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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Algumas ponderações sobre o fato do salário médio do Rio ter superado o de SP

O jornalista Paulo Henrique Amorim publicou em seu blog Conversa Afiada na segunda-feira, 20, um texto tratando da questão de que “pela primeira vez, o salário médio do trabalhador do Rio é maior do que o salário médio do trabalhador de São Paulo”, partindo-se de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados na semana passada. A explicação de PHA para esse fato é de que o governo tucano “afundou São Paulo” e que, assim como apontado por um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas), São Paulo vem perdendo participação no bolo da economia brasileira.

Bem, que o governo do PSDB vem promovendo um desmonte do Estado de São Paulo nos últimos 16 anos, isso ninguém duvida. O estado, que alguns anos atrás era conhecido como a “locomotiva do Brasil”, vem registrando taxas de crescimento cada vez mais tímidas na comparação com o total da economia brasileira. Contudo, é preciso tomar muito cuidado antes de sairmos fazendo análises sobre o comportamento de certos indicadores, ao risco de acabarmos dizendo bobagens. No caso dos indicadores econômicos, como o salário médio, por exemplo, mais importante que o componente estático é o componente dinâmico.

Ou seja, é mais importante sabermos a tendência do indicador do que sua posição num dado instante do tempo. Se analisarmos os números do IBGE, veremos que tanto Rio de Janeiro quanto São Paulo registram, até 2009, taxas de crescimento do salário médio muito próximas, conforme pode ser visualizado no gráfico abaixo. Se observarmos a expansão do rendimento médio entre novembro de 2002 e novembro de 2009, veremos que São Paulo apresentou um crescimento médio de 3,1%, enquanto o Rio de Janeiro teve uma elevação ligeiramente menor, de 2,9%. Ambos os estados, contudo, cresceram mais timidamente que a média total do salário médio no Brasil, que foi de 3,9%.

Façamos este mesmo exercício para o período entre novembro de 2002 e novembro deste ano. Neste intervalo de tempo, o salário médio no Rio de Janeiro saltou de R$ 1.392,44 para R$ 1.616,60, um expressivo crescimento de 16,1%. Enquanto isso, o rendimento médio de São Paulo elevou-se de R$ 1.559,63 para R$ 1.611, 80, o que representa um avanço de apenas 3,3%. Deve-se notar que São Paulo manteve praticamente o mesmo ritmo de crescimento que vinha tendo em anos anteriores, com uma ligeira aceleração. Por outro lado, o Rio de Janeiro apresentou um crescimento, a priori, totalmente fora da curva, o que elevou o rendimento médio no estado para um nível superior ao de São Paulo.

Uma observação das curvas mostra claramente que a aceleração do crescimento do rendimento médio do Rio se deu sistematicamente ao longo de 2010. Cabe aqui a questão: esse ritmo de crescimento do salário médio carioca deve se manter nos próximos períodos ou se trata apenas de uma aceleração localizada na série de tempo? Segundo PHA, “o Rio passou a criar empregos que exigem mão-de-obra mais qualificada e, portanto, de salário mais alto. A economia do Rio se beneficia e se beneficiará cada vez mais da industrialização movida a petróleo, pré-sal e Petrobrás. Os salários que o Rio passou a pagar exigem mais estudo e são oriundos da indústria. Como se sabe, a indústria cria mais empregos que o setor de serviços, especialmente os bancos, que aceleradamente trocam homem por computador”.

Salário médio vai manter ritmo de crescimento no RJ?
A explicação do jornalista é bastante plausível, mas carece de fundamentos que indiquem para uma manutenção desta tendência ao longo dos próximos meses e anos. Se novamente recorrermos aos dados do IBGE, poderemos constatar que de fato a indústria no Rio apresentou um comportamento melhor que a indústria paulista com relação a contratação de mão-de-obra ao longo de 2010. Entre janeiro e outubro deste ano, a indústria carioca registrou expansão de 5,5% no nível de ocupação, enquanto a folha de pagamento real cresceu 9,7%. Ou seja, já se descontando a inflação, nota-se um nível de crescimento da folha de pagamento acima da elevação do pessoal ocupado, o que indica contratação de cargos com maiores salários.

Neste mesmo período, o pessoal ocupado na indústria paulista avançou 2,9%, frente a um crescimento de 5,3% na folha de pagamento real. Com isso, a folha de pagamento média real (ou seja, a folha de pagamento real dividida pelo pessoal ocupado) cresceu 3,97% no Rio de Janeiro entre janeiro e outubro deste ano, contra uma elevação de 2,25% em São Paulo em igual período. Naturalmente, como a indústria tem um forte peso na geração de empregos e, portanto, na massa salarial da economia, esse crescimento superior no Rio em comparação à São Paulo pode ser uma explicação para que o salário médio carioca tenha alcançado níveis superiores ao do paulista. A questão que se coloca aqui não é nem a manutenção da tendência, mas sim a manutenção deste ritmo de crescimento.

Isto porque, de fato, as projeções são de que a indústria do Rio de Janeiro deve seguir em trajetória de crescimento nos próximos anos, tanto em função das atividades de exploração, produção e refino do pré-sal quanto pela construção do Pólo Petroquímico do Rio de Janeiro e da dinamização da indústria naval. Mas aí entra uma questão matemática: a expansão dessas indústrias naturalmente irá requerer mão-de-obra especializada, que é logicamente mais cara. Contudo, serão gerados muitos postos também no chamado “chão de fábrica”, com salários tradicionalmente menores. Isso naturalmente segura uma maior expansão da curva de rendimento médio, pois pode implicar em uma expansão do rendimento médio a taxas inferiores ao crescimento do pessoal ocupado.

Logo, teremos que aguardar os próximos meses para verificar se este movimento da curva de rendimento médio do Rio de Janeiro é consistente ou se não passou de uma aceleração pontual devido à maior expansão da indústria naval e petroquímica em 2010. Como dito anteriormente, ainda é cedo para tecer prognósticos: temos que acompanhar a evolução dos indicadores para somente então podermos efetuar uma análise mais certeira. Afinal de contas, como o próprio ditado popular diz: “prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém”.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Entre o possível, o imprevisto e o improviso: um balanço de Frei Betto sobre o governo Lula

Faltando 13 dias para Lula deixar a Presidência da República e transmitir a faixa presidencial para sua sucessora Dilma Rousseff, o Boteko reproduz aqui um artigo escrito pelo Frei Betto e publicado neste domingo, 19, em um caderno especial do jornal O Globo sobre os oito anos do governo Lula. Neste artigo, Frei Betto faz um balanço geral do governo Lula, apontando o que considera erros, acertos e limitações. Embora este blog discorde essencialmente da opinião do artigo sobre o Bolsa Família, mais precisamente sobre o trecho em que Frei Betto diz que o programa do governo federal não oferece portas de saída, as críticas em geral apontadas pelo autor são muito pertinentes e importantes.

Logo depois do artigo, reproduzido abaixo, há o link para outro artigo do Frei Betto, desta vez escrito em outubro de 2002, logo após a primeira vitória de Lula na disputa presidencial. A leitura dos dois é interessante, pois permite ao leitor, a partir do ponto de vista do Frei Betto, refletir sobre as expectativas e, oito anos depois, sobre as avaliações de um autor que acompanhou Lula desde sua emergência no movimento sindical ainda na década de 70. Boa leitura!

O governo Lula
Anunciada a vitória de Lula nas eleições de 2002, publiquei em O GLOBO (28/10/2002) o artigo "O amigo Lula". Encerrei-o com a frase: "Sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro, Lula é, agora, um vitorioso". Apoiado por ampla maioria da opinião pública brasileira (hoje, 84%), Lula governa o país há oito anos. Surpreendeu aliados e opositores. Lula é, também agora, um vitorioso - posso parafrasear-me.

Vivi sempre de meu trabalho, como recomenda o apóstolo Paulo. Por breves períodos mantive vínculo empregatício com a iniciativa privada. Recusei nomeações do poder público. Por considerar compatível com minha atividade pastoral, aceitei convite do presidente Lula para integrar, em 2003, sua assessoria especial no gabinete de Mobilização Social do Programa Fome Zero, ao lado de Oded Grajew.

Ali permaneci dois anos. Tive oportunidade de implantar dois programas de ampla capilaridade nacional e ainda vigentes: a Rede de Educação Popular, que atua segundo o método Paulo Freire na formação cidadã de beneficiários do Bolsa Família; e o Escolas Irmãs, que estabelece conexões solidárias entre professores e alunos de instituições de ensino.

Minha tarefa principal consistia em mobilizar a sociedade civil em prol do Fome Zero, sobretudo os Comitês Gestores que, eleitos democraticamente nos municípios, cuidavam do cadastro dos beneficiários e supervisionavam o cumprimento das condicionalidades do programa de erradicação da miséria.

Muitos prefeitos reagiram. Queriam a si o controle do Fome Zero. Temiam o despontar de novas lideranças locais via Comitês Gestores. Exigiam decidir, por razões eleitoreiras óbvias, quem entra e sai do cadastro. Por sua vez, o lobby do latifúndio - cerca de 200 parlamentares do Congresso - pressionava para o Fome Zero não efetivar a reforma agrária, que lhe asseguraria caráter emancipatório e constituía cláusula pétrea do programa do PT.

A Casa Civil deu ouvidos aos insatisfeitos. Tratou de substituir o Fome Zero por um programa de caráter compensatório e, até hoje, sem porta de saída, cujo cadastro é controlado pelos prefeitos: o Bolsa Família. Oded Grajew regressou a São Paulo, o ministro Graziano foi substituído, e eu, em dezembro de 2004, pedi demissão. Voltei a ser um feliz ING - Indivíduo Não Governamental.

Às vésperas de encerrar o governo Lula, avalio-o como o mais positivo de nossa história republicana. O Brasil mudou para melhor. Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres cresceu seis vezes mais que a dos 10% mais ricos. A dos ricos cresceu 11,2%; a dos pobres, 72%. No entanto, há 25 anos, de acordo com o Ipea, metade da renda total do Brasil permanece em mãos dos 10% mais ricos. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional.

Sob o governo Lula, os mais pobres mereceram recursos anuais de R$ 30 bilhões; os mais ricos, através do mercado financeiro, foram agraciados, no mesmo período, com mais de R$ 300 bilhões, o que impediu a redução da desigualdade social. Faltou ao governo diminuir o contraste social por meio da reforma agrária, da multiplicação dos mecanismos de transferência de renda e da redução da carga tributária nas esferas do trabalho e do consumo. E onerar as do capital e da especulação.

Hoje, os programas de transferência de renda do governo representam 20% do total da renda das famílias brasileiras. Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de 1/4 do salário mínimo. Não fossem as políticas de transferência, seriam hoje 40,5 milhões. Isso significa que o governo Lula tirou da miséria 21,8 milhões de pessoas.

É falácia alardear que, ao promover transferência de renda, o governo "sustenta vagabundos". Isso ocorre quando não pune corruptos, nepotistas, licitações fajutas, malversação de dinheiro público. No entanto, a Polícia Federal prendeu, por corrupção, dois governadores.

Mais da metade da população do Brasil detém menos de 3% das propriedades rurais. E apenas 46 mil proprietários são donos de metade das terras. Nossa estrutura fundiária é idêntica à do Brasil império! E o empregador rural não é o latifúndio nem o agronegócio, é a agricultura familiar: ocupa apenas 24% das terras e emprega 75% dos trabalhadores rurais.

A inflação manteve-se abaixo de 5%, cerca de 11,7 milhões de empregos formais foram criados e o salário mínimo corresponde, hoje, a mais de US$ 200. Isso permitiu ao consumidor planejar melhor suas compras, facilitado por uma política de créditos consignados e a longo prazo, malgrado as elevadas taxas de juros.

O governo Lula não criminalizou movimentos sociais; buscou o diálogo, ainda que timidamente, com lideranças populares; melhorou as condições dos quilombos; demarcou terras indígenas como Raposa Serra do Sol.

Ao rechaçar a Alca e zerar as dívidas com o FMI, Lula afirmou o Brasil como país soberano e independente. O que lhe permitiu manter confortável distância da Casa Branca e se aproximar da África, dos países árabes e da Ásia, a ponto de enfraquecer o G8 e fortalecer o G20, do qual participam países em desenvolvimento. Estreitou relações com a África do Sul, a Índia e a China, valorizou a Unasul e rompeu o "eixo do mal" de Bush ao defender a autodeterminação de Cuba, Venezuela e Irã.

O governo termina sem que, nos oito anos de mandato, tenham sido abertos os arquivos das Forças Armadas sobre os anos de chumbo, nem apoiado iniciativas para entregar à Justiça os responsáveis pelos crimes da ditadura. O país continua sem qualquer reforma estrutural, como a agrária, a política, a tributária etc.

Na educação, o investimento não superou 5% do PIB, quando a Constituição exige ao menos 8%. Embora o acesso ao ensino fundamental tenha se universalizado, o Brasil se compara, no IDH da ONU, ao Zimbabwe em matéria de qualidade na educação. Os professores são mal remunerados, as escolas não dispõem de recursos eletrônicos, a evasão escolar é acentuada. Os programas de alfabetização de adultos fracassaram e o MEC se mostrou desastrado na aplicação do Enem. De positivo, a ampliação das escolas técnicas e das universidades públicas, o sistema de cotas e o ProUni.

O SUS continua deficiente, enquanto o atendimento de saúde é progressivamente privatizado. Hoje, 44 milhões de brasileiros estão inscritos em planos de saúde da iniciativa privada. Mais de 50% dos domicílios do país não possuem saneamento, os alimentos transgênicos são vendidos sem advertência ao consumidor, os direitos das pessoas portadoras de deficiências não são devidamente assegurados.

Governar é a arte do possível. Implica imprevistos e exige improvisos. Lula soube fazê-lo com maestria. Espero que o governo Dilma possa aprimorar os avanços da administração que finda e corrigir-lhe as falhas, sobretudo na disposição de efetuar reformas estruturais e ampliar o rigor na preservação ambiental. Tomara que a presidente consiga superar a deficiência congênita de sua gestão: o matrimônio, por conveniência eleitoral, entre o PT e o PMDB.

PS: O poder não muda ninguém, faz com que as pessoas se revelem.

Para ler o artigo “O amigo Lula”, escrito por Frei Betto em outubro de 2002, clique aqui.

(FREI BETTO é escritor, autor de "A mosca azul" e "Calendário do poder" pela Editora Rocco, entre outros livros)

sábado, 18 de dezembro de 2010

A bomba-relógio da África: qual a perspectiva para o referendo do Sudão em janeiro?

A proximidade do referendo marcado para o próximo dia 9 de janeiro no Sudão, no qual a população da província autônoma do Sul irá às urnas para decidir pela separação ou não em relação ao norte do país, tem despertando grandes preocupações nos observadores internacionais. A tensão entre norte e sul no Sudão não é recente: há pelo menos 60 anos o país vive uma situação de instabilidade constante em função das diferenças entre as duas regiões. No sul, a população formada majoritariamente por negros, cristãos e animistas se contrapõe à dominação do norte, cuja população é em sua esmagadora maioria árabe e muçulmana.

Como o governo central está sediado em Cartum, cidade localizada no norte do país, existe um movimento muito forte no sul do Sudão para a emancipação política da região em relação ao norte, formando um novo Estado – o “Sudão do Sul” ou “Novo Sudão”. Embora todos os indícios sejam de que a maioria da população do sul vote pela separação em relação ao norte, a preocupação da comunidade internacional está voltada justamente para como o governo do norte receberá esse provável resultado do referendo. Vale destacar que desde 1989 o Sudão é governado por Omar al-Bashir, que chegou ao poder através de um golpe militar apoiado por setores ligados ao fundamentalismo islâmico.

Dessa maneira, o temor é de que o governo do norte não acate a separação que provavelmente será decidida nas urnas no dia 9 de janeiro e dê início a uma nova guerra civil, que pode ter resultados piores do que a primeira, ocorrida entre 1955 e 1972. Naquela ocasião, a guerra civil foi motivada justamente pelo fato do sul não aceitar a dominação política, econômica e social do norte. Em 1972, foi assinado um acordo de paz entre as duas regiões, mas que teve vida curta – de apenas uma década – já que no ano de 1983 o governo do Sudão, em Cartum, pôs fim ao armistício, revendo o acordo de paz e implantando a Sharia (lei islâmica) em todo território.

Naturalmente, isso provocou uma reação imediata do sul, mas que foi duramente combatida por Cartum. Para se ter uma idéia, estima-se que o número de mortos no conflito passou dos 2 milhões, ao passo que o número de refugiados chega a 4 milhões. Em 2005, tanto sul quanto norte assinaram o Acordo de Paz Abrangente, que deu autonomia ao sul durante cinco anos e estabeleceu a realização desse referendo, que ocorre no próximo mês, para definir se as duas regiões se reintegram por completo e mantêm a unidade do Estado ou se haverá uma separação entre sul e norte, criando dois Estados distintos. Recentemente, tanto o governo do norte quanto o governo autônomo do sul deram declarações que, não obstante ao resultado das urnas, a paz deve ser garantida no país.

O petróleo no centro da disputa entre norte e sul
Seria fácil acreditar nisso, não fosse, além do histórico de guerras do Sudão, o fato de que bem no meio dos dois territórios encontra-se a maior riqueza do país: o petróleo. As maiores jazidas de petróleo do Sudão estão situadas próximas à província de Abyei. O acordo de paz assinado em 2005 prevê que, caso se opte pela separação do sul em relação ao norte, a região de Abyei realizará um novo referendo, com data ainda a ser definida, a fim de decidir se fará parte do sul ou do norte. Como essa província está muito próxima aos campos petrolíferos é possível de se imaginar o porquê desse referendo estar atraindo a atenção de toda comunidade internacional, haja vista que o petróleo é tradicionalmente um motivo de grandes impasses e guerras na cena geopolítica.

De acordo com informações da rede britânica BBC, “os dois lados não chegaram a um acordo de como repartirão as receitas do petróleo no caso de uma separação. Este aspecto da disputa é tão sério que o sul está avaliando construir sua própria rede de oleodutos para exportar o petróleo pela costa do país. A idéia é que o novo oleoduto passe pelo Quênia, um aliado dos sudaneses do sul, contornando, assim, o atual oleoduto do norte do país”. Ainda segundo a BBC, outro aspecto que pode ser foco de tensões numa eventual separação entre o sul e o norte no referendo de 9 de janeiro diz respeito à divisão da dívida externa do Sudão, já que “sudaneses do sul resistem em tomar para si uma parte da dívida, pois quase nada desse dinheiro foi gasto em melhorias para a região”.

É interessante destacar, contudo, que existem análises que vão exatamente no caminho contrário desse ponto de vista, apostando que o petróleo deve ser o grande trunfo para a paz na região, no caso de uma efetiva separação entre norte e sul. Segundo recente análise da Reuters, considerando o fato que 75% dos 500 mil barris de petróleo por dia produzidos no Sudão vêm do sul do país e que toda a rede de refino e transporte desse petróleo está no norte, nenhum dos dois lados teria o interesse de promover um conflito que pudesse afetar a produção de petróleo. Afinal de contas, como aponta a Reuters, “tanto o governo do norte quanto do sul são altamente dependentes das receitas do petróleo”.

Para se ter uma idéia, nada menos que 98% das receitas do governo autônomo do sul vêm do petróleo. De forma semelhante, a commodity responde por significativos 45% do orçamento de Cartum, representando também 90% das exportações do norte do Sudão. Segundo a Reuters, “isso não deixa alternativa para as duas partes senão continuar – ainda que de uma forma em aberto – a partilha das receitas do petróleo, mesmo em um cenário pós-secessão provável”. Vale destacar que, desde 2005, quando foi assinado o acordo de paz entre norte e sul, as receitas do petróleo são divididas entre as duas partes meio a meio.

Sobre a questão levantada pela BBC, de que o sul teria planos de construir sua própria rede de oleodutos para escoar o petróleo, os analistas consultados pela Reuters afirmam que “isso seria uma solução política, mas não seria economicamente viável”. Para estes analistas, a saída mais viável no caso de uma separação entre o sul e o norte seria que o sul continuasse escoando o petróleo através da rede de oleodutos do norte, pagando, para isso, taxas de uso. Afinal de contas, o custo para construir uma rede de oleodutos passando pelo Quênia, além de refinarias especializadas, seria demasiadamente alto, o que não justificaria essa solução. Contudo, como as decisões políticas nem sempre seguem a lógica economicista, é difícil dizermos se essa racionalidade dos analistas será seguida pelo governo do sul.

De qualquer forma, os observadores internacionais devem seguir bastante atentos na região ao longo dos próximos dias, uma vez que, com a proximidade do referendo, as tensões entre sul e norte tendem a crescer. O partido governista do sul tem acusado o norte de promover pequenos ataques em seu território, mas estas acusações são negadas por Cartum. Além disso, a organização do referendo tem acusado o norte de promover uma campanha com vistas a dinamitar o processo e impedir que ele ocorra na data prevista. Tudo isso contribui para acirrar ainda mais os ânimos na região e fazer com que a comunidade internacional redobre suas atenções para o país.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

CNI/Ibope: Dilma cresce em todas as regiões e tem maior parte de votos consolidados

Mais importante que a confirmação, pela mais recente pesquisa CNI/Ibope, da liderança da candidata do PT, Dilma Rousseff, na disputa pela sucessão presidencial, com 40% das intenções de voto, é o cenário amplamente favorável para a candidatura petista que os cortes do levantamento nos revelam. Neste sentido, ao analisarmos as minúcias da pesquisa podemos visualizar um ambiente amplamente favorável a um processo de contínuo crescimento de Dilma, elevando, dessa forma, o favoritismo da ex-ministra nesta disputa eleitoral.

De uma maneira geral, podemos avaliar que, à medida que Dilma vai se tornando mais conhecida pelos eleitores e estes vão associando sua imagem ao presidente Lula, ampliam-se as intenções de voto na petista, especialmente nos segmentos de menor renda. Isso propicia o avanço da ex-ministra inclusive em regiões onde em levantamentos anteriores o seu principal adversário, o tucano José Serra, mantinha a liderança. Contudo, vamos nos atentar a três pontos fundamentais da pesquisa que nos permitem dizer com que, atualmente, Dilma é a favorita para a sucessão do presidente Lula:

01. Dilma tem o maior percentual de votos cristalizados: o primeiro aspecto que iremos analisar aqui se refere aos votos cristalizados de cada candidato, ou seja, o percentual de eleitores que já definiram o seu voto e afirmam que votarão com certeza neste ou naquele candidato. Neste quesito, Dilma leva a melhor por duas razões: o percentual de votos cristalizados da petista é superior ao dos outros dois principais postulantes do cargo (Serra e Marina); e a candidata do PT é a que tem, dentro de suas intenções de voto, o maior percentual consolidado, reduzindo, assim, a volatilidade de suas intenções de voto.

Vejamos: de acordo com o Ibope, 35% dos eleitores entrevistados afirmam que votarão com certeza em Dilma. Como a petista pontuou 40% neste levantamento, isto quer dizer que de todos aqueles que declararam voto na ex-ministra, 87,5% estão com seus votos já definidos em favor de Dilma. Dessa maneira, o percentual de votos “voláteis” seria de 12,5% do total declarado à petista. Enquanto isso, 29% dos eleitores entrevistados afirmaram votar com certeza em Serra, o que corresponde a 83% do universo de 35% dos eleitores que declararam voto no candidato tucano nesta pesquisa. Assim, do total pontuado pelo ex-governador de São Paulo nesta pesquisa, 17% seriam de votos “voláteis”.

Já no caso de Marina, 7% dos eleitores afirmaram que votarão com certeza nela, o que representa 78% do total de eleitores que declararam voto nela nesse levantamento. Se fizermos a análise sob o espectro dinâmico, perceberemos que Dilma foi a candidata que mais consolidou votos desde março, quando foi feito o último levantamento CNI/Ibope. Naquela ocasião, 29% dos eleitores afirmavam votar com certeza na petista, de forma que houve um ganho de 6 pontos percentuais até junho. No caso de Serra, em março ele aparecia com 27% dos votos cristalizados, de modo que ganhou apenas 2 pontos percentuais, ao passo que Marina não registrou oscilação, pois em março aparecia com os mesmos 7% de votos certos.

02. Dilma passa Serra no Sudeste: no corte regional da pesquisa CNI/Ibope podemos constatar também um favoritismo de Dilma. Isto porque a petista aparece à frente do tucano na região Sudeste, que agrega os três maiores colégios eleitorais do Brasil (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro). Segundo o levantamento, Dilma aparece com 37% das intenções de voto no Sudeste, contra 36% de Serra, ligeiramente à frente dentro da margem de erro, que é de 2 pontos percentuais. No levantamento anterior, feito em março, o tucano aparecia com 15 pontos de vantagem sobre Dilma (40% a 25%), de forma que o movimento apurado por esta pesquisa é extremamente positivo para a petista.

Nas demais regiões, o quadro é o seguinte: no Nordeste, Dilma lidera com 47% das intenções de voto contra 30% de Serra; no Norte/Centro-Oeste a petista alcança 40% das intenções de voto frente a 34% do tucano e, no Sul, o ex-governador atinge 42% das intenções de voto, sendo a única região onde está à frente da ex-ministra, que aparece com 34% das intenções de voto. Devemos destacar aqui dois pontos: a liderança isolada de Dilma no Nordeste (que responde por 28% do eleitorado) e também a redução da vantagem de Serra no Sul (região que agrega 15% do eleitorado brasileiro). Percebe-se, aqui, que em todas as regiões brasileiras a petista tem firmado uma trajetória de crescimento consistente.

03. Apoio de Lula tem grande peso na decisão dos eleitores: outro ponto importante que amplia o favoritismo de Dilma nesta disputa é o elevado peso que o apoio do presidente Lula tem sobre a decisão de voto dos eleitores. Neste aspecto, de acordo com a pesquisa CNI/Ibope, 48% dos eleitores afirmam que preferem votar em um candidato apoiado por Lula, ao passo que apenas 10% afirmaram que preferem votar em um candidato da oposição. Por outro lado, 37% declararam que não levarão em conta na sua decisão de voto o apoio dado pelo presidente Lula a um determinado candidato.

Dentre os eleitores que afirmam que preferem votar em um candidato apoiado por Lula, 90% situam-se na faixa de renda até 5 salários mínimos mensais. Para se ter uma idéia, dentre os eleitores que ganham até 1 salário mínimo, 62% afirmam que preferem votar em um candidato apoiado pelo presidente Lula. Se considerarmos a faixa de renda até 5 salários mínimos, nada menos que 52% dos eleitores neste intervalo de rendimento declararam preferência pelo candidato apoiado pelo presidente Lula, ampliando, assim, a margem de favoritismo de Dilma na sucessão presidencial.

É interessante ainda salientar que nas regiões Norte/Centro-Oeste, Nordeste e inclusive no Sudeste, o percentual de eleitores que preferem votar em um candidato apoiado por Lula é maior do que aqueles que dizem que não levarão em conta o apoio do presidente. Apenas na região Sul, o percentual de eleitores que declaram que não levarão em conta o apoio do presidente Lula é superior ao percentual dos que afirmam preferir o candidato apoiado pelo presidente. Isto nos mostra com clareza que o apoio do presidente Lula continua sendo um fator preponderante na escolha de grande parte dos eleitores brasileiros, o que favorece amplamente a candidatura de Dilma.

O que se percebe nestes pontos levantados é que Dilma tem obtido melhor êxito do que seus concorrentes na consolidação de votos, construindo cada vez mais uma candidatura sólida e com um favoritismo cada dia maior. Chegou-se a cogitar, no início da pré-campanha, que a disputa assumiria um caráter regional, mas o que se percebe no corte geográfico das recentes pesquisas, é que a petista tem crescido continuadamente em todas as regiões, inclusive no Sudeste, onde o tucano tinha ampla vantagem há alguns meses. Isso, sem dúvida, amplia consideravelmente o cenário de favoritismo de Dilma, especialmente se lembrarmos que ela começa a campanha em uma situação mais confortável que a seu principal adversário.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A continuidade e a experiência no centro do debate da disputa presidencial



A disputa pelo Palácio do Planalto entra no mês de junho em uma situação de empate técnico entre a pré-candidatura governista e a da oposição, com Dilma Rousseff (PT) ligeiramente à frente de José Serra (PSDB) dentro da margem de erro das pesquisas. Esse quadro decorre, basicamente, de um forte crescimento da petista e de uma estagnação do tucano, acentuadas, sobretudo, nas últimas semanas. É interessante notar, ainda, que pouco a pouco as eleições começam a ganhar um maior espaço no dia-a-dia do eleitorado, o que se faz sentir pelos maiores graus de conhecimento das pré-candidaturas e também pelas imagens fixadas pelos eleitores em relação aos pré-candidatos.

No tocante a esta questão, percebemos claramente que até o presente momento os eleitores têm diferenciado os dois principais postulantes à Presidência da República de acordo com dois critérios: o da continuidade do governo Lula (que segue em níveis recordes de aprovação) e o da experiência política. Neste sentido, pesquisas de intenção de voto e opinião pública indicam que os eleitores tendem a identificar mais Dilma com a continuidade do governo Lula, enquanto associam a Serra a imagem de mais experiente. Ou seja: até aqui a eleição, ainda em fase de pré-campanha, caminha para um embate entre a continuidade do governo Lula ou a experiência política, o que faz com que as coordenações de campanha já atuem em torno dessa constatação.

Enquanto a candidatura de Dilma reforça a idéia da continuidade do governo Lula, a candidatura demo-tucana se esforça para trazer à arena política o debate em torno dos currículos dos pré-candidatos, apostando nessa imagem de “maior experiência” que o eleitor médio tem colado até o momento a José Serra. Mas cabe aqui a pergunta: até que ponto esse embate em torno de continuidade ou experiência de fato existe? Colocando de uma outra forma: até que ponto dá para a oposição construir sua estratégia no jogo político apostando unicamente na “maior experiência” de José Serra? É o que procuraremos responder nas linhas a seguir.

Por que maioria vê Serra como mais experiente?
De acordo com uma pesquisa feita pelo Datafolha entre os dias 20 e 21 de maio, 64% dos entrevistados afirmaram que Serra é o candidato mais experiente, enquanto apenas 17% avaliaram que Dilma tem maior experiência. Colocados dessa forma, os números não nos dizem grande coisa, pois uma análise real só é feita se contextualizarmos esses dados, levando em conta aspectos como o grau de conhecimento dos eleitores sobre cada um dos pré-candidatos, por exemplo. E quando fazemos esse exercício, podemos facilmente visualizar um motivo para que Serra seja identificado pelos eleitores como o mais experiente.

A mesma pesquisa Datafolha que revela que a grande maioria dos eleitores considera Serra como o mais experiente, também mostra que o tucano é bem mais conhecido pelo eleitorado do que a petista, o que naturalmente explica o fato dos eleitores avaliarem o ex-governador de São Paulo como mais experiente que a ex-ministra. Neste sentido, segundo os números do Datafolha, apenas 15% dos entrevistados declaram que conhecem muito bem a petista, contra 34% que conhecem muito bem o tucano. Já 35% dos entrevistados afirmaram que conhecem “um pouco” Dilma, contra 34% que conhecem “um pouco” Serra. Ou seja, Serra ainda é bem mais conhecido que Dilma, sendo natural por isso que os eleitores o vejam como mais experiente.

Outra questão que cabe ser levantada aqui se relaciona ao conceito de experiência formado pelo eleitor. De antemão, podemos supor que o eleitor médio entende “experiência” como uma resultante de dois vetores: a experiência em disputas eleitorais (que dá maior visibilidade ao candidato) e a experiência administrativa. Não é preciso um grande exercício de lógica para entender que esses dois vetores impactam sobre o grau de conhecimento dos candidatos pelos eleitores e, a partir daí, na formação da imagem de “experiente” na cabeça do eleitorado. Contudo, essa imagem de experiência, num contexto em que a esmagadora maioria dos eleitores não conhece bem um dos candidatos, é muito frágil, pois pode ser facilmente revertida no decorrer da campanha.

No que diz respeito ao primeiro tipo de experiência – com vetor eleitoral – de fato Serra tem uma maior “quilometragem” que Dilma, uma vez que já concorreu a cargos eletivos em diversas ocasiões, ao passo que a ex-ministra concorre pela primeira vez a um cargo eletivo. Mas isso não quer dizer nada (e o eleitor sabe disso), pois se a experiência eleitoral fosse de fato preponderante, a cadeira presidencial não deveria ser ocupada nem por Serra nem por Dilma, mas por um político como o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf (PP), que disputa uma eleição atrás da outra desde sua época do Grêmio Politécnico e acumula muito mais eleições disputadas do que Dilma e Serra juntos.

Logo, percebemos que na imagem de “experiência” formada pelo eleitor médio, o que é levado mais em conta é a experiência administrativa. E aí está a grande fragilidade da estratégia de Serra em se apoiar apenas no quesito experiência, pois à medida que Dilma vai se tornando mais conhecida o eleitor vai sendo informado sobre sua experiência na vida pública. Ora, sabemos que o tucano e a petista, embora tenham iniciado sua militância política praticamente na mesma época, durante os anos 60, eles tomaram trajetórias distintas. Enquanto Serra retomou sua vida pública nos anos 80, galgando diversos cargos eletivos (deputado constituinte, senador, prefeito e governador) e também atuando como Ministro do Planejamento e da Saúde no governo FHC, Dilma desde os anos 80 atua em cargos administrativos de primeiro escalão.

Desejo de continuidade do governo Lula tem maior peso
Ou seja: é falacioso dizer que Dilma não tem experiência na vida pública, pois ela tem uma larga experiência administrativa e isso tende a ser mais compreendido pelo eleitor médio à medida que a petista for se tornando mais conhecida. Verificamos aí, portanto, que com o início da campanha eleitoral, em 5 de julho, e especialmente após o início da propaganda partidária de rádio e TV, é bastante possível que essa imagem de um Serra “mais experiente” que Dilma seja revertida ou ao menos minimizada, já que ambos os pré-candidatos possuem experiência administrativa, que foi acumulada por eles em diferentes trajetórias da vida política.

Percebemos nessa altura que a atual dualidade de critérios na escolha do voto, a saber a experiência dos candidatos e o desejo de continuidade do governo Lula, pode facilmente ceder lugar apenas a um único critério no decorrer da campanha, que é justamente o de continuidade do governo Lula. E aí Dilma sem dúvida leva a melhor, pois segundo o Datafolha 71% dos entrevistados associam ela ao apoio do presidente Lula, ao passo que apenas 5% dos entrevistados fazem essa mesma associação em relação a Serra. É interessante ressaltar que, segundo recente pesquisa CNT/Sensus, 54,6% dos entrevistados vêem Dilma como continuidade do governo Lula, enquanto apenas 25,9% acreditam que Serra pode dar continuidade ao atual governo.

Sem contar que para 44% dos entrevistados pelo instituto Sensus em maio, o principal critério de voto são os benefícios econômicos e sociais, ou seja, a continuidade do governo Lula, ao passo que apenas 34,9% têm como principal critério a comparação de currículos. O que podemos contatar aqui é que o atual embate entre continuidade e experiência tende a ser diluído ao longo da campanha, uma vez que tanto Serra quanto Dilma têm experiência administrativa. Logo, experiência não é o diferencial entre os dois pré-candidatos. O embate recai então sobre o critério de continuidade do governo Lula e é exatamente aí que se encontra a grande diferença entre Dilma e Serra, pois os pré-candidatos representam projetos bastante distintos. Caminhamos, portanto, para uma eleição onde fica cada vez mais evidente o peso do desejo do eleitor em relação à continuidade do governo Lula.