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sábado, 11 de dezembro de 2010

Mesmo com barreiras dos EUA, projeções são de forte expansão do mercado de etanol brasileiro

Apesar da perspectiva de que na próxima segunda-feira, 13, o Congresso norte-americano aprove a prorrogação das tarifas de importação e do subsídio do etanol, que estavam previstas para durar até o final deste ano, as projeções para o mercado de etanol brasileiro continuam muito boas. Naturalmente, o melhor dos mundos seria a extinção dessas barreiras comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos para a entrada do etanol brasileiro no mercado norte-americano, já que isso deveria ampliar consideravelmente as exportações para aquele país.

O etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar, é bem mais competitivo que o etanol norte-americano, que é produzido a partir do milho. Isso porque o etanol da cana tem um “balanço energético” quase sete vezes superior ao do etanol do milho, sem contar o fato de sua produção reduz em 90% as emissões de gás carbônico na atmosfera, enquanto a produção do etanol do milho reduz em apenas 35% as emissões do gás. Apesar dessa vantagem comparativa do etanol da cana, a entrada do produto no mercado norte-americano é dificultada pelas barreiras comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos.

Para se ter uma idéia, para cada galão de etanol importado pelos Estados Unidos, é cobrado um imposto de US$ 0,54, o que encarece o produto brasileiro frente ao produzido nos Estados Unidos. Sem contar o fato de que o etanol do milho, em termos de preços no mercado norte-americano, já larga com vantagem, uma vez que o governo dos Estados Unidos gasta em média US$ 6,75 bilhões por ano com subsídios ao setor. Mesmo com essa dificuldade de penetração no mercado norte-americano, o mercado brasileiro de etanol deve continuar em um ritmo acelerado de expansão nos próximos anos, devido a uma série de fatores.

Maior demanda interna deve absorver produção do etanol
Primeiramente, é importante destacarmos que o grosso da produção de etanol é destinado ao mercado interno, uma vez que a demanda pelo produto tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Isso se deve, basicamente, a estímulos do governo brasileiro que, desde 2003, vem dando estímulos fiscais para a produção e comercialização dos carros flex-fuel, isto é, aqueles que podem ser abastecidos tanto com gasolina quanto com etanol. Desde então, já foram comercializados mais de 9,6 milhões de automóveis flex, sendo que, de acordo com dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), os carros flex já respondem hoje por 42% da frota brasileira de veículos comerciais leves.

Como a perspectiva é de que a demanda por carros flex continue em trajetória ascendente, uma vez que o álcool tende a ter, durante o período da safra, preços mais atrativos que o da gasolina, estima-se um crescimento vigoroso também do consumo interno de etanol. Além disso, o governo tem estimulado o uso do etanol não somente em carros leves, mas também em frotas de ônibus urbanos (os chamados “ônibus verdes”), como já é possível de se ver em capitais como São Paulo, e também como matéria-prima para a indústria de plásticos, para a produção do chamado bioplástico. Além disso, está em fase de desenvolvimento o chamado etanol de 2ª geração, que é um álcool produzido a partir do bagaço da cana, e que deve chegar ao mercado nos próximos anos.

Tendo todos esses fatores em vista, estima-se que a produção de etanol no Brasil deve atingir na safra de 2015/16 o patamar de 46,9 bilhões de litros, o que representa um valor 82,5% superior à produção de etanol na última safra (25,7 bilhões de litros), segundo projeções da Unica (União da Indústria de Cana de Açúcar). Enquanto isso, o consumo interno do etanol deve passar dos 22,5 bilhões de litros verificados na safra 2009/10 para 34,6 bilhões de litros na safra 2015/16, ou seja, um crescimento de 54% no período. As projeções para a safra de 2020/21 são ainda mais animadoras: enquanto a produção do etanol deve crescer para 65,3 bilhões de litros (alta de 154% frente à última safra), o consumo interno deve atingir 49,6 bilhões de litros (expansão de 120% frente ao valor atual).

Crescimento das exportações para Europa e Ásia
Uma análise cuidadosa das projeções da Unica nos permite observar que é esperado um crescimento vigoroso do consumo interno de etanol, mas em taxas bem inferiores ao crescimento da produção. Isso quer dizer o que? Como a previsão de estoque é contabilizada nos números do mercado interno, a diferença entre produção e consumo projetado refere-se às expectativas de exportação do etanol brasileiro nos próximos anos. De acordo com as projeções, o Brasil deve ter um excedente para exportação na safra de 2015/16 de 12,3 bilhões de litros de etanol, o que corresponde a quase quatro vezes mais do que o patamar exportado na safra de 2009/2010, que foi de 3,2 bilhões de litros. Para a safra de 2020/21, as exportações de etanol devem atingir 15,7 bilhões de litros, segundo as perspectivas.

Isso mostra que a despeito das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos ao etanol brasileiro, a exportação desse produto deve crescer nos próximos anos, especialmente devido à entrada em novos mercados. E é importante salientar que essa diversificação de mercados já está sendo incentivada pelo governo brasileiro: para se ter uma idéia, as exportações brasileiras de etanol para a União Européia saltaram de 200 milhões de litros em 2003 para pouco mais de 900 milhões de litros em 2009. Aqui cabe destacar que, em 2008, o volume de etanol exportado para a EU superou 1,4 bilhão de litros, sendo que a retração no ano seguinte pode ser explicada pela crise econômica que afetou diretamente as economias daquele continente.

As exportações do etanol brasileiro para a Ásia também cresceram consideravelmente ao longo dos últimos anos. Para a Índia, por exemplo, a exportação de etanol passou de 9,9 milhões de litros em 2006 para 371 milhões de litros em 2009, um crescimento difícil até mesmo de ser expresso percentualmente. O Brasil também exportou mais etanol para a Coréia do Sul: 317 milhões de litros em 2009 contra 93 milhões de litros em 2006. Com a perspectiva de que a demanda por biocombustíveis cresça nos próximos anos tanto na Europa quanto na Ásia (influenciada até mesmo por tratados internacionais de despoluição) e também de que, no médio a longo prazo, os Estados Unidos retirem as barreiras comerciais à importação, estima-se um crescimento vigoroso das exportações do etanol brasileiro na próxima década.

Dessa maneira, embora tudo indique que o Congresso norte-americano deverá prorrogar as tarifas de importação e o subsídio ao etanol do milho, inviabilizando, assim, as exportações do etanol brasileiro para os Estados Unidos, as perspectivas para o mercado do etanol brasileiro são bastante positivas. A combinação de crescimento da demanda interna com a diversificação de países compradores do produto (especialmente na Europa e na Ásia) deve contribuir sobremaneira para que o setor sucroalcooleiro continue em ligeira expansão nos próximos anos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cablegate: Brasil não partilha da obsessão contra-terrorista dos EUA, mostram documentos

Após vir à tona o chamado “Cablegate”, com o vazamento de documentos secretos da diplomacia norte-americana que mais se assemelham a relatórios de espionagem, cada país tem procurado descobrir quais as “impressões” dos representantes da Casa Branca a seu respeito. Ao contrário do que aconteceu com outros países, o Departamento de Estado norte-americano não solicitou, no caso do Brasil, informações de caráter privado sobre o integrantes do governo e o próprio Presidente Lula, pelo menos de acordo com os documentos revelados até o momento.

A temática geral dos relatórios dos funcionários das embaixadas norte-americanas no Brasil diz respeito ao comportamento do país em relação à cooperação com os Estados Unidos para atividades de contra-terrorismo. Os documentos vazados deixam claro, neste sentido, a verdadeira “obsessão” da Casa Branca por informações que possam auxiliar na identificação de agentes do terrorismo internacional que estejam porventura radicados, ou mesmo de passagem, pelo Brasil ou pela região da Tríplice Fronteira (Argentina-Brasil-Paraguai), como evidenciado em um dos relatórios.

Brasil não se alinha a obsessão dos EUA
A sensação que se tem após a leitura dos documentos é que, de fato, os Estados Unidos vêem tudo, ou pelo menos quase tudo, como uma ameaça de terrorismo em potencial. E para nossa sorte, o governo brasileiro não dá muito crédito (como fica claro nos vários documentos) a esta obsessão da Casa Branca por “caçar terroristas”. Segundo um relatório enviado ao Departamento de Estado norte-americano em janeiro de 2008, pelo embaixador Clifford Sobel, o governo brasileiro “continua resistente à opinião de que organizações terroristas ou extremistas têm presença ou estão realizando atividades no Brasil”.

De acordo com esse mesmo relatório de Sobel, “os mais altos níveis do governo brasileiro, particularmente o Ministério das Relações Exteriores, são extremamente resistentes à idéia de que os terroristas têm presença no Brasil - seja para arrecadar fundos, organizar a logística ou mesmo trânsito no país - e vigorosamente rejeitam quaisquer declarações implicando em contrário. Esta sensibilidade resulta, em parte, do seu medo de estigmatizar a comunidade muçulmana do Brasil (estimada, mas não confirmada, por algumas fontes em mais de um milhão) ou prejudicar a imagem do território como um destino turístico”.

É muito interessante notarmos que o próprio embaixador dos Estados Unidos no Brasil destaca essa resistência do nosso governo em compartilhar dessa obsessão compulsiva da Casa Branca pelo combate ao que eles chamam de terrorismo. Em outro ponto do relatório, o embaixador norte-americano avalia que essa postura do governo brasileiro destina-se a “evitar uma ligação estreita com aquilo que é entendido como uma guerra excessivamente agressiva dos EUA contra o terrorismo”. Os documentos deixam claro que essa resistência do Brasil à obsessão contra-terrorista dos Estados Unidos ocorre tanto no aspecto simbólico quanto concreto.

“Nas conferências [realizadas anualmente entre o serviço de inteligência norte-americano e os serviços de inteligência dos países da Tríplice Fronteira], as delegações brasileiras muitas vezes criticam declarações feitas por autoridades dos EUA que alegam que a Tríplice Fronteira é um foco de atividades terroristas e desafiam os participantes dos EUA a apresentarem as provas em que autoridades do país se baseiam para dar essas declarações”, relata Sobel em outra parte do relatório. Outro exemplo dado pelo embaixador mostra que o entendimento do governo brasileiro sobre terrorismo é distindo do conceito norte-americano.

Segundo Sobel, “o governo brasileiro recusa, tanto legalmente quanto retoricamente, o rótulo de terrorista dado pelos norte-americanos a grupos como o Hamas, Hezbollah ou as FARC - os dois primeiros são considerados pelo Brasil como partidos políticos legítimos. Como resultado, o seu limite para aceitar a evidência da atividade do financiamento do terrorismo na região, pelo menos publicamente, é muito alto e informações indicando que os indivíduos na Tríplice Fronteira enviam fundos para os grupos no Líbano, na sua opinião, não constituem necessariamente um atividade de apoio ao terrorismo”.

EUA vêem Brasil como parceiro de cooperação
É interessante notar que em outro documento – datado de abril de 2008 e também escrito pelo embaixador Clifford Sobel – o tom é quase de um “lamento” porque o governo brasileiro “estava retrocedendo em seu esforço para apresentar uma legislação sobre o contra-terrorismo (CT)”. Sobel afirma no documento que “algumas notícias têm sugerido que a ministra-Chefe da Casa Civil do presidente Lula, Dilma Rousseff, anulou a legislação proposta, que tinha sido criticada por alguns ativistas sociais e grupos jurídicos, que temiam que poderia ser usado contra eles, compando a proposta à repressão da era militar”.

Para o embaixador, “o silêncio dos meios de comunicação e de grupos políticos após a decisão do governo brasileiro [de recuar numa legislação contra-terrorista] expôs uma falta de gás dessa temática entre as elites, cujo apoio seria necessário para superar a resistência do governo brasileiro. Como resultado, nosso esforço para colocar esta legislação novamente na agenda do Brasil será uma batalha árdua”. Por aqui pode-se ter uma idéia mais precisa da enorme insistência do governo norte-americano para tentar “afinar” o entendimento brasileiro do que seja terrorismo aos padrões estabelecidos por Washington.

Vale ressaltar que apesar de todos esses “poréns” apontados pelos relatórios da embaixada norte-americana sobre o Brasil, os documentos, de maneira geral, destacam que o governo brasileiro tem sido um importante parceiro da Casa Branca. “O governo brasileiro é um parceiro de cooperação no combate ao terrorismo e atividades relacionados com o terrorismo no Brasil - que incluem a investigação do financiamento do terrorismo em potencial, as redes de falsificação de documentos e outras atividades ilícitas - que possam contribuir para a facilitação de ataques na região ou em outro lugar”, diz um desses documentos vazados pelo site WikiLeaks.

Fica claro, em todo conteúdo exposto de maneira confidencial pelo embaixada norte-americana em Brasília ao Departamento de Estado norte-americano, que o governo brasileiro embora mantenha uma relação diplomática muito boa com Washington (como os próprios documentos corroboram), não baixa a cabeça para todo tipo de política que seja traçada pela Casa Branca. É muito satisfatório, por exemplo, constatarmos que, de fato, o Brasil não vem se alinhando, como fazia em épocas anteriores, a toda sorte de desígnios dos Estados Unidos. Fica claro, na análise desses documentos, que o governo brasileiro de fato é uma pedrinha bem incômoda no sapato de Washington.

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Documentos secretos da diplomacia dos EUA vêm à tona e deixam Casa Branca em saia justa

domingo, 28 de novembro de 2010

Documentos secretos da diplomacia dos EUA vêm à tona e deixam Casa Branca em saia justa

Saia justa talvez seja pouco para se referir à situação delicada em que ficou a Casa Branca após a revelação, neste domingo, 28, pela imprensa internacional, de mais de 250 mil comunicados secretos do Departamento de Estado endereçado às embaixadas norte-americanas solicitando o mais variado tipo de informações. Essa rede de “espionagem informal” que vem sendo desenvolvida pelos Estados Unidos nos últimos dois anos recebeu a denominação de “cablegate”, uma referência à forma através da qual as solicitações chegavam às diversas embaixadas dos Estados Unidos espalhadas no mundo – telegramas assinalados como “secretos” ou “confidenciais”.

Os documentos foram vazados pelo site WikiLeaks e estão sendo divulgados, aos poucos, por cinco grandes períodicos: o El País, da Espanha, o Le Monde, da França, o The Guardian, da Inglaterra, o The New York Times, dos Estados Unidos e a revista Der Spiegel, da Alemanha. De acordo com o El País esses documentos “coletam comentários e informações elaboradas por funcionários norte-americanos, com um linguajar muito franco, sobre personalidades de todo o mundo, revelam conteúdos de entrevistas de pessoas do mais alto nível, descobrem atividades de espionagem até então desconhecidas e dados fornecidos por diversas fontes em conversas com embaixadores norte-americanos”.

ONU é alvo de espionagem do Tio Sam
Nem a ONU (Organização das Nações Unidas) escapou da “curiosidade” do Departamento de Estado norte-americano. Para se ter uma idéia, um dos documentos apresentados pelo El País refere-se a uma lista, datada de julho de 2009, enviada pelo Departamento de Estado aos funcionários de 38 embaixadas e missões especiais requisitando os mais variados tipos de informações sobre a ONU. Requisita-se, por exemplo, informações detalhadas sobre o Secretário-Geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon: quais são seus planos e intenções e como é o trabalho cotidiano de sua assessoria. Mas não é somente do Secretário-Geral da ONU que o Departamento de Estado queria deter informações.

Neste mesmo documento, eram solicitados dados sobre os funcionários e representantes da ONU vinculados a países como Sudão, Afeganistão, Somália, Irã e Coréia do Norte. De acordo com o El País, as informações solicitadas pelo Departamento de Estado “estendem-se ao âmbito pessoal ao perguntar sobre as rotinas dos funcionários da Secretaria Geral da ONU ou de qualquer outro interlocutor que seja importante: são pedidas a numeração de cartões de crédito, passaporte, telefones, e-mails, URL acessadas, programa de trabalho e aparência física”. Além das questões pessoais, o Departamento de Estado selecionava, por embaixada, assuntos de interesses dos Estados Unidos para serem investigados pelos funcionários norte-americanos.

O El País lista quais são as informações solicitadas pelo Departamento de Estado norte-americano aos funcionários das embaixadas, segundo o documento ao qual o jornal teve acesso:

-“Planos, intenções, objetivos e atividades palestinadas relacionadas com as políticas dos Estados Unidos sobre o processo de paz e o anti-terrorismo”;
-“Informação biográfica, biométrica e financeira sobre os líderes palestinos e do Hamás, incluindo aí os movimentos de juventude dentro e fora de Gaza e Cisjordânia”;
-“Planos e atividades concretas do Reino Unido, França, Alemanha e Rússia a respeito das políticas da OIEA (Organização Internacional de Energia Atômica)”;
-“Planos e intenções dos líderes e países mais influentes da ONU, especialmente Rússia e China, sobre direitos humanos no Irã, sanções ao Irã, fornecimento de armas iranianas ao Hamáz e Hezbolá, e sobre as candidaturas que o Irã apóia para ocupar postos-chave na ONU”.

Informações dos mais variados tipos
Segundo reportagem do El País neste domingo, “o solicitado [pelo Departamento de Estado] a algumas embaixadas é quase uma ficha policial”. Parece brincadeira, mas é a mais pura realidade. Os Estados Unidos chegaram ao ponto de solicitar, segundo os documentos revelados, informações biológicas e físicas sobre os candidatos a Presidente do Paraguai nas eleições de 2008. Dentre as informações solicitadas aos funcionários da embaixada norte-americana em Assunção sobre os quatro principais postulantes à Presidência do Paraguai estavam: dados biométricos, impressões digitais, fotografias, scanners da íris e DNA! Além desse tipo de informação, a Casa Branca também solicitou informações sobre as relações do Paraguai com os países vizinhos.

“A Secretaria de Estado indaga sobre a corrupção do governo, lavagem de dinheiro, as relações do Paraguai com Cuba, Venezuela, China, Taiwan e Rússia, a existência de petróleo na região do Chaco paraguaio e o narcotráfico”, diz a reportagem do El País. Percebe-se, recorrentemente nos documentos revelados, uma preocupação muito grande dos Estados Unidos com relação ao tipo de vinculo diplomático dos mais diversos países com nações como Venezuela, Cuba, China, Rússia e Coréias. Além disso, existe um interesse muito grande, expresso nestes documentos, em saber informações sobre áreas de conflito iminente, como no caso das Coréias e do próprio Irã. A questão é que essas informações requisitadas pela Casa Branca ultrapassam os limites da diplomacia e entram em terrenos nada convencionais.

Daí a preocupação dos Estados Unidos após a revelação desses diversos documentos, que aos poucos estão sendo publicados pelos jornais mencionados. De acordo com o El País, ao tomar conhecimento do vazamento desses documentos, a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, entrou rapidamente em contato com governos mais próximos e de maior interesse dos Estados Unidos para “fornecer algum tipo de justificativa”. Hillary, na prática, quer se antecipar e produzir uma espécie de “vacina” em países de maior interesse da Casa Branca a fim de não haja um azedamento das relações destes com os Estados Unidos. Exatamente por isto, dissemos no início deste texto que “saia justa” talvez seja pouco para se referir à posição em que os Estados Unidos se encontram agora.

Pelo teor das reportagens nos veículos citados, esses documentos vazados trazem informações até mesmo de caráter íntimo de várias lideranças políticas mundiais e revelam os bastidores – inclusive os mais obscuros – da diplomacia norte-americana. Nem é preciso dizer aqui o estrago que esse tipo de revelação pode causar nas relações políticas e comerciais dos Estados Unidos com o resto do mundo. Para um país que está lutando para superar os efeitos da crise de 2008, esse tipo de acontecimento, de fato, não é nada interessante! Acompanhemos, de perto, o desenrolar dessa interessante – e polêmica – história ao longo dos próximos dias.

domingo, 14 de novembro de 2010

"Sinais de esperança": jornal argentino destaca importância de Dilma para América Latina

Passadas duas semanas da vitória de Dilma Rousseff (PT), as eleições brasileiras, dada sua importância, ainda têm ocupado a pauta de boa parte da imprensa internacional, sobretudo na América Latina. O Boteko Vermelho reproduz abaixo artigo de Boaventura de Sousa Santos (Doutor em Filosofia do Direito e professor das Universidades de Coimbra e Wisconsin), publicado nesta última semana no jornal argentino Página 12. Sob o título ”Sinais de Esperança”, o autor fala da importância da eleição de Dilma para os partidos de esquerda na Europa e também para as forças progressistas da América Latina, a despeito das ambições imperialistas de Washington.

Sinais de Esperança
As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem de acordo com a perspectiva geopolítica que se adota. Vistas da Europa, as eleições tiveram um significado especial para os partidos de esquerda. A Europa vive uma grande crise que ameaça liquidar com o núcleo duro de sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia. Desde o início de 2010 criou-se, quase de maneira instantânea, um novo senso comum, para o qual o modelo social europeu não é viável: a Europa deve abandoná-lo para recuperar o crescimento e aceitar os custos sociais que isto implicará. Aos latino-americanos, não lhes escapará o significado deste novo senso comum: o FMI já está sentado à mesa para discutir as políticas públicas européias.

Por outro lado, a dura derrota do partido social-democrata sueco nas eleições de setembro último – quando alcançaram 30,9% dos votos, seu pior resultado desde 1914 – teve um valor simbólico e político. Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil levantou nos últimos oito anos a bandeira da democracia social e reduziu significativamente a pobreza. Fez isso reivindicando a especificidade de seu modelo, mas o fundamentando na mesma idéia básica da democracia social: combinar aumento da produtividade econômica com o aumento da proteção social. Para os partidos na Europa que lutam por uma reforma do modelo social – mas não por sua extinção -, as eleições do Brasil trouxeram um pouco mais de ar para respirar.

No continente americano, as eleições brasileiras tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se enfrentaram. Para o governo dos Estados Unidos, o Brasil de Lula tem sido um parceiro relutante, desconcertante e, em última instância, pouco confiável. Combinou uma política econômica “aceitável” (ainda que criticada por não continuar com o processo de privatizações) com uma política externa “hostil”. Para os Estados Unidos, é hostil toda política externa que não esteja totalmente alinhada às decisões de Washington. Tudo começou ainda no início do primeiro mandato de Lula, quando o presidente brasileiro decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro depois de ter sobrevivido a um golpe de Estado no qual estiveram envolvidos os norte-americanos.

Este ato significou um obstáculo enorme para a política dos Estados Unidos de isolar o governo de Chávez. Os anos seguintes confirmaram a posição autônoma do governo de Lula. O Brasil se pronunciou de maneira veemente contra o bloqueio econômico a Cuba e estabeleceu relações de confiança com os governos eleitos – porém considerados “hostis” pelos Estados Unidos – de Bolívia e Equador, defendendo-os das tentativas de golpe da direita em 2008 e 2010, respectivamente. O Brasil promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico quanto no político e militar, à revelia dos Estados Unidos. Mas a ousadia das ousadias foi buscar uma relação independente com o governo “terrorista” do Irã.

Na última década, a guerra no Oriente Médio fez com que os Estados Unidos “abandonassem” a América Latina. Agora os Estados Unidos estão voltando e as formas de intervenção são mais sofisticadas que antes. A obsessão do candidato derrotado José Serra em relação ao narcotráfico na Bolívia (um ator secundário) era o sinal do desejo de alinhamento [com Washington]. A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro (um “falcão”), Thomas Shannon, são sinais claros da estratégia norte-americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda de outros governos não alinhados no subcontinente.

A morte de Néstor Kirchner foi vista pelo imperialismo norte-americano como um importante impulso para gerar esse efeito dominó. Basta ver como a morte do grande político argentino foi recebida cinicamente pelos mercados financeiros, com a imediata valorização dos títulos da Argentina diante da expectativa de uma virada política para um modelo “mais amigável aos mercados”. Com a vitória de Dilma Rousseff, o projeto imperialista irá manter-se, pelo menos por hora, adiado.

A segunda perspectiva sobre as eleições é oposta à norte-americana, sendo assumida pelos governos “desalinhados” [a Washington] e progressistas do continente, assim como pelas classes e movimentos sociais que os levaram ao poder. Para todos eles, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança, um espaço para uma política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo que aposte em uma maior redistribuição da riqueza coletiva.

sábado, 20 de março de 2010

Iraque: o país 7 anos depois da invasão norte-americana - Parte 3



Após a prisão de Saddam Hussein, houve uma relativa calmaria no Iraque, mas que durou apenas os primeiros meses de 2004. Em meados de abril daquele ano, a Al-Qaeda enviou alguns de seus membros para o Iraque, a fim de que estes se articulassem com setores da população local insatisfeitos com a dominação norte-americana e reiniciassem novas guerrilhas. O palco não era mais Bagdá e sim Falujá, cidade nas proximidades do rio Eufrates.

Dessa forma, o restante daquele ano foi marcado por guerrilhas locais e também pela denúncia de abusos pelas tropas aliadas contra prisioneiros iraquianos, que repercutiram em todo o mundo. No final de 2004, foram convocadas as primeiras eleições legislativas no Iraque pós-Saddam, sendo estas realizadas no dia 31 de janeiro de 2005. Foi eleito, assim, o primeiro governo de transição do Iraque, com a principal responsabilidade de elaborar uma Constituição permanente, assim como de pacificar o país.

O governo eleito, todavia, não conseguiu atingir seu objetivo de pacificar o Iraque: pelo contrário, 2005 foi um dos anos mais sangrentos na região, com inúmeros ataques suicidas nas principais cidades. Em outubro daquele ano foi feito um referendo constitucional e a Assembléia Constituinte foi eleita em dezembro.

Governo Permanente e guerra civil
As atividades da Assembléia Constituinte se deram em meio a um cenário de intensas insurreições e conflitos, especialmente marcados pela violência sectária e pelos ataques às tropas aliadas. Em 20 de maio de 2006, a Assembléia Constituinte deu posse ao novo Governo Permanente, que substituiu o governo de transição eleito no ano anterior. Os conflitos na região, contudo, continuaram intensos nos meses subseqüentes.

Diante da guerra civil no país e do temor de uma intensificação dos conflitos após o enforcamento de Saddam Hussein, em dezembro de 2006, a Casa Branca ordenou, em janeiro de 2007, o envio de um reforço para as tropas aliadas presentes no Iraque. Assim, um contingente de mais 20 mil soldados e fuzileiros norte-americanos foram despejados no Iraque no final de janeiro.

O prolongamento da presença norte-americana no Iraque começou a gerar protestos em toda parte do mundo, inclusive nos Estados Unidos e no próprio Iraque. O parlamento iraquiano, neste sentido, começou a questionar a permanência das tropas aliadas no país e a própria população norte-americana já almejava o fim da ocupação. Em 2008, durante as eleições presidenciais nos EUA, Barack Obama, então candidato do Partido Democrata, defende a saída das tropas do Iraque.

O Iraque sete anos depois
A vitória de Obama, vista inicialmente como a possibilidade de uma retirada das tropas norte-americanas do Iraque, não garantiu o cumprimento dessa expectativa. A questão foi secundarizada por Obama em todo seu primeiro ano de governo (2009), visto que as questões internas dos Estados Unidos, abalados pela crise financeira internacional, exigiram um foco quase que exclusivo da Casa Branca à questão. Segundo cronograma do governo norte-americano, as tropas norte-americanas encerrarão definitivamente as operações até o dia 31 de agosto de 2010, completando sua retirada até o fim de 2011.

No último dia 7 de março, 62% dos iraquianos foram às urnas para elegerem o novo governo, que tem como grande desafio superar os conflitos sectários que marcam o país desde o Governo Provisório estabelecido logo após a queda de Saddam Hussein. Os resultados oficiais ainda não foram divulgados, mas o atual premiê, do grupo xiita, Nuri Al-Maliki, apresenta ligeira vantagem sobre seu adversário, sunita, Iyad Allawi.

A expectativa da comunidade internacional é de que, independentemente de quem vença, haja uma tendência ao diálogo entre xiitas e sunitas, buscando o fim dos conflitos que marcam a história iraquiana nesses últimos anos e que tanto têm prejudicado a população local.

Iraque: o país 7 anos depois da invasão norte-americana - Parte 2


Poucos dias depois do discurso de Bush, o Iraque aceita que os inspetores da ONU regressem ao país. Contudo, a Casa Branca, que desde 1998 vinha exigindo o retorno dos inspetores, passa nesse momento a dificultar o processo, sinalizando já sua real intenção em invadir o Iraque. Em novembro de 2002, a ONU publica uma nova resolução, alertando o governo iraquiano de que esta seria sua última chance de permitir a entrada dos inspetores e de que teria que arcar com graves conseqüências se não cumprisse o acordo.

E um aspecto interessante dessa resolução: ao invés de exigir que os inspetores comprovassem a existência de armas de destruição em massa no Iraque, ela imputou o ônus da prova ao governo de Saddam Hussein, que tinha, dessa forma que demonstrar o contrário. Ainda assim, Saddam Hussein concorda e no final de novembro uma equipe de inspetores da ONU retorna ao Iraque. Na primeira quinzena de dezembro, o governo iraquiano entrega um relatório de mais de 12 mil páginas, demonstrando a não existência de armas de destruição em massa.

O teatro bélico e a preparação para a ocupação
Assim que o relatório foi entregue, Estados Unidos e Grã Bretanha questionaram sua veracidade, apesar do trabalho dos inspetores já sinalizar para a não existência das supostas armas químicas e biológicas em território iraquiano. O ano de 2003 começa, dessa forma, com os Estados Unidos já montando seu teatro bélico, ampliando o número de soldados na região, que já chegavam a 100 mil. No final de janeiro, o chefe dos inspetores, Hans Blix, declarou ao Conselho de Segurança da ONU que o governo iraquiano não estava cooperando como devia e que ainda existiam armas de destruição em massa no pais.

O relatório de Blix, contudo, era questionado pelo presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohammed El-Baradei, que garantia que o Iraque não possuía nenhum tipo de arma atômica. Os argumentos de Bush para a invasão ganhavam, porém, cada vez mais força. Em março de 2003, Hans Blix apresenta um novo relatório, dizendo que até aquele momento não havia sido encontradas armas de destruição em massa no Iraque, sendo necessário, contudo, o prosseguimento dos trabalhos.

As declarações de Blix não convenceram a Casa Branca e, poucos dias depois, o presidente Bush sinalizou que as tentativas diplomáticas estavam esgotadas e que ele mobilizaria um conjunto de países aliados para a invasão do Iraque e destruição das armas químicas e biológicas, bem como mísseis de longo alcance. Assim, no dia 20 de março, tem início a invasão aliada no Iraque, com o nome de “Operation Iraq Freedom” (Operação Liberdade do Iraque).

A invasão e a tomada de Bagdá
As tropas aliadas invadiram o Iraque com um contingente de aproximadamente 180 mil homens, dos quais a esmagadora maioria eram norte-americanos e britânicos. O exército aliado era imensamente superior ao exército iraquiano, de forma que em poucos dias, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha conseguiram tomar Bagdá. A ocupação da capital iraquiana e sede do governo ficou mundialmente notabilizada pela derrubada da estátua de Saddam Hussein por parte do exército aliado.

Em meados de abril, a última cidade iraquiana a oferecer resistência foi tomada e no dia 15 de abril foi anunciado o fim da primeira etapa da guerra. O saldo de perdas humanas foi extremamente cruel nesse período: cerca de 9 mil combatentes iraquianos caíram e quase 7,5 mil civis iraquianos morreram nessa primeira fase da guerra, sobretudo devido aos ataques aéreos ao território iraquiano. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estabeleceram, após esse período, um Governo Provisório, que exerceria as funções executivas, legislativas e judiciárias até a instalação de um governo democrático no Iraque.

Governo Provisório e captura de Saddam Hussein
Oficialmente, o Governo Provisório – chamado de APC (Autoridade Provisória da Coligação) – foi instituído em 21 de abril de 2003, sendo nomeado um antigo oficial do exército norte-americano, Jay Garner, para ocupar seu posto máximo. A duração de Garner à frente da APC foi breve, sendo este substituído por Paul Bremer, também indicado por Bush, e que ficou até o estabelecimento do governo democrático no Iraque, em julho de 2004.



O período de transição foi marcado por várias insurreições em todo território iraquiano, especialmente por setores da população favoráveis a Saddam Hussein e que estavam descontentes com a invasão das tropas aliadas. Aproveitando-se do conhecimento do território, os iraquianos insurgentes iniciaram uma série de guerrilhas contra as tropas norte-americanas e britânicas, valendo-se também de morteiros, ataques suicidas, mísseis e dispositivos explosivos improvisados.

A despeito de toda essa crise no território iraquiano, Bush determina que as tropas aliadas permaneceriam ali e inicia uma operação de caça aos líderes do antigo governo, sobretudo Saddam Hussein. Para Bush, se Saddam Hussein fosse capturado, os conflitos na região tenderiam a diminuir, já que os revoltosos perderiam sua causa de luta. A partir de julho de 2003, iniciou-se a captura de membros do antigo governo de Saddam Hussein e também de seus familiares.

Em 13 de dezembro de 2003, as forças aliadas capturam Saddam Hussein, em um esconderijo perto de sua cidade natal. Mais uma cena que marcou o conflito na região: o principal líder do Oriente Médio havia sido capturado pelos soldados norte-americanos em um buraco, com uma aparência bem diferente daquela do antigo chefe do Estado iraquiano. A Casa Branca comemora, mas no Iraque o cenário continua desolador.

Iraque: o país 7 anos depois da invasão norte-americana - Parte 1



Sem dúvida, um dos conflitos mais marcantes da primeira década do novo século é a Guerra do Iraque, que teve início justamente no dia 20 de março de 2003, quando as tropas norte-americanas e britânicas iniciaram a ocupação militar do país. O pretexto usado por George W. Bush, então presidente dos EUA, e Tony Blair, então primeiro Ministro britânico, era de que o país governado por Saddam Hussein detinha em seu poder armas de destruição em massa.

Após um longo trabalho de investigação por parte de inspetores da ONU, chegou-se à conclusão de que o Iraque não possuía as tais armas de destruição em massa denunciadas pelos EUA e Inglaterra. Contudo, já era tarde demais. A guerra já havia começado e o saldo, especialmente para a população iraquiana, já vinha se mostrando bastante negativo. A derrubada de Saddam Hussein não significou redemocratização do país, ainda ocupado pelas tropas norte-americanas.

Antecedentes da guerra
O encerramento da Guerra do Golfo, em 1991, não ocorreu da forma que os Estados Unidos queriam: na época, o então presidente Bush pai queria a todo custo que Bagdá fosse invadida para derrubar o governo de Saddam Hussein. Contudo, os termos do acordo de paz estipulavam que o armistício se daria tão logo as tropas iraquianas deixassem o Kuwait, país vizinho no Golfo Pérsico. Com a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, conforme determinação da ONU, a Casa Branca teve que conter seu desejo bélico em relação ao Iraque.

Uma outra resolução do Conselho de Segurança da ONU determinava que todo tipo de armas de destruição em massa (química, biológica, nuclear e mísseis de longo alcance) que houvesse no Iraque fossem destruídas. Para fiscalizar se essa resolução estava de fato sendo cumprida, as Nações Unidas enviaram, já em 1991, uma Comissão Especial de Inspetores, responsáveis pelo acompanhamento da destruição dessas armas em poder do Iraque.

Contudo, a partir de dezembro de 1998, o governo de Saddam Hussein deixou de colaborar com o trabalho dos inspetores, acusando-os de espionagem. Diante desse quadro, os inspetores da ONU deixaram o Iraque e Bill Clinton, na época presidente dos EUA, abriu fogo durante 4 dias contra o Iraque, ao final dos quais declarou que todo tipo de arma química e biológica havia sido destruída. As tensões entre Iraque e Estados Unidos continuavam na forma de um conflito “frio”, sobretudo por conta de questões relativas ao espaço aéreo do país.

O governo Bush e os ensaios para a invasão
A situação, porém, ficou mais tensa com a chegada de George W. Bush à Casa Branca, em janeiro de 2001, que, ao contrário de Clinton, tinha uma postura mais agressiva com relação à sua política externa. E essa agressividade materializou-se, sobretudo, após os ataques às Torres Gêmeas, no 11 de setembro daquele ano. Tendo como principal alvo o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, que assumiu a autoria do atentado, Bush iniciou uma ofensiva militar ao Afeganistão.

A ocupação militar do território afegão pode ser considerada um ensaio para o que ainda estava por vir. Desde 1996, o poder do Afeganistão era exercido pelo talibã, uma milícia extremista de caráter nacionalista e que tinha forte vínculo com a Al-Qaeda, de Bin Laden. Assim, em 7 de outubro de 2001 teve início a ocupação militar do Afeganistão, com as tropas anglo-americanas investindo sobretudo no ataque aéreo do pais. Enquanto isso, a Aliança do Norte, formada por grupos de oposição ao talibã, constituía as forças terrestres para invadir Cabul, a capital. Após um mês de conflito, as forças aliadas conseguem tomar Cabul e o talibã é derrubado. Contudo, a resistência de milícias talibãs segue até os dias de hoje, transformando a região em uma área de conflito permanente.

Logo após a invasão aliada do Afeganistão, o governo Saddam Hussein foi um dos que questionaram a legitimidade da investida militar, despertando ainda mais a ira de Bush contra o Iraque. No ano seguinte, em 2002, Bush, em discurso na Assembléia Geral da ONU, declarou que uma ação militar contra o Iraque seria inevitável, caso o país não permitisse a entrada de inspetores das Nações Unidas para averiguação da suposta presença de armas de destruição em massa em território iraquiano. As tensões acirram-se e a guerra fica cada dia mais iminente.