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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A recente trajetória da inflação e as razões para o Copom elevar a taxa básica de juro brasileira

A primeira reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do governo Dilma Rousseff começa nesta terça-feira, 18, com a perspectiva do mercado de que a autoridade monetária deverá elevar a taxa básica de juro da economia – a Selic – para conter pressões inflacionárias. De acordo com a mediana das projeções do mercado resumidas no relatório Focus, do Banco Central, o Copom deverá aumentar em 0,5 ponto percentual a taxa Selic, para 11,25% ao ano, frente à atual taxa de 10,75% ao ano. Na última reunião do Copom, em dezembro do ano passado, optou-se pela manutenção da taxa básica de juro, sem viés.

De fato, o controle da inflação é uma das preocupações do governo Dilma na área econômica, especialmente após o processo de aceleração do crescimento do nível de preços registrado ao longo do ano passado. Em 2010, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo) registrou variação positiva de 5,91%, bem acima da inflação de 4,31% medida em 2009 e também superior ao centro da meta de inflação definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), que é de 4,50%. Essa forte aceleração da inflação em 2010 reflete, basicamente, o comportamento dos preços livres, uma vez que os preços administrados cresceram de forma desacelerada no decorrer do ano.

Choques de oferta e maior liquidez impulsionam preços
O grande “vilão” da aceleração inflacionária em 2010 foram os alimentos. Para se ter uma idéia, o grupo registrou elevação de 10,39% em todo o ano passado, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), responsável por auferir o IPCA. Essa forte elevação do preço dos alimentos decorreu, sobretudo, de choques de oferta, tanto no mercado doméstico quanto no internacional, e que foram potencializados pelo ambiente de elevada liquidez nos mercados financeiros internacionais. Embora a maior alta percentual tenha sido verificada nos preços do feijão, que subiram 51,49% em 2010, quando analisamos a cesta de consumo das famílias, percebemos que o maior impacto na inflação decorreu do aumento nos preços da carne.

Neste sentido, a carne ficou 29,64% mais cara em 2010, contribuindo com 0,64 ponto percentual na composição do índice de preços. Enquanto isso, apesar de ter tido maior alta percentual, o feijão, por ter um menor espaço no orçamento das famílias, contribuiu com apenas 0,13 ponto percentual no índice geral. Como efeito direto da elevação do nível geral dos preços dos alimentos, impulsionados pelo feijão e pela carne, comer fora de casa também ficou 10,62% mais caro ao longo do ano passado. Assim, a refeição fora de casa contribuiu com 0,46 ponto percentual do IPCA. Vale destacar que o grupo alimentos como um todo participou com 2,34 ponto percentual na composição geral do IPCA do ano passado, respondendo, dessa maneira, por 40% da inflação registrada no período.

Observando a figura abaixo, perceberemos que a inflação já começou 2010 em um nível acelerado em relação ao início do ano anterior, refletindo, portanto, não somente uma transmissão inflacionária via inércia, mas também via demanda. É evidente que o primeiro trimestre do ano carrega uma sazonalidade, em função dos efeitos do IPVA, do material escolar e também de impactos pontuais nos preços de certos alimentos, em decorrência de variações na oferta ocasionadas pelas chuvas do mês. Contudo, não se pode desprezar o fato de que a velocidade de crescimento do nível de preços no primeiro trimestre de 2010 foi bem superior àquela registrada em igual período do ano anterior. Após uma ligeira desaceleração, os preços voltaram a acelerar a partir de julho, dando sinais de perda do fôlego somente em dezembro.

Maior crédito ao consumidor também impulsionou inflação
Se por um lado tivemos uma forte pressão pelo lado da oferta, também não pode se desconsiderar a pressão oriunda da maior demanda, impulsionada em 2010 pela maior oferta de crédito ao consumidor. O crédito à pessoa física teve uma importância central entre 2008 e 2010 por auxiliar no processo de resposta à crise econômica mundial. Foi graças à elevação do crédito ao consumidor, dentre outras medidas tomadas pelo governo do então Presidente Lula, que o Brasil foi o último país a entrar e o primeiro país a sair da crise. Entretanto, passado esse cenário de crise, é importante que o governo Dilma daqui para frente enxugue o excesso de crédito ao consumidor na economia brasileira, convertendo-o em crédito ao setor produtivo, que é uma forma de crédito mais saudável e coerente com o crescimento de longo prazo.

Afinal de contas, se o governo troca parte do crédito ao consumidor pelo crédito ao setor produtivo, ele estará incentivando investimentos privados que, dentre outras coisas, significarão maior crescimento do nível de empregos na economia, formando, assim, um ciclo virtuoso melhor do que o que temos hoje. Isto porque o crédito ao consumidor amplia a liquidez de curto prazo, mas no longo prazo ele significa endividamento ou menor renda futura disponível das famílias, uma vez que determinada parcela do orçamento familiar estará comprometida com o pagamento do empréstimo. Dessa maneira, o melhor dos mundos, como dito acima, é que paulatinamente o governo vá transformando uma parte desse crédito ao consumidor em crédito ao setor produtivo, que é mais sustentável no longo prazo.

Uma boa forma de o governo incentivar esse processo seria o estabelecimento de juros maiores na tomada por empréstimos para pessoas físicas, adotando, em contrapartida, taxas menores para o setor produtivo. Isso ajudaria a frear a escalada inflacionária no curto prazo (pela contenção da demanda das famílias) sem prejudicar o crescimento econômico, já que as empresas, com maior acesso ao crédito a taxas menores, continuariam investindo e contratando. Assim, ao invés das famílias terem uma renda transitória presente em suas mãos (que significa menor renda disponível futura), elas terão uma maior renda permanente, o que é muito mais saudável para a economia como um todo.

Razões para o aumento da taxa básica de juro
É cedo ainda para dizer se a ligeira desaceleração registrada em dezembro pelo IPCA corresponde a uma inflexão de fato na trajetória inflacionária ou se não passa de um mero ajuste frente à progressiva escalada de preços nos meses anteriores. Isto porque ainda não foram divulgados índices conclusivos referentes ao mês de janeiro. Por enquanto, no terreno dos índices de preços, tivemos a divulgação do IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas, que mostrou uma boa desaceleração da inflação; por outro lado, as duas prévias de janeiro do IPC da Fipe mostraram que a aceleração da inflação permanece, pelo menos na região metropolitana de São Paulo, onde é feita a coleta de dados para cálculo do índice. Ou seja, diante desse cenário é melhor permanecer com o sinal “amarelo” ligado.

É certo que esta aceleração não corresponde a um ciclo inflacionário, mas sim a uma bolha. Contudo, um relaxamento da política monetária nesse cenário pode fazer com que efeitos exógenos que aceleraram a inflação nos últimos meses possam ser transmitidos para mecanismos endógenos de formação dos preços, o que aí sim seria perigoso, pois poderia incorrer em um ciclo inflacionário no longo prazo. A questão, portanto, é: não temos ainda um ciclo de inflação, mas se não tomarmos as medidas cabíveis neste momento, poderemos ter. Por isso é mais que justificado um aumento da taxa básica de juro por parte da autoridade monetária. É preciso já no curto prazo tomar medidas para trazer a inflação de volta ao centro da meta.

Embora as expectativas apontem para uma inflação menor em 2011 do que aquela registrada em 2010, as projeções ainda sugerem um crescimento dos preços a um patamar bem acima da meta. De acordo com o relatório Focus, o IPCA deve encerrar este ano com elevação de 5,42%, o que certamente é menor que a inflação de 5,91% auferida em 2010, mas é quase um ponto percentual superior à meta de 4,50%. Vale lembrar que o risco baixo de uma inflação subjacente no curto prazo tende a reduzir as incertezas em relação ao comportamento futuro da inflação plena, tendo reflexos diretos sobre os agentes econômicos, sobretudo, os formadores de preços. Em outras palavras, se a inflação converge para a meta já no curto prazo, as incertezas para o longo prazo são diluídas e a inflação permanece sob controle.

Por esta razão, qualquer aumento da taxa básica de juro neste início de governo – e é praticamente certo que a Selic seja aumentada nesta quarta-feira – deve ser entendido como um movimento de austeridade monetária. Afinal de contas, quem tem mais de 30 anos sabe bem o que significa inflação alta: arrocho salarial para os trabalhadores, redução do poder de compra (já que os salários não absorvem todo aumento do nível de preços) e encurtamento do horizonte de planejamento, tanto das famílias quanto do setor produtivo. Dessa forma, é fundamental promover no curto prazo os ajustes necessários para que a inflação volte a gravitar em torno do centro da meta. Como dito anteriormente, isso não significa comprometer o crescimento econômico, mas tão somente criar condições cada vez mais propícias a um crescimento que se sustente no longo prazo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Mesmo com barreiras dos EUA, projeções são de forte expansão do mercado de etanol brasileiro

Apesar da perspectiva de que na próxima segunda-feira, 13, o Congresso norte-americano aprove a prorrogação das tarifas de importação e do subsídio do etanol, que estavam previstas para durar até o final deste ano, as projeções para o mercado de etanol brasileiro continuam muito boas. Naturalmente, o melhor dos mundos seria a extinção dessas barreiras comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos para a entrada do etanol brasileiro no mercado norte-americano, já que isso deveria ampliar consideravelmente as exportações para aquele país.

O etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar, é bem mais competitivo que o etanol norte-americano, que é produzido a partir do milho. Isso porque o etanol da cana tem um “balanço energético” quase sete vezes superior ao do etanol do milho, sem contar o fato de sua produção reduz em 90% as emissões de gás carbônico na atmosfera, enquanto a produção do etanol do milho reduz em apenas 35% as emissões do gás. Apesar dessa vantagem comparativa do etanol da cana, a entrada do produto no mercado norte-americano é dificultada pelas barreiras comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos.

Para se ter uma idéia, para cada galão de etanol importado pelos Estados Unidos, é cobrado um imposto de US$ 0,54, o que encarece o produto brasileiro frente ao produzido nos Estados Unidos. Sem contar o fato de que o etanol do milho, em termos de preços no mercado norte-americano, já larga com vantagem, uma vez que o governo dos Estados Unidos gasta em média US$ 6,75 bilhões por ano com subsídios ao setor. Mesmo com essa dificuldade de penetração no mercado norte-americano, o mercado brasileiro de etanol deve continuar em um ritmo acelerado de expansão nos próximos anos, devido a uma série de fatores.

Maior demanda interna deve absorver produção do etanol
Primeiramente, é importante destacarmos que o grosso da produção de etanol é destinado ao mercado interno, uma vez que a demanda pelo produto tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Isso se deve, basicamente, a estímulos do governo brasileiro que, desde 2003, vem dando estímulos fiscais para a produção e comercialização dos carros flex-fuel, isto é, aqueles que podem ser abastecidos tanto com gasolina quanto com etanol. Desde então, já foram comercializados mais de 9,6 milhões de automóveis flex, sendo que, de acordo com dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), os carros flex já respondem hoje por 42% da frota brasileira de veículos comerciais leves.

Como a perspectiva é de que a demanda por carros flex continue em trajetória ascendente, uma vez que o álcool tende a ter, durante o período da safra, preços mais atrativos que o da gasolina, estima-se um crescimento vigoroso também do consumo interno de etanol. Além disso, o governo tem estimulado o uso do etanol não somente em carros leves, mas também em frotas de ônibus urbanos (os chamados “ônibus verdes”), como já é possível de se ver em capitais como São Paulo, e também como matéria-prima para a indústria de plásticos, para a produção do chamado bioplástico. Além disso, está em fase de desenvolvimento o chamado etanol de 2ª geração, que é um álcool produzido a partir do bagaço da cana, e que deve chegar ao mercado nos próximos anos.

Tendo todos esses fatores em vista, estima-se que a produção de etanol no Brasil deve atingir na safra de 2015/16 o patamar de 46,9 bilhões de litros, o que representa um valor 82,5% superior à produção de etanol na última safra (25,7 bilhões de litros), segundo projeções da Unica (União da Indústria de Cana de Açúcar). Enquanto isso, o consumo interno do etanol deve passar dos 22,5 bilhões de litros verificados na safra 2009/10 para 34,6 bilhões de litros na safra 2015/16, ou seja, um crescimento de 54% no período. As projeções para a safra de 2020/21 são ainda mais animadoras: enquanto a produção do etanol deve crescer para 65,3 bilhões de litros (alta de 154% frente à última safra), o consumo interno deve atingir 49,6 bilhões de litros (expansão de 120% frente ao valor atual).

Crescimento das exportações para Europa e Ásia
Uma análise cuidadosa das projeções da Unica nos permite observar que é esperado um crescimento vigoroso do consumo interno de etanol, mas em taxas bem inferiores ao crescimento da produção. Isso quer dizer o que? Como a previsão de estoque é contabilizada nos números do mercado interno, a diferença entre produção e consumo projetado refere-se às expectativas de exportação do etanol brasileiro nos próximos anos. De acordo com as projeções, o Brasil deve ter um excedente para exportação na safra de 2015/16 de 12,3 bilhões de litros de etanol, o que corresponde a quase quatro vezes mais do que o patamar exportado na safra de 2009/2010, que foi de 3,2 bilhões de litros. Para a safra de 2020/21, as exportações de etanol devem atingir 15,7 bilhões de litros, segundo as perspectivas.

Isso mostra que a despeito das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos ao etanol brasileiro, a exportação desse produto deve crescer nos próximos anos, especialmente devido à entrada em novos mercados. E é importante salientar que essa diversificação de mercados já está sendo incentivada pelo governo brasileiro: para se ter uma idéia, as exportações brasileiras de etanol para a União Européia saltaram de 200 milhões de litros em 2003 para pouco mais de 900 milhões de litros em 2009. Aqui cabe destacar que, em 2008, o volume de etanol exportado para a EU superou 1,4 bilhão de litros, sendo que a retração no ano seguinte pode ser explicada pela crise econômica que afetou diretamente as economias daquele continente.

As exportações do etanol brasileiro para a Ásia também cresceram consideravelmente ao longo dos últimos anos. Para a Índia, por exemplo, a exportação de etanol passou de 9,9 milhões de litros em 2006 para 371 milhões de litros em 2009, um crescimento difícil até mesmo de ser expresso percentualmente. O Brasil também exportou mais etanol para a Coréia do Sul: 317 milhões de litros em 2009 contra 93 milhões de litros em 2006. Com a perspectiva de que a demanda por biocombustíveis cresça nos próximos anos tanto na Europa quanto na Ásia (influenciada até mesmo por tratados internacionais de despoluição) e também de que, no médio a longo prazo, os Estados Unidos retirem as barreiras comerciais à importação, estima-se um crescimento vigoroso das exportações do etanol brasileiro na próxima década.

Dessa maneira, embora tudo indique que o Congresso norte-americano deverá prorrogar as tarifas de importação e o subsídio ao etanol do milho, inviabilizando, assim, as exportações do etanol brasileiro para os Estados Unidos, as perspectivas para o mercado do etanol brasileiro são bastante positivas. A combinação de crescimento da demanda interna com a diversificação de países compradores do produto (especialmente na Europa e na Ásia) deve contribuir sobremaneira para que o setor sucroalcooleiro continue em ligeira expansão nos próximos anos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ampliação da capacidade de refino do petróleo é estratégica, avalia presidente da Petrobras

Os planos da Petrobras para os próximos anos, sobretudo após a capitalização que transformou a empresa na segunda maior firma com capital aberto do mundo, foram o foco da entrevista do presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, nesta quarta-feira, 1º, no programa “Brasil em Pauta”. Gabrielli respondeu a uma série de questões feitas por emissoras de rádio de todo o Brasil, destacando, além das estratégias gerais da companhia, os planos de negócios para as diversas regiões e estados brasileiros, especialmente no que se refere à exploração do pré-sal.

E há que se destacar aqui que as dúvidas dos jornalistas foram muitas sobre o novo modelo de distribuição dos royalties, que está em tramitação no Congresso Nacional. No que se refere especificamente ao pré-sal, o presidente da Petrobras destacou que a sua exploração e produção já teve início em maio de 2009 na Bacia de Santos, de forma que a projeção para daqui cerca de um ano é de que a produção do pré-sal nesta área seja de 100 mil barris por dia. Em 2014, a perspectiva é de que esta produção mais que dobre somente nesta área, passando para 214 mil barris por dia.

De acordo com as projeções do presidente da estatal, o crescimento da produção do pré-sal nestas áreas já concedidas na Bacia de Santos deve ser geométrico, de forma que em 2020 a área produza 1,078 milhão de barris por dia. Se consideramos a produção da Petrobras e de suas parceiras, a produção do pré-sal nesta região será de 1,7 milhão de barris por dia em 2010. Isto revela um fato extraordinário: em apenas 10 anos, a produção do pré-sal na Bacia de Santos deve alcançar níveis que a Bacia de Campos demorou 45 anos para atingir em termos de produção do pós-sal.

Aumento da capacidade de refino é estratégico
Gabrielli ocupou boa parte da entrevista para falar também do que ele considera um dos grandes focos estratégicos da Petrobras nos próximos anos: a expansão das refinarias no país. Recentemente, o presidente Lula tem destacado que quer ver o Brasil, dentro de algum tempo, como exportador também de derivados e não somente de petróleo cru, como acontece hoje em dia. Embora alguns especialistas do setor afirmem que o investimento em derivados não é estratégico, já que suas margens de lucratividade são menores, Gabrielli reforça o ponto de vista do presidente Lula.

De acordo com o presidente da Petrobras, em 1980 a produção da estatal era de 181 mil barris por dia para um consumo 1 milhão de barris por dia. Era a época em que o Brasil estava longe de ser auto-suficiente em petróleo e dependia em larga escala da importação do óleo e de seus derivados. Naquele ano, a capacidade instalada de refino era de 1,38 milhão de barris por dia. Ou seja, havia uma capacidade ociosa de refino de quase 400 mil barris por dia. De lá para cá, tanto consumo quanto produção se expandiram, mas o refino cresceu a passos de tartaruga.

Gabrielli aponta, na sua entrevista, que naquele mesmo ano o Brasil construiu sua última refinaria, na cidade de São José dos Campos (Vale do Paraíba). Trinta anos se passaram e, em 2009, a produção do Brasil cresceu 10 vezes na comparação com 1980, atingindo 1,9 milhão de barris por dia. O consumo, por sua vez, dobrou para 2 milhões de barris por dia. A capacidade de refino, todavia, cresceu apenas 30%, para 1,8 milhão de barris por dia, de acordo com os números apresentados pelo presidente da Petrobras.

Este crescimento pífio na capacidade de refino ocorreu, segundo Gabrielli, pelo fato de que o Brasil ficou trinta anos sem construir uma refinaria nova, sendo que os investimentos no período foram feitos na recuperação e melhoria de refinarias já existentes. Dessa maneira, hoje o Brasil está no limite de sua capacidade de refino, necessitando da importação de diesel, querosene e gás liquefeito de petróleo. Diante desse quadro, é extremamente importante que a Petrobras amplie consideravelmente suas plantas de refino, a fim de atender a demanda interna sem recorrer a importações.

Nas projeções de Gabrielli, se o Brasil continuar com uma taxa de crescimento do PIB de 4% ao ano até 2020, o consumo estimado daqui dez anos será de 3,3 milhões de barris por dia, o que representa um patamar 65% superior ao atual. A produção esperada para 2020 é, por sua vez, de 4 milhões de barris por dia, ou seja, o dobro do que se produz hoje no Brasil. Sobre a questão da lucratividade, apontada por alguns especialistas, o presidente da estatal lembrou que a Petrobras é uma empresa voltada para o mercado brasileiro e o que se consome no Brasil são derivados e não o petróleo cru.

Além disso, embora a margem de lucro do refino seja mais volátil, como lembra Gabrielli, no Brasil temos uma certa estabilidade dessa margem, uma vez que o movimento de preços dos derivados no mercado interno não acompanha, no curto prazo, as oscilações de preço do mercado internacional. Esse alinhamento de preços se dá, segundo o presidente da estatal, apenas no longo prazo. Dessa forma, os argumentos de críticos que dizem que a expansão das refinarias não é estratética pelas suas reduzidas margens de lucratividade perdem sentido se consideramos tal realidade.

Participação no mercado de etanol
Outro ponto abordado por José Sérgio Gabrielli em sua entrevista diz respeito à participação da Petrobras no chamado etanolduto (ou álcoolduto), outra aposta do governo federal relacionada à matriz energética brasileira. O projeto logístico do etanolduto é multimodal, servindo para trazer o álcool de Goiás (região de Senador Canedo e Tinguá) até os portos de São Sebastião e Santos. Nesse sentido, a primeira fase do álcoolduto (que liga inicialmente Ribeirão Preto a Paulínia, no interior de São Paulo) já está em fase de implementação.

Segundo Gabrielli, paralelamente a isso, a Petrobras autorizou a Transpetro a adquirir 80 balsas e 20 empurradoras que vão viabilizar o transporte do álcool através da hidrovia Tietê-Paraná. Essa integração da rede de etanoldutos com a rede de hidrovia deve, na perspectiva do presidente da Petrobras, reduzir significativamente o custo logístico do etanol, sobretudo nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Com um menor custo, amplia-se a competitividade do produtor brasileiro de etanol, inclusive nos mercados externos. Sem contar que esse sistema logístico deve beneficiar também o meio-ambiente, pois reduzirá frota de caminhões nas rodovias.

Respondendo sobre a questão da perspectiva de abertura do mercado norte-americano para o etanol brasileiro nos próximos meses, Gabrielli destacou que, naturalmente, será muito bom para o Brasil. O presidente da Petrobras ressaltou, contudo, que a estratégia prioritária da estatal é voltada para o mercado interno de etanol e outros mercados internacionais, uma vez que o a mudança no mercado de etanol norte-americano (atualmente baseado no etanol do milho) é de longo prazo, já que envolve um complexo econômico muito grande dos produtores de milho.

Percebe-se, dessa maneira, que a perspectiva é de um crescimento vigoroso para a Petrobras ao longo da próxima década. Com a produção do pré-sal em ritmo crescente, sobretudo quando se iniciarem as operações na Bacia de Campos, a expansão das refinarias e a participação conjunta no mercado do etanol, a estatal brasileira deve se tornar, ao longo dos anos subsequentes, na maior produtora mundial de petróleo, como já tem sido apontado por alguns analistas de mercado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Eleições 2010: oposição deve perder cadeiras no Senado, projeta Diap



Além do cenário nada favorável na disputa presidencial deste ano, PSDB e DEM podem amargar derrotas também na disputa pelas vagas do Senado. Essa é a análise do diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz. A Casa, composta por 81 senadores, renovará, esse ano, 2/3 dos mandatos, o que representa 54 cadeiras.

Segundo os cálculos do diretor do Diap, dessas 54 vagas que estarão na disputa, 14 ou 15 devem ser conseguidas por senadores que tentarão a reeleição, um patamar idêntico àquele registrado em 2002. Na disputa pelas demais vagas, os partidos governistas devem ser os grandes beneficiados, já que a segundo Queiroz, “a oposição é naturalmente prejudicada em uma disputa como essa, pela perda de interlocução que teve com o poder central há oito anos e que só será sentida agora”.

Alianças nos Estados devem ampliar bancada petista
Na avaliação do Diap, o melhor desempenho nas eleições para o Senado este ano deve ficar com o PT. Isto porque o Partido adotou uma tática de não priorizar as eleições estaduais, abrindo mão das candidaturas próprias em favor das candidaturas de partidos aliados, em Estados onde estes têm maior chance de vencer a disputa. Com isso, o PT deve passar de 11 senadores, na atual configuração, para um patamar entre 13 e 15 senadores.

Esse crescimento da bancada petista, segundo Queiroz, deve ocorrer principalmente em estados do Nordeste, como Pernambuco e Ceará, no Paraná e também no Sudeste, especialmente no Rio de Janeiro e Espírito Santo. Já em São Paulo, a disputa tende a ser bastante acirrada, na opinião do diretor do Diap, com a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) e Orestes Quércia (PMDB) sendo os favoritos para ocupar as vagas que hoje são de Aloízio Mercadante (que será candidato ao governo do Estado) e Romeu Tuma (PTB).

No caso do PMDB, o Diap acredita que o partido deverá manter-se com o mesmo número de cadeiras no Senado, sem grandes alterações. Isso se deve ao fato do partido renovar 14 das 17 cadeiras que possui atualmente e ter boa parte de sua bancada composta por suplentes.

Situação nada confortável para a oposição
Por outro lado, os tucanos tendem a perder 5 cadeiras no Senado, de acordo com Queiroz, passando das atuais 14 para 9, enquanto o DEM deve registrar queda na sua bancada também, para 9 ou 8 cadeiras. De acordo com as projeções do Diap, os senadores da oposição que se encontram em situação mais animadora são Heráclito Fortes (DEM-PI), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Caso o atual governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), seja de fato candidato ao Senado, o Diap avalia que ele deverá ter uma votação bem elevada, mas que pode ser impactada se a candidatura do atual vice-presidente José Alencar (PRB) se confirmar para o Senado. Pelo visto, a eleição presidencial não deve ser o único motivo de preocupação para a oposição, já que as expectativas do Diap são bem realistas e apontam para um recuo da bancada oposicionista também no Senado.