram-se empatados, com o tucano registrando 42% das intenções de voto e a ex-ministra 41%, de acordo com os dados do levantamento.

Já na região Sul, Serra mantém a liderança, com 44% das intenções de voto, uma vantagem de 11 pontos percentuais sobre Dilma, que tem 33% das intenções de voto na região. No Sudeste, que reúne os três maiores colégios eleitorais do país – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – Serra registra 37% das intenções de voto, enquanto Dilma tem 34%. Contudo, como no corte regional a margem de erro é de 3 pontos percentuais (maior que a margem de erro do agregado da pesquisa, que é de 1,8 pontos percentuais), Dilma e Serra estão tecnicamente empatados no Sudeste.

É interessante destacar também que 81% dos entrevistados reconheceram Dilma como candidata do presidente Lula, de forma que aumentou também o percentual de entrevistados que conhecem bem ou têm alguma informação sobre Dilma. Em maio, 56% dos entrevistados declararam que conheciam bem ou tinham alguma informação sobre a petista, enquanto no levantamento de junho, este percentual avançou 9 pontos percentuais para 65%. No caso do tucano, o percentual de entrevistados que o conhecem bem ou têm alguma informação é de 78%, 3 pontos percentuais acima do patamar verificado em maio.

A pesquisa Vox Populi foi encomendada pela Rede Bandeirantes de Televisão, tendo entrevistado 3.000 pessoas em todo o Brasil entre os dias 24 e 26 de junho. A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número 16944/2010. A margem de erro do agregado é de 1,8 pontos percentuais.

Em artigo para o Financial Times, Lula destaca avanços do "novo Brasil" e aponta desafios

O periódico britânico Financial Times publicou, no início desta semana, uma série de reportagens sobre o que ele chamou de “Novo Brasil”, destacando os avanços registrados em nosso país ao longo dos últimos anos nas mais diversas áreas e enumerando também os desafios que nosso país terá que enfrentar nos próximos anos. O Financial Times também traz uma matéria especial sobre o processo eleitoral brasileiro, na qual traça o perfil dos dois principais postulantes à sucessão do presidente Lula – a candidata governista Dilma Rousseff (PT) e o candidato da oposição, o tucano José Serra.

O jornal diz, em uma das matérias, que “se existe uma figura que personifica o ‘novo Brasil’, certamente é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, destacando que “seu carisma e popularidade são o símbolo perfeito da exuberância e confiança das crescentes classes de consumo do Brasil”. Tamanho é o reconhecimento do jornal em relação ao papel de Lula neste processo de transformação pelo qual o Brasil tem passado, que um dos artigos que compõem a série de reportagens foi escrito pelo próprio presidente Lula. Abaixo, transcrevemos o artigo, intitulado ”O destino de uma nação”:

“Quando olho para trás em meus sete anos como presidente do Brasil, tenho grande motivo para me orgulhar das conquistas do meu Governo. Nesse tempo, trouxemos de volta o crescimento para uma economia que esteve por muito tempo estagnada, tirando dezenas de milhões de pessoas da pobreza absoluta, criando mais de 14 milhões de empregos formais e aumentando a renda dos trabalhadores. Hoje, a maioria dos brasileiros são membros da classe média. Nosso mercado interno também cresceu excepcionalmente, o que foi crucial para proteger o Brasil dos piores efeitos da crise financeira global.

Fizemos isto mantendo a inflação sob controle, reduzindo a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto e reconstruindo as funções reguladoras do Estado brasileiro. Colocamos em marcha um processo poderoso para melhorar a nossa infra-estrutura - em energia, habitação e bem estar social - através do Programa de Aceleração do Crescimento. Como parte deste, estamos eliminando os gargalos que afetavam a nossa competitividade no passado - o que é muitas vezes chamado de "custo Brasil".

Eu sou o primeiro presidente do Brasil sem um diploma universitário, mas o meu governo construiu a maioria das universidades federais e garantiu que suas portas se abrissem para centenas de milhares de jovens pobres. O Brasil tem sido também capaz de reduzir substancialmente a sua vulnerabilidade a choques externos. Nós não somos mais devedores, mas nos tornamos credores internacionais. Há uma pequena ironia pelo fato de que o líder sindical, que já gritou nas ruas "fora FMI!", tenha se tornado o presidente que pagou as dívidas do Brasil para essa mesma instituição - e acabou emprestando-lhe US$ 14 bilhões.

É particularmente gratificante ter conduzido essas mudanças junto ao fortalecimento da democracia. As duras críticas que tenho enfrentado por parte da oposição e de setores da mídia são o testemunho da saúde da democracia do Brasil. Já perto do final do meu segundo mandato como presidente, o que me deixa particularmente orgulhoso é o lugar que o Brasil vem ocupando no mundo ao longo dos últimos anos, juntamente com outras nações emergentes. Com estas nações, estamos criando as bases de uma nova economia internacional e uma nova geografia política. Com elas, temos tentado construir um mundo mais justo em termos sociais e econômicos - livre da fome e da miséria, respeitando os direitos humanos e capazes de enfrentar a ameaça do aquecimento global.

Mas os sucessos que o meu governo tem conseguido não podem obscurecer os enormes desafios que ainda temos pela frente. Mais importante, ainda temos uma quantidade significativa de pobreza em nosso país. A criação de oportunidades para os nossos jovens, em particular, deve ser um objetivo central, pois é fundamental para o futuro que estamos construindo para o Brasil. Para fazer isso, devemos tratar de questões como a forma de melhorar o nosso sistema de ensino, como encontrar formas eficazes de lidar com drogas e violência e como oferecer aos nossos jovens opções reais em termos de trabalho, lazer e cultura.

Algumas destas iniciativas serão decisivas na construção de uma economia que é cada vez mais baseada no conhecimento. Os grandes avanços que temos feito no campo da ciência - que nos colocou entre os melhores do mundo nesta área - devem continuar sendo traduzidos em avanços tecnológicos. Mas também existem déficits políticos que têm que ser enfrentados. A reforma do Estado brasileiro, que já começou, deve continuar e ser aprofundada, junto com a reforma tributária. A reforma do nosso sistema político e eleitoral não pode mais esperar – pois isto poderia comprometer a continuidade dos avanços que temos desfrutado nos últimos anos.

Depois que deixar a presidência eu quero continuar a contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Em nível internacional, pretendo concentrar minha atenção sobre as iniciativas em benefício dos países da América Latina, do Caribe e do continente africano. O Brasil tem muita experiência que pode compartilhar. Nós não podemos ser uma ilha de prosperidade cercada por um mar de pobreza e injustiça social. Eu quero continuar os esforços que meu governo tem feito para a criação de um mundo multilateral e multipolar que esteja livre da fome e da pobreza. Um mundo em que a paz já não é uma utopia, mas uma possibilidade concreta”.

No Roda Viva, Dilma demonstra postura de chefe de Estado, avalia Jornal do Brasil

Clareza, segurança e profundo conhecimento sobre o Brasil são os termos que definem a participação da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no Programa Roda Viva, exibido pela TV Cultura na noite de segunda-feira, 28. A ex-ministra respondeu a perguntas dos jornalistas presentes sobre as principais áreas da administração pública e também a respeito dos desafios que são propostos para o próximo período presidencial. Na avaliação do Jornal do Brasil, Dilma “saiu-se bem. A petista demonstrou firmeza e postura de chefe de Estado”.

E deve-se dizer que o Jornal do Brasil acertou em cheio ao pontuar esses dois aspectos de Dilma durante toda a sabatina: ela foi firme em todas as respostas, não tergiversando em nenhum momento, e também assumiu uma postura de chefe de Estado, respeitando os jornalistas sem se submeter, contudo, às visões que eles queriam fazer prevalecer. E é bom que se diga isso: quem assistiu ao programa deve ter tido essa mesma impressão – a de que os jornalistas tentaram, talvez por estratégia, desorientar a candidata fazendo sucessivas perguntas ao mesmo tempo e tentando cortar as respostas.

A candidata do PT, contudo, não deixou de concluir nenhuma idéia, tendo também respondido a todas as perguntas e não tendo em nenhum momento ficado “perdida” nas respostas. Na reportagem publicada nesta terça-feira , o Jornal do Brasil declara que “na berlinda, Dilma respondeu com segurança a perguntas relativas a diversas áreas do governo, revelando conhecimento de causa. Nos últimos oito anos, a candidata esteve na linha de frente das decisões do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao qual pretende dar continuidade”.

Temas econômicos predominam na sabatina
De uma maneira geral, a temática sobre a área econômica foi predominante ao longo da entrevista. Ao ser perguntada se o Brasil estaria passando por um processo de desindustrialização, como afirma a campanha da oposição, Dilma foi assertiva: “eu não acho que país esteja passando por isso [desindustrialização]. Até acho que nós temos aumentado e introduzido seguimentos novos na economia brasileira. Vou dar como exemplo a indústria naval. Voltamos a fazer política industrial, tanto que voltou a ter estaleiros no Brasil”, destacando o aumento da cadeia produtiva e a reintrodução de setores que haviam desaparecido nos governos anteriores, como o caso da indústria naval.

A ex-ministra também respondeu a questões sobre o sistema de tributação no Brasil, destacando que é necessária de fato uma reforma profunda, feita a partir da simplificação dos tributos. Dilma destacou que uma das prioridades deve ser acabar definitivamente com a tributação sobre investimentos e criar mecanismos para reduzir a tributação incidente sobre a folha de salários. A petista destacou que é possível fazer grandes mudanças a partir de reformas pontuais, uma vez que existem alguns temas mais polêmicos dentro da agenda tributária – como a questão do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) – que exigem uma grande energia política e também uma flexibilidade por parte dos Estados. Neste ponto, Dilma afirmou que é importante se pensar sobre mecanismos de compensação aos entes federativos, de forma a acelerar a reforma.

A candidata do PT também respondeu a uma questão sobre como pretende fazer a redistribuição de renda e citou o exemplo do governo Lula. De acordo com Dilma, é verdade que a renda dos mais ricos cresceu ao longo do governo Lula, mas seu ritmo de crescimento foi menor do que o da renda das pessoas mais pobres que, segundo a candidata, tiveram um “crescimento chinês” em sua renda. A petista ainda destacou um ponto importante: esse crescimento chinês da renda dos mais pobres não foi unicamente devido às políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, mas especialmente em função de um aumento da renda do trabalho, como apontado pela POF (Pesquisa do Orçamento Familiar) divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na semana passada.

Dossiê: Dilma destaca que não se pode acusar sem provas
Um dos melhores momentos da entrevista foi quando Dilma respondeu ao jornalista Sérgio D’Ávila, da Folha de São Paulo, sobre o suposto “dossiê” que teria sido produzido pela campanha petista contra o oponente José Serra. Aqui, quem esperava uma postura tímida de Dilma, certamente se frustrou, já que a ex-ministra foi bastante assertiva nesta questão. A petista disparou ao ser perguntada sobre a existência do “dossiê”: “acho que todos vocês sabem: se há dossiê, e até hoje não vi papel nenhum, não foi feito pela minha campanha. Foi produzido em outras circunstâncias“, destacando que “há uma tendência, por motivos políticos, a forçar essa interpretação [de que o PT teria produzido dossiê contra Serra]”.

O jornalista da Folha ainda tentou insistir na idéia do dossiê, fazendo menção ao encontro do jornalista Luiz Lanzetta (da Lanza Comunicações) com o ex-delegado da Polícia Federal, Onézimo de Sousa, segundo versão e Onézimo, mas Dilma retrucou: “Era uma empresa contratada para contratar pessoas que a gente indicava e fornecia uma análise de mídia, estritamente isso. Não somos responsáveis pelo que faz uma empresa. As empresas privadas têm autonomia plena", disse. "Ele (Lanzetta) é responsável pelo que ele faz. Nós não assumimos responsabilidade por algo feito por uma empresa, até porque nós não somos os únicos clientes”.

O Jornal do Brasil destacou que “a candidata reafirmou o seu compromisso com a liberdade de imprensa e disse que não irá processar qualquer jornalista devido aos rumores envolvendo a confecção de um suposto dossiê petista contra o candidato adversário, o tucano José Serra. Mas ressaltou que é preciso haver responsabilidade no ato de informar, cabendo o ônus da prova a quem denuncia”. Dilma ainda respondeu a questões sobre saúde, educação, segurança pública e outros temas, mostrando um conhecimento profundo de cada um deles. Sobre a segurança, a ex-ministra destacou a experiência exitosa com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que levam o Estado para áreas que haviam sido tomadas pelo crime organizado, citando como exemplo o caso bem sucedido do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

De uma maneira geral, a avaliação é de que Dilma se saiu muito bem na entrevista ao Roda Viva. Como dito anteriormente, a candidata não titubeou sequer uma vez, mostrando-se firme e segura em todas as suas respostas. Para os que achavam que Dilma era um “poste”, a candidata mandou o seu recado: “eu compreendo que alguns queiram dizer quer eu sou um poste, mas isso não me transforma num poste”. Cada dia mais, Dilma vem mostrando que é, de fato, a mais preparada para continuar o processo de mudanças sociais iniciado pelo governo Lula.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Em entrevista à Rede TV, Dilma mostra que está preparada para suceder Lula

Quem tem acompanhado as recentes entrevistas de Dilma Rousseff, certamente concorda que a candidata do PT à Presidência da República vem mostrando que de fato é a mais preparada para suceder o presidente Lula e dar continuidade aos avanços iniciados em 2003. Em sua mais recente entrevista, dada ao jornalista Kennedy Alencar, no programa “É Notícia”, da Rede TV, no último domingo, 27, Dilma mostrou-se bastante segura e foi muito clara em suas respostas, sem tergiversar em nenhum momento sequer. A petista falou sobre campanha, sobre sua experiência no governo Lula e sobre desafios que o Brasil tem nos próximos anos.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista foi quando Kennedy Alencar perguntou à ex-ministra sobre a tática do seu principal oponente, o tucano José Serra, de procurar desqualificar a experiência de Dilma. A petista destacou que é importante diferenciar experiência eleitoral e experiência administrativa, afirmando que embora essa seja a primeira eleição que ela dispute, ela tem uma larga experiência administrativa. Dilma acrescentou que se considera uma das mais preparadas para o desafio de governar o país, uma vez que nos últimos cinco anos e meio esteve à frente dos principais projetos desenvolvidos pelo governo Lula e conhece a fundo quais são as necessidades do país.

“Eu sempre me orgulharei de ter sido ministra chefe da Casa Civil do presidente Lula. Eu não sei se o meu oponente se orgulha de ter sido Ministro do Planejamento no primeiro mandato de FHC”, disparou a candidata. Dilma também afirmou que o presidente Lula sempre será um grande conselheiro em um eventual governo seu, destacando a relação de grande lealdade e respeito existente entre os dois. Perguntada pelo jornalista Kennedy Alencar se não existe o risco de que, uma vez eleita, ela e o presidente se desentenderem por algum motivo, Dilma destacou que essa possibilidade é muito remota, haja vista que a parceria dela com Lula se dá em torno de um projeto de país que ambos compartilham.

Investimentos em saneamento básico e política de moradia
Considerando a recente tragédia ocorrida em Alagoas e Pernambuco, por conta das fortes chuvas, Kennedy Alencar perguntou à candidata se não foi investido muito pouco na área de forma a evitar acontecimentos como estes. Dilma destacou que esse tipo de tragédia foi decorrente de décadas de falta de investimento do poder público em políticas de saneamento básico e também políticas de moradia, destacando que, com o governo Lula, o Brasil voltou a investir nestas duas áreas. Neste sentido, a ex-ministra apontou os investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) feitos em saneamento básico, reforçando que em governos anteriores não se investia nesta área.

Dilma também destacou a importância do programa Minha Casa, Minha Vida, responsável pela construção de mais de 400 mil moradias para população de baixa renda. Segundo a candidata, pelo fato de no passado os governos anteriores a Lula não terem política habitacional adequada, a população mais pobre, como não tinha condições de adquirir uma moradia digna, acabava ocupando áreas de risco, em morros e encostas e também nas regiões de várzea, próximas a grandes rios. “Os governos anteriores governavam para um terço da população e os dois terços restantes tinham que ‘se virar’ dentro da lógica de mercado”, destacou a ex-ministra, acrescentando que o governo Lula governa para todos os brasileiros, especialmente os mais pobres.

Na questão da Previdência Social, Dilma destacou que não pretende fazer grandes reformas, pelo fato de acreditar que quando se faz uma grande reforma na Previdência, o efeito é o contrário do desejado, pois os trabalhadores próximos à aposentadoria correm para se aposentar e acaba ampliando o déficit. Segundo Dilma, é importante que sejam feitos pequenos ajustes à medida que estes forem se tornando necessários. A petista também fez questão de esclarecer que é preciso ter muito cuidado quando se fala em déficit da Previdência, pois segundo ela se formos ver apenas a previdência dos trabalhadores, existe uma compatibilidade entre o que é arrecadado e o que é pago.

O descompasso ocorre, segundo a candidata, pelos recursos da seguridade social e também pela cobertura à aposentadoria de trabalhadores rurais, que, por serem políticas sociais de importância fundamental, não podem ser consideradas “déficit” da previdência. A petista reforçou que até 2050 não será preciso uma grande reforma da previdência, uma vez que o Brasil possui o que ela chama de “bônus demográfico”, ou seja, a grande maioria da população faz parte da PEA (População Economicamente Ativa) e por isso está em idade de trabalho. Dilma ainda destacou que se eleita continuará a política de equilíbrio macroeconômico do presidente Lula, focando duas vertentes principais: o crescimento econômico e a redução do endividamento do país.

Terrorismo eleitoral
Questionada por Kennedy Alencar sobre o que ela acha do discurso do PSDB de que o PT e sua campanha estariam fazendo terrorismo eleitoral, Dilma foi assertiva, afirmando que “se tem alguém que fez terrorismo eleitoral nesse país foi o próprio PSDB”, recordando o discurso “do medo” reproduzido pelos tucanos na campanha de 2002. A ex-ministra relembrou que naquela época, os tucanos disseminavam o discurso de que, se eleito, Lula colocaria em risco todo o equilíbrio econômico do país, chegando ao ponto de no segundo turno da campanha presidencial terem feito um vídeo com a atriz Regina Duarte dizendo que tinha medo do então candidato Lula.

De acordo com Dilma, os tucanos dizem que o PT faz terrorismo eleitoral quando compara o governo Lula com o governo FHC, reforçando que isso não é terrorismo eleitoral, mas um mero esclarecimento para o eleitor dos projetos de cada um dos partidos. Segundo a ex-ministra, em um debate presidencial tem que se discutir o que cada partido fez para o país quando foi governo, comparando as ações e os projetos desenvolvidos e que isso naturalmente não constitui terrorismo eleitoral. Dilma destacou, neste ponto, o programa de privatizações promovido pelos tucanos, criticando, sobretudo, a privatização de setores estratégicos para o país, como o setor elétrico. A ex-ministra lembrou ainda da tentativa de mudar o nome da Petrobras, no governo FHC, para PetrobraX.

Sobre o episódio do suposto “dossiê” contra a campanha de Serra, a petista afirmou categoricamente que sua campanha não produziu nenhum tipo de documento contra o tucano e declarou que abomina qualquer tipo de expediente dessa natureza. Dilma reforçou que o PT entrou com um processo contra o PSDB e o candidato José Serra por ofensa moral contra o partido e contra ela. De acordo com a ex-ministra, a insistência do PSDB nesse episódio do dossiê tem o claro propósito de tentar desviar o foco do debate, que segundo ela deve recair sobre projetos e propostas para o país.

De uma maneira geral, a entrevista de Dilma ao jornalista Kennedy Alencar foi muito boa, pois a petista mostrou que tem um grande prepara para suceder o presidente Lula no governo do país. Além de um conhecimento profundo do Brasil, Dilma deve trazer o olhar feminino para a política, ampliando e acelerando projetos vitoriosos que foram iniciados no governo Lula. Uma coisa deve ser dita: credenciais não faltam para que Dilma seja a primeira mulher a ocupar a Presidência da República do nosso país. Isto é cada dia mais evidente.