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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Reflexões sobre o processo de construção da democracia no Egito pós-Mubarak

Nas últimas semanas, as atenções de toda comunidade internacional estão voltadas para o norte da África e para o Oriente Médio, em função das revoluções populares ocorridas primeiramente na Tunísia e, posteriormente, no Egito. Nesses dois países, a pressão popular pôs fim a regimes ditatoriais (Ben Ali, na Tunísia, e Mubarak, no Egito) e ampliou consideravelmente as possibilidades de um avanço democrático nessas regiões marcadas por sucessos governos de caráter autocrático. Isso porque a própria essência desses levantes populares e os seus desdobramentos até o momento têm como principal mola propulsora o ingrediente essencial da democracia, que é a soberania popular.

Naturalmente, a queda dos ditadores da Tunísia e do Egito constitui apenas o ponta-pé inicial para uma verdadeira transformação democrática nesses países. Longe de querer diminuir os êxitos alcançados pelo povo desses dois países, mas é importante que se reconheça que o processo de construção democrática é muito mais complexo e lento do que a própria ruptura com um regime ditatorial. Rupturas são, em grande parte, produto de uma conjuntura endógena (como no caso tunisiano e egípcio) ou exógena que praticamente forçam uma inflexão. Nesse sentido, a simples ruptura com um regime autocrático não significa necessariamente que a democracia será construída de forma automática nessas regiões.

Desislamização política
Há que se levar em conta a dinâmica de forças políticas existentes nesses países e, sobretudo, o grau de participação que o governo militar provisório, no caso do Egito, dará aos civis nesse processo de construção da democracia. Embora todos concordem que ainda seja cedo para fazer previsões sobre o tempo ou a forma em que transcorrerá esse processo, parece que a grande maioria das análises também converge para um risco quase inexistente de constituição de um regime teocrático, como ocorreu na região em períodos anteriores. Lluís Bassets, colunista do El País, escreveu um artigo muito interessante apontando para essa “desislamização” política do Egito e regiões vizinhas.

De acordo com Bassets, “parece evidente que em nenhum dos países o islamismo organizado tem tido um papel relevante na origem nem sequer na organização das revoltas”, completando que “a percepção mais comum é que esta revolução árabe, não somente no Egito, está nas mãos de uma geração nova, muito numerosa e diferenciada das anteriores”. A visão de Bassets sobre a pouca influência do Islã político nos rumos da recente revolução árabe e mesmo no destino político dessas regiões é compartilhada por outros observadores da política internacional. Embora a Irmandade Muçulmana, ligada ao sunismo, seja uma força política de expressão no Egito, muitos analistas de política internacional concordam que ela não tem força suficiente para construir uma hegemonia no país.

Uma pesquisa feita pelo The Washington Institut no Cairo entre os dias 5 e 8 de fevereiro revelou que apenas 15% dos entrevistados aprovam a Irmandade Muçulmana, o que mostra que, embora o grupo tenha uma expressão política razoável, está bem longe de conseguir uma hegemonia para liderar o novo governo. Além disso, essa mesma pesquisa mostrou que apenas 12% dos egípcios são favoráveis à aplicação da sharia (lei muçulmana) no país. Esse distanciamento popular da opção teocrática, expresso nessa pesquisa e comungado nas mais diversas análises, nos dá indícios de que o processo de construção de um novo regime no Egito ocorrerá de uma forma distinta do que ocorreu em outras regiões do Oriente Médio em ocasiões anteriores.

Partidos egípcios devem se fortalecer
Para o cientista político egípcio Nubar Hovsepian, professor da Universidade de Chapman, na Califórnia, “acabaram-se os dias em que os egípcios dançavam ao som dos interesses de um ditador; eles tiveram êxito em pôr um fim nessa realidade. Mas agora vem o mais difícil: como transformar essa vitória em realidade política”. Segundo Hovsepian, “o desafio é construir o marco institucional da transição democrática, mas o processo é lento”. Numa entrevista dada ao jornal argentino Página 12, o cientista político egípcio destacou ainda que o Exército, que assumiu provisoriamente o comando do Egito após a renúncia de Mubarak, não é o ator mais indicado para conduzir esse processo de construção de um regime democrático.

“O Exército tem o máximo poder agora para lidar com o caos do início de uma nova realidade, mas o marco institucional tem que ser a criação de um Estado independente, levada a cabo pelo povo através da comunhão das forças políticas”, analisa Hovsepian. O momento agora, segundo o cientista político, deve ser de fortalecimento dos partidos políticos e das lideranças populares, justamente para garantir uma transição tranqüila para um regime democrático. E o grande desafio, neste sentido, deve ser justamente equacionar o quão curto ou longo será esse período de transição: se muito curto, pode incorrer numa construção democrática pouco sólida; se muito longo, pode aumentar o risco do Exército (e não o povo) assumir o protagonismo do processo.

O professor Hovsepian faz uma análise interessante: “três décadas de Mubarak destruíram o espaço público. Definhada e frágil, a oposição se dedicou a construir redes de atuação territorial, que não crescem verticalmente, mas que preenchem lacunas do espaço público. Sua estrutura necessita evoluir e incluir a estrutura vertical necessária para lutar com força no nível político. Esses grupos necessitam institucionalizar-se para poder fortalecer a representação do povo. Eles são o povo. É preciso que os egípcios se convertam em sujeito político”. Essa avaliação de Nubar Hovsepian é importante porque mostra a necessidade de institucionalizar esse movimento popular para que a construção democrática ocorra de maneira firme e sólida no Egito.

A oposição enfraquecida não será capaz de travar uma disputa por espaço no tabuleiro político, o que por si só já seria prejudicial ao processo de construção democrática, pois daria mais espaço para que o Exército, já organizado, assumisse o protagonismo. Por esta razão os analistas internacionais convergem para a percepção de que ainda é cedo para se afirmar com exatidão o que acontecerá no Egito: é preciso, antes, checar qual será a capacidade da oposição egípcia de se organizar enquanto movimento de construção de um novo regime democrático. Afinal de contas, é importante que a oposição esteja organizada e mobilizada para que tenha ampla participação na elaboração de uma nova Constituição para o país e também para o próprio processo eleitoral, que deve ocorrer em agosto desse ano.

O fortalecimento dos partidos políticos egípcios também é recomendável para evitar influências externas na construção de sua democracia. Quanto mais fortes e articulados estiverem os partidos políticos no Egito, menor será o risco de influência estrangeira no processo que se deflagra naquele país, possibilitando a construção de uma democracia legitimada pela ampla participação popular e pelo respeito às experiências políticas e históricas próprias do povo egípcio.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A queda de Mubarak no Egito e "a Berlim de 1989 dos árabes"

Como o “11 de fevereiro” passará para a História ainda é cedo para saber: tudo depende da dimensão que as repercussões da queda do ditador do Egito Mubarak tomarão daqui para frente. Há quem diga que estamos assistindo apenas ao começo de uma revolução democrática árabe, que poderá colocar fim a uma série de ditaduras que persistem no Oriente Médio, instalando, nos seus lugares, regimes democráticos. Entretanto, uma coisa já sabemos: para o Egito, essa data já faz parte de sua História. Após trinta anos de opressão, o povo egípcio finalmente está livre do ditador Mubarak. Chama à atenção, sobretudo, a mobilização popular que culminou com a renúncia de Mubarak: nos últimos 18 dias, pessoas das mais diversas partes do mundo acompanharam pela internet e pela TV cada lance da luta do povo egípcio, que desde o dia 25 de janeiro tomou as ruas e iniciou um movimento que buscava muito mais que uma transformação econômica, mas sim uma ruptura política.

Embora a Praça Tahrir tivesse sido tomada por egípcios das mais diversas idades e classes sociais, é impossível não reconhecer o protagonismo da juventude egípcia nesse processo. E, neste sentido, é muito especial vermos a juventude tomando as ruas e, movidas pela esperança e pelo desejo de uma sociedade de direitos e democrática, derrubar um regime ditatorial. Torcemos para que agora o Egito possa experimentar uma transição tranqüila para um governo democrático, fazendo valer a luta desses milhões de egípcios que lutam por dias melhores. O Boteko reproduz aqui um texto do jornalista do El País Javier Valenzuela, intitulado “A Berlim de 1989 dos árabes”. Boa leitura!

A Berlim de 1989 dos árabes
“Foi duro, muito duro, e absolutamente deslumbrante. O povo egípcio, liderado por sua ciber-juventude democrática, em dado ao mundo uma imensa lição de claridade de idéias, valentia e tenacidade. A imensa multidão da Praça de Tahrir, jovens e adultos, de classe média e pobres, homens e mulheres, cristãos e muçulmanos, insistia na saída do ditador Mubarak antes mesmo de contemplar a possibilidade de uma transição para a democracia mais ou menos negociada entre o regime e a oposição, e tinha toda razão do mundo. Nada do que o regime prometesse teria a menor credibilidade se seguisse no trono um faraó convertido em múmia, um cadáver político teimosamente agarrado ao poder.

Mubarak acaba de ir-se. O povo venceu na persistência. Na noite passada, Mubarak ainda insistia em permanecer no cargo até setembro, liderando a transição. Era um disparate monumental, ainda que tivesse o apoio dos falcões de Israel, de outros déspotas árabes, dos elementos mais conservadores do establishment norte-americano e da pusilanimidade de dirigentes europeus. Era um despropósito porque o povo de Tahrir não aceitaria, não abandonaria o combate. Ao contrário, iria redobrá-lo, mesmo que decepcionado e frustrado, contando também com o reforço de outras centenas de milhares de egípcios em suas orações de sexta-feira nas mesquitas. Nos últimos dias o lema do povo era esse: “se o rei é teimoso em seus esforços de agarrar-se ao poder, muito mais somos nós”.

Como o governo podia conter a multidão que tem ocupado as ruas das principais cidades egípcias? Somente uma matança de proporções descomunais, uma matança nunca vista ao vivo na História da Humanidade, poderia tentar conter hoje o movimento egípcio e mesmo assim era improvável que conseguisse seu objetivo. O blefe de Mubarak na noite anterior não teria o menor futuro. A partir do momento que o Exército egípcio, a instituição com maior prestígio no país e da qual saíram os presidentes Nasser, Sadat e Mubarak, se negou a disparar contra as massas, afirmando inclusive que compreendia e apoiava seus motivos, a revolução democrática egípcia já estava em vias de ganhar. Agora, acaba de conseguir seu primeiro objetivo concreto: a renúncia do ditador. E é um momento para regozijo. Dos egípcios, dos povos árabes e de todos os democratas do planeta.

Tahrir significa em árabe 'libertação'. E para as pessoas que têm feito dessa praça o coração palpitante da luta pela liberdade, o primeiro passo era serem libertas desse general de rosto pétreo que governou o vale do Nilo com mãos de ferro durante mais de trinta anos. (...) Acaba de triunfar a primeira e decisiva fase de uma revolução democrática. A humanidade não havia vivido nada semelhante desde a queda do Muro de Berlim e a dissolução do império soviético. E esta primavera dos povos árabes tem muito pouco ou nada a ver com a revolução de Teerã, em 1979. Somente cabe compará-la com Berlim em 1989. É a história em movimento, é, em plena crise econômica, o retorno ao primeiro plano da política internacional de luta contra a ditadura e em favor dos direitos humanos.

Já são dois ditadores árabes derrubados, o tunisiano Ben Ali e o egípcio Mubarak, nesta revolução democrática árabe que faz cair por terra estúpidos preconceitos ocidentais, como aquele que afirma que o árabe e o muçulmano são totalmente incompatíveis com a democracia. E que demonstra também que as cautelas governamentais do Ocidente não são somente traições aos princípios e valores democráticos, mas também fruto da preguiça intelectual, de não ter feito a lição de casa, de não haver percebido que o grande protagonista do mundo árabe neste século 21 não são os islâmicos, mas sim os jovens, esses mais de 100 milhões de jovens árabes, que desejam liberdade, dignidade e justiça.

E agora, querem saber qual será o próximo ditador árabe que poderá ser derrubado como resultado de uma revolução popular? A resposta é fácil: olhe para onde os ministros do governo Sarkozy passaram as festas de Natal. Esta é a piada que circula por esses dias na França, aproveitando o fato constrangedor da ministra Alliot-Marie ter passado, gratuitamente, suas férias na Tunísia de Ben Ali e o primeiro ministro Fillon, com a mesma agência de viagens, no Egito de Mubarak. E isso não é tudo. Está sendo convocada para o próximo dia 12 uma jornada de protestos na Argélia, no dia 17 na Líbia e no dia 20 em Marrocos”.

(Javier Valenzuela é economista, escritor e jornalista. Escreve no El País desde a década de 80, tendo sido correspondente do jornal espanhol em diversos países, inclusive no Oriente Médio)

Para um panorama das perspectivas sobre o governo de transição no Egito, o Boteko recomenda esse excelente texto de Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Colúmbia (EUA) e correspondente do Estadão. Vale a pena ler o artigo com atenção!

domingo, 30 de janeiro de 2011

A jornais argentinos, Dilma reforça intenção de ampliar cooperação com país vizinho

Em seu primeiro compromisso no exterior como Presidenta da República, Dilma Rousseff embarca neste domingo, 30, para a Argentina, onde se encontrará na segunda-feira com a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. A escolha da Argentina como primeiro destino de Dilma naturalmente não foi por acaso: o Brasil tem interesses em ampliar uma política de cooperação com vista ao desenvolvimento regional, que tenha como foco o Mercosul e se estenda por toda América Latina. Neste domingo, véspera da chegada de Dilma, três importantes jornais da Argentina – o Página 12, o Clarín e o La Nación, repercutiram a agenda bilateral do Brasil com a Argentina e trouxeram uma entrevista com a Presidenta brasileira.

Essa entrevista, feita em Brasília, foi dada de forma conjunta aos três jornais por Dilma, de forma que o conteúdo reproduzido pelos periódicos argentinos é praticamente o mesmo. Em linhas gerais, Dilma enfatizou a necessidade do fortalecimento de uma política regional, onde Brasil e Argentina estão mais que legitimados para liderar. A Presidenta também falou sobre a guerra cambial que vem sendo promovida pelos Estados Unidos e China e também sobre a questão dos direitos humanos. É interessante notar que a visita de Dilma à Argentina está sendo noticiada com destaque pela imprensa daquele país. O Boteko reproduz abaixo a entrevista veiculada pelo Página 12, lembrando que é praticamente a mesma que foi publicada pelos outros dois jornais. Boa leitura!

Entrevista de Dilma pelo Página 12
“De seu primeiro mês de governo, Dilma tem uma recordação boa e uma má. A boa refere-se à sua posse ao fato “dos brasileiros, muito afetuosos, gritarem seu nome nas ruas e lhe saudar como se fossem íntimos”. A má recordação foi quando, em Nova Friburgo, na região Serrana do Rio, se deparou com o desespero dos familiares que haviam perdido algum parente nas enchentes e deslizamentos que mataram quase mil pessoas. Às vésperas de viajar para Buenos Aires, a Presidenta brasileira Dilma Rousseff explicou a três jornalistas argentinos o que pretende tratar com Cristina Fernández de Kirchner.

- Meu foco é o seguinte – disse Dilma em uma pequena sala do Planalto com vista para Brasília -: uma vez mais, o governo brasileiro assume com o governo argentino o compromisso de implementar uma política conjunta e estratégica de desenvolvimento da região. No nosso caso, acreditamos que o desenvolvimento do Brasil deve beneficiar a região inteira.

O exemplo que deu é um anúncio: ‘Vamos implementar uma estratégia muito forte para desenvolver uma política de fornecedores para a região do pré-sal’, referindo-se às novas reservas petrolíferas que o Brasil descobriu nos últimos anos em profundidades de até 7 mil metros no Atlântico. Dilma recordou que ‘até agora temos uma política que chamamos de política de conteúdo nacional. Estamos pensando em uma política de conteúdo regional, conjunta com a Argentina. Estamos elaborando uma agenda pela qual Argentina e Brasil, posto que são países com grandes recursos alimentícios e também energéticos, possam aumentar a agregação de valor e a geração de emprego na região. Com a Argentina queremos uma parceria na área de tecnologia e inovação e também uma parceria para o uso de tecnologia nuclear com fins pacíficos’.

Tudo isso consta nesta agenda?
Estou dando um exemplo de foco. Vou enfatizar a idéia fundamental de uma relação especial e estratégica com a Argentina. Duas presidentas mulheres constituem um feito para ser festejado, pois os dois maiores países do Cone Sul estão dando uma demonstração de que suas sociedades evoluíram no sentido de superar o tradicional preconceito que existia contra a mulher. E para mim é bastante significativo que também nessa mesma região tenhamos exemplos como a eleição de um índio na Bolívia, de um metalúrgico antes de mim aqui, no Brasil. A América Latina está dando ao mundo o exemplo de que certos preconceitos, certas barreiras econômicas e sociais, estão sendo superados. Isso representa uma maior democratização de nossas sociedades e de nossos países. A presença de uma mulher aqui abrirá também a possibilidade de que aconteça o mesmo em outros países da América Latina, como ocorreu com Michelle Bachelet no Chile.

Que tipo de contato manterá com a Presidenta Cristina Fernández de Kirchner?
Quero ter uma relação extremamente próxima com a Presidenta Kirchner. E quero isso primeiramente porque Brasil e Argentina são países que têm responsabilidades perante o conjunto da América Latina, no sentido de fazer com que nossa região tenha cada vez mais presença no cenário internacional. Brasil e Argentina podem fazer isso, e o farão de maneira mais eficaz à medida que nossas economias se articulem de maneira mais estreita, se desenvolvam e criem laços em que ambos os povos ganhem com essa parceria em termos de desenvolvimento econômico, de desenvolvimento tecnológico e de melhora das condições de vida dos brasileiros e argentinos. Além disso, (Cristina e eu) temos uma proximidade facilitada pelo fato de que somos mulheres que representam duas grandes economias da região.

Essa presença do Brasil e Argentina articulados com líderes que são mulheres também permitirá uma maior presença nos organismos de articulação internacional. Vejam o G20. Ou o G77, onde a Argentina assumiu a liderança. Já vivi várias experiências (multilaterais). Destaco uma: a reunião do clima. O fato de que, no G77, a Argentina tenha essa posição de liderança facilitará também a defesa dos interesses dos países do Sul. Na reunião do clima, em Copenhague, na Dinamarca, não tínhamos presença. Ter presença significa, hoje, que se expressará de uma forma mais efetiva parte da visão sobre desenvolvimento sustentável que impera na nossa região.

Unasul e Mercosul
Perguntada se o Brasil já definiu critério sobre a substituição de Néstor Kirchner na Secretaria Geral da Unasul, Dilma disse que os critérios são dois: rodízio e mesa redonda, “onde não há ninguém na ponta”. Em relação a nomes, nada.

- Também para a Unasul é muito importante essa relação entre Brasil e Argentina - opinou a Presidenta -. Vou dar continuidade e vou aprofundar o compromisso brasileiro, que assumimos de modo muito firme já no governo Lula. O destino do Brasil deve estar ligado e compartilhado com o resto da América Latina, assim como as melhoras das condições de vida do Brasil. O mundo é globalizado. Deixou de ser basicamente um mundo com um ou dois pólos no máximo. Hoje o mundo é mais multilateral e isso exige a formação de blocos regionais. Essa é a razão pela qual, para mim, a relação com a Argentina é especial, estratégica. Por isso a Argentina é o primeiro país que visito. É um país irmão do Brasil. Não estou desmerecendo nenhum outro. Mas até para esses outros países é absolutamente importante que Brasil e Argentina estejam juntos. Não é uma hegemonia que Brasil e Argentina propõem em relação à América Latina. Podemos liderar por nosso tamanho e por nosso nível de desenvolvimento econômico.

Como funcionará a incorporação da Venezuela ao Mercosul?
Para nosso bloco é muito importante que entrem outros países, porque muda o nível do Mercosul. A Venezuela é um grande produtor de petróleo e gás. Tem muito a ganhar entrando no Mercosul, e nós também com sua presença.

Como se posiciona o Brasil frente a países como Estados Unidos e China na discussão econômica mundial?
É público e notório que Brasil e Argentina sofrem – como todos os países emergentes – as conseqüências da política de desvalorização praticada pelos países em questão [em relação a suas moedas], que são duas grandes economias mundiais. Parece-me que nossa posição no G20 terá que ser cada vez mais de reação a essas desvalorizações que sempre conduziram a situações complicadas no mundo. Falo das chamadas ‘desvalorizações competitivas’. Eu desvalorizo [minha moeda] para competir com vocês. Essa política conduziu a várias crises econômicas e também a disputas políticas e econômicas. Não é uma boa política nem para a Argentina, nem para o Brasil nem para nenhum país emergente.

Isso deveria ser pensado pelos Estados Unidos, que detém uma moeda que é reserva de valor. Hoje o Brasil tem US$ 288 bilhões em reservas. Para nós também é muito importante que não haja uma perda de valor. Perder valor uma moeda que é reserva de valor é uma contradição. Por sua vez, não podemos também aceitar políticas de dumping, mecanismos de competição inadequados que não se baseiam em práticas transparentes. Os países têm que reagir contra isso. Também sabemos que o protecionismo no mundo não leva a nada que seja bom. As perdas não se restringem àquele do qual quer se defender, mas se espalham por todo o sistema.

Na Argentina, há muita inquietação e preocupação em relação à desvalorização do real. Pode se afirmar que isso não passará?
No mundo ninguém pode afirmar isso. Nós conseguimos, nos últimos tempos, manter o dólar dentro de uma banda de flutuação entre 1,6 e 1,7 reais por dólar. Por isso que os organismos internacionais são muito importantes: para discutir esse tema no qual os países desenvolvidos devem assumir sua responsabilidade.

Que expressão terão os direitos humanos na política exterior brasileira?
Até tive uma pequena divergência com o Itamaraty. Não vou negociar direitos humanos, ou seja, não farei concessões sobre esse tema. Os direitos humanos não podem se limitar a um país ou a uma região. Isso é falácia. Temos que observar os direitos humanos em nosso país e em todos os países. Não dá para ver somente a trava no olho do vizinho até porque, no caso dos países desenvolvidos, já tivemos episódios terríveis: Abu Ghraib, Guantánamo. E também considero que apedrejar uma mulher não é algo adequado.

O apedrejamento é uma forma de pena de morte...
E eu sou contra. Mas não quero que usem os direitos humanos como instrumento político. Não vou defender os que violam os direitos humanos, mas tampouco sou ingênua quando se faz política com direitos humanos.

Qual sua opinião sobre a situação de Cuba?
Com a libertação dos prisioneiros, Cuba dá um passo adiante nos direitos humanos. Mas temos que respeitar o tempo deles. A política é feita em condições de determinada temporalidade. Vista no tempo, Cuba está passando por um grande processo de transformação”.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Lulamania: candidatos da oposição argentina usam Lula como estandarte de campanha

Mesmo após deixar a Presidência da República, a popularidade de Lula continua alta. E não falamos aqui de sua imagem entre os brasileiros, que por certo continuam em sua esmagadora maioria apoiando Lula, mas sim entre a classe política de outros países. Vejam que interessante: não bastasse a oposição brasileira no ano passado ter tentado “colar” em Lula, com o então candidato derrotado José Serra (PSDB) se apresentando como “pós-Lula” e tecendo vários elogios ao Presidente, agora a oposição na Argentina também quer tirar proveito da elevada popularidade do ex-presidente brasileiro. Sim, é isso mesmo que está escrito: os “hermanos” da oposição querem vender ao eleitor argentino uma suposta proximidade a Lula, para tentar desbancar Cristina Kirchner, que deve ser reeleita em outubro segundo as atuais pesquisas de intenções de voto.

O jornal argentino Página 12 trouxe neste sábado, 22, um editorial sobre o assunto, escancarando a ”Lulamania” dos pré-candidatos presidenciais de oposição na Argentina. Para se ter uma idéia do quão cômica está a situação, basta dizer que enquanto alguns candidatos apenas apresentam Lula como “modelo de governante” a ser seguido, outros procuram destacar até mesmo semelhança física com o ex-presidente brasileiro! Como o próprio editorial do periódico argentino diz, Lula se transformou numa espécie de “talismã” para a oposição do país vizinho. Resta lhes lembrar, contudo, que a oposição brasileira tentou usar essa mesma tática no ano passado, mas não deu certo. Abaixo, o Boteko transcreve a íntegra do editorial. Boa leitura!

Lulamania
“A figura do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se para os políticos da oposição na Argentina uma espécie de 'talismã' no qual todos querem se agarrar. Não somente o mencionam, mas também o interpretam. Eduardo Duhalde conseguiu um prefácio do ex-presidente para seu livro de campanha, apoiado na relação pessoal que ambos tiveram durante a gestão que o agora pré-candidato presidencial do peronismo federal teve na Secretaria do Mercosul durante o governo de Néstor Kirchner. O chubutense [da província de Chubut, na Patagônia Argentina] Mario Das Neves não hesita em associar sua semelhança física a Lula com uma vitória pessoal e como se fosse o resultado de uma árdua construção política. E pretende fazer crer que essa semelhança pode implicar uma afinidade ideológica.

Elisa Carrió – que não pode alegar semelhança física com o ex-presidente brasileiro – elogia Lula por ter 'construído um país de classe média' e omite maliciosamente que muitos dos acertos que se atribuem ao ex-mandatário brasileiro surgiram da aplicação de diretrizes políticas e econômicas que, em linhas gerais, são muito similares às que foram colocadas em prática na Argentina primeiro por Néstor Kirchner e depois por Cristina Fernández. Parece que o que em outro país é bom e considerado um acerto, quando é feito dentro do seu próprio território não é tanto. Na falta de idéias próprias e de modelos acessíveis – e que possam ser úteis para fins de campanha eleitoral -, os pré-candidatos crêem que mencionando Lula como exemplo ou o apresentando como modelo poderão receber ao menos uma parte dos 87% de popularidade que acompanhou o ex-presidente brasileiro até o momento dele passar o cargo para a atual mandatária, Dilma Rousseff.

Teremos que avisar a todos eles que na política os méritos alheios não costumam ser incorporados ao capital [político] próprio nem agregam prestígio por [mera] transferência. Não porque Lula não seja um exemplo – que sem dúvida o é – mas sim porque também é certo que acostumado a fazer política, o ex-presidente pode ser amável com muitos dirigentes argentinos, mas é claro que seus apoios e afinidades estão dirigidos a quem hoje conduz o país. Tanto ele quanto seus assessores fazem análises, conhecem as pesquisas e constroem cenários futuros para saber quem são os que têm possibilidades reais de governar a Argentina.

Outro tema não menos importante. Os candidatos argentinos da oposição não deixam de cortejar os grupos econômicos de mídia convencidos de que isto pavimentará seus caminhos ao poder. Alguém teria que os advertir que este não foi o caminho de Lula, que chegou ao Palácio do Planalto apesar da oposição sistemática dos grandes grupos de mídia, que também existem no Brasil e aos quais Lula combateu com os meios que tinha a seu alcance. Poderia se dizer que a utilização de Lula como estandarte de campanha por parte da oposição tem o mesmo valor e significado que as gravuras do Che [Guevara] estampadas nas camisetas dos jovens argentinos de classe alta que passeiam pelas praias e bares de Punta Del Este”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Com baixa aprovação de García, centro-direita avança na sucessão presidencial do Peru

Faltando menos de 100 dias para as eleições presidenciais no Peru, marcadas para o próximo dia 10 de abril, os principais candidatos à sucessão do Presidente Alan García seguem embolados de acordo com as recentes sondagens de intenção de votos. Em meio a sucessivos escândalos de corrupção em torno do atual governo e com a popularidade de García em níveis cada vez menor, não obstante ao crescimento acentuado do PIB (Produto Interno Bruto) peruano, a condução da economia e as propostas de combate à corrupção têm pautado a disputa eleitoral no país latino-americano.

De acordo com o chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Católica de Lima, Martín Tanaka, “mais de 60% dos peruanos não têm idéia do que significa esquerda e direita. Além da volatilidade do voto, as referências ideológicas diminuíram muito, praticamente sumiram. A porcentagem que se identifica como de esquerda ou direita está no centro do país, mais politizado”. Diante desta constatação, o embate eleitoral se dá menos na esfera ideológica e mais no campo do pragmatismo político. Como avalia Tanaka, “os eleitores estão interessados nos temas de segurança, combate à corrupção e pobreza etc, e ao mesmo tempo, há muitas críticas ao funcionamento das instituições”.

Ou seja, os eleitores tendem a votar no candidato que oferece saídas para os problemas mais críticos do país, independentemente de seu campo político-ideológico. Se fizermos um retrospecto dos últimos governos do Peru, poderemos constatar uma alternância entre esquerda e direita no poder. O primeiro governo de Alan García (1985-1990), por exemplo, de tendência centro-esquerda foi sucedido por Alberto Fujimori (1990-2000), de extrema direita. Após a renúncia de Fujimori e o governo provisório de Valentín Paniagua, ascendeu ao poder o centrista Alejandro Toledo (2001-2006), que fez um governo seguindo a lógica do neoliberalismo. Por fim, Alan García retorna ao poder em 2006 graças a um programa que prometia geração de empregos e fim das privatizações.

Com baixa aprovação, Alan García não deve fazer sucessor
O governo de Alan García, contudo, encontra-se em um de seus piores momentos, com a aprovação do Presidente em apenas 32%, segundo levantamento Ipsos-Apoyo divulgado em dezembro de 2010. De acordo com esta mesma pesquisa, entre os motivos que justificam a expressiva desaprovação do governo por 63% dos peruanos, podem ser destacados: inflação (citado por 47%), não-cumprimento das promessas de campanha (para 39%), corrupção do governo (citado por 37%), desemprego (lembrado por 36%), má condução da economia (citado por 34%) e ausência de políticas para reduzir a pobreza (apontado por 32%). Assim, economia e corrupção são os dois grandes problemas apontados pelos habitantes do Peru em relação ao governo Alan García.

Em novembro de 2008, escutas telefônicas revelaram um esquema de favorecimento em licitações públicas e concessões de lotes de petróleo. O escândalo envolvia membros do gabinete ministerial de Alan García e empresários peruanos, representados por um ex-ministro do primeiro governo de García (1985-1990) e por um ex-advogado do Presidente peruano. Para se ter uma idéia da dimensão desses escândalos, basta dizer que nesses quase cinco anos, García trocou seis vezes o responsável pelo Ministério do Interior, sendo que pelo menos quatro nomes foram substituídos por denúncias de corrupção. E pior: as acusações de corrupção perseguem Alan García desde o seu primeiro mandato, nos anos 80.

Com a popularidade do Presidente em baixa, não é difícil entender porque a candidata governista Mercedes Aráoz, que passou por três Ministérios no governo García (Comércio Exterior e Turismo; Produção; e, mais recentemente, Economia e Finanças), não emplaca nas pesquisas de intenção de voto. Segundo levantamento Ipsos-Apoyo realizado em dezembro, Mercedes Aráoz tem apenas 5% das intenções de voto, bem abaixo de seus principais adversários. Não obstante a esse cenário, o Partido Aprista Peruano (APRA) aposta no crescimento de Aráoz sobretudo no interior e entre os eleitores de baixa renda. A partir desta terça-feira, 4, ex-Ministra da Economia iniciará uma série de comícios por essas regiões, a fim de conquistar essa parcela do eleitorado e impulsionar sua candidatura.


Centro e direita estão fortalecidos no processo eleitoral
Se as coisas não estão muito bem para o governo, o que acaba respingando na candidatura da situação, o contrário acontece com as candidaturas da oposição. Para se ter uma idéia, enquanto Mercedes Aráoz amarga a lanterna da disputa presidencial, a oposição de centro e de direita está na outra ponta, liderando com folga e disputando entre si a sucessão de Alan García. Segundo o levantamento Ipsos-Apoyo de dezembro, o ex-prefeito de Lima, Luis Castañeda (Partido Solidariedade Nacional), aparece com 23% das intenções de voto, empatado com o ex-Presidente do Peru, Alejandro Toledo (Peru Possível). Apoiando a candidatura de Castañeda estão os setores da direita não alinhados ao fujimorismo, ao passo que Toledo reúne em torno de si os setores de centro, o que lhe dá um certo favoritismo na disputa.

É interessante notar ainda a tendência de crescimento contínuo de Alejandro Toledo ao longo das recentes pesquisas de intenções de voto. Em apenas quatro meses, Toledo cresceu 9 pontos percentuais, ao passo que Castañeda, até então favorito, oscilou apenas 3 pontos percentuais para cima. Vale lembrar que nesse levantamento a margem de erro é de 2,8 pontos percentuais, o que nos permite dizer que quem cresceu com certeza, para além da margem de erro, foi o ex-Presidente Toledo. Além disso, dentre os candidatos à sucessão do Presidente Alan García, o que apresenta a menor rejeição é Alejandro Toledo. Essa menor rejeição tende a ser um aspecto muito positivo, que pode impulsionar ainda mais a candidatura de Toledo na reta final das eleições presidenciais.

Na zona do empate técnico com Castañeda e Toledo está uma estreante na disputa presidencial: a filha do ex-Presidente Alberto Fujimori e ex-congressista, Keiko Fujimori (Força 2011). Com um programa de extrema direita, Keiko, que desde 2005 é líder dos fujimoristas, aparece nas pesquisas com 20% das intenções de voto. Embora a filha do ex-Presidente Fujimori apareça com boa pontuação nas sondagens eleitorais, analistas revelam que é muito pouco provável sua vitória nas urnas, uma vez que sua rejeição é bastante elevada. Em quarto lugar, por sua vez, aparece o esquerdista Ollanta Humala, com 11% das intenções de voto. Humala é candidato do Partido Nacionalista Peruano e, em 2006, foi ao segundo turno com Alan García, onde atingiu 47% dos votos. Assim como Keiko Fujimori, Ollanta Humala possui elevada rejeição.

Com a intensificação da campanha eleitoral a partir desta semana, o debate deve ficar ainda mais acirrado entre os pleiteantes à sucessão de Alan García. Enquanto os governistas seguirão na defesa dos investimentos feitos por García em programas sociais, tentando, assim, impulsionar a candidata Mercedes Aráoz, a oposição continuará trazendo para o centro do debate questões ligadas ao combate à corrupção e também ao manejo da economia, que são considerados os pontos fracos do atual governo peruano. Ao que tudo indica, os próximos meses serão de intenso debate no vizinho latino-americano.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A bomba-relógio da África: qual a perspectiva para o referendo do Sudão em janeiro?

A proximidade do referendo marcado para o próximo dia 9 de janeiro no Sudão, no qual a população da província autônoma do Sul irá às urnas para decidir pela separação ou não em relação ao norte do país, tem despertando grandes preocupações nos observadores internacionais. A tensão entre norte e sul no Sudão não é recente: há pelo menos 60 anos o país vive uma situação de instabilidade constante em função das diferenças entre as duas regiões. No sul, a população formada majoritariamente por negros, cristãos e animistas se contrapõe à dominação do norte, cuja população é em sua esmagadora maioria árabe e muçulmana.

Como o governo central está sediado em Cartum, cidade localizada no norte do país, existe um movimento muito forte no sul do Sudão para a emancipação política da região em relação ao norte, formando um novo Estado – o “Sudão do Sul” ou “Novo Sudão”. Embora todos os indícios sejam de que a maioria da população do sul vote pela separação em relação ao norte, a preocupação da comunidade internacional está voltada justamente para como o governo do norte receberá esse provável resultado do referendo. Vale destacar que desde 1989 o Sudão é governado por Omar al-Bashir, que chegou ao poder através de um golpe militar apoiado por setores ligados ao fundamentalismo islâmico.

Dessa maneira, o temor é de que o governo do norte não acate a separação que provavelmente será decidida nas urnas no dia 9 de janeiro e dê início a uma nova guerra civil, que pode ter resultados piores do que a primeira, ocorrida entre 1955 e 1972. Naquela ocasião, a guerra civil foi motivada justamente pelo fato do sul não aceitar a dominação política, econômica e social do norte. Em 1972, foi assinado um acordo de paz entre as duas regiões, mas que teve vida curta – de apenas uma década – já que no ano de 1983 o governo do Sudão, em Cartum, pôs fim ao armistício, revendo o acordo de paz e implantando a Sharia (lei islâmica) em todo território.

Naturalmente, isso provocou uma reação imediata do sul, mas que foi duramente combatida por Cartum. Para se ter uma idéia, estima-se que o número de mortos no conflito passou dos 2 milhões, ao passo que o número de refugiados chega a 4 milhões. Em 2005, tanto sul quanto norte assinaram o Acordo de Paz Abrangente, que deu autonomia ao sul durante cinco anos e estabeleceu a realização desse referendo, que ocorre no próximo mês, para definir se as duas regiões se reintegram por completo e mantêm a unidade do Estado ou se haverá uma separação entre sul e norte, criando dois Estados distintos. Recentemente, tanto o governo do norte quanto o governo autônomo do sul deram declarações que, não obstante ao resultado das urnas, a paz deve ser garantida no país.

O petróleo no centro da disputa entre norte e sul
Seria fácil acreditar nisso, não fosse, além do histórico de guerras do Sudão, o fato de que bem no meio dos dois territórios encontra-se a maior riqueza do país: o petróleo. As maiores jazidas de petróleo do Sudão estão situadas próximas à província de Abyei. O acordo de paz assinado em 2005 prevê que, caso se opte pela separação do sul em relação ao norte, a região de Abyei realizará um novo referendo, com data ainda a ser definida, a fim de decidir se fará parte do sul ou do norte. Como essa província está muito próxima aos campos petrolíferos é possível de se imaginar o porquê desse referendo estar atraindo a atenção de toda comunidade internacional, haja vista que o petróleo é tradicionalmente um motivo de grandes impasses e guerras na cena geopolítica.

De acordo com informações da rede britânica BBC, “os dois lados não chegaram a um acordo de como repartirão as receitas do petróleo no caso de uma separação. Este aspecto da disputa é tão sério que o sul está avaliando construir sua própria rede de oleodutos para exportar o petróleo pela costa do país. A idéia é que o novo oleoduto passe pelo Quênia, um aliado dos sudaneses do sul, contornando, assim, o atual oleoduto do norte do país”. Ainda segundo a BBC, outro aspecto que pode ser foco de tensões numa eventual separação entre o sul e o norte no referendo de 9 de janeiro diz respeito à divisão da dívida externa do Sudão, já que “sudaneses do sul resistem em tomar para si uma parte da dívida, pois quase nada desse dinheiro foi gasto em melhorias para a região”.

É interessante destacar, contudo, que existem análises que vão exatamente no caminho contrário desse ponto de vista, apostando que o petróleo deve ser o grande trunfo para a paz na região, no caso de uma efetiva separação entre norte e sul. Segundo recente análise da Reuters, considerando o fato que 75% dos 500 mil barris de petróleo por dia produzidos no Sudão vêm do sul do país e que toda a rede de refino e transporte desse petróleo está no norte, nenhum dos dois lados teria o interesse de promover um conflito que pudesse afetar a produção de petróleo. Afinal de contas, como aponta a Reuters, “tanto o governo do norte quanto do sul são altamente dependentes das receitas do petróleo”.

Para se ter uma idéia, nada menos que 98% das receitas do governo autônomo do sul vêm do petróleo. De forma semelhante, a commodity responde por significativos 45% do orçamento de Cartum, representando também 90% das exportações do norte do Sudão. Segundo a Reuters, “isso não deixa alternativa para as duas partes senão continuar – ainda que de uma forma em aberto – a partilha das receitas do petróleo, mesmo em um cenário pós-secessão provável”. Vale destacar que, desde 2005, quando foi assinado o acordo de paz entre norte e sul, as receitas do petróleo são divididas entre as duas partes meio a meio.

Sobre a questão levantada pela BBC, de que o sul teria planos de construir sua própria rede de oleodutos para escoar o petróleo, os analistas consultados pela Reuters afirmam que “isso seria uma solução política, mas não seria economicamente viável”. Para estes analistas, a saída mais viável no caso de uma separação entre o sul e o norte seria que o sul continuasse escoando o petróleo através da rede de oleodutos do norte, pagando, para isso, taxas de uso. Afinal de contas, o custo para construir uma rede de oleodutos passando pelo Quênia, além de refinarias especializadas, seria demasiadamente alto, o que não justificaria essa solução. Contudo, como as decisões políticas nem sempre seguem a lógica economicista, é difícil dizermos se essa racionalidade dos analistas será seguida pelo governo do sul.

De qualquer forma, os observadores internacionais devem seguir bastante atentos na região ao longo dos próximos dias, uma vez que, com a proximidade do referendo, as tensões entre sul e norte tendem a crescer. O partido governista do sul tem acusado o norte de promover pequenos ataques em seu território, mas estas acusações são negadas por Cartum. Além disso, a organização do referendo tem acusado o norte de promover uma campanha com vistas a dinamitar o processo e impedir que ele ocorra na data prevista. Tudo isso contribui para acirrar ainda mais os ânimos na região e fazer com que a comunidade internacional redobre suas atenções para o país.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cablegate: Brasil não partilha da obsessão contra-terrorista dos EUA, mostram documentos

Após vir à tona o chamado “Cablegate”, com o vazamento de documentos secretos da diplomacia norte-americana que mais se assemelham a relatórios de espionagem, cada país tem procurado descobrir quais as “impressões” dos representantes da Casa Branca a seu respeito. Ao contrário do que aconteceu com outros países, o Departamento de Estado norte-americano não solicitou, no caso do Brasil, informações de caráter privado sobre o integrantes do governo e o próprio Presidente Lula, pelo menos de acordo com os documentos revelados até o momento.

A temática geral dos relatórios dos funcionários das embaixadas norte-americanas no Brasil diz respeito ao comportamento do país em relação à cooperação com os Estados Unidos para atividades de contra-terrorismo. Os documentos vazados deixam claro, neste sentido, a verdadeira “obsessão” da Casa Branca por informações que possam auxiliar na identificação de agentes do terrorismo internacional que estejam porventura radicados, ou mesmo de passagem, pelo Brasil ou pela região da Tríplice Fronteira (Argentina-Brasil-Paraguai), como evidenciado em um dos relatórios.

Brasil não se alinha a obsessão dos EUA
A sensação que se tem após a leitura dos documentos é que, de fato, os Estados Unidos vêem tudo, ou pelo menos quase tudo, como uma ameaça de terrorismo em potencial. E para nossa sorte, o governo brasileiro não dá muito crédito (como fica claro nos vários documentos) a esta obsessão da Casa Branca por “caçar terroristas”. Segundo um relatório enviado ao Departamento de Estado norte-americano em janeiro de 2008, pelo embaixador Clifford Sobel, o governo brasileiro “continua resistente à opinião de que organizações terroristas ou extremistas têm presença ou estão realizando atividades no Brasil”.

De acordo com esse mesmo relatório de Sobel, “os mais altos níveis do governo brasileiro, particularmente o Ministério das Relações Exteriores, são extremamente resistentes à idéia de que os terroristas têm presença no Brasil - seja para arrecadar fundos, organizar a logística ou mesmo trânsito no país - e vigorosamente rejeitam quaisquer declarações implicando em contrário. Esta sensibilidade resulta, em parte, do seu medo de estigmatizar a comunidade muçulmana do Brasil (estimada, mas não confirmada, por algumas fontes em mais de um milhão) ou prejudicar a imagem do território como um destino turístico”.

É muito interessante notarmos que o próprio embaixador dos Estados Unidos no Brasil destaca essa resistência do nosso governo em compartilhar dessa obsessão compulsiva da Casa Branca pelo combate ao que eles chamam de terrorismo. Em outro ponto do relatório, o embaixador norte-americano avalia que essa postura do governo brasileiro destina-se a “evitar uma ligação estreita com aquilo que é entendido como uma guerra excessivamente agressiva dos EUA contra o terrorismo”. Os documentos deixam claro que essa resistência do Brasil à obsessão contra-terrorista dos Estados Unidos ocorre tanto no aspecto simbólico quanto concreto.

“Nas conferências [realizadas anualmente entre o serviço de inteligência norte-americano e os serviços de inteligência dos países da Tríplice Fronteira], as delegações brasileiras muitas vezes criticam declarações feitas por autoridades dos EUA que alegam que a Tríplice Fronteira é um foco de atividades terroristas e desafiam os participantes dos EUA a apresentarem as provas em que autoridades do país se baseiam para dar essas declarações”, relata Sobel em outra parte do relatório. Outro exemplo dado pelo embaixador mostra que o entendimento do governo brasileiro sobre terrorismo é distindo do conceito norte-americano.

Segundo Sobel, “o governo brasileiro recusa, tanto legalmente quanto retoricamente, o rótulo de terrorista dado pelos norte-americanos a grupos como o Hamas, Hezbollah ou as FARC - os dois primeiros são considerados pelo Brasil como partidos políticos legítimos. Como resultado, o seu limite para aceitar a evidência da atividade do financiamento do terrorismo na região, pelo menos publicamente, é muito alto e informações indicando que os indivíduos na Tríplice Fronteira enviam fundos para os grupos no Líbano, na sua opinião, não constituem necessariamente um atividade de apoio ao terrorismo”.

EUA vêem Brasil como parceiro de cooperação
É interessante notar que em outro documento – datado de abril de 2008 e também escrito pelo embaixador Clifford Sobel – o tom é quase de um “lamento” porque o governo brasileiro “estava retrocedendo em seu esforço para apresentar uma legislação sobre o contra-terrorismo (CT)”. Sobel afirma no documento que “algumas notícias têm sugerido que a ministra-Chefe da Casa Civil do presidente Lula, Dilma Rousseff, anulou a legislação proposta, que tinha sido criticada por alguns ativistas sociais e grupos jurídicos, que temiam que poderia ser usado contra eles, compando a proposta à repressão da era militar”.

Para o embaixador, “o silêncio dos meios de comunicação e de grupos políticos após a decisão do governo brasileiro [de recuar numa legislação contra-terrorista] expôs uma falta de gás dessa temática entre as elites, cujo apoio seria necessário para superar a resistência do governo brasileiro. Como resultado, nosso esforço para colocar esta legislação novamente na agenda do Brasil será uma batalha árdua”. Por aqui pode-se ter uma idéia mais precisa da enorme insistência do governo norte-americano para tentar “afinar” o entendimento brasileiro do que seja terrorismo aos padrões estabelecidos por Washington.

Vale ressaltar que apesar de todos esses “poréns” apontados pelos relatórios da embaixada norte-americana sobre o Brasil, os documentos, de maneira geral, destacam que o governo brasileiro tem sido um importante parceiro da Casa Branca. “O governo brasileiro é um parceiro de cooperação no combate ao terrorismo e atividades relacionados com o terrorismo no Brasil - que incluem a investigação do financiamento do terrorismo em potencial, as redes de falsificação de documentos e outras atividades ilícitas - que possam contribuir para a facilitação de ataques na região ou em outro lugar”, diz um desses documentos vazados pelo site WikiLeaks.

Fica claro, em todo conteúdo exposto de maneira confidencial pelo embaixada norte-americana em Brasília ao Departamento de Estado norte-americano, que o governo brasileiro embora mantenha uma relação diplomática muito boa com Washington (como os próprios documentos corroboram), não baixa a cabeça para todo tipo de política que seja traçada pela Casa Branca. É muito satisfatório, por exemplo, constatarmos que, de fato, o Brasil não vem se alinhando, como fazia em épocas anteriores, a toda sorte de desígnios dos Estados Unidos. Fica claro, na análise desses documentos, que o governo brasileiro de fato é uma pedrinha bem incômoda no sapato de Washington.

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domingo, 28 de novembro de 2010

Documentos secretos da diplomacia dos EUA vêm à tona e deixam Casa Branca em saia justa

Saia justa talvez seja pouco para se referir à situação delicada em que ficou a Casa Branca após a revelação, neste domingo, 28, pela imprensa internacional, de mais de 250 mil comunicados secretos do Departamento de Estado endereçado às embaixadas norte-americanas solicitando o mais variado tipo de informações. Essa rede de “espionagem informal” que vem sendo desenvolvida pelos Estados Unidos nos últimos dois anos recebeu a denominação de “cablegate”, uma referência à forma através da qual as solicitações chegavam às diversas embaixadas dos Estados Unidos espalhadas no mundo – telegramas assinalados como “secretos” ou “confidenciais”.

Os documentos foram vazados pelo site WikiLeaks e estão sendo divulgados, aos poucos, por cinco grandes períodicos: o El País, da Espanha, o Le Monde, da França, o The Guardian, da Inglaterra, o The New York Times, dos Estados Unidos e a revista Der Spiegel, da Alemanha. De acordo com o El País esses documentos “coletam comentários e informações elaboradas por funcionários norte-americanos, com um linguajar muito franco, sobre personalidades de todo o mundo, revelam conteúdos de entrevistas de pessoas do mais alto nível, descobrem atividades de espionagem até então desconhecidas e dados fornecidos por diversas fontes em conversas com embaixadores norte-americanos”.

ONU é alvo de espionagem do Tio Sam
Nem a ONU (Organização das Nações Unidas) escapou da “curiosidade” do Departamento de Estado norte-americano. Para se ter uma idéia, um dos documentos apresentados pelo El País refere-se a uma lista, datada de julho de 2009, enviada pelo Departamento de Estado aos funcionários de 38 embaixadas e missões especiais requisitando os mais variados tipos de informações sobre a ONU. Requisita-se, por exemplo, informações detalhadas sobre o Secretário-Geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon: quais são seus planos e intenções e como é o trabalho cotidiano de sua assessoria. Mas não é somente do Secretário-Geral da ONU que o Departamento de Estado queria deter informações.

Neste mesmo documento, eram solicitados dados sobre os funcionários e representantes da ONU vinculados a países como Sudão, Afeganistão, Somália, Irã e Coréia do Norte. De acordo com o El País, as informações solicitadas pelo Departamento de Estado “estendem-se ao âmbito pessoal ao perguntar sobre as rotinas dos funcionários da Secretaria Geral da ONU ou de qualquer outro interlocutor que seja importante: são pedidas a numeração de cartões de crédito, passaporte, telefones, e-mails, URL acessadas, programa de trabalho e aparência física”. Além das questões pessoais, o Departamento de Estado selecionava, por embaixada, assuntos de interesses dos Estados Unidos para serem investigados pelos funcionários norte-americanos.

O El País lista quais são as informações solicitadas pelo Departamento de Estado norte-americano aos funcionários das embaixadas, segundo o documento ao qual o jornal teve acesso:

-“Planos, intenções, objetivos e atividades palestinadas relacionadas com as políticas dos Estados Unidos sobre o processo de paz e o anti-terrorismo”;
-“Informação biográfica, biométrica e financeira sobre os líderes palestinos e do Hamás, incluindo aí os movimentos de juventude dentro e fora de Gaza e Cisjordânia”;
-“Planos e atividades concretas do Reino Unido, França, Alemanha e Rússia a respeito das políticas da OIEA (Organização Internacional de Energia Atômica)”;
-“Planos e intenções dos líderes e países mais influentes da ONU, especialmente Rússia e China, sobre direitos humanos no Irã, sanções ao Irã, fornecimento de armas iranianas ao Hamáz e Hezbolá, e sobre as candidaturas que o Irã apóia para ocupar postos-chave na ONU”.

Informações dos mais variados tipos
Segundo reportagem do El País neste domingo, “o solicitado [pelo Departamento de Estado] a algumas embaixadas é quase uma ficha policial”. Parece brincadeira, mas é a mais pura realidade. Os Estados Unidos chegaram ao ponto de solicitar, segundo os documentos revelados, informações biológicas e físicas sobre os candidatos a Presidente do Paraguai nas eleições de 2008. Dentre as informações solicitadas aos funcionários da embaixada norte-americana em Assunção sobre os quatro principais postulantes à Presidência do Paraguai estavam: dados biométricos, impressões digitais, fotografias, scanners da íris e DNA! Além desse tipo de informação, a Casa Branca também solicitou informações sobre as relações do Paraguai com os países vizinhos.

“A Secretaria de Estado indaga sobre a corrupção do governo, lavagem de dinheiro, as relações do Paraguai com Cuba, Venezuela, China, Taiwan e Rússia, a existência de petróleo na região do Chaco paraguaio e o narcotráfico”, diz a reportagem do El País. Percebe-se, recorrentemente nos documentos revelados, uma preocupação muito grande dos Estados Unidos com relação ao tipo de vinculo diplomático dos mais diversos países com nações como Venezuela, Cuba, China, Rússia e Coréias. Além disso, existe um interesse muito grande, expresso nestes documentos, em saber informações sobre áreas de conflito iminente, como no caso das Coréias e do próprio Irã. A questão é que essas informações requisitadas pela Casa Branca ultrapassam os limites da diplomacia e entram em terrenos nada convencionais.

Daí a preocupação dos Estados Unidos após a revelação desses diversos documentos, que aos poucos estão sendo publicados pelos jornais mencionados. De acordo com o El País, ao tomar conhecimento do vazamento desses documentos, a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, entrou rapidamente em contato com governos mais próximos e de maior interesse dos Estados Unidos para “fornecer algum tipo de justificativa”. Hillary, na prática, quer se antecipar e produzir uma espécie de “vacina” em países de maior interesse da Casa Branca a fim de não haja um azedamento das relações destes com os Estados Unidos. Exatamente por isto, dissemos no início deste texto que “saia justa” talvez seja pouco para se referir à posição em que os Estados Unidos se encontram agora.

Pelo teor das reportagens nos veículos citados, esses documentos vazados trazem informações até mesmo de caráter íntimo de várias lideranças políticas mundiais e revelam os bastidores – inclusive os mais obscuros – da diplomacia norte-americana. Nem é preciso dizer aqui o estrago que esse tipo de revelação pode causar nas relações políticas e comerciais dos Estados Unidos com o resto do mundo. Para um país que está lutando para superar os efeitos da crise de 2008, esse tipo de acontecimento, de fato, não é nada interessante! Acompanhemos, de perto, o desenrolar dessa interessante – e polêmica – história ao longo dos próximos dias.

domingo, 21 de novembro de 2010

Os 10 anos do Plano Fênix: renascimento da Argentina pós neoliberalismo de Menem

O período de Carlos Menem à frente do governo da Argentina foi marcado por uma política econômica de caráter neoliberal, muito semelhante àquela adotada por Fernando Henrique Cardoso aqui no Brasil. Em meio a uma grande crise econômica, marcada notadamente pela hiperinflação e também pela recessão, o ministro das Finanças do governo Menem, Domingo Cavallo, implementou o chamado Plano Cavallo, que nada mais era do que uma aplicação do receituário ortodoxo do FMI e que introduziu uma série de reformas na Argentina, sendo que a principal foi a adoção da paridade entre o peso (moeda local) e o dólar.

Qualquer semelhança com a política econômica adotada por Pedro Malan, ministro da Fazenda do governo FHC, aqui no Brasil não é mera coincidência. A combinação explosiva da convertibilidade, do câmbio fixo e do crescente endividamento do país (por conta das pressões cambiais no cenário externo) acabou por conduzir a Argentina a uma situação insustentável. Foi neste contexto, que há dez anos, um grupo de economistas heterodoxos se reuniu para debater a política econômica de Menem-Cavallo e propor uma saída heterodoxa para a crise que se instalava na Argentina. Estava lançado o chamado Plano Fênix, um conjunto de propostas alternativas ao pensamento neoliberal que poderia auxiliar a Argentina a superar os efeitos nefastos da crise econômica.

Neste domingo, 21, o jornal argentino Página 12 publicou um artigo muito interessante do economista Norberto Gonzalez, que foi um dos formuladores do Plano Fênix. O artigo faz uma reconstrução histórica do período no qual foi instalado o Plano e destaca suas principais contribuições para a recuperação econômica da Argentina ante o fracasso do receituário econômico adotado por Menem-Cavallo. A leitura do texto, reproduzido a seguir, é interessante especialmente se a fizermos comparando com a política econômica de FHC-Malan aqui no Brasil. Isso nos ajuda a entender o que poderia ter acontecido com o Brasil se FHC insistisse na manutenção da paridade por aqui.

Renascimento
No momento em que se criou o Plano Fênix, a Argentina atravessava um período de retrocesso e de desorientação nas idéias com as quais conduzia a sua política econômica. Antes da política econômica adotada por Martínez de Hoz (ministro das Finanças entre 1976 e 81, no governo de Jorge Rafael Videla) e da convertibilidade [de Menem-Cavallo], a Argentina havia alcançado progressos importantes. O país integrava um grupo de países em desenvolvimento relativamente avançados. Acompanhava o processo de desenvolvimento do Brasil e estava se aproximando de alguns países asiáticos e da Europa Oriental. Nos aspectos econômicos e sociais, vivia os contrastes próprios de um país em desenvolvimento: registrava atrasos em determinados aspectos e em outros apresentava avanços claros.

A Argentina vinha registrando um forte desenvolvimento da indústria de bens de consumo duráveis e também de bens intermediários, como metais e produtos químicos, além da indústria de bens de capital. Empresas radicadas na Argentina podiam vencer licitações na própria Argentina ou ainda em outros países da América Latina, para fornecer, por exemplo, equipamento elétrico pesado para produção de eletricidade, competindo com empresas de países desenvolvidos, como Alemanha e França. Produzia também outros tipos de bens de capital, como máquinas-ferramentas, maquinário agrícola e equipamentos para indústria leve. Este nível de desenvolvimento intermediário foi alcançado através de governos de distintos signos políticos porque desde os anos 30, quando foi criado o Banco Central e teve início a política de substituição das importações, a política econômica teve uma certa continuidade, assemelhando-se ao que poderia se chamar de “política de Estado”.

Toda essa situação sofreu uma forte deterioração com a política econômica de Martínez de Hoz. Durante o seu período de vigência, a especulação financeira tomou o lugar do desenvolvimento e o câmbio desfavorável culminou com a convertibilidade (ou paridade) aplicada por Menem-Cavallo. No início, a convertibilidade foi necessária para solucionar a hiperinflação e a perda de controle do governo sobre a economia do país. Uma situação similar ocorreu no Brasil, que também aplicou um programa parecido ao da Argentina. Contudo, o Brasil manteve essa política durante muito poucos anos, até a inflação cair para um nível contrável, e ao final desse período mudou sua política econômica e voltou a priorizar o crescimento econômico e o emprego intensivo dos recursos produtivos. A Argentina, ao contrário, manteve essas medidas rigidamente durante todo o decênio dos anos 90. Essas políticas tiveram consequências muito desfavoráveis:

1) Destruíram muitas das indústrias já existentes e fizeram o país perder espaço em mercados externos nos quais já estava competindo. A abertura sem critérios da economia e o peso sobrevalorizado provocaram um grau de retrocesso no desenvolvimento industrial;

2) Fizeram passar para mãos estrangeiras inúmeras empresas que até então eram nacionais;

3) Endividaram fortemente o país. A dívida se acumulou muito acima de valores aceitáveis: a dívida externa alcançou enormes magnitudes. Com isso, o país passou a ser muito mais dependente de seus credores e perdeu o controle de sua própria política econômica;

4) Aumentaram fortemente as desigualdades sociais, em particular a pobreza e o desemprego.

Origens
As idéias sobre política econômica que predominavam na Argentina, ligadas à convertibilidade, tinham um forte signo ortodoxo. Na prática, o enfoque era um só e não se discutia nem a vigência da convertibilidade nem de outras alternativas de políticas de desenvolvimento e de política econômica. Nestas circunstâncias é que foi criado o Plano Fênix. Um grupo de professores da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires avaliou que era necessário fazer um replanejamento profundo da estratégia de desenvolvimento e da política econômica do país, dando lugar a outros enfoques menos ortodoxos e mais realistas, para sair do afogamento intelectual no qual o país se encontrava.

Surgiu a iniciativa de organizar um diálogo que discutisse tanto os fundamentos da política oficial quanto alternativas de ação (...). Em uma das primeiras reuniões se mencionou a ave Fênix, que renasceu das cinzas. Nos pareceu que, de forma similar à Fênix, neste caso era necessário fazer com que a Argentina renascesse de suas cinzas, erguendo-se da prostração que a havia conduzido a convertibilidade e retomando a senha para o progresso. Por isso chamamos esse exercício de Plano Fênix. Este plano propunha um objetivo mais distante, menos imediato, porque em um período curto de tempo um grupo de professores trabalhando a título pessoal e em tempo parcial, sem apoio para processar as informações e realizar análises mais detalhadas, não poderia elaborar completamente um plano de desenvolvimento.

Mas se podia colocar em marcha o esforço para avançar através deste Plano e ir obtendo conclusões que já desde o princípio permitiriam alterar o eixo da discussão sobre estratégia de desenvolvimento e de política econômica na Argentina.

Etapas
No desenvolvimento da Argentina a partir dos primeiros anos do século 21, podería-se distinguir três etapas:

1) Uma primeira etapa, que poderia ser chamada de “reativação”, durante a qual se recuperou o nível da atividade econômica que o país havia alcançado antes da crise, usando a plena capacidade produtiva que o país tinha, que estava subutilizada;

2) Uma segunda etapa, de crescimento da capacidade produtiva sobre linhas similares às já existentes, ampliando o capital já instalado e penetrando mais profundamente em mercados já conquistados;

3) Uma terceira etapa, de desenvolvimento de novas atividades mais avançadas, com mudança estrutural. Nesta etapa de desenvolvimento propriamente dito, as indústrias de bens intermediários metálicos e químicos e as produtoras de bens de capital deveriam ter um papel de protagonista. Estas novas atividades facilitariam a obtenção de um desenvolvimento tecnológico e a conquista de mercados para bens mais sofisticados. Isto também implicava no desenvolvimento de tecnologias mais avançadas e uma formação de mão-de-obra científica e técnica apropriada a estas novas etapas.

Outro foco de uma nova estratégia era mover-se rumo a uma distribuição de renda menos desigual, com a redução da pobreza e melhoria da qualidade de vida dos setores de baixa renda. Essas etapas presumivelmente têm algum grau de sobreposição. Mas, logicamente, nas primeiras décadas das novas políticas, há predominância da primeira das três etapas, que chamamos de recuperação. O país iria gradualmente evoluir para um nível maior de crescimento e investimento e, especialmente, de transformação da estrutura econômica e social. Desde que começaram ser aplicadas estas novas medidas, foram realizados progressos significativos quanto à recuperação do nível de utilização da capacidade produtiva existente e a capacidade de produção ampliou-se em linhas como as anteriormente existentes.

Em menor escala, foram feitos progressos na criação de novos setores econômicos e em mudanças estruturais do desenvolvimento argentino em comparação aos padrões históricos. À medida que se avança este processo, o componente de desenvolvimento de novas capacidades produtivas, a conquista de mercados externos para novos setores produtivos, a mudança tecnológica e a formação de uma nova mão-de-obra com habilidades mais sofisticadas têm que adquirir um protagonismo crescente nas estratégias de desenvolvimento e nas atividades do Plano Fênix.

Contribuições
O Plano Fênix, como se afirmou, foi formado desde o início por um grupo de professores da Faculdade de Economia. Também se reconheceu desde o início que era necessário ter um diálogo com pessoas com conhecimento especializado em áreas que forem necessárias para definir estratégias realistas. Achamos que era necessário nos cercarmos também de técnicos do setor público e privado que lidavam com a política industrial e inovação tecnológica, a conquista de novos mercados, as relações económicas com os nossos principais parceiros económicos (América Latina, Europa, EUA, Ásia e outros países em desenvolvimento). Por este motivo, convidamos outros profissionais para as reuniões do Plano Fênix.

Qual a peculiaridade do caso argentino? A tarefa de levantar idéias sobre a estratégia de desenvolvimento de um país de uma forma realista e correta sempre foi muito interessante e complexa. Mas no caso da Argentina, é ainda mais difícil agora do que antes do revés causado pela política de conversibilidade: antes desse retrocesso, o país teve uma experiência histórica do seu próprio progresso e também teve a experiência de países similares na América Latina e Ásia. Agora, esses outros países continuaram a progredir e superando etapas. Nós, com a conversibilidade, nos tornamos num caso especial de desenvolvimento truncado, no qual é mais difícil enxergar onde devemos colocar o nosso esforço e como devemos manejá-lo, com a combinação de realismo e de decisão que que nos permita mover tão rápido e tão bem quanto seja possível.

Neste contexto, a contribuição do Plano Fênix pode ser importante. Um grupo de peritos independentes, sem vínculos com interesses especiais ou lobistas, que visa dar uma contribuição intelectual sólida e honesta, está em situação favorável para contribuir com idéias e discutir os benefícios do desenvolvimento alternativo e da política econômica. Esta é a tarefa que está fadado o Plano Fênix. Embora o foco principal destas breves notas tenha sido as origens do Plano Fênix, como dito acima, das três fases mencionadas, a primeira, de reativação, registrou progresss importantes e está bastante avançada. A segunda, de ampliação da capacidade produtiva em atividades já existentes, requer a aplicação de políticas de apoio importantes mas menos difícis de desenhar à medida que está se transitando em um território relativamente mais conhecido; de qualquer maneira, é necessário manter um esforço apropriado para continuar o progresso alcançado e nisso o Plano Fênix pode realizar uma tarefa útil.

Os mecanismos e medidas para apoiar a expansão da capacidade produtiva existente e as taxas de aumento da penetração de mercado são similares àquelas que foram implementadas. É sempre necessário inovar, mas esta inovação não é tão difícil. Onde se enfrenta o desafio mais importante e mais complexo é no desenvolvimento de novos setores e na superação das desigualdades sociais pendentes. Como já foi referido, nestes aspectos, os esforços dos membros do Plano Fênix podem ser mais eficazes se forem complementados com a participação de profissionais que estão atacando esses problemas hoje. Um diálogo sistemático e com grau adequado de profundidade com aqueles que administram as políticas de apoio às atividades não tradicionais, principalmente as industriais, científicas e tecnológicas, para conquistar novos mercados e superar os problemas sociais, bem como com os responsáveis por estas questões no setor privado podem ser um foco importante nestas atividades.

Um aspecto que merece atenção especial é o efeito introduzido pela presença dominante de novos países como a China e a Índia, que oferecem novas oportunidades e mercados importantes, mas também e, sobretudo, colocam novos desafios, já que são concorrentes de grande peso, pagam salários mais baixos e possuem políticas definidas para melhorar a competitividade.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Xenofobia na Catalunha: partido conservador lança game que "elimina" imigrantes

Um “game” veiculado no site do conservador Partido Popular (PP), de direita, está provocando grande polêmica na campanha eleitoral da Catalunha, província autônoma situada no nordeste da Espanha. À semelhança do game Tomb Rider, no qual a heróina Lara Croft (interpretada pela atriz Angelina Jolie nos cinemas) persegue e aniquila uma série de inimigos, no jogo do PP catalão é a candidata ao governo da província, Alícia Sánchez (chamada no jogo de Alícia Croft), quem persegue os “inimigos” da Catalunha. O objetivo do jogo é, dessa forma, atirar e acertar os alvos que “criam problemas para a Catalunha”, somando, assim, pontos.

A polêmica deve-se ao fato de que, entre os inúmeros “inimigos” que aparecem para ser derrotados pela candidata Alícia Sanchez, estão os imigrantes. Na tela do jogo (que recebeu o nome de Resgate), Alícia “Croft” aparece montada em um enorme pássaro branco– símbolo do PP – chamado Pepe e logo se depara com alvos que caem com pára-quedas à sua frente: são os “imigrantes ilegais”, como aparece no jogo. Assim, o jogador é incentivado a destruir esses imigrantes e com isso somar pontos, além de ajudar, na lógica do game, a “heroína” Alícia Croft libertar a Catalunha dos problemas que assolam atualmente a região.

Socialistas repudiam xenofobia em game do PP
O jogo naturalmente causou um forte repúdio de outros partidos, como o PSC (Partido Socialista Catalão), que acusou o PP e Alícia Sanchez de xenofobia. Vale destacar que ao longo da campanha eleitoral, Alícia tem colocado como uma de suas principais bandeiras o combate à imigração “ilegal” na região, associando os imigrantes à crise econômica pela qual passa a Catalunha. De acordo com informações da BBC, em um comício realizado na região de Barcelona, Alícia Sánchez prometeu que, se eleita, criará uma “lei regional de contrato de convivência para os estrangeiros”.


De acordo com essa lei, os imigrantes (mesmo os em situação de legalidade) assinariam um contrato no qual se comprometeriam a deixar a Catalunha caso fiquem desempregados. A lei proposta pela candidata conservadora também incentiva os catalães a denunciarem imigrantes ilegais nas delegacias, a fim de que estes sejam identificados e expulsos da província. Para os socialistas, que atualmente governam a Catalunha, o jogo veiculado no site do PP revela uma campanha extremamente “racista, xenófoba e perigosa” do partido conservador. Após a polêmica, o PP retirou o game do site oficial do partido.

Em um comunicado oficial, o PP declarou que o fabricante do jogo não seguiu suas orientações. De qualquer maneira, a xenofobia do PP fica clara também nas declarações do secretário-geral de política regional do partido, Javier Arenas, que após o episódio afirmou que houve “um pequeno erro; embora o importante não seja este erro, mas a questão de fundo num país com um discurso absolutamente irresponsável do governo socialista dizendo que na Espanha cabe todo o mundo”. Ou seja, embora o PP tenha retirado o jogo do ar, o pensamento xenófobo de seus dirigentes permanece.

Eleições na Catalunha
O governo da província autônoma da Catalunha é chamado de Generalitat de Catalunya, sendo constituído por um Parlamento (com 135 deputados), um Conselho Executivo e um Presidente, eleito entre os membros do Parlamento e nomeado pelo rei da Espanha. Atualmente, o presidente da Generalitat é José Montilla, do PSC (Partido Socialista Catalão), que concorre à reeleição, com poucas chances de êxito, segundo o jornal espanhol El País.

O grande favorito para as eleições é o candidato do CiU (Convergência i Unió), Artur Más, de centro, e que possui maior número de cadeiras no Parlamento (48 deputados de um total de 135). O PSC, de Montilla, é a 2ª maior força no Parlamento Catalão, com 37 assentos. O PP, de Alícia Sánchez, ocupa o 4º lugar, com 14 cadeiras e seu principal desafio nestas eleições regionais é voltar a ser a 3ª maior força do Parlamento, posição que perdeu em 2006 para o ERC (Esquerra Republicana Catalã, de caráter separatista). As eleições regionais da Catalunha serão realizadas no próximo dia 28 de novembro.

Administrativamente, a Catalunha é dividida em 4 províncias (Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona), possuindo 41 comarcas e 946 municípios. Com informações da BBC Brasil e do El País.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Alemanha e França assinam acordo de ajuda financeira à Grécia

Foto: Yves Herman/Reuters

Após vários dias de negociações, França e Alemanha chegaram a um acordo na quinta-feira, 25, para ajuda financeira à Grécia, pais que vem passando por inúmeras dificuldades advindas, sobretudo, da crise financeira do ano passado. O acordo celebrado entre a Chanceler alemã, Ângela Merkel, e o Presidente francês, Nilolas Sarkozy, prevê uma intervenção do FMI (Fundo Monetário Internacional) e empréstimos bilaterais de países da Zona do Euro.

De acordo com o jornal francês Le Monde, o acordo franco-alemão não especificou o aporte que caberá à Zona do Euro e o que caberá ao FMI. Especula-se, contudo, que os países da Zona do Euro custeariam aproximadamente dois terços do plano de ajuda, ficando o terço restante a cargo do FMI. Apesar de não terem sido divulgadas cifras, estima-se que o plano de ajuda chegue a 30 bilhões de euros.

FMI fará primeiro aporte de recursos para Grécia
A primeira intervenção deve ser feita pelo FMI, que já possui recursos financeiros para isso. Após esse aporte inicial do Fundo, os países da Zona do Euro, mediante inúmeras condições impostas pelo Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu (BCE), concederiam os empréstimos bilaterais. Esse “cronograma” de aportes foi uma das condições impostas pela chanceler Merkel para assinar o acordo com a França.

Vale destacar que desde que foi criada a Zona do Euro, em 1999, essa é a primeira vez que o FMI intervém na região. O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, declarou que está satisfeito com o acordo, destacando, contudo, que os países membros da Zona do Euro devem tomar cuidado para não deixarem de lado suas responsabilidades, apoiando-se no fato da presença do FMI na região.

Interesses da Alemanha e França
De qualquer forma, é importante destacar que o plano de ajuda franco-alemão assinado na quinta-feira é crucial não somente para a Grécia, mas também para a própria Alemanha e França, Isto porque, de acordo com informações do jornal espanhol El País, a Grécia possui hoje no mercado 300 bilhões de euros em títulos públicos. Deste total, 59 bilhões estão em mãos de bancos franceses (quase 20% do total de bônus).

Cerca de 30 bilhões em títulos públicos gregos encontram-se, por sua vez, nas mãos de bancos alemães, podendo essa quantia chegar a 43 bilhões de euros se forem acrescentados à conta outros tipos de instrumentos financeiros. Percebe-se, dessa maneira, que o custo total do plano, estimado em 30 bilhões de euros, vai sair relativamente barato à Alemanha e França, pois caso a Grécia “quebrasse”, esses dois países seriam amplamente prejudicados.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Política externa de Lula contribui para protagonismo internacional do país



“Nossa política externa não é simplesmente um elemento decorativo ou um bibelô na vitrine do governo, mas é um elemento consubstancial em nosso projeto de desenvolvimento nacional”. Essa foi a visão defendida pelo assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, em um debate realizado no Rio de Janeiro nesta semana.

De acordo com Marco Aurélio Garcia, a política externa do governo Lula insere-se em um projeto mais amplo, o de desenvolvimento nacional do país. Neste sentido, Garcia destaca o fato de que o Brasil está cada vez mais assumindo o seu protagonismo no cenário internacional, diferentemente de outras épocas, em que o país se “acanhava” diante das grandes questões mundiais.

Busca de novas relações multilaterais
Essa maior presença do Brasil na cena internacional ocorre, sobretudo, através da busca de novos parceiros, tanto na América do Sul, quanto na África e também na Ásia. O assessor questiona: “nesse mundo que está em modificação, nós queremos ter uma relação forte com os países da África, da Ásia e do mundo árabe ou nós queremos ficar presos às nossas velhas fidelidades com os EUA e a Europa?”.

E algo importante que foi destacado por Marco Aurélio Garcia: a busca de novas parcerias não significa uma ruptura com Estados Unidos e Europa, tanto que durante todo o período do governo Lula as relações com os países desenvolvidos foram excelentes. Garcia pontua que é extremamente importante a presença do Brasil na discussão dos principais temas da humanidade, como tem acontecido desde o início do governo Lula, quando o país se posicionou contrário à Guerra do Iraque.

O esforço do governo para uma política de integração sul-americana também foi defendido por Garcia: “É importante ou não ter essa política? Ou nós queremos ser uma ilha de prosperidade em meio a um oceano de desigualdades? Esse é um tema fundamental. No mundo multipolar que se está constituindo, nós queremos aparecer sozinhos ou na excelente companhia dos países vizinhos?”.

Cenário econômico favoreceu prestígio do país
Um dos fatores que beneficiaram bastante a visibilidade do Brasil no cenário externo, na ótica de Marco Aurélio Garcia, foi a estabilidade econômica conquistada pelo governo Lula. De fato, a política de desenvolvimento econômico com inclusão social, desenvolvida nestes oito anos, colocou o país em uma trajetória virtuosa de crescimento, ampliando, inclusive, o seu prestígio internacional.

Tanto que nos dias de hoje, o Brasil é sempre lembrado como um dos países mais estáveis do mundo e a liderança do presidente Lula neste processo é amplamente reconhecida na comunidade internacional. Para Garcia, essa nova política externa que vem sendo desenvolvida no governo Lula “não é uma forma simplesmente de projetar o Brasil no mundo, mas também de projetar o mundo no Brasil”.

terça-feira, 23 de março de 2010

Após derrota nas urnas, Sarkozy enfrenta greves em toda França



A maré não anda muito boa para o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Após a derrota sofrida nas eleições regionais de domingo, quando o seu partido, a UMP, ganhou em apenas uma região territorial e uma em ultramar, Sarkozy enfrenta nessa terça-feira, 23, uma greve em toda a França, que atinge a educação, os transportes e os correios. Os protestos ocorrem por conta da situação econômica da França, que não é nada boa.

De acordo com informações do jornal francês Le Monde, os próprios sindicatos da França foram surpreendidos pela dimensão do movimento grevista e pelas mobilizações, espalhadas por todo país. Nada menos do que 600 mil pessoas participaram de 177 eventos durante a terça-feira, segundo estimativas do Solidaires (SUD), importante grupo sindical da França.

Reforma da previdência e melhores salários em pauta
As centrais sindicais da França – CGT, CFDT, FSU, SUD e UNSA – organizaram essa mobilização desde fevereiro, tendo como objetivo central reivindicar que o governo francês altere os rumos de sua política econômica e social. Um dos pontos que mais têm gerado descontentamento nos trabalhadores franceses diz respeito à Reforma da Previdência, que deve ser apresentada pelo governo entre abril e setembro deste ano.

Os grevistas também reivindicam melhores salários e uma política eficaz no combate ao desemprego no país. Vale lembrar que a França foi uma das economias mais abaladas pela crise financeira internacional de 2009 e ainda não conseguiu se recuperar a níveis satisfatórios, o que vem comprometendo bastante a popularidade do presidente Sarkozy. Além disso, o estilo pessoal do presidente é desaprovado por 54% dos franceses, segundo pesquisa do Instituto CSA encomendada pelo jornal Le Parisien.

Não é demais destacar que os próprios correligionários de Sarkozy têm criticado bastante o presidente. Tanto que na segunda-feira, 22, o presidente francês realizou uma “mini-reforma” de Gabinete, procurando acomodar políticos ligados a lideranças como Jacques Chirac e também Dominique de Villepin, que, diante da crise de popularidade de Sarkozy, é hoje o nome mais cotado dentro da UMP para a eleição presidencial de 2012.

Mobilizações em todo país
Segundo estimativas da CGT, 60 mil manifestantes tomaram as ruas de Paris nesta terça-feira. Em Bordeaux, calcula-se que participaram das manifestações cerca de 20 mil pessoas, enquanto em Toulouse as manifestações reuniram 18 mil franceses. As mobilizações foram intensas também em Marselha, com participação de 50 mil pessoas, incluindo os trabalhadores de uma empresa de chás da região, que já estão na terceira semana em greve por melhores salários.

Analistas dos principais jornais franceses sugerem que este seria um “terceiro turno” para Sarkozy: um turno social, após a derrota nas urnas nas eleições regionais de domingo. Enfrentando críticas da maior parte da população e também de lideranças do seu partido, de fato razões não faltam para tirar o sono de Sarkozy. Vejamos como ele irá enfrentar tudo isso.