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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

São Paulo: o grande desafio de uma metrópole aos seus 457 anos

Garoa do meu São Paulo,
- Timbre triste de martírios -
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.
Meu São Paulo da garoa,
- Londres das neblinas finas -
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.
Garoa do meu São Paulo, -
Costureira de malditos -
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...
Garoa, sai dos meus olhos
(Mário de Andrade, Garoa do meu São Paulo)


Para além de festejos, shows e comemorações, o aniversário de 457 anos da maior metrópole da América do Sul deve ser visto como um momento para repensar a cidade e a relação entre ela e seus habitantes. São Paulo é, sem sombra de dúvidas, uma cidade extremamente interessante e desafiadora: se por um lado não tem as belezas naturais de outras capitais, ela oferece ao Brasil e ao mundo sua beleza concreta, manifestada nas formas e na diversidade que dominam seu espaço urbano. Pólo econômico, cultural e gastronômico, São Paulo é também o local onde 12 milhões de pessoas constroem suas vidas, lutam pela realização de seus sonhos e se submetem a uma rotina que as trata como meros números em meio à selva de pedra.

Um velho slogan da época do 4º centenário da cidade, comemorado em 25 de janeiro de 1954, parece ainda povoar o imaginário social dessa grande metrópole: “São Paulo não pode parar”. De fato não pode, assim como nenhuma outra cidade pode parar. E se este antigo mantra paulistano no seu início referia-se à expansão urbana e econômica da cidade, hoje poderia ser mote para outro rumo, que levasse à reflexão acerca dos problemas de seu povo. Se fizermos uma pesquisa de opinião entre os paulistanos sobre qual seria o maior problema da cidade nos dias de hoje, teríamos uma multiplicidade de respostas: o trânsito, a (in)segurança pública, as enchentes, o transporte público, a saúde, a educação etc.

Isso é fácil de ser comprovado em qualquer pesquisa já feita pelos diversos institutos. Sem dúvida, tais pontos tão lembrados pelos paulistanos (e também pelos formuladores de políticas públicas) constituem graves problemas dessa grande metrópole. Entretanto, o maior de todos os problemas que São Paulo vivenciou ao longo de sua história e que, infelizmente, ainda vive nos dias de hoje é a desigualdade social. Esta, por sua natureza estrutural oriunda de uma lógica perversa de concentração de renda, é sem dúvida nenhuma a raiz dos demais males da cidade. Se São Paulo é de um lado a “locomotiva do Brasil”, conforme referência dos discursos mais bairristas, por outro é o local onde os abismos sociais são mais evidentes.

Um olhar mais atento durante um passeio pela Avenida Paulista, por exemplo, revela essa manifestação cruel da desigualdade social: em meio aos arranha-céus onde são tomadas grandes decisões quanto à economia do país, não é raro vermos um morador de rua, um desempregado, enfim, alguém que não sequer de um décimo dos benefícios que a massa restrita que freqüenta esses grandes edifícios tem ao seu dispor. Embora se referir a essa desigualdade social pareça “chover no molhado” por não trazer nada de novo, essa lembrança é importante à medida que este senso-comum tem sido secundarizado pelas administrações da cidade e até mesmo pela própria população. Tentar entender o porque dessa secundarização da questão social é tarefa para uma tese científica.

Um olhar social sobre a maior cidade da América do Sul
Talvez a própria onda de individualismo característica da pós-modernidade ajude a entender o porquê muitas vezes, ao olharmos um morador de rua na Paulista ou qualquer outro ponto da cidade, sintamos uma revolta, que, contudo, é rapidamente diluída pela lembrança de um compromisso ou pela pressa em vencer o trânsito e chegar em casa após um dia de muito trabalho. De repente esse individualismo pós-moderno também explique o fato de tentarmos culpar essas próprias pessoas marginalizadas pela sua condição: “ah, essas pessoas da periferia sofrem com as enchentes porque moram em áreas de risco, porque jogam lixo na rua” e por aí vai. Muitas vezes o olhar individualista cega o entendimento de que vivemos em coletividade e o problema que atinge alguém lá longe um dia pode chegar à nossa porta.

Entender e enfrentar essa desigualdade social são hoje o maior desafio para São Paulo. Segundo pesquisa recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nada menos que 625 mil pessoas na Grande São Paulo vivem abaixo da linha de pobreza, o que significa que elas se sobrevivem todo mês com uma renda menor que R$ 140. Se de um lado São Paulo é o terceiro estado com menor nível de miséria (9,9% da população), por outro ainda é assombrado pelo fantasma da concentração de renda. Os números do IBGE mostram que os 10% mais pobres vivem com uma renda de até R$ 139,30 mensais, ao passo que os 10% mais ricos têm uma renda de R$ 4.229,77. No meio termo, 40% mais pobres vivem com renda de R$ 288,51.

Esses números dão apenas uma dimensão do quão profundo é o problema. Contudo, a dimensão mais contundente é dada pelo dia-a-dia, quando vemos pessoas que têm que fazer dupla jornada para terem uma renda extra no final do mês ou então que, desassistidas pelo poder público, têm que construir suas casas em locais de risco, por ser essa a sua única chance de moradia. Temos essa dimensão da desigualdade social quando vemos também as enormes filas nos hospitais da periferia da cidade ou então uma mãe que deixa o filho pequeno em casa, sozinho, porque tem que sair para trabalhar e não encontra vaga numa creche municipal para lá deixá-lo. O cotidiano, bem mais que as pesquisas, nos dá a exata dimensão do problema da desigualdade social na maior metrópole do país.

Sabemos que a democracia vai muito além do direito ao voto universal: ela também significa constituição de direitos. Acesso à moradia digna, saúde, educação, transporte, trabalho são direitos de todos os cidadãos, mas que infelizmente continuam sendo privilégio de uma minoria que os obtém, ainda assim, não pelo Estado, mas sim pelo meio privado. Então que se cumpra a democracia e que esses direitos sejam garantidos a todos. Certamente, não estamos tratando aqui de tarefa para um, dois ou quatro anos. Falamos de um trabalho que demandará décadas para dar resultados efetivos. No entanto, precisamos começá-lo. Necessitamos de governos em São Paulo que sejam de fato comprometidos com a questão social.

São Paulo é uma cidade complexa demais para ser administrada apenas com critérios gerenciais – sua gestão passa necessariamente pela compreensão de suas mais diversas especificidades, com um olhar também social e antropológico. Somente com a combinação de uma visão ideologicamente centrada no social e que coloca os ferramentais técnicos à disposição dessa concepção social (e não o contrário) conseguiremos vencer esse grande desafio. O grande desafio de uma grande cidade. Como foi dito, tarefa árdua, mas não impossível, especialmente em se tratando de uma cidade cuja grandiosidade nos desperta a certeza de que para ela nada é impossível. Parabéns, São Paulo!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Para além do subprime: a relação entre crise do capitalismo e urbanização na visão de Harvey

Em tempos em que a urbanização desenfreada e sem critérios ocupa o centro do debate político e econômico em diversos países, dentre os quais o Brasil, a entrevista do renomado geógrafo britânico David Harvey ao jornal argentino Página 12 vem bem a calhar. Nessa entrevista, publicada pelo periódico no domingo, 16, Harvey discorre sobre um aspecto da crise econômica mundial muito pouco explorado pela literatura atual: a sua relação com o processo de urbanização descontrolado pelo qual vêm passando diversas economias. Muito se falou, desde a eclosão da crise, na sua relação com a crise do subprime norte-americano, deflagrada em 2006, mas que emergiu somente no ano seguinte com a quebra de várias instituições de crédito nos Estados Unidos.

Harvey, nessa entrevista, vai mais fundo nessa questão, procurando entender a questão do crescimento do mercado imobiliário a partir da década de 70 como uma nova configuração do capitalismo mundial. Isto porque desde então os investimentos em construção deixaram de ser um componente da chamada “economia real” para adentrarem no mercado financeiro, abrindo as portas assim para a crise verificada anos depois, a maior do capitalismo desde a crise de 1929. E segundo o geógrafo existe uma relação muito íntima entre as origens dessa crise e o processo de urbanização sem critério, já que este começa a obedecer à lógica do mercado financeiro e não do crescimento econômico sustentado no longo prazo. Para ilustrar isso, além dos Estados Unidos, Harvey cita a Espanha e a Grécia como exemplos.

O Boteko transcreve abaixo a entrevista do geógrafo David Harvey, que merece ser lida com bastante atenção, especialmente, como dissemos acima, em um contexto em que muito se tem falado sobre os elevados custos da urbanização desenfreada que estamos assistindo nas últimas décadas. Boa leitura!

Desde sua perspectiva como geógrafo, que conexões encontra entre urbanização e esta crise?
- Uma das coisas que eu gostaria de enfatizar é a relação entre urbanização e formação da crise. Nas décadas de 50 e 60, o capitalismo se estabilizou com uma forma de suburbanização massiva: estradas, automóveis, um estilo de vida. Uma das perguntas é se isso é sustentável no longo prazo. No sul da Califórnia e na Flórida, que são epicentros da crise, estamos vendo que este modelo de suburbanização não serve mais. Alguns querem falar da crise do subprime; eu quero falar das crises urbanas.

E o que pensa das crises urbanas?
- Na década de 80 se pensava que o Japão era uma potência e essa crença sucumbiu nos anos 90 pela crise crise dos preços da terra. Desde então, não se recuperou mais. Também existe uma preocupação nos Estados Unidos de que a crise imobiliária impeça a recuperação, apesar de todas as tentativas que vêm sendo feitas para isso. Outra questão é que a forma de uso intensivo da energia exigiria muitas extensões de terra, o que criaria um estilo de vida de lugares dispersos. Isso está estabelecendo, justamente, um novo tipo de urbanização. O que chama a atenção é que a China está copiando os EUA, o que é muito estúpido. Isso não é sustentável sob a situação de crise ambiental. Existe uma alta conexão entre desenvolvimento capitalista, crise capitalista e urbanização.

Em que medida a transformação do mercado imobiliário influiu na crise da urbanização?
- Onde as pessoas ricas colocaram seu dinheiro nos últimos 30 anos. Até os 80, colocar dinheiro na produção dava mais dinheiro que colocá-lo no negócio imobiliário. A partir dali, começou-se a pensar onde colocar o dinheiro para obter uma taxa de retorno mais alta. Os mercados imobiliários e da terra são muito interessantes: se eu invisto, o preço sobe, como o preço sobe, mais gente investe e, então, o preço segue suibindo. Em meados da década de 70, em Manhattan (Nova York), podia-se vender por 200 mil dólares um tipo de edifício que agora custa 2 milhões de dólares. Desde então, houve bolhas de diferentes tipos, que tem estourado uma a uma. Os mercados financeiros enlouqueceram nos anos 90. Se observamos a participação dos distintos setores no Produto Interno Bruto dos EUA, em 1994, o mercado acionário tinha uma participação de 50% do PIB. Em 2000, subiu para 120% e começou a cair com a crise das empresas pontocom. Enquanto que a participação do mercado imobiliário no PIB começou a crescer, e passou de 90 para 130% no mesmo período.

Qual sua opinião sobre a orientação que teve o investimento em infraestrutura nas últimas décadas?
- O capitalismo não pode funcionar sem sua infraestrutura típica: estradas, portos, edifícios e fábricas. A grande pergunta é como se constróem essas infraestruturas e em que medida contribuem para a produtividade no futuro. Nos Estados Unidos, fala-se muito de pontes que vão a lugar nenhum. Há interesses muito grandes dos lobistas da construção que querem construir não importa o quê. Podem corromper governos para fazer obras que não terão nenhuma utilidade.

Um exemplo do que descreve é o que ocorreu na Espanha, com o boom da construção...
- Uma parte da explicação da crise na Grécia e na Espanha pode ser vinculada com esses péssimos investimentos em infraestrutura. A Grécia é um caso típico também em função dos Jogos Olímpicos, que originou grandes obras de infraestrutura que agora não são usadas. Nos anos 50 e 60, a rede de estradas e autoestradas, nos EUA, foi muito importante para
a melhoria da produtividade. Algo similar se observa atualmente na China, com estradas, ferrovias e novas cidades, que nos próximos anos terão um alto impacto na produtividade.

O sr. acredita que a China está enfrentando a crise de maneira distinta da dos Estados Unidos?
- A China tem melhores condições que outros países sobretudo porque conta com grandes reservas de divisas. Os EUA têm uma grande déficit e a China um grande superávit. O outro problema nos EUA é político.

Quais são os fatores políticos que dificultam a saída da crise?
- Quem tenta construir obras de infraestrutura úteis é acusado imediatamente de "socialista", que é o que está acontecendoi com Barack Obama. Na China isso não importa porque as condições políticas são outras. O governo na China é autoritário é pode pôr as coisas em seu lugar, como bem entende. No caso dos EUA, o Congresso está dominado por grupos republicanos e democratas que manejam interesses econômicos e as condições para tomar decisões são outras.

Deduz-se então uma diferença na relação entre o poder político e o poder econômico nestes países.
- Na China, por causa da crise americana, a resposta foi fazer grandes projetos de infraestrutura imediatamente. Além disso, o governo centralizado da China tem enorme poder sobre os bancos. Deu a ordem: "Forneçam empréstimos para governos municipais e ao setor privado que vão tocar essas obras". O governo central dos EUA não pode fazer isso. Ele segue dizendo aos bancos: "Emprestem". E os bancos dizem: "Não". A China está crescendo a um ritmo de 10% depois da crise, enquanto os EUA seguem estagnados.

Quais são as falhas institucionais que levaram a essa crise?
- Desde a década de 70, houve uma ideia dominante de que a resposta era privatizar. Há muitas alternativas para que o setor público forneça melhores serviços do que o setor privado.

O sr. acredita que esta concepção também penetrou o sistema financeiro?
- Nos EUA, na década de 30, os bancos de investimentos estavam separados dos bancos comerciais. Nos últimos anos se permitiu que eles se unissem. É um caso de mudança regulatória, onde o Estado se retira do controle.

E como avalia o tipo de regulações que começaram a ser propostas a partir da crise?
- Há uma teoria chamada "captura regulatória”. Ela supõe que as galinhas devem ser controladas pelas raposas. Se olhamos para as formas regulatórias propostas até agora, nos damos conta de que as raposas estão ganhando e isso ocorre porque elas controlam também o Congresso dos Estados Unidos.

Há diferenças entre as políticas impulsionadas nos EUA e na Europa?
- Sim, há diferenças. Um dos temas que estou estudando é justamente as diferenças que existem em distintos lugares. Por exemplo, na América Latina a reação dos governos foi muito mais sensível à crise do que o que se observa nos EUA e na Euorpa. Na Europa, há um grande conflito entre os países maiores e os mais pequenos. A Alemanha, que por razões históricas têm uma obsessão com o tema da inflação, impõe o tema da austeridade. O triunfo de um governo conservador na Inglaterra também fortalece a ideia de austeridade. Por isso, não surpreende que a Europa esteja estagnada, enquanto a China segue crescendo forte.

Que impacto têm essas políticas de austeridade?
- A austeridade é algo totalmente errôneo. Em primeiro lugar, pelas diferenças de impacto entre classes sociais. Em geral, as classes mais baixas são as mais prejudicadas. Além disso, essas classes mais baixas, quando têm dinheiro, o gastam, enquanto que as classes altas o usam para
gerar mais dinheiro e não necessariamente para fazer coisas produtivas.

Por exemplo?
- Muitos ricos dos EUA compraram terras na América Latina. Isso provocou o aumento do preço da terra. No longo prazo, devemos pensar como é possível viver no mundo de acordo com seus recursos. Isso não significa austeridade, mas sim uma forma mais austera de viver, o que não é a mesma coisa.

Qual a diferença?
- Devemos pensar no que é que realmente necessitamos para ter uma boa vida. Muitas das coisas que pensamos do consumo são uma loucura, significam desperdiçar recursos naturais e humanos. Temos que pensar como fazemos no longo prazo para que 6,8 bilhões de pessoas possam viver, ter casa, saúde e alimento para que tenham uma vida razoável e feliz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

É possível mensurar a democracia?

Um relatório da Economist Intelligence Unit, um braço estatístico da revista britânica “The Economist”, divulgado nesta sexta-feira, 17, colocou o Brasil na 47º posição (de um total de 167 países) em um ranking planetário da democracia. Este estudo classifica os países, segundo uma nota atingida por cada um deles, em quatro diferentes estágios: as democracias plenas, as democracias imperfeitas, os regimes híbridos e os regimes autoritários. Para enquadrar cada país em algum desses estágios, foram avaliados cinco aspectos de cada um deles: eleições e pluralismo ideológico-partidário; participação política; funcionamento do governo; cultura política e liberdades civis.

Cada um desses critérios, por sua vez, se desdobrava em doze quesitos aos quais era atribuída uma nota (que podia ser 0; 0,5 ou 1), de forma que a pontuação mínima de um país era 0 e a máxima 60. Feito o cálculo dessa pontuação, o estudo o traduzia para uma “nota” para cada país, dentro de uma escala de 0 a 10, sendo que era a partir dessa escala que se classificou os países constantes no ranking. O Brasil, por exemplo, alcançou nota geral 7,12, o que o colocou no grupo das “democracias imperfeitas”. O país ficou atrás de vizinhos como Chile e Uruguai, mas ficou à frente de outros, como Argentina e Bolívia, de acordo com os critérios estabelecidos pelo estudo.

Tendo isso em vista, coloca-se aqui uma questão para ser pensada: será que é possível mensurarmos o grau de democracia de um país, através da atribuição de uma nota calculada a partir de determinados critérios? Mais ainda, até que ponto é factível criarmos uma escala numérica de comparação – um ranking – para avaliarmos se um país X é mais ou menos democrático que um país Y? Pelo estudo em questão, por exemplo, o Brasil é um país democrático que a Argentina, porém menos democrático que o Chile. Ora, que são democracias em estágios diferentes, todos nós sabemos e, via de regra, não discordamos. Agora, não será um pouco demais dizermos que tal país é mais democrático que o outro?

Democracia vai muito além de modelos matemáticos
Pensemos o seguinte: como já discutimos aqui neste blog em outros momentos, a democracia é construída sobre dois pilares fundamentais: a soberania popular, manifestada pelo sufrágio universal, e a constituição de direitos. A partir deste conceito mínimo é que a democracia evolui e vai amadurecendo, respeitando sempre estágios que são resultado da história de cada país. É óbvio que uma democracia é diferente da outra e essa diferença reflete exatamente o resultado das experiências peculiares que cada país vivencia em sua história política, econômica e social. O que queremos dizer aqui é que cada país tem a sua própria experiência com a democracia, que é reflexo da trajetória histórica e política de cada povo.

Essa relação de cada povo com o sistema político é o que podemos chamar de cultura política. Como bem se sabe, a História – que produz as lutas que irão desenhar e moldar a chamada cultura política – não tem a previsibilidade e a uniformidade que são características básicas de um experimento científico, até mesmo porque a História não é um experimento que obedece ao chamado “método científico”. Sob as mesmas condições de pressão atmosférica, por exemplo, a água deve ferver a 100º C no Brasil ou na China. Tudo o mais constante, as exportações da Argentina ou do Zimbábue devem reagir do mesmo modo se as suas respectivas moedas desvalorizarem. O mesmo não podemos dizer com as experiências históricas de cada país.

Existem peculiaridades no processo histórico e de construção política de cada país que irão influenciar diretamente a formação da cultura política daquele povo. Embora Brasil e Argentina, por exemplo, tenham se redemocratizado mais ou menos na mesma época, o pós-redemocratização teve, naturalmente, muitas semelhanças, mas também muitas peculiaridades, que refletiram decisivamente na cultura política de cada país. Se formos pensar nesse exemplo, veremos que dentro de suas especificidades, Brasil e Argentina estão em estágios muito próximos da democracia, não cabendo afirmar que este ou aquele é mais democrático que o outro, como o estudo da Economist Intelligence Unit propõe.

Queremos dizer aqui que existe um problema de concepção ao se tentar estabelecer uma escala numérica para comparar o grau de evolução da democracia em diferentes países. O problema consiste justamente em partir de uma padronização de critérios para culturas políticas que por natureza são distintas. Esse exercício seria possível se fosse considerado um conjunto de países que tivessem passado pelas mesmas experiências, tivessem tido o mesmo processo de construção histórica e política e, aqui, cabe destacar que o semelhante não é igual. Como isso é impossível, então podemos dizer que é totalmente descabido criar uma escala numérica para comparar o grau de democracia de cada país.

A maturidade democrática de um país é um exercício intuitivo e muito mais de percepção do próprio povo acerca de sua cidadania. Tendo em vista isso, é muito mais plausível discutir se uma democracia é mais ampla que outra através da percepção dos cidadãos de cada uma delas acerca do regime que os cerca e não a partir de índices estatísticos estabelecidos por um colegiado externo a essas duas democracias, que não tem a vivência direta com a cultura política daquelas regiões. A democracia é um conceito político e, como tal, não cabe em estatísticas e modelos matemáticos que tentem representá-la. Neste sentido, o debate acerca da chamada “qualidade” da democracia é possível sim, mas respeitando-se as peculiaridades históricas de cada país e não tratando todos da mesma maneira.

Assim, por mais que a revista The Economist seja um veículo de comunicação altamente respeitado, este blog não vê valor algum neste ranking feito para se comparar o grau de evolução da democracia nos países avaliados. Como dito anteriormente, o debate acerca da democracia e do seu grau de maturidade em cada país vai além disso, sendo muito maior que qualquer modelo matemático que tente representá-la. Toda a discussão em torno do estágio de evolução da democracia em cada país deve ser feita à luz da construção histórica e da cultura política peculiares a cada povo. Caso contrário, os resultados não poderão ser considerados efetivos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Niemeyer, para quem a política é muito mais importante que a arquitetura

No dia em que o grande arquiteto – e comunista convicto – Oscar Niemeyer completa 103 anos de idade, o Boteko reproduz aqui neste espaço um texto escrito de sua autoria, publicado pela Folha de São Paulo em sua edição do dia 15 de julho de 2007, poucos meses antes de Niemeyer completar 100 anos. Intitulado “Entrevistas”, o texto fala sobre a relação de Niemeyer com a arquitetura e com a política, trazendo uma avaliação do comunismo e também do Presidente Lula. Boa leitura!

Entrevistas, por Oscar Niemeyer
Ultimamente, minhas manhãs são ocupadas por entrevistas e encontros. Jornais e revistas nacionais e estrangeiros, pessoas interessadas em saber o que penso da arquitetura e da própria vida. Sobre a arquitetura, me restrinjo a explicar que, hoje, o concreto armado tudo permite aos arquitetos, que arquitetura é invenção e que a minha preocupação principal é utilizar a técnica em toda a sua plenitude, buscando dar aos meus projetos a surpresa, o espanto que uma obra de arte requer.

E esclareço aos que me entrevistam que, quando o tema permite, começo reduzindo os apoios, e a arquitetura se faz mais audaciosa, e as coberturas, maiores, se adaptando às formas diferentes que a imaginação vai criar. A entrevista prossegue, eu procurando encurtar os assuntos da arquitetura, mas não raro surge uma pergunta que requer uma explicação. Numa das entrevistas recentes, indagaram: "Que relação tem Le Corbusier com o projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde?". Um projeto feito por uma equipe chefiada por Lucio Costa, tendo por base um projeto do velho mestre.

E, como de costume, me limitei a dizer que se tratava de um projeto de Le Corbusier. Uma preocupação permanente que temos em preservar a autoria de qualquer projeto arquitetônico — coisa antiga que, já no passado, Michelangelo revelava, ao se recusar a interferir no projeto original de Bramante para a basílica de São Pedro em Roma.

Alterações e opções
Mas, no caso do projeto elaborado pela comissão chefiada por Lucio Costa, é diferente, tantas foram as modificações feitas no segundo estudo apresentado por Le Corbusier. A própria localização do prédio no terreno foi alterada: em vez de mantê-lo, como constava do projeto do velho mestre, grudado à rua, defronte do Ministério do Trabalho, com a fachada norte prejudicada (praticamente escondida), resolvemos colocar o edifício no meio do terreno, dividindo em duas a praça existente. Em razão dessa solução, surgiram os pilotis e a ligação tão bonita entre eles. E nos ocorreu a solução diferente dada ao bloco destinado a exposições e auditório, solto, independente do edifício, como antes não ocorria.

Depois, a simplificação das fachadas do edifício. A fachada sul construída toda de vidro, sem as interrupções nas áreas correspondentes aos sanitários, antes previstas. Na outra, foi adotado o sistema de brise-soleil por Le Corbusier preconizado, com a diferença de que as placas horizontais não são fixas, em concreto, como o velho mestre usava, mas móveis, regulando a proteção solar — um sistema de placas móveis antes empregado pelos irmãos Roberto. Um detalhe que evoluiu naturalmente ao passar do tempo. Podia ter lembrado que, na mesma época, no Rio, outros edifícios de igual espírito arquitetônico estavam sendo criados, como o prédio da ABI, o aeroporto Santos Dumont etc.

Os últimos trabalhos
Essa era a explicação que, como membro daquela comissão, eu deveria ter fornecido ao meu entrevistador. Afinal, é generosidade demais considerar o prédio do Ministério da Educação e Saúde uma simples variação de um projeto já elaborado diante da explicação que acabo de dar. Nessas entrevistas, procuro limitar um pouco os assuntos da arquitetura — um trabalho, a meu ver, muito pessoal, em que o arquiteto deve fazer o que gosta, e não aquilo que os outros gostariam que ele fizesse. E a conversa prossegue, os jornalistas perguntando sobre meus últimos trabalhos, o que estou fazendo no exterior, qual o projeto que mais me agrada entre os já realizados.

Para atendê-los, lembro às vezes o projeto da sede da editora Mondadori, em Milão (Itália), em que a surpresa arquitetural surge logo ao visitante que chega — a grande colunata com espaços diferentes, num ritmo musical que até hoje não se viu em outro edifício. Ou a Universidade de Constantine, na Argélia, em que, estando com o nosso amigo Darcy Ribeiro, que lá nos acompanhava, preocupado com que o projeto em elaboração garantisse o contato mais íntimo entre os estudantes, adotei a sua idéia, criando uma universidade completamente diferente. Lembro do entusiasmo com que Darcy, Luís Hildebrando Pereira da Silva, Heron de Alencar e Ubirajara Brito, exilados na Europa, vieram à Argélia para comigo colaborar.

“Como comunista que sou”
Ah, como até no exterior a arquitetura muitas vezes sofre alterações! É a notícia que recebo de Constantine, surpreso ao saber que uma grande placa de vidro foi colocada, fechando o recreio em pilotis que desenhei — o que contrasta com o que se verificou com a sede do Partido Comunista Francês. Convocado por seu secretário-geral, ele me disse: "Oscar, a sede está pronta, está muito bonita; tenho uma escrivaninha velha, que me acompanhou a vida inteira; eu gostaria de saber se você me permite colocá-la no meu gabinete". Em toda a minha trajetória de arquiteto, foi a única vez que me falaram assim.

Um pouco cansado das repetições inevitáveis, tento quase sempre mudar de assunto, buscando levar a entrevista para o lado político, que mais me interessa: "Vocês sabem, passei a vida debruçado na prancheta, mas, para mim, ela [a política] é mais importante do que a arquitetura". E, como para espantar os jornalistas mais um pouco, continuo: "Quando vejo um jovem protestando nas ruas, sinto que o que ele faz é mais importante do que o meu trabalho de arquiteto". E mais ainda os surpreendo quando falo dos problemas da vida, deste mundo injusto que devemos modificar, da insignificância do ser humano diante deste universo fantástico que tanto o atrai e humilha. E enveredo, como comunista que sou, pela crítica deste sistema capitalista responsável pela injustiça e pela violência que se multiplicam por toda a parte, com o império de Bush a invadir os países mais desprotegidos.

No mundo socialista
Sinto que, de um modo geral, essa minha conversa começa a interessá-los, acostumados que estão a ouvir sempre dos arquitetos mais importantes o entusiasmo incontido pelas obras que realizam, a mostra do talento com que as projetaram, certos de que ficarão na história da arquitetura por sua contribuição irrefutável. Como para contestá-los, lembro que a arquitetura serve apenas aos mais poderosos; os mais pobres dela nada usufruem, vendo, revoltados, de seus barracos, o mundo dos ricos, fútil e ignorante (mas eles bem instalados em seus palácios junto ao mar).

Raramente algum deles resolve contestar-me: "E no mundo socialista que vocês propõem, o que vai acontecer?". É claro — respondo — que a vida será mais justa, as habitações serão mais modestas, mas as escolas, as universidades, os grandes empreendimentos humanos — os hospitais, os estádios, os cinemas, os teatros, os museus, os centros culturais — serão mais importantes, porque deles todos participarão. E o homem será mais simples, mais humano, curioso à procura da verdade de sua própria existência, de sua origem tão longínqua que até uma ameba poderá explicá-la.

Perplexo diante do futuro, que nada de bom oferece, mas a sonhar com o progresso da ciência, com as viagens interplanetárias, que enfrentam as distâncias mais fantásticas. Não raro, depois de as entrevistas serem publicadas, os equívocos aparecem, e por vezes tão lamentáveis que sou obrigado a me manifestar. E, quando o assunto é político, um engano que possa ocorrer me preocupa ainda mais.

O terror
Aproveito este texto para esclarecer que a presença de Lula no atual governo é, a meu ver, da maior importância. Operário, voltado para o povo, hábil na política externa, embora, como comunistas, nos seja muitas vezes difícil aceitar o seu espírito conciliador. Vivemos um momento difícil no campo internacional, o império de Bush a ameaçar o mundo inteiro. Internamente, um ambiente estranho começa a nos inquietar: é uma onda irrefreável de denúncias, gravações de conversas telefônicas, gente sendo presa sem provas; cria-se o terror, como nos velhos tempos de Beria na antiga União Soviética ou no período do macartismo nos Estados Unidos. Além disso, é o fantasma do inesperado, que, para o bem ou para o mal, um dia pode surgir.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Os 100 anos do Poeta da Vila: a "entrevista póstuma" de Noel Rosa ao Pasquim, em 1973

Autocaricatura de Noel Rosa

Há exatos 100 anos, numa família de classe média de Vila Isabel, bairro boêmio da Zona Norte carioca, nascia Noel Rosa, que viria a ter enorme participação no processo de consolidação do samba no Brasil. Martinho da Vila, nas estrofes do seu magistral samba enredo composto para a escola de samba Unidos de Vila Isabel, que prestou uma homenagem ao “Poeta da Vila” no carnaval de 2010, resume muito bem a vida de Noel: “a sua vida foi de notas musicais / seus lindos sambas animavam os carnavais / Brincava em blocos com morenos e mulatas / Subia os morros sem preconceitos sociais”.

De fato, o boêmio Noel Rosa, que desde criança se apaixonou pela música, mas que no final da adolescência resolveu fazer faculdade de Medicina, deu inúmeras contribuições ao samba, das quais destacaremos duas. Primeiro, Noel contribuiu para acabar com o preconceito contra o samba: naquela época – nos idos da década de 20 – o samba ainda não era reconhecido como gênero musical e era marginalizado, já que as rodas culturais o viam como “música do morro” e “música de preto”. A despeito de tudo isso, Noel subia no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, para ali participar das rodas de samba e interagir com a comunidade.

Ao descer para o asfalto, Noel trazia consigo aquele ritmo contagiante, que pouco a pouco acabou agradando aos que outrora “torciam o nariz”. Além disso, no final dos anos 20, já com o grupo dos Tangarás, Noel Rosa foi o responsável por introduzir o samba nas rádios do Rio de Janeiro, contribuindo decisivamente para que o ritmo fosse reconhecido por todos como um gênero musical. Noel viveu da música e da paixão por Ceci – a “Dama do Cabaré” – que conheceu no Cabaré Apolo, na Lapa. A vida boêmia de Noel custou sua saúde: com apenas 26 anos de idade, em 1937, o Poeta da Vila se foi, mas deixou sambas que entraram para a História da nossa música.

Abaixo, reproduzimos uma interessante “entrevista póstuma com Noel Rosa”, feita pelo jornalista Sérgio Cabral e que foi publicada na edição de número 201 do Pasquim, em maio de 1973. Boa leitura!

Trinta e seis anos depois de sua morte (morreu dia 4 de maio de 1937), procurei Noel Rosa para uma entrevista.

- Eu não tenho nada a dizer. O que você quiser saber está na minha obra – disse ele modestamente.

O resultado foi esta entrevista. Se não estiver boa, não ponham a culpa exclusivamente no repórter. Afinal, o entrevistado não dá entrevista há, pelo menos, 36 anos
”. (Sérgio Cabral)

O PASQUIM – Você um cara cheio de problemas de saúde, não saía dos bares, bebendo a noite inteira, batendo papo, etc.

NOEL ROSA – Saber sofrer é uma arte. E pondo a modéstia de parte, eu sei sofrer.


O PASQUIM – Então você sofreu pra burro.

NOEL ROSA – Mesmo assim não cansei de viver.


O PASQUIM – Mas as mulheres de vez em quando, te faziam sofrer mais ainda.

NOEL ROSA – Quem sofreu mais do que eu não nasceu.


O PASQUIM - Uma das suas mulheres foi até visitá-lo, quando você esteve doente. Mas você estava fora. Por que ela foi lá?

NOEL ROSA – Porque pretendia somente saber qual era o dia que eu deixaria de viver.


O PASQUIM – Você sofreu várias decepções mas continuou amando.

NOEL ROSA – Nunca se deve jurar não mais amar a ninguém.


O PASQUIM – Quer dizer que você não tem nada contra o amor.

NOEL ROSA – Quem fala mal do amor não sabe a vida gozar.


O PASQUIM – Mas você, de vez em quando, fala mal da mulher.

NOEL ROSA – A mulher mente brincando e, às vezes, brinca mentindo.


O PASQUIM – Explica isso melhor.

NOEL ROSA – Quando ri está chorando e quando chora está sorrindo.


O PASQUIM – Você sabe se a Betty Friedman o conhecesse teria uma imensa bronca de você que é contra a mulher trabalhando.

NOEL ROSA – Todo cargo masculino, seja grande ou pequenino, hoje em dia é pra mulher.


O PASQUIM – Mas o que é que atrapalha isso, Noel?

NOEL ROSA – E por causa dos palhaços, ela esquece que tem braços. Nem cozinhar ela quer.


O PASQUIM – Mas os direitos são iguais.

NOEL ROSA – Os direitos são iguais, mas até nos tribunais a mulher faz o que quer.


O PASQUIM – Então não são tão iguais assim.

NOEL ROSA – Pois o homem já nasceu dando a costela à mulher.


O PASQUIM – Essa história não é bem assim, não. É preciso discutir.

NOEL ROSA – Mas não quero discussão.


O PASQUIM – Da discussão sai a razão.

NOEL ROSA – Mas às vezes sai pancada.


O PASQUIM – Você gosta mesmo é de samba, não é?

NOEL ROSA – O mundo é um samba em que eu danço sem nunca sair do meu trilho.


O PASQUIM – Você acha mesmo o samba um troço importante?

NOEL ROSA – Exprime dois terços do Rio de Janeiro.


O PASQUIM – Tenho vários amigos que não gostam de samba, querem voar mais alto.

NOEL ROSA – Mas quem voa em grande altura leva sempre grande queda.


O PASQUIM – Não fale assim, Noel, os caras podem se chatear.

NOEL ROSA – O que eu falo é bem pensado. Não receio escaramuça. E que aceite a carapuça quem se sente melindrado.


O PASQUIM – Assim como você está falando, o que é que quer que eles pensem de você?

NOEL ROSA – Que entre nós o páreo é duro.


O PASQUIM – Mas vão acabar seus inimigos.

NOEL ROSA – Meus inimigos, que hoje falam mal de mim, vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.


O PASQUIM – Pelo que vejo, não se pode falar mal do samba perto de você.

NOEL ROSA – O samba é a corda e eu sou a caçamba.


O PASQUIM – Você não tem medo de ninguém?

NOEL ROSA – Sou independente como se vê.


O PASQUIM – Independente? Está rico?

NOEL ROSA – Não consigo ter nem pra gastar.


O PASQUIM – Ou seja: está durão.

NOEL ROSA – Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu. Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou.


O PASQUIM – Você não vai porque está com medo dos malandros do samba.

NOEL ROSA – Não tenho medo de bamba. Na roda do samba, eu sou bacharel.


O PASQUIM – Como é que é esse negócio de bacharel?

NOEL ROSA – Quando me formei no samba recebi uma medalha.


O PASQUIM – Você vive em tudo que é samba, não é?

NOEL ROSA – A polícia em todo canto proibiu a batucada. Eu vou pra Vila onde a polícia é camarada.


O PASQUIM – O samba em Vila Isabel é de noite ou de dia?

NOEL ROSA – O sol da Vila é triste. Samba não assiste porque a gente implora: “Sol, pelo amor de Deus, não venha agora que as morenas vão logo embora”.


O PASQUIM – Mas tem mais samba em outros lugares, Noel.

NOEL ROSA – Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz.


O PASQUIM – E a Vila, como é que fica nisso?

NOEL ROSA – A Vila não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também.


O PASQUIM – Conforme você disse, o samba exprime dois terços do Rio de Janeiro.

NOEL ROSA – Mas tenho que dizer: modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila.


O PASQUIM – Assim não pode, Noel. Com esta banca é melhor a gente acabar a entrevista.

NOEL ROSA – Ofereço meu auxílio. Passe bem, vá pela sombra.


O PASQUIM – Está me mandando embora, Noel?

NOEL ROSA – Não mandei você embora porque sou benevolente.


O PASQUIM – Sabe que se você dissesse isso para certos jornalistas, eles entenderiam como um desafio para briga?

NOEL ROSA – De lutas não entendo abacate.


O PASQUIM – Ué, eu soube que você já lutou profissionalmente.

NOEL ROSA – Cheguei até ser contratado para subir em um tablado para vencer um campeão.


O PASQUIM – E daí, venceu?

NOEL ROSA – Mas a empresa, pra evitar assassinato, rasgou logo o meu contrato, quando me viu sem roupão.


O PASQUIM – E como é que você se vira com esses valentões?

NOEL ROSA – No século do progresso, o revólver teve ingresso para acabar com a valentia.


O PASQUIM – Você sabe que o Josué Montello...

NOEL ROSA – Escreve sal com c cedilha.


O PASQUIM – Pois é. Ele agora é da Academia Brasileira de Letras, junto com a Pedro Calmon.

NOEL ROSA – Desta vez, juntou-se a fome com a vontade de comer.


O PASQUIM – Mas eles tem prestígio por aí, numa certa roda.

NOEL ROSA – Vassouras nos salões da sociedade.


O PASQUIM – Você não freqüenta essa roda, não é?

NOEL ROSA – Você pode crer que a palmeira do Mangue não vive em Copacabana.


O PASQUIM – Vamos falar mal das pessoas. E o Roberto Campos, hem?

NOEL ROSA – Que é também brasileiro. E em três lotes vendeu o Brasil inteiro.


O PASQUIM – Sabe que andaram pixando você sob o pretexto de que você é bom de letra mas não de música?

NOEL ROSA – Sendo as notas sete apenas, mais eu não posso inventar.


O PASQUIM – Bem, Noel, vamos acabar a entrevista. Adeus.

NOEL ROSA – Adeus é pra quem deixa a vida. Três palavras vou gritar por despedida: até amanhã, até já, até logo.

As respostas de Noel Rosa estão contidas nos seguintes sambas: “Eu sei sofrer”; ”Só pode ser você”; “Provei”; “Nuvem que passou”; “Você vai se quiser”; “É preciso discutir”; “Até amanhã”; “Quem dá mais?”; “Vitória”; “Fita amarela”; “O X do problema”; “Com que roupa?”; “Eu vou pra Vila”; “Feitiço da Vila”; “Boa viagem”; “Tarzan”; “Cidade mulher”; “A.E.I.O.U”; “Onde está a honestidade?” e “Mais um samba popular”.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Os riscos sociais da onda reacionária e do discurso da intolerância no Brasil

Charge de Ivan Cabral
Três fatos “independentes” ocorridos em diferentes partes do país no último final de semana, mas que parecem guardar entre si uma forte correlação em suas motivações: a agressão sofrida por três jovens homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo, o tiro levado por um jovem após a 15ª edição da Parada Gay, no Rio de Janeiro, e o assassinato do 32º morador de rua, em Maceió, Alagoas. O preconceito em suas mais diferentes formas tem sido a causa central de barbáries como essas, nas quais a intolerância e a aversão a todo tipo de diferença têm se materializado através de agressões que muitas vezes terminam em morte.

É verdade que o preconceito é algo que sempre existiu na sociedade brasileira, mas é também verdade que de uns tempos para cá uma verdadeira onda reacionária parece ter trazido à tona velhos tipos de condutas preconceituosas que, se continuavam existindo, pelo menos não eram abertamente declaradas. Exemplo claro disto é o discurso xenófobo contra nordestinos adotado por certos grupos de pessoas, sobretudo em São Paulo, logo após a vitória de Dilma Rousseff na disputa presidencial. Eleitores serristas, como a estudante de Direito Mayara Petruso, atribuíam aos nordestinos a “culpa” pela vitória petista e lançavam mão, nas redes sociais, das mais perversas expressões de intolerância e violência.

Apesar de terem sido amplamente repudiadas pelos mais diversos setores da sociedade civil organizada, as declarações da jovem paulistana foram apenas o ponta-pé inicial de uma série de manifestações preconceituosas, como as ocorridas neste final de semana. Neste sentido, o “discurso do ódio” promovido pelos apoiadores do tucano José Serra no subterrâneo da internet, através das redes sociais e e-mails, ainda na campanha presidencial, parece ter servido como impulso para que os defensores de tais idéias ressurgissem e dessem fôlego a atitudes e pensamentos que não ficam em nada a dever ao nazi-fascismo. Homofobia, xenofobia e eugenia são as principais formas através das quais tem se manifestado esse pensamento retrógrado.

Onda reacionária deve ser barrada!
Se de um lado temos essas manifestações deploráveis de preconceito, por outro temos uma estrutura legal altamente permissiva, que ao invés de coibir esse tipo de comportamento parece incentivá-lo, já que deixa seus praticantes totalmente impunes. Maior exemplo disso são os cinco jovens que agrediram os garotos homossexuais na Avenida Paulista: após passarem apenas 24 horas detidos, já estão soltos, novamente “prontos” para cometerem outras barbaridades semelhantes. Cabe aqui a questão: como esperar que novas agressões de cunho preconceituoso sejam evitadas se os praticantes desse tipo de ato não são devidamente punidos?

É importante que se diga: além de uma Justiça que parece cada vez mais fechar os olhos a este tipo de conduta, temos também um Legislativo que colabora para estes atos à medida que não aprova leis que sirvam de coerção para os mesmos. Maior prova disso é o PL 122/06, que prevê a criminalização da homofobia e que está há um bom tempo “parado” no Senado Federal. Razões para aprovar esse projeto de lei não faltam: de acordo com estatísticas do Grupo Gay da Bahia, a cada dois dias um homossexual é morto no Brasil por crime de homofobia. Quantas mortes ainda serão necessárias para que nossos representantes sejam encorajados a aprovar este projeto de lei que prevê punição rigorosa para este tipo de crime?

É lastimável que em pleno século 21 e em um país constitucionalmente laico, o Legislativo fique à mercê de alguns grupos religiosos, que ao trabalharem para que leis como esta que criminaliza a homofobia não sejam aprovadas estão, na verdade, indo contra toda idéia de “amor ao próximo” que pregam em seus templos. Urge que o Congresso Nacional aprove leis, como o PL 122/06, que punam rigorosamente o preconceito, seja qual for a forma que ele assuma, e também que o Judiciário aplique adequadamente estas leis. Esta é a condição mais que necessária para que esta onda reacionária e preconceituosa não se transforme em um verdadeiro tsunami, trazendo consigo um retrocesso cultural sem precedentes.

Afinal de contas, o preconceito e a intolerância são posturas que definitivamente não condizem com o papel que o Brasil vem assumindo na comunidade internacional. Não há dúvidas de que nosso país tem tudo para se transformar na 5ª maior economia do mundo, como vem destacando nossa Presidente eleita Dilma Rousseff, através da continuidade do projeto de desenvolvimentismo iniciado por Lula e pela erradicação total da miséria. Mas paralelamente a estas ações extremamente importantes, é preciso que se coíba toda e qualquer forma de preconceito em nosso país. Somente dessa forma, teremos justiça social em toda sua amplitude e assim construiremos, de fato, um Brasil para todos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Touraine e os equívocos sobre o Brasil de Dilma

Principal teorizador da chamada “sociedade pós-industrial” e com uma grande contribuição à análise da dinâmica dos movimentos sociais, o sociólogo francês Alain Touraine naturalmente não está imune a equívocos na sua linha de pensamento. Isto fica bastante claro em uma entrevista dada pelo pensador, durante sua estada em São Paulo, ao jornal O Globo, publicada nesta segunda-feira, 15. Falando, em linhas gerais, das perspectivas para o Brasil e para o governo Dilma, Touraine comete alguns erros de interpretação, motivados, talvez, por seu distanciamento em relação à realidade do nosso país.

Defendendo a idéia de que tanto FHC quanto Lula têm igual importância na construção de um novo tipo de sociedade no Brasil, o sociólogo francês emenda que “não sabemos o que acontecerá daqui para frente”, argumentando que “a nova Presidente (Dilma) foi inventada por Lula”. A partir deste ponto, Touraine desfia uma série de avaliações equivocadas sobre um possível perfil do governo Dilma bem como sobre o próprio Partido dos Trabalhadores. Para o sociólogo, “o Brasil tem um longo passado de populismo e a ameaça persiste devido ao nível de desigualdade social extremamente elevado”. Abaixo, destacamos os principais equívocos no pensamento de Alain Touraine sobre o novo governo brasileiro:

“O perigo de um retrocesso [com Dilma] existe, até porque o passado do PT está longe de ser perfeito. Lula não foi autoritário, mas segmentos do PT o são”.
O primeiro grande equívoco de Touraine consiste em associar o PT a um maior risco de retrocesso no Brasil, argumentando que setores do Partido possuem tendências autoritárias. Ora, é fato conhecido por todos que a visão de que alguns setores do PT são autoritários é a versão vendida pela grande imprensa brasileira desde que o partido foi fundado, nos anos 80. Contudo, em nenhum dos governos petistas, seja na esfera municipal, estadual ou federal, houve quaisquer traços de autoritarismo. Muito pelo contrário, todos os governos do PT foram marcados por um profundo compromisso com a democracia. A própria rejeição do partido à idéia de um 3º mandato para Lula já deixa claro que o PT não compactua com autoritarismo ou populismo.

Além disso, Alain Touraine parece desconhecer o fato de que, ao longo desta campanha presidencial, as forças do retrocesso e do autoritarismo não se alinharam com Dilma, mas sim com o seu adversário, o tucano José Serra. Afinal de contas, a campanha de Serra contou com o apoio de forças como os monarquistas, a “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), além de setores mais conservadores da Igreja Católica, que todos juntos promoveram uma verdadeira “cruzada” contra a candidata do PT, levantando bandeiras extremamente conservadoras, como a questão do aborto. A aproximação de Serra com os setores ultraconservadores fica bastante clara em uma reportagem publicada pela revista IstoÉ dias antes do 2º turno das eleições.

A matéria da IstoÉ chegou inclusive a revelar documentos da regional Sul I da CNBB (estado de São Paulo) que orientavam os fiéis a não votarem em candidatos do PT. Enquanto Serra recebia o apoio dos setores mais conservadores, Dilma, ao contrário, recebeu o apoio de todos os setores progressistas da sociedade brasileira. Logo, é muito mais razoável que a possibilidade de retrocesso autoritário seria maior em um eventual governo Serra do que no governo Dilma, o que faz cair por terra a avaliação equivocada de Alain Touraine sobre incertezas acerca do comprometimento da nova Presidente com um governo amplamente democrático.

“A ideia de Dilma esquentar a cadeira por quatro anos para Lula também me desagrada. Em uma democracia, não pode haver presidente interino”.
Esta é outra falácia no pensamento de Touraine, expresso na entrevista dada pelo sociólogo ao Globo. É um grande equívoco acreditar que Dilma está simplesmente “esquentando a cadeira” para que Lula retorne em 2014. O próprio Presidente Lula já tratou inúmeras vezes de desmentir esse boato, reafirmando que é totalmente legítimo que Dilma, fazendo um bom governo, dispute novamente a Presidência e seja reeleita. Além disso, esse tipo de postura não condiz em nada com o perfil de Dilma, que jamais se prestaria ao papel de “segurar o lugar” para que Lula retornasse daqui quatro anos. Trata-se de um pensamento com grande teor machista que foi alardeado pela oposição ao longo da campanha e que, infelizmente, parece ter sido abraçado também pelo sociólogo francês.

“A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente, porque ela não tem experiência política”.
Outros dois grandes equívocos do pensador francês: 1) que não sabemos como será o governo de Dilma; 2) que Dilma não tem experiência política. Em primeiro lugar, embora seja impossível vislumbrar fatos que caracterizarão o governo Dilma, é bastante plausível trabalharmos com projeções de como será esse governo. Dilma não é Lula, mas representa o mesmo projeto político do Presidente e do seu partido. Logo, é de esperar que Dilma continue o trabalho iniciado no governo Lula e que aprofunde conquistas que foram obtidas nestes oito anos. Afinal de contas, foi exatamente devido a esta perspectiva de continuidade e avanço que 55 milhões de brasileiros depositaram nas urnas o voto em Dilma, elegendo-a a próxima Presidente do país.

Em segundo lugar, é totalmente equivocado dizer que Dilma não tem experiência política, haja vista que ela iniciou sua vida política ainda jovem, quando ingressou em grupos da esquerda clandestina para a luta contra o regime militar. Tendo sido presa e torturada, e após cumprir pena de três anos de detenção, acusada de “subversão”, Dilma iniciou sua vida pública no Rio Grande do Sul, onde foi inicialmente secretária das Finanças do então prefeito Alceu Colares. A partir daí, a nova Presidente ocupou sucessivos cargos gerenciais na administração pública, até chegar ao governo Lula, onde foi Ministra das Minas e Energia e, nos últimos cinco anos e meio, ministra-chefe da Casa Civil. Acaso isso não é experiência política?

Percebe-se, dessa maneira, que os pontos de vista de Alain Touraine sobre o novo governo, expressos em sua entrevista ao Globo, mostram-se bastante equivocados, já que não encontram consistência na realidade vista no Brasil, sobretudo ao longo da campanha eleitoral. Dizer que no governo Dilma o Brasil corre o risco de um retrocesso, por conta de um suposto autoritarismo do PT, é um exercício de futurologia totalmente desprovido de ligações com a realidade. Ao contrário do que diz o sociólogo francês, o governo Dilma deve ser marcado não pelo retrocesso, mas sim pelo avanço, pelo fortalecimento da democracia e pela continuidade das grandes conquistas do governo Lula, sem nenhum viés populista.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A mulher, o amor e a poesia: uma entrevista de Vinícius de Moraes a Clarice Lispector

Vinícius de Moraes dispensa apresentações. Trinta anos após sua partida (sim, pois gênios como ele nunca morrem), completados neste dia 9 de julho, sua obra continua mais viva do que nunca e aqui é impossível deixar de recorrer a este clichê. Com uma sensibilidade extraordinária, o homem que foi diplomata, compositor e, sobretudo, poeta soube retratar de forma singular a mulher, o amor e a vida. O poeta nasceu no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, em uma noite de forte tempestade, que parecia prenunciar as tempestades de sua vida, vivida intensamente na boemia carioca.

“Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu...”, dizia o poeta que também se definiu, certa vez, como o “branco mais negro de todos”. Abaixo transcrevemos uma entrevista dada por Vinícius de Moraes à grande escritora Clarice Lispector, que foi publicada na Revista Manchete no final dos anos 60. Com a maestria que lhe era pertinente, Vinícius fala sobre as diversas formas de amor, sobre a mulher (seu tema recorrente) e também sobre a poesia. É sugestão deste blog que se leia esta entrevista ouvindo alguns de seus versos como “Chega de Saudade” ou “Eu não existo sem você”.

- Vinícius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama de que você é m grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é o nosso menestrel. Vinicius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres que você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor, mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquela que amei realmente, me dei todo.

- Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.
É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.

- Você já amou desse modo?
Eu só tenho amado desse modo.

- Mas você acaba um caso porque encontra outra mulher, ou porque se cansa da primeira?
Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”.

- Você sabe que você é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?
Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e que tem uma experiência a transmitir. Chico não. É ídolo mesmo, trata-se de idolatria.

- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria.
Às vezes fico mal humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinícius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.

- Qual é a artista de cinema que você amaria?
Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tem outro.

- Fale-me de sua música.
Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.

- Vinícius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?
Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.

- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinícius.
O fato de querer me comunicar tanto.

- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?
Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica ao meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profundo e consequentemente mais bela.

- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius.
Para mim é a mulher, certamente.

- Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos um pausa. Ele continuou:
Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...

(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho). Vinícius disse, tomando um gole de uísque:
É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criativa. Eu só sei criar na dor e na tristeza, nem mesmo as coisas que resultam sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no sei da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

- Como e que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência?
Acontece que detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.

- Como pessoa, Vinícius, o que é que desejaria alcançar?
Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse fazer útil aos meus semelhantes.

- Quero lhe pedir uma favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza de que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale o seu poema.
Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra embaixo porque é um verso. É assim:
Clarice
Lispector
Acho lido o teu nome, Clarice.

- Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve. Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.
Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.

- Você se sente feliz? Essa, Vinícius, é uma pergunta idiota, mas que eu gostaria que você respondesse.
Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.

Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinícius saiu. Então telefonei para uma das esposas de Vinícius.

- Como é que você se sente casada com Vinícius?

Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
“Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas”.

Depois conversei com uma mocinha inteligente:
“A música de Vinícius", disse ela, “fala muito de amor e a gente se identifica sempre com ela”

- Você teria um “caso” com ele?
Não porque apesar de achar o Vinícius amorável, eu amo um outro homem. E Vinícius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E de “repente”, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.

Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinícius de Moraes.
(Entrevista extraída do site Tiro de Letra)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago e o camponês de Florença: o que eles têm a nos ensinar?

Ramón Lobo, articulista do jornal espanhol El País, sintetiza muito bem a alma do escritor português e Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que morreu nesta sexta-feira, 18, aos 87 anos: ”O escritor que abraçou os homens”. Tal definição, simples à primeira vista, carrega a tradução perfeita do que representou Saramago não só no mundo das letras, mas especialmente no mundo das idéias políticas e sociais. Para Lobo, “há dois tipos de escritores: os que se refugiam do mundo e tentam modificá-lo através de seus livros e personagens, sem qualquer outro compromisso que não a busca permanente da excelência; e os que como José Saramago, que além de escrever obras essenciais como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, os dois ensaios e a Cegueira da Lucidez, além de seu maravilhoso Caim, são capazes de ir para o mundo e tentar mudá-lo com suas próprias mãos”.

E foi isso que Saramago fez ao longo de toda sua vida: foi um pensador, mas também ousou “colocar a mão na massa” e fazer tudo que pôde para mudar o que estava ao seu redor. O homem morre, mas a sua obra, as suas idéias, a sua representatividade, estas permanecem, pois são eternas. Abaixo segue a íntegra do discurso feito pelo mestre Saramago no encerramento do 2º Fórum Social Mundial, ocorrido em Porto Alegre, em 2002. Como sempre, as palavras do escritor português nos trazem grandes revelações e nos levam a questionar tudo aquilo que está a nossa volta. Boa leitura!

"Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de 400 anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros.

Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há 50 anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas 30 direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há 400 anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em conseqüência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor".

domingo, 25 de abril de 2010

Quem disse que pessoas com alta escolaridade não são manipuladas?



Uma das idéias mais falaciosas que são difundidas no Brasil é de que o povo é mal informado e por isso tende a ser facilmente manipulado pelas campanhas eleitorais. Em contrapartida, a classe média, que “tem acesso à informação”, estaria, segundo essas falácias, “blindada” de qualquer forma de manipulação pela mídia. Não são poucas as vezes que nos deparamos com esse tipo de argumentação, especialmente vindas de pessoas da própria classe média, que se julgam bastante conhecedoras do cenário político.

Neste sentido, é muito comum que pessoas da classe média e da classe alta recorram a argumentações disseminadas pela grande imprensa, adotando uma postura de “eu tenho informação e sei escolher o meu candidato, enquanto o ‘povão’ não tem essas informações e sempre erra o voto”. Isso cria na sociedade brasileira uma espécie de discriminação por parte desses “detentores” da informação difundida pela mídia, que acabam se convencendo de que são os “donos da verdade”. Interessante que a realidade não é bem assim.

Pelo menos é o que nos diz um renomado neurolinguista norte-americano, George Lakoff, em uma entrevista dada ao Estadão e publicada pelo jornal neste domingo, 25. Lakoff é professor da Universidade de Berkeley, uma das mais conceituadas nos Estados Unidos, e também militante do Partido Democrata, do presidente Barack Obama. Na entrevista, Lakoff diz que o voto do eleitor é menos racional do que se supõe e que também pessoas com alto nível educacional podem sim serem manipuladas.

Confira abaixo os principais pontos da entrevista dada pelo neurolinguista de Berkeley ao Estadão:

No livro The Political Mind (A Mente Política, em tradução livre), o sr. afirma que progressistas e conservadores têm formas de pensar distintas e inconciliáveis.
Progressistas veriam o governo como um "pai cuidadoso" - que protege e oferece possibilidades aos cidadãos -, enquanto conservadores encarariam o Estado como um "pai austero" - a quem cabe ensinar uma rígida disciplina. Até que ponto esta metáfora pode ser exportada para outras partes do mundo?

Muita gente tem as duas formas no cérebro simultaneamente e variam o seu uso. O cérebro tem determinados circuitos, chamados "inibição mútua", em que a ativação de uma forma de pensamento inibe a outra. Por isso, as pessoas podem ser conservadoras em alguns aspectos e liberais em outros, desde que em questões políticas diferentes. Fizemos um estudo empírico com um grupo, durante uma eleição na Califórnia, e vimos que isso acontece com 18% dos eleitores.

Temos descoberto que o mesmo ocorre na Espanha, com as mesmas duas formas de pensar, apesar de o país ter muitos partidos políticos. Os eleitores fazem diferentes combinações das formas de pensar progressista e conservadora - eles aplicam uma combinação se são social democratas, outra se são democratas cristãos, e assim por diante. Isso também vale para a Alemanha. Ou seja: estas formas de pensar se aplicam à Europa - certamente se aplicam à Espanha e à Itália -, mesmo em sistemas multipartidários.

Então só há estas duas formas de pensar politicamente? Elas são universais?
Não. Um dos meus alunos fez um estudo na China e descobriu que há uma outra forma de pensar, que reflete a estrutura familiar chinesa. Não sabemos quão difundidas são as formas de pensar conservadora e progressista, mas esta estrutura certamente funciona na Europa e em países com influência cultural europeia.

Na América Latina, por exemplo?
A América Latina seria uma possibilidade. Mas esta é uma pergunta empírica, simplesmente não dá para dizer. Não se sabe exatamente onde funciona e onde não funciona. O que nós sabemos é que não parece ser universal. O que parece ser universal, contudo, é que a política aparentemente depende muito da estrutura familiar. Mas ainda há muita pesquisa a se fazer.

O senhor defende o uso de enquadramentos ideológicos e metáforas nos discursos políticos. É possível fazê-lo sem manipular o eleitor?
A primeira coisa a ser entendida é que nós sempre vemos o mundo através de um prisma ou de metáforas. São formas de pensar às quais recorremos todos os dias. Não se pode pensar sem enquadramentos ideológicos, e provavelmente mais da metade dos seus pensamentos são metafóricos. Além disto, a organização política da mente baseia-se sempre em sistemas morais - frequentemente com origem na estrutura familiar. E os pontos de vista ideológicos são organizados dentro destes sistemas. Pontos de vistas são independentes da linguagem - é a língua que se adapta a eles. Por isso, uma mesma palavra pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. No debate sobre a reforma do sistema de saúde nos EUA, por exemplo, os conservadores encaravam a questão como um problema de "liberdade" e, portanto, um problema moral. Os Democratas, por outro lado, lidavam com a polêmica como uma questão política e, por não discutirem o tópico no plano moral, perderam muito apoio.

Em que medida entender como o cérebro processa as metáforas importa no debate político?
Importa muito! Conservadores frequentemente estudam marketing e sabem como vender ideias. Sabem usar enquadramentos ideológicos, construção de narrativas, metáforas e emoções de maneira muito eficaz. Mas progressistas, nos EUA, tendem a estudar outros campos: eles se dedicam à ciência política, às políticas públicas, ao direito e à economia. E esses campos tendem a ignorar o funcionamento do cérebro. Estuda-se a razão iluminista - de acordo com a qual pessoas pensam em termos da lógica formal, de forma literal e sem emoções. As emoções atrapalhariam a capacidade de raciocínio. Com isso, perde-se a maior parte do que foi aprendido com a neurociência. E um dos problemas é que não se entende como a comunicação funciona. Os progressistas continuam cometendo erros e não compreendem o tipo de sistema de comunicação que os conservadores desenvolveram nos EUA. Conservadores têm institutos para treiná-los e expô-los na televisão e no rádio, têm redes de especialistas, têm linguistas para explicar qual a forma mais efetiva de comunicação. Mas os progressistas não entendem isso. Eles acreditam que basta falar dos detalhes políticos para serem claros. Só que isso nunca é o bastante. O resultado é que os conservadores se fortalecem.

O senhor afirma que é mais fácil mudar a forma como o eleitor pensa depois de um trauma. O Brasil, no entanto, vive a situação oposta: o presidente atual tem cerca de 80% de aprovação. É possível, numa situação como esta, convencer o eleitor a votar na oposição?
Não conheço o suficiente da política brasileira, mas posso especular. Se existirem, no Brasil, eleitores que chamo de "biconceituais" - ou seja, que variam entre dois sistemas de pensamento -, e se a oposição tiver uma comunicação excelente (e souber como explorá-la), então é possível mudar a situação independentemente da popularidade do governo. Por exemplo, depois da saída de Bill Clinton, os Estados Unidos estavam numa ótima posição econômica, mas George Bush conseguiu comunicar-se muito bem, enquanto Al Gore era péssimo.

Há estudiosos que afirmam que o Brasil é um País que tende à esquerda. Por que os países variam tanto no espectro ideológico?
Não sabemos com certeza. Suspeito que tenha relação com a cultura. Suspeito também que tem a ver com a sofisticação política da esquerda em comparação com a direita. Mas, novamente, precisaria conhecer um pouco melhor o Brasil para responder corretamente.

O senhor argumenta que a forma de pensar dos conservadores é intrinsecamente autoritária. É possível um governo ser conservador e democrático?
Depende do que você define como "democrático". Uma das melhores coisas que Barack Obama escreveu foi sobre Democracia. Ele caracteriza a democracia americana como fundamentalmente baseada em empatia, na habilidade de se preocupar com o próximo. E é por isso que existem princípios como justiça e liberdade para todos. E é por isso que a missão do governo seria a de proteger e oferecer possibilidades aos seus cidadãos. Esta é a visão progressista, que projeta na política a estrutura familiar do pai carinhoso. É uma forma de encarar a democracia. Mas conservadores têm uma maneira totalmente diferente de entender o que democracia significa. Eles acreditam que os ricos e bem-sucedidos devem ter mais poder, porque merecem isso. Democracia seria uma espécie de meritocracia. Deve haver grandes diferenças de renda, pessoas que não são disciplinadas o bastante devem ser pobres. E chamam isso de democracia, porque eles encaram a democracia como uma fonte de oportunidades para quem é disciplinado.

Diz-se que, nesta eleição presidencial brasileira, os principais candidatos têm uma visão política e econômica muito próxima. Como diferenciar candidatos que compartilham de uma mesma forma de pensar?
Ah, de muitas maneiras. Primeiramente, um candidato pode acreditar em pequenas ou em grandes mudanças. Um outro fator é a prioridade de cada candidato. Alguns podem priorizar políticas ambientais, outros a saúde pública, outros a política externa e assim por diante. Pode-se ter os mesmos valores e prioridades diferentes. Falo muito disso em Moral Politics (Política Moral, em tradução livre), meu primeiro livro sobre o assunto. As pessoas simplesmente têm diferentes maneiras de decidir o que fazer e em que momento. Além disso, há muitos tipos de progressistas: há quem ache que o problema está na distribuição de renda, outros se preocupam com a questão racial, há ainda os ambientalistas Etc.. Isto acontece porque existem diferenças dentro de uma mesma forma de pensar.

Em um país com sério déficit educacional, como o Brasil, o eleitor fica mais suscetível à manipulação?
Não tem nada a ver. Pessoas com um alto grau de educação ainda são manipuladas. Nas eleições, as questões mais importantes têm a ver com valores morais e com o modo como são comunicados. Têm a ver com a capacidade de se conectar com as pessoas, ou seja, falar e ser entendido por todos; com transmitir uma sensação de confiança; e com ter uma imagem com a qual o eleitor poça se identificar. Chamo isso de autenticidade. Se você parecer autêntico, se compartilhar os valores da população, se o eleitor puder se identificar e confiar em você, então votarão em você. E não é apenas uma questão educacional. É questão de ter uma capacidade básica de se ligar às outras pessoas, de sentir empatia, de se preocupar com outros, de saber com quem se identificar e em quem não confiar. Uma das coisas bacanas da democracia é que ela apela a estas questões, não apenas à educação.

O senhor defende um "novo iluminismo". O quê isso significa? É realista acreditar em um "novo iluminismo" em escala global?
Espero que sim, mas sei que é difícil. Um novo iluminismo implica entender os avanços da neurociência e das ciências cognitivas - o que inclui perceber que a empatia tem um papel imenso nas interações humanas e que a ideia de democracia depende disto. precisamos entender como a mente realmente funciona: um conjunto de circuitos neurais que envolvem prismas ideológicos, metáforas e a construção inconsciente de narrativas. Precisamos entender que as emoções são parte da razão e que nem todo mundo pensa do mesmo jeito. Precisamos entender que sistemas morais são fundamentalmente metafóricos - e não vêm de uma razão universal. E precisamos entender que existem muitos sistemas morais diferentes e que a política é fundamentalmente baseada na moralidade. Tudo isso requer uma nova compreensão do que o nosso cérebro é e do que nossa sociedade significa. Esta é a definição de um novo iluminismo.

sábado, 3 de abril de 2010

O que a Veja tem contra a Sociologia e a Filosofia?



Muito se sabe que o trabalho do Sociólogo e do Filosofo é compreender a realidade em que habitam os humanos e suas estruturas sociais e de pensamento. Essa compreensão sempre foi perigosa para uma parcela dos agentes políticos que está mais preocupada em perpetuar a institucionalização acrítica da qual fazem parte, do que promover as mudanças de que o povo necessita. Assim, a Sociologia e a Filosofia sempre se mostraram perigosas para estes políticos demagogos, por colocarem em xeque os seus valores conservadores acerca dos Sistemas Sociais.

Ora, mas ao mesmo tempo em que essa parcela da classe política de caráter demagogo vê a filosofia e a sociologia como riscos, ela também se apóia em veículos da grande imprensa que lhes servem como verdadeiros panfletos políticos. Neste sentido, a revista Veja é, há décadas, um poderoso instrumento da direita para disseminar seus conceitos e valores políticos. Tanto que na edição desta semana, a Veja publicou uma matéria que critica a introdução de jovens nessas duas matérias, o que nos lembra, como sempre, que o Sistema Social possui anticorpos.

Um trabalho importantíssimo por parte dos Sociólogos, Antropólogos e Cientistas Políticos é exatamente estudar a estrutura da Ideologia e apresentar as sociedades que o que se tem como divino; é humano, o que se tem como eterno; é temporal, o que se tem como criador; é criatura, o que se tem como natural; é social. Assim, é de se esperar que essa revista elabore uma matéria tão portadora de Ideologismo e conservadorismo, que já em muito prejudicou a sociedade brasileira. Se apoiando na muleta, talvez, que o Brasil esquece fácil sua história.

A todo tempo se propaga nesta revistinha a biologização do social, a perpetuação de idéias que, no século XIX, se baseavam na biologia para justificar preconceitos e desigualdades sociais. Como se os preconceitos e as desigualdades sociais fossem algo de uma “natureza humana”, que, todo Sociólogo, Antropólogo e Cientista Político bem sabe, não existe. O humano é, em seu nascimento, uma inespecificidade biológica.

“Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro,
as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos
rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...”
(De: Veja)

Impossível negar a importância da Matemática. No entanto, da forma retrograda que é ensinada na escola, pouco contribui para um desenvolvimento critico do aluno. Mas é exatamente dessa forma que os anticorpos sociais desejam que as matérias sejam lecionadas, para não representar nenhum potencial perigo no controle da massa social. Não é de hoje que os dois grupos de profissionais criticados pela matéria vêm denunciando isso. Agora o desejo é calar-nos.

“Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original".” (De: Veja)

Sim, as faculdades de Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Ciência Política) e Filosofia se posicionaram duramente contra a ditadura apoiada largamente pela Direita, o que é totalmente aceitável, e um trabalho nosso, contrariar a opressão e a ausência de liberdade democrática. Vejamos o disparate proferido pela Dra. Eunice Durham, de que boa parte das universidades brasileiras se baseiam na superficialidade do conhecimento social e dos estudos referentes aos textos de Marx. Onde, posso constatar, a UFRN e o curso de Ciências Sociais se baseia completamente no estudo sobre os textos originais, não só de Marx, mas de tantos outros pensadores importantes.

“Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda.” (De: Veja)

O vendedor Fernando Henrique Cardoso, direitista como era e é, naturalmente iria se opor a doação dessas armas políticas para a População, já que, conhecedor dos sistemas sociais e do potencial que a educação tem sobre uma Sociedade, não iria querer ver seu império conservador sendo analisado e criticado por grande parte dos estudantes brasileiros. Como já foi dito, os Sistemas Sociais têm anticorpos. Se basear na não distribuição desse conhecimento para os jovens, na falsa idéia que o Brasil não tem dinheiro para tal, é culpar o termômetro pela febre, já que, através de políticas que priorizem a educação superior - como foi feito a posteriori pelo governo Lula - é possível sim abrir essas possibilidades. Exatamente baseado nesse conceito de falta de verba, as universidades brasileiras não investem em cadeiras para Sociólogos, Antropólogos, Cientistas Políticos e Filósofos.

"Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil" (De: Veja)

Claro que é absolutamente irreal esperar que TODOS os estudantes consigam a maturidade intelectual suficiente nos temas sociológicos e filosóficos, como é de se esperar que nem todos os estudantes consigam aprender os cálculos matemáticos, as leis físicas e as organizações químicas celulares. Mas esse argumento não é usado para desestabilizar a Matemática, Física, Química e Biologia na grade curricular do ensino médio. Tão importante quanto fazer cálculos e estudar os compostos orgânicos, é entender o pensamento racional humano e as estruturas sociológicas da realidade.

(Texto de Leonardo Antunes, graduando em Ciências Sociais pela UFRN)