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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Quem te viu, quem te vê: a opinião da Veja sobre Lula logo após a derrota na eleição de 89

Há exatos 21 anos, no dia 24 de dezembro de 1989, chegava às bancas a primeira edição da revista Veja após o segundo turno das primeiras eleições presidenciais diretas pós-redemocratização, realizado no dia 17 daquele mês. A capa da revista trazia estampada, naturalmente, a foto do candidato vitorioso naquele pleito, o até então ex-governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello. Além de uma extensa reportagem de capa sobre o “estilo pessoal e de poder” do recém-eleito presidente, que mostrava desde os familiares de Collor até os seus perfumes prediletos, e de uma matéria sobre os “abacaxis” que Collor teria que descascar a partir de março de 1990, quando tomaria posse, a Veja também trouxe uma matéria sobre o candidato derrotado nas urnas naquela eleição – o então ex-metalúrgico Lula.

A campanha de 1989 é lembrada até hoje por ter sido uma das campanhas mais animadas – e radicalizadas – desde a redemocratização do Brasil. Após um primeiro turno com a presença de grandes figuras da cena política brasileira – como Mário Covas, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, dentre muitos outros – eis que chegam ao segundo turno Collor e Lula. Após uma eleição extremamente disputada, que até o último instante mostrava empate técnico entre os dois candidatos, Collor venceu por pequena margem de votos. A matéria reproduzida a seguir – e intitulada “A queda da estrela” - é da edição nº 1110 da Veja, de 24 de dezembro de 1989. É interessante ver a análise que a reportagem faz sobre Lula, dando a entender que a derrota naquele ano não foi um fracasso e que o ex-metalúrgico consolidou-se como líder da oposição ao novo governo. É um documento histórico muito interessante, especialmente se compararmos com o tom folhetinesco que a Veja assumiu desde a década de 90.

A queda da estrela
"Durante os trinta dias de campanha entre o primeiro e o segundo turno da eleição, o candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, 44 anos, alimentou uma esperança fundada no mais puro realismo: ocupar a cadeira do presidente José Sarney no Palácio do Planalto pelos próximos cinco anos. Até a hora da verdade Lula estava virtualmente empatado com seu adversário do PRN, Fernando Collor de Mello, realizara os maiores e mais animados comícios da temporada e parecia muito perto de transformar seu sonho de candidato numa festa regada a discursos de comemoração. Quando as urnas do segundo turno foram abertas, porém, o sonho de Lula virou pó e a cadeira do presidente Sarney escapou-lhe por pouco das mãos. Para quem entrou na campanha como azarão, bateu políticos como Leonel Brizola e Mário Covas no primeiro turno e quase chegou lá, a derrota carrega todos os ingredientes da frustração, mas nada tem de humilhante.

Ao contrário, Lula sai desta eleição robustecido em relação ao personagem que ele encarnava um ano atrás. Com seu passado de líder operário, de deputado bom de voto e, agora, de um homem capaz de puxar os votos de metade do país numa corrida presidencial – tudo isso com o reforço da teia política e sindical que é o PT -, Lula se credencia como carta forte em qualquer eleição e, desde já, emerge como um dos pilares da oposição ao novo governo no país.

“Lula credenciou-se para fazer oposição como ninguém antes”, afirma o deputado Paulo Delgado, do PT de Minas Gerais. O desempenho de Lula na eleição, na verdade, surpreendeu a própria direção do partido, que tratava a sua candidatura apenas como uma etapa na estratégia de chegar ao poder – algo vislumbrado como possível, no cronograma dos teóricos petistas, somente em 1994. Fora do PT, também se duvidava das chances de um ex-metalúrgico chegar à Presidência da República na primeira eleição direta em 29 anos. Havia a questão do despreparo intelectual de Lula, em comparação aos bacharéis que normalmente disputam eleições nesse patamar. Imaginava-se ainda que o radicalismo do PT deixaria a grande maioria do eleitorado na defensiva. Além disso, faltava experiência tanto ao candidato quanto à sua máquina de sustentação.

Desacreditado na largada, Lula saltou para o primeiro lugar nas pesquisas realizadas no início do ano, com 10% das intenções de voto. Nem assim passou a ser visto como peça de grande realce no tabuleiro da sucessão. Entre julho e agosto, Lula recuou para os 5% nas pesquisas de opinião – e algum tempo depois chegou a ser considerado carta fora do baralho. Nesses meses, com o caixa da campanha em baixa, o candidato do PT viajava pelo país em aviões de carreira e passava horas intermináveis nos aeroportos.

Para Lula, que entrou na sucessão com poucas esperanças, mas passou a acreditar firmemente na vitória com a proximidade das eleições, a derrota foi um baque. Nas semanas anteriores ao segundo turno, Lula já demonstrava sinais de nervosismo e tensão – alternava momentos de descontração e mau humor, especialmente pela manhã, depois de dormir menos de quatro horas em função dos desumanos compromissos de campanha. Em situação normal, Lula é uma pessoa agradável, distendida e bem humorada. Nos momentos tensos do final de campanha, era outra pessoa. Na segunda-feira dia 11, o estado de alta ansiedade do candidato piorou com o depoimento de sua ex-namorada Mirian Cordeiro, apresentado no horário eleitoral do PRN.

Embora estivesse esperando que algo desse tipo fosse mostrado na campanha, Lula não estava preparado para a intensidade e a rudeza do ataque. O golpe acertou-lhe a boca do estômago e funcionou como uma espécie de balde de água fria no entusiasmo que tomou conta do partido duas semanas antes da eleição – com o crescimento nas pesquisas, começou-se a acreditar, de fato, na possibilidade de vitória. Lula foi mal do dia seguinte no debate na TV, deixou sem resposta os ataques mais duros de Collor e apareceu como o aluno que entra numa prova despreparado. Já tinha se apresentado muito melhor em debates anteriores. Lula voltou para casa desanimado e, naquele momento, passou pela sua cabeça, pela primeira vez em várias semanas, que poderia não chegar lá. Nos comitês de campanha e nas sedes do partido, os militantes ainda tentaram reverter a onda de desânimo com a organização do trabalho de boca de urna para o dia 17. Quando as urnas foram fechadas, no final da tarde daquele dia, porém, o que o PT mais temia estava selado – Lula quase chegou lá.

Com a derrota, abriram-se, na semana passada, duas discussões sobre o futuro dentro do PT – o futuro do próprio Lula e o do partido. Deputado sem muita expressão na Assembléia Nacional Constituinte, Lula mostrou-se um político mais preparado e maduro durante a campanha presidencial. Ele foi capaz, sem dúvida, de ampliar notavelmente sua base eleitoral – do contrário, teria ficado nos 16% de votos que teve no primeiro turno e demonstrado que é um candidato de possibilidades excessivamente estreitas. Atribuiu-se a Lula, também, a maior parte do sucesso obtido nos acordos com Leonel Brizola, do PDT, e Mário Covas, do PSDB, para a eleição do segundo turno.

Além disso, ficou comprovado, pelo número de participantes nos comícios, pelo seu desempenho nos palanques e por sua votação final que Lula é um político com uma rara qualidade – carisma. Por essas condições pessoais, Lula, com apenas 44 anos de idade, parece ter um futuro tranqüilo pela frente. Mesmo as facções do PT mais refratárias à sua liderança terão de continuar admitindo que ele permanece como o número 1 do partido, e não como um fracassado de quem é preciso livrar-se – o que, entre outras coisas, o faz, desde já, um forte candidato a disputar o governo de São Paulo no ano que vem.

O futuro do PT é um assunto mais complicado. O problema que virá a tona depois que a poeira da eleição baixar é a disputa nunca resolvida e sempre feroz entre as facções internas do partido. Durante a campanha, particularmente na disputa do segundo turno, Lula utilizou uma linguagem moderada que desagradou às numerosas facções radicais de sua legenda. Como as derrotas têm o dom de ampliar, e até de exagerar, os erros cometidos pelos derrotados, é quase certo que os dois lados se engalfinharão na troca de acusações sobre quem fica com a responsabilidade. O desafio do PT, portanto, será encontrar a melhor maneira de manter com vida o que a campanha trouxe de positivo para o partido. Não conseguindo isso, a derrota do dia 17 terá sido o que é, tristemente, a maioria das derrotas – apenas uma derrota".

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O ENEM e os diferentes pesos e medidas da grande imprensa

Se um extraterrestre, que nunca teve nenhum tipo de informação sobre a Terra e, muito menos, sobre o Brasil, chegasse nestes últimos dias ao nosso país e tentasse obter informações através dos nossos grandes jornais e emissoras de TV, certamente seria mais um dos que engrossam o coro de críticas ao ENEM – o Exame Nacional do Ensino Médio. Isto porque a grande imprensa tem feito sistematicamente nos últimos tempos um exercício de desconstrução do Exame, que além de ser um poderoso instrumento de avaliação do ensino médio, ainda serve como caminho para milhares de estudantes ingressarem em uma IES (Instituição de Ensino Superior).

Bastou uma falha de proporção residual no último sábado (dia 6 de novembro), quando foi aplicada a primeira etapa do Exame, para que uma enxurrada de críticas ao ENEM, ao ministro da Educação Fernando Haddad e ao governo Lula tivesse início. Antes de seguir, cabe aqui fazer uma ressalva: este blog não tem nenhum tipo de complacência com erros e falhas, defendendo sempre uma postura crítica às mesmas. Ou seja, o questionamento que se faz aqui ao comportamento da imprensa sobre o episódio do ENEM não se dá em função das críticas às falhas ocorridas no ENEM no último final de semana, mas sim ao super-dimensionamento dado a estas falhas.

Falha atingiu apenas 0,006% das provas
De acordo com informações do MEC (Ministério da Educação), a falha de impressão nos cadernos de questões ocorrida no último sábado atingiu um lote de apenas 21 mil provas, em um universo de 3,5 milhões de estudantes que participaram do ENEM. Se fizermos os cálculos, veremos que o lote com falha corresponde à incrível (!) parcela de 0,006% do total: ou seja, em 99,94% dos casos, os cadernos de questões estavam totalmente corretos. Considerando que boa parte desses cadernos com falhas foram trocados por outros, estes corretos, ainda durante os primeiros minutos da prova, apenas 2 mil estudantes foram prejudicados pelo erro da gráfica.

Refaçamos então os cálculos: foram prejudicados 2 mil estudantes dentro de um universo de 3,5 milhões, correspondendo à cifra de 0,0006%, o que deixa claro o super-dimensionamento da falha que vem sendo praticado por boa parte da imprensa brasileira. É claro que o Ministério da Educação terá que encontrar uma solução para que estes 2 mil estudantes que foram prejudicados na primeira etapa do Exame não sejam mais prejudicados ainda para posterior seleção nas IES. E neste ponto é justo que a imprensa faça a devida cobrança. Por outro lado, transformar uma falha pontual em uma “crise”, como foi apregoado pelo blog do Reinaldo de Azevedo, na revista Veja, é um pouco demais!

Deve-se destacar o quão importante tem sido o aperfeiçoamento do ENEM ao longo dos últimos anos, sobretudo no que diz respeito à democratização do acesso ao ensino superior. Afinal de contas, o Exame Nacional do Ensino Médio é um dos principais critérios utilizados pelo ProUni para concessão de bolsas de estudo a milhares de estudantes de baixa renda, que sem esse auxílio do governo federal não teriam condições de freqüentar uma universidade. Dizer, portanto, que existe uma “crise” no ENEM só pode ser explicado por duas razões: desconhecimento sobre o Exame ou então pura má-fé mesmo! Se formos nos basear nessa lógica – a de transformar pequenas falhas em grandes crises – então a imprensa brasileira está perdida, pois vive numa crise monumental há muito tempo.

Dois pesos, duas medidas
De qualquer forma, essa cobertura oportunista que vem sendo dada pela grande imprensa ao episódio do ENEM nos mostra que o embate dos grandes veículos de comunicação com o governo federal nos próximos anos só tende a aumentar. Engana-se quem pensa que a grande luta com a imprensa golpista foi travada na arena da sucessão presidencial: muito pelo contrário, ao que tudo indica a grande imprensa fará o jogo da oposição de forma contundente ao longo de todo governo Dilma. Veja, Globo, Estadão, Folha e Cia não engoliram a derrota nas urnas que sofreram há 10 dias, o que nos faz pensar que a cobertura descaradamente parcial só tende a aumentar nos próximos anos.

Isso fica muito claro quando essa grande mídia super dimensiona uma pequena falha ocorrida no ENEM e esconde, por exemplo, o escândalo da licitação do metrô de São Paulo, denunciado na última semana do segundo turno das eleições presidenciais. Por que os jornais e revistas não dão ao escândalo de favorecimento nas licitações do metrô de SP o mesmo destaque dado a esta pequena falha ocorrida no ENEM? Sejamos claros: o que é mais importante do ponto de vista jornalístico – uma falha que afeta 0,0006% dos estudantes que prestaram o ENEM ou um esquema denunciado pela própria Folha de São Paulo que teve acesso seis meses antes do anúncio oficial pelo Metrô de SP aos vencedores da licitação para a Linha 5?

Por que é tão recorrente esta prática da grande imprensa de inflar pequenas falhas ocorridas na gestão petista e jogar debaixo do tapete grandes erros ocorridos em governos tucanos? Não se trata de justificar um erro pelo outro, mas sim de dar o devido peso a cada falha. É inadmissível, como dito anteriormente, que uma pequena falha que não atingiu nem 1% dos estudantes que prestaram o ENEM se transforme agora em uma “crise” de proporções homéricas na educação brasileira, como quer fazer parecer a grande imprensa. Longe de querer pedir imparcialidade, o que este blog pede à grande imprensa é o mínimo de coerência.

domingo, 18 de abril de 2010

Marketing político travestido de jornalismo

Dizer que a imprensa brasileira é imparcial soa tão falacioso – e ingênuo – quanto afirmar que a Terra é plana. Ainda assim, muitos veículos de comunicação insistem em se apresentar com uma suposta “neutralidade” que todos sabemos que eles não possuem. A revista Veja, por exemplo, transformou-se, há muito tempo, em um folhetim político das forças do conservadorismo, da direita e da estagnação: basta lembrar o papel assumido pelo semanário nas eleições de 1989, quando fez campanha escancarada para o então candidato Fernando Collor de Mello.

Apresentando Collor como o “caçador de marajás”, capaz de solucionar todos os problemas do Brasil, a Veja, em parceria com a rede Globo, teve papel decisivo para levar Collor ao poder. E de lá para cá as manobras tendencionistas da revista, preservadas sob o manto de um suposto “jornalismo isento”, têm sido cada vez mais freqüentes. Naturalmente, a revista da editora Abril não poderia mudar a regra na disputa eleitoral deste ano: afinal de contas, mais do que nunca a Veja está empenhada em garantir a eleição dos demo-tucanos, que estão longe da Presidência da República desde 2002 quando, para desgosto da revista, Lula saiu vitorioso nas eleições.

Com este propósito claro de pavimentar a eleição do tucanato, a capa desta semana da Veja traz uma reportagem com o pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, com o título de “Serra e o Brasil pós-Lula”, repetindo a apresentação usada pelo tucano de que ele é o “pós-Lula” e não o “anti-Lula”. Como subtítulo, uma frase do próprio Serra, que deixa clara toda a intenção da revista com a tal reportagem: “Eu me preparei a vida inteira para ser Presidente da República”. Da foto da capa às entrelinhas da matéria, tudo cheira a um ardiloso marketing político da revista em favor da candidatura tucana.

Imagem
A sabedoria popular diz que uma imagem vale mais do que mil palavras: e a Veja parece concordar. Na capa da edição de 21 de abril, estampa a foto de um Serra sorridente, que exala simpatia, serenidade e doçura. O Serra da capa da Veja encarna a figura do pai de família, do típico “cidadão de bem” que trabalha arduamente, de sol a sol, pelo seu país e que, diante dos problemas, não tem medo: com um sorriso no rosto enfrenta todas as adversidades e as supera. Ao contrário de 1989, quando carisma não era o problema para Collor e a Veja aproveitou para somar a esse carisma do candidato o rótulo de “caçador de marajás”, a revista trabalhou, na edição desta semana, para transformar Serra em um candidato “carismático”.

Afinal de contas, o Serra da capa da Veja em nada lembra o ex-governador de São Paulo, que até poucos dias carregava um semblante pesado, sisudo. O candidato que a revista traz estampado em sua capa nem parece aquele que há pouco menos de um mês se recusou a negociar com professores grevistas no estado de São Paulo, deixando nas mãos da Polícia Militar a “solução” do impasse. O tucano exposto na capa da Veja desta semana é o mais bem acabado produto do marketing político: por trás de uma imagem, todo um conceito de “homem público” e de “político ideal” para administrar o Brasil nos próximos quatro anos. A carranca que sempre ostentou deu um lugar a um sorriso “simpático” que deve estar na face do candidato até outubro.

De fato, a Veja seguiu à risca a regra do marketing político de que o eleitor é sensível às emoções e sensações e tratou logo de suavizar as expressões de Serra, como se faz em um comercial de amaciante de roupa ou de creme dental. Mas não foi somente na capa que a Veja cuidou de escolher as imagens para ilustrar o candidato: no miolo da revista, uma foto de Serra, sentado em sua biblioteca pessoal, lendo um livro qualquer. O que o (e)leitor pensaria ao ver tal imagem? “Ora, além de simpático, esse é homem é culto! Quantos livros! Ele deve ser um bom administrador”! E assim se constrói uma imagem, totalmente distinta da realidade, que parece ficar cada dia mais longe, pelo menos das páginas da revista Veja.

Emoções
Naturalmente, o marketing político da Veja não se restringiu à imagem do candidato: era preciso um texto que “mexesse” com o (e)leitor. Neste sentido, a revista apostou em explorar as emoções de quem estava do outro lado, lendo cada uma daquelas frases. Primeiramente, Serra foi apresentado como um político “conciliador”: assim como todo “cidadão de bem” deve ser, ele não gosta de brigas, de disputas ou de picuinhas e por isso foi “o maior responsável pela unificação do partido” em torno de sua candidatura. Neste ponto, a fama do Serra implacável, metódico, que não gosta de ser contrariado, também parece passar longe das páginas da Veja.

“Desta vez, a situação é outra. Serra impôs sua ascendência de forma natural. Depois de passar pelo governo Fernando Henrique, pela prefeitura e pelo governo de São Paulo, ele é hoje reconhecido por seus pares como o mais preparado entre os tucanos para enfrentar o desafio de presidir o país”, destaca a revista, ressaltando aí, além do caráter conciliador do tucano, o seu “preparo” para o desafio de conduzir o Brasil nos próximos anos. A revista procura discretamente reforçar o currículo de Serra, como quem diz: “olha, ele já foi tudo isso, merece sua confiança”. E assim vai criando a figura de um Serra legendário, que muito lembra a construção usada para o candidato “caçador de marajás” de 21 anos atrás.

Apostando no lado místico do brasileiro, a Veja também não podia deixar de lado essa faceta importante dos seus (e)leitores. Procurando mostrar aos (e)leitores que Serra é “gente como a gente”, a Veja dispara:” José Serra, dizem os que o conhecem, é do tipo que se pauta sempre pela razão. Há, no entanto, pelo menos uma irracionalidade que o fascina: a astrologia. Sim, o tucano adora ler horóscopo”. Neste ponto dá para imaginar a dona de casa da classe média, que lê Veja, gritando para o seu esposo: “olha, bem, o Serra acredita em horóscopo também! Nossa, como é simpático”. A “cereja do bolo”, contudo, é a própria previsão de um astrólogo consultado pela revista: “no que depender dos astros, José Serra está eleito”.

Lógica forçada
Um marketing político que se preza também tem que fornecer ao (e)leitor elementos ligados à lógica para justificar a escolha por determinado produto, ou melhor, “candidato”. Fazendo sua lição de casa, a Veja constrói um cenário de favoritismo para Serra, “criando” todas as condições para fazer parecer que ele é o candidato fadado à vitória nas eleições de outubro. “Embora esteja bem posicionado nas pesquisas, o candidato tucano tem a clara noção de que o mapa eleitoral brasileiro neste momento é muito mais favorável para ele nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste do que no Norte e no Nordeste, onde sua principal adversária, Dilma Rousseff, deve levar a melhor”, diz a Veja.

Logo abaixo, a revista emenda a seguinte pérola: “no Nordeste, o tucano subirá em palanques com probabilidade de vitória em seis dos nove estados”. De onde a Veja tirou esse cálculo, somente os editores da revista devem saber, pois todas as pesquisas de intenções de voto dão uma ampla margem de favoritismo para a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, na região. “Já no Sul e no Sudeste, os ventos não poderiam ser melhores para o tucano. Menos por causa da montagem dos palanques estaduais do que pela sua influência na região. Em São Paulo, por exemplo, estado que ele governou nos últimos três anos, Serra espera impor uma respeitável dianteira de 4 milhões de votos sobre Dilma”, acrescenta a revista.

Finalizando a sua obra de marketing político, a Veja pincela: “a era pós-Lula, que virá com Serra ou com Dilma, celebrará e colherá os frutos de 25 anos de redemocratização e dezesseis anos de estabilidade monetária. Tem, portanto, todos os elementos para ser uma primavera do desenvolvimento. Com Serra, ela poderá vir com a vantagem adicional da alternância de poder, seiva da democracia, sem a qual se corre o risco de ver vicejar o voluntarismo dos governantes, a corrupção da máquina do estado e o fenecimento das novas ideias. É em busca dessa oxigenação no poder que os tucanos, com Serra à frente, alçaram voo na semana passada. E agora estão voando juntos”.

O que se pode constatar após a leitura da obra de marketing político da Veja, travestida na roupagem de uma matéria de cunho jornalístico, é que qualquer semelhança entre a “reportagem” e uma produção hollywoodiana não terá sido mera coincidência. O Serra apresentado pela revista em nada lembra o pré-candidato que até poucos dias atrás tratava greve de professores como assunto de polícia ou então que deixava verba do SUS rendendo juros em aplicações no mercado financeiro, enquanto faltavam remédios nos postos de saúde de todo estado de São Paulo. Resta acreditar na inteligência, bom senso e boa memória dos eleitores.

sábado, 3 de abril de 2010

O que a Veja tem contra a Sociologia e a Filosofia?



Muito se sabe que o trabalho do Sociólogo e do Filosofo é compreender a realidade em que habitam os humanos e suas estruturas sociais e de pensamento. Essa compreensão sempre foi perigosa para uma parcela dos agentes políticos que está mais preocupada em perpetuar a institucionalização acrítica da qual fazem parte, do que promover as mudanças de que o povo necessita. Assim, a Sociologia e a Filosofia sempre se mostraram perigosas para estes políticos demagogos, por colocarem em xeque os seus valores conservadores acerca dos Sistemas Sociais.

Ora, mas ao mesmo tempo em que essa parcela da classe política de caráter demagogo vê a filosofia e a sociologia como riscos, ela também se apóia em veículos da grande imprensa que lhes servem como verdadeiros panfletos políticos. Neste sentido, a revista Veja é, há décadas, um poderoso instrumento da direita para disseminar seus conceitos e valores políticos. Tanto que na edição desta semana, a Veja publicou uma matéria que critica a introdução de jovens nessas duas matérias, o que nos lembra, como sempre, que o Sistema Social possui anticorpos.

Um trabalho importantíssimo por parte dos Sociólogos, Antropólogos e Cientistas Políticos é exatamente estudar a estrutura da Ideologia e apresentar as sociedades que o que se tem como divino; é humano, o que se tem como eterno; é temporal, o que se tem como criador; é criatura, o que se tem como natural; é social. Assim, é de se esperar que essa revista elabore uma matéria tão portadora de Ideologismo e conservadorismo, que já em muito prejudicou a sociedade brasileira. Se apoiando na muleta, talvez, que o Brasil esquece fácil sua história.

A todo tempo se propaga nesta revistinha a biologização do social, a perpetuação de idéias que, no século XIX, se baseavam na biologia para justificar preconceitos e desigualdades sociais. Como se os preconceitos e as desigualdades sociais fossem algo de uma “natureza humana”, que, todo Sociólogo, Antropólogo e Cientista Político bem sabe, não existe. O humano é, em seu nascimento, uma inespecificidade biológica.

“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro,
as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos
rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...”
(De: Veja)

Impossível negar a importância da Matemática. No entanto, da forma retrograda que é ensinada na escola, pouco contribui para um desenvolvimento critico do aluno. Mas é exatamente dessa forma que os anticorpos sociais desejam que as matérias sejam lecionadas, para não representar nenhum potencial perigo no controle da massa social. Não é de hoje que os dois grupos de profissionais criticados pela matéria vêm denunciando isso. Agora o desejo é calar-nos.

“Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original".” (De: Veja)

Sim, as faculdades de Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Ciência Política) e Filosofia se posicionaram duramente contra a ditadura apoiada largamente pela Direita, o que é totalmente aceitável, e um trabalho nosso, contrariar a opressão e a ausência de liberdade democrática. Vejamos o disparate proferido pela Dra. Eunice Durham, de que boa parte das universidades brasileiras se baseiam na superficialidade do conhecimento social e dos estudos referentes aos textos de Marx. Onde, posso constatar, a UFRN e o curso de Ciências Sociais se baseia completamente no estudo sobre os textos originais, não só de Marx, mas de tantos outros pensadores importantes.

“Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda.” (De: Veja)

O vendedor Fernando Henrique Cardoso, direitista como era e é, naturalmente iria se opor a doação dessas armas políticas para a População, já que, conhecedor dos sistemas sociais e do potencial que a educação tem sobre uma Sociedade, não iria querer ver seu império conservador sendo analisado e criticado por grande parte dos estudantes brasileiros. Como já foi dito, os Sistemas Sociais têm anticorpos. Se basear na não distribuição desse conhecimento para os jovens, na falsa idéia que o Brasil não tem dinheiro para tal, é culpar o termômetro pela febre, já que, através de políticas que priorizem a educação superior - como foi feito a posteriori pelo governo Lula - é possível sim abrir essas possibilidades. Exatamente baseado nesse conceito de falta de verba, as universidades brasileiras não investem em cadeiras para Sociólogos, Antropólogos, Cientistas Políticos e Filósofos.

"Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil" (De: Veja)

Claro que é absolutamente irreal esperar que TODOS os estudantes consigam a maturidade intelectual suficiente nos temas sociológicos e filosóficos, como é de se esperar que nem todos os estudantes consigam aprender os cálculos matemáticos, as leis físicas e as organizações químicas celulares. Mas esse argumento não é usado para desestabilizar a Matemática, Física, Química e Biologia na grade curricular do ensino médio. Tão importante quanto fazer cálculos e estudar os compostos orgânicos, é entender o pensamento racional humano e as estruturas sociológicas da realidade.

(Texto de Leonardo Antunes, graduando em Ciências Sociais pela UFRN)