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domingo, 6 de fevereiro de 2011

A cizânia: de onde vem inspiração do Globo para tentar criar intriga entre Dilma e Lula?

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, não poderia ser mais certeiro para se referir à matéria do jornal O Globo deste domingo, 6, que tenta descaradamente semear a discórdia entre a Presidenta Dilma Rousseff e o ex-Presidente Lula. Em seu Twitter, Dutra declarou que: “matéria do Globo de hoje tentando intrigar Lula e Dilma me lembrou uma revista do Asterix, ‘a cizânia’”. Melhor comparação que esta, impossível! De fato, ao lermos a matéria do Globo, que procura fortalecer uma tática usada pela imprensa golpista desde os primeiros dias do governo Dilma, percebemos que ela guarda uma relação incrivelmente estreita com a história do volume nº 15 da série “Asterix”, publicado em 1970.

Na história, batizada de “A cizânia” ou “Asterix e a Zaragata”, o imperador romano César, após várias tentativas fracassadas de ocupar a aldeia gaulesa, tem então uma idéia que pode ajudá-lo no seu plano: semear a discórdia entre os gauleses. A tática de César tem fundamento: se os gauleses se ocuparem mais com seus atritos do que com a proteção da aldeia, certamente ficará mais fácil para o Exército romano dominá-los. Para colocar seu plano em prática, César conta com a ajuda de Tulius Detritus, um especialista na arte de “bolar” estratagemas. E a estratégia de Detritus é justamente jogar o chefe da tribo gaulesa, Abracurcix, contra o herói Asterix, de forma a instalar a cizânia entre os gauleses.

O primeiro ato de Tulius Detritus é chegar à aldeia gaulesa com o propósito de entregar um caro presente “ao homem mais importante da aldeia”. Avisado da presença do romano, Abracurcix se dirige ao portão da aldeia, todo cheio de si, mas quando lá chega surpreendentemente vê Detritus passando direto por ele e levando o presente – um vaso – para Asterix! Ou seja, o primeiro passo do cúmplice de César era justamente atingir o orgulho próprio do chefe da tribo gaulesa, dando a entender que Asterix era mais importante que ele. É interessante que na história essa pequena intriga teve um efeito repercussão enorme, a ponto de jogar um contra o outro em toda aldeia gaulesa: e a coisa ficou ainda pior quando Abracurcix viu Detritus saindo da casa de Asterix num clima totalmente forjado de “amizade estreita”.

Essa suposta “amizade” entre Asterix e Detritus leva a aldeia inteira a desconfiar que Asterix tenha vendido o segredo da poção mágica (que garantia todas as vitórias dos gauleses contra os romanos) para César. Pronto, o boato iniciado em um chá oferecido por Naftalina, a mulher do chefe Abracurcix, logo se espalhou por toda a aldeia gaulesa, colocando a população contra Asterix e acusando-o de “traidor”. A modalidade de combate lançada por Detritus e chamada por ele de “guerra psicológica” estava de fato dando os resultados esperados, já que a aldeia gaulesa desunia cada vez mais. Entretanto, Asterix, Obelix e Panoramix (o druida, detentor da poção mágica) percebem que algo estranho está acontecendo na aldeia e armam um contra-ataque à estratégia de Detritus, fingindo para ele que estão abandonando a aldeia.


Aqui, Detritus prova do seu próprio veneno, pois acredita que realmente os três estão de partida e, portanto, o caminho está livre para Roma invadir a aldeia, uma vez que o druida Panoramix estando longe, não há como os gauleses vencerem os romanos sem a poção mágica. Assim, os legionários romanos partem para o ataque à aldeia gaulesa e, sem que percebam, caem no plano de Asterix, Obelix e do druida Panoramix, que, por sua vez, retornam para a aldeia antes que os romanos lá cheguem. Após uma grande batalha, os gauleses novamente vencem os romanos e recuperam a unidade da aldeia. Nos estendemos um pouco mais no resumo dessa história de Asterix por julgar interessante destacar alguns detalhes do estratagema de Detritus.

O Globo parece buscar inspiração na história de Asterix
Tal como dito pelo Presidente do PT, se prestarmos bastante atenção na história poderemos constatar traços muito semelhantes à tática utilizada pela grande mídia para tentar desestruturar a relação de Dilma com Lula. Essa desestruturação seria muito interessante para estes setores conservadores à medida que Dilma foi eleita sob a bandeira da continuidade do governo Lula, marcado por elevadíssima aprovação popular. Neste sentido, tal como feito por Detritus na aldeia gaulesa, ao semear a discórdia entre Dilma e Lula, a grande imprensa poderia ver essas intrigas potencializadas, produzindo efeitos na relação de Dilma com os movimentos sociais, com aliados e com a sociedade como um todo. Percebam que a estratégia da mídia de procurar elogiar Dilma em detrimento de Lula é a mesma utilizada por Detritus em relação a Asterix e Abracurcix.

Isso fica muito claro quando O Globo diz, por exemplo, que “no Palácio do Planalto, há um consenso de que bater na tecla do ‘continuísmo’ diminui o papel de Dilma. Discretamente, assessores diretos da presidente tentam diminuir ao máximo o nível de atrito com antigos integrantes do governo Lula, principalmente após as diferenças acentuadas nas primeiras semanas de governo Dilma”. Essas diferenças de estilo entre Dilma e Lula estão sendo amplamente exploradas pela grande imprensa desde os primeiros dias do novo governo: após os jornalões “baterem” em Dilma durante toda a campanha eleitoral do ano passado, agora passaram a elogiá-la e a dizer que sua forma de conduzir o país é infinitamente melhor que a de Lula. Ou seja, esses setores da grande mídia procuram, agora, “bater” em Lula através do enaltecimento de Dilma.

A matéria do Globo deste domingo chega ao ponto de insinuar que já existem atritos entre “lulistas” e “dilmistas”. Vejam só: “já há um forte clima de intriga entre petistas e até assessores. As ‘viúvas de Lula’, como são chamados os ministros, assessores e petistas mais próximos do ex-presidente, não escondem o desconforto com a postura de Dilma de tentar se diferenciar de seu criador”. O Globo ainda acrescenta que “um interlocutor que esteve com Lula percebeu a contrariedade dele com o fato de, na imprensa, ser comparado a Dilma de forma negativa. Dilma já se encontrou com Lula duas vezes após a posse e deve manter esse contato para evitar atritos e o clima de intriga entre os dois grupos. De forma reservada, assessores próximos de Dilma estão preocupados com uma volte precoce do ex-presidente à cena política. Acostumado aos holofotes, Lula reassumirá um protagonismo não só no PT, mas no governo”.

Aqui, a imprensa parece fazer uso da chamada “profecia auto-realizável”. Funcionaria mais ou menos assim: ao espalhar boatos de desentendimentos entre Lula e Dilma, ou inicialmente entre “lulistas” e “dilmistas”, esses boatos acirrariam os ânimos de fato entre governo e PT, cumprindo, dessa forma, a profecia. Entretanto, engana-se quem pensa que esse joguinho irá funcionar: se não funcionou nem no caso da aldeia gaulesa, de onde parece ter vindo a inspiração para o estratagema da imprensa golpista, muito menos funcionará agora. Afinal de contas, nem Lula nem Dilma começaram ontem na política e ambos sabem que a imprensa fará de tudo para tentar criar uma cizânia entre eles, como já era vislumbrando naquele malfadado vídeo chamado “2012” que circulou na internet poucos dias antes das eleições de outubro passado. A imprensa acreditar que essa estratégia tola dará certo é no mínimo hilário!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Jornal Nacional fala mais da neve em NY do que de ações do governo para vítimas de enchentes

Quem tem acompanhado o Jornal Nacional, da Rede Globo, certamente percebeu que o telejornal vem dedicando um considerável número de matérias em suas edições diárias acerca da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro. Nada mais natural, afinal de contas a destruição causada pelas fortes chuvas do início do ano fez da região o palco da maior tragédia natural da História do Brasil. Como bem se sabe, não foram somente as fortes chuvas que contribuíram para o caos instalado na serra fluminense: há que se considerar também o grande descaso do poder público em relação a ações preventivas ao longo de décadas passadas.

Não é necessário ser um especialista para saber que o crescimento urbano em áreas de encostas de uma serra com solo frágil poderia resultar numa catástrofe como a ocorrida. E aí sim cabe responsabilizar o poder público pela omissão. Neste sentido, ao longo dos últimos dias o JN exibiu uma série de reportagens com geólogos, geofísicos, arquitetos, urbanistas, todas elas convergindo para a opinião de que a tragédia da Serra poderia ter sido menor caso houvesse tido planejamento do governo. Contudo, do jeito que são colocadas as afirmações nessas reportagens, o telespectador tem a impressão que a culpa é desse governo ou do governo anterior: em nenhum momento é explicado que isso vem acontecendo ao longo dos anos.

Entretanto, o que motiva esse artigo é outro fato. Longe de ter a presunção de querer pautar a imprensa, o que este blog quer evidenciar é a diferença de tratamento dada quando a matéria é supostamente “favorável” ao governo. Tomamos como caso específico a edição de quinta-feira, 27, quando o JN apenas citou as medidas anunciadas pela Presidenta Dilma Rousseff (PT), que esteve naquela tarde no Rio de Janeiro em encontro com o governador Sérgio Cabral (PMDB), no que se refere à construção de novas casas para os desabrigados. O anúncio feito por Dilma – de construção de 6 mil casas para as famílias atingidas e que vivem em áreas de risco – ocupou apenas míseros 38 segundos de uma pseudo-reportagem do JN!

JN dá mais tempo a matéria sobre neve em NY
Entendam a complexidade da questão: quando é para falar da tragédia e da suposta “culpa” do governo, o JN não economizou tempo em suas matérias. Edições quase que inteiras foram dedicadas para mostrar a dor das pessoas atingidas e para expor também a opinião de “analistas”, dizendo que o governo diminuiu o repasse de verbas anti-enchentes para o Estado etc e tal. Porém, quando o governo vem anunciar uma medida extremamente importante, que deverá beneficiar 8 mil famílias atingidas (além das 6 mil casas que serão construídas pelo governo federal, um pool de 12 construtoras entregará mais 2 mil casas), o Jornal Nacional ignora solenemente e faz apenas uma menção, sem detalhar o programa, que é fantástico.

Isso só nos fazer pensar que existe aí um interesse politiqueiro dos editores do Jornal Nacional ao procederem dessa maneira. Vamos fazer uma comparação: enquanto a pseudo-reportagem sobre o anúncio das moradias populares na região Serrana mereceu apenas 38 segundos, uma matéria sobre “adaptação de caminhões para limpar a neve das ruas de Nova York” ocupou 1 minuto e 17 segundos daquela mesma edição do Jornal Nacional. Ora, o que é mais relevante para o telespectador: saber de medidas firmes e eficazes de seu governo em relação a uma tragédia que abalou o país ou saber o que o Prefeito de NY tem feito para limpar as ruas da cidade?

Insistimos em fazer ainda outra comparação. Na edição do dia 20 de janeiro, o JN fez uma reportagem mostrando que um sistema meteorológico eficaz poderia ter previsto a chuva que causou aquela tragédia da região Serrana. Mais uma vez, a edição do JN tentou distorcer a notícia de modo a jogar a culpa no colo do governo. Tempo de reportagem: 3 minutos e 25 segundos. Ora, se o Jornal Nacional gasta quase 3 minutos e meio em uma matéria sobre o que poderia ter sido feito, porque ocupa apenas 38 segundos para falar do que efetivamente vem sendo feito? É absurdo esse tipo de prática jornalística, pois praticamente omite de um setor da população, cujo único meio de se manter informado é o telejornal, as medidas reais que vem sendo tomadas para se enfrentar o problema da Região Serrana.

Material para fazer uma reportagem ampla não faltou, afinal de contas a Presidenta concedeu uma entrevista coletiva e ainda fez um pronunciamento sobre o anúncio das novas casas. O JN poderia muito bem ter destacado a parceria altamente exitosa do governo federal com o Estado do Rio de Janeiro e as Prefeituras dos municípios atingidos pela catástrofe, além, é claro, da parceria com a iniciativa privada. Vale lembrar que essas 6 mil casas que serão construídas pelo governo federal serão doadas às famílias, uma vez que, semelhantemente ao Minha Casa, Minha Vida, o governo federal subsidiará quase que a totalidade do valor do imóvel. A parcela mensal de R$ 50 que o beneficiário geralmente paga pelo imóvel no Minha Casa, Minha Vida será quitada pelo governo do Estado.

Assim, o governo federal entra com a construção subvencionada das casas populares e o governo do Estado e as Prefeituras entram com a urbanização, desapropriação de terrenos em regiões seguras e toda infra-estrutura do terreno. Ou seja, havia muito que se falar nessa reportagem do Jornal Nacional, mas ao que tudo indica, se por um lado não faltava assunto, por outro faltava interesse. Essa diferença de tratamento por parte dos editores do JN entre pautas “negativas” e “positivas” para o governo beira o grotesco, pois além de serem descaradamente parciais, ainda brincam com a inteligência do telespectador, pensando que esse continua sendo massa de suas manobras.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Especulação imobiliária travestida de discurso ambiental ameaça moradores do Horto, no Rio

Desde meados dos anos 80, moradores da região do Horto Florestal, no Rio de Janeiro, começaram a sofrer com processos judiciais de reintegração de posse movidos pelo Jardim Botânico. A valorização dos imóveis na região do Jardim Botânico ao longo dos anos fez com que, nesses últimos meses, o conflito fundiário entre o Jardim Botânico e as centenas de famílias que vivem no Horto se intensificasse ao ponto de jornais como O Globo e parte da classe média carioca iniciarem uma verdadeira “cruzada” contra os moradores do Horto, taxando-os de “invasores”.

A realidade, contudo, é muito diferente daquela veiculada nas páginas do Globo ou ecoada por setores da classe média interessados na especulação imobiliária. A região do Horto passou a ser ocupada após a década de 50, quando a direção do próprio Jardim Botânico ofereceu aos vigias do parque moradias ali naquele entorno. A idéia era que as fronteiras do Jardim Botânico fossem permanentemente vigiadas, afastando o risco de crimes naquelas áreas. Aos poucos, a direção do Jardim Botânico estendeu aos outros funcionários do parque essa possibilidade de morar mais próximo ao seu local de trabalho, como bem descreve a historiadora e coordenadora do Museu do Horto, Laura Olivieri Carneiro de Souza:

“No final da década de 1950 o diretor Paulo Campos Porto convidou os funcionários do Parque e do Horto que residiam em sua maioria na região do Grotão, mas também nas Vilas operárias perpendiculares à Rua Pacheco Leão e em outras localidades, para construírem suas casas mais perto do trabalho. A própria administração do Jardim Botânico desenhou uma planta de assentamento de casas a serem doadas para aqueles trabalhadores, as quais foram levantadas com o suor de seus corpos e captação de materiais a partir de seu próprio sacrifício. O Jardim entrava apenas com a planta. Assim nasceu o Caxinguelê, essa localidade que faz limite com o Parque e que vem sendo estigmatizada socialmente como ‘invasora’ da cidade. Com a construção das casas, Juscelino Kubitschek fundou a Escola Municipal e os moradores fizeram o seu clube de esporte e lazer”.

Especulação imobiliária contra moradores do Horto
Essa descrição feita pela historiadora e fruto de um longo trabalho de pesquisa sobre a ocupação da região desmonta por completo a falácia difundida pelo Globo e por alguns setores da classe média de que os moradores do Horto seriam “invasores”. Ora, se o próprio Jardim Botânico lhes ofereceu a possibilidade de morar naquela região, então não há invasão alguma. O que acontece é que a partir dos anos 80, como dito anteriormente, a região passou a ser cada vez mais alvo da especulação imobiliária, esta sim o verdadeiro fator da cruzada contra os moradores do Horto. E é interessante destacar ainda que não são somente essas famílias de funcionários e ex-funcionários do Jardim Botânico que habitam aquela região: atualmente, o Horto é ocupado por várias fundações e também condomínios de classe média alta.

E agora o mais interessante: nem as fundações nem os condomínios luxuosos são alvos de quaisquer processos de reintegração de posse. Isso deixa muito claro o caráter elitista do discurso de quem defende a desapropriação dessas quase 600 famílias de classe baixa que vivem ali na região do Horto. Esse elitismo fica muito evidente em um artigo do jornalista Marcos Sá Correa, publicado em novembro pelo Globo. Beirando a boçalidade, Correa usa um discurso supostamente ambiental para esconder o que de fato existe por trás dessa luta contra os moradores do Horto. A própria ironia do título do artigo – “Que belo Horto para plantar favela” – já antecipa o tom elitista que o autor desfia nas linhas que o sucedem.

“Aquilo se chama Horto porque abrigou até meados do século passado talhões de mudas para reflorestamento. Eles constam de mapas do Ministério da Agricultura até meados da década de 1940. Suas alamedas tinham nomes de árvores. Era, então, um Horto ao pé da letra. A cidade perdeu-o. Ele foi surrupiado por administrações pródigas e funcionários espertos, depois por descendentes e colaterais de funcionários espertos, enfim por amigos e locatários de funcionários espertos. Qualquer um aproveitou a bagunça para se aboletar no jardim. O Jardim Botânico sequer fez a conta das casas que semeava. Seu número ainda varia entre 550 e 621. Há entre elas residências funcionais que ainda guardam os traços da arquitetura oficial. E também biroscas, garagens, oficinas e puxadinhos para acomodar famílias que procriam, parentes que chegam de longe e carros que não param de se multiplicar”.

Impressiona o tom de segregação e preconceito assumido nas palavras do jornalista do Globo ao tratar os moradores do Horto, que legitimamente ali se estabeleceram, como “invasores espertos”. O argumento de que a ocupação, especialmente na comunidade do Caxinguelê, ameaça as áreas verdes do Jardim Botânico e da própria Floresta da Tijuca cai por terra quando o próprio secretário executivo do Parque Nacional da Tijuca, Roberto Maggessi, sai em defesa dos moradores. Em carta enviada à Associação dos Moradores e Amigos do Horto, Maggessi explica que a comunidade do Horto jamais foi ameaça ao Parque, já que nem se situa em seus limites, mas sim na Zona de amortecimento, assim chamada por delimitar um espaço intermediário entre a cidade e a Floresta.

Visão progressista da SPU não agrada O Globo
E o mais interessante é que na lista de bobagens escrita pelo Globo, sobra até mesmo para a Secretaria de Patrimônio da União, que está intermediando o processo de regularização fundiária da região. O Globo não se conforma, na realidade, da mudança na orientação da SPU a partir de 2003, quando deixou de ser um mero órgão que catalogava propriedades da União para adotar uma postura sócio-ambiental na gestão do patrimônio da União. No mesmo artigo citado anteriormente, o jornalista Marcos Sá Correa atribui à SPU os atributos “militante e omissa”. Ora, o que o jornalista defensor da especulação imobiliária não percebe que é a SPU era omissa anteriormente; hoje em dia, ela adota uma postura totalmente progressista e em sintonia com o processo de democratização das instituições brasileiras. Assim diz Laura Olivieri Carneiro de Souza:

“A mediação desse conflito de interesses no Horto pela SPU está sendo conduzida com ideário progressista e atesta o processo de democratização das instituições que nosso país está vivenciando merecidamente. Isso incomoda uns poucos 'poderosos' que têm visto os seus planos ruírem ou serem ameaçados por uma comunidade pobre no pulmão da zona sul carioca, num cenário deslumbrante exatamente por ser o Horto Florestal e nada diferente desta identidade e desta territorialidade (Fonseca, 2008).

Gostariamos de chamar a atenção para o duplo absurdo que está sendo vendido aos leitores desse meio de comunicação: primeiramente a tentativa de inverter a historicidade da região, 'plantando uma favela' (para usar a própria metáfora utilizada no perverso artigo publicado no jornal O Globo do dia 19/11/10) à revelia da realidade socio-histórica de uma comunidade tradicional, tranquila, honesta e trabalhadora cuja memória social refere-se ao trabalho e remonta ao Brasil colonial, compondo-se do entrecruzamento de personagens e momentos relevantes da história nacional, como a instalação da alta nobreza setecentista no Solar da Imperatriz, a resistência quilombola, as históricas lutas de classe do período da industrialização nacional, a resistência comunista durante as ditaduras militares, etc.

O direito à moradia dos habitantes tradicionais do Horto está ancorado em ampla e diversa legislação, nacional e internacional, que lhes garante a permanência e a posse da terra. Esses direitos estão igualmente fundamentados na legitimidade que esses moradores possuem com relação à região que ocupam historicamente. Crime é tentar retirá-los de onde estão, visando loteamentos milionários que a especulação imobiliária cobiça construir. Isso sim ameaçaria todo o meio-ambiente em sua dialética dimensão socio-ambiental
”.

sábado, 20 de novembro de 2010

Documentos da ditadura frustram jornalões e enchem de orgulho eleitores de Dilma

O acesso ao processo militar da Presidente eleita Dilma Rousseff (PT), por meio de autorização do Supremo Tribunal Militar (STM) na última terça-feira,16, apesar de previamente comemorado pela Folha de São Paulo e O Globo não trouxe informações tão “quentes” quanto esperavam os jornalões. Desde a campanha eleitoral, setores da grande imprensa – capitaneados pela Folha – insistiam para ter acesso aos 16 volumes do processo militar que culminou na prisão de Dilma durante o regime militar, provavelmente esperando alguma “bomba” que pudesse alterar os rumos da eleição.

Por uma coerente decisão do Presidente do STM, Carlos Alberto Soares, o acesso dos jornais ao processo militar de Dilma foi negado durante as eleições, sob a justificativa de se evitar o uso político destes documentos durante o processo eleitoral. Após a decisão do STM desta semana, tanto a Folha quanto O Globo tiveram acesso aos documentos que, para desapontamento destes veículos, não trouxeram quaisquer informações novas sobre o passado de Dilma. Nenhuma participação em assassinatos, nenhum sequestro realizado, absolutamente nada que pudesse ser usado politicamente contra a Presidente eleita.

“Joana D’Arc da subversão”
O deleite ficou por conta mesmo de milhões de brasileiros que, ao lerem nas páginas desses jornais o conteúdo do processo militar de Dilma, ampliaram ainda mais o orgulho em relação à Presidente eleita. Afinal de contas, Dilma é descrita ali como a “Joana D’Arc da subversão” e isto, dito pelo aparelho repressor da ditadura militar que reinou no Brasil durante duas décadas, é um elogio bastante considerável. Agora, o trecho mais interessante do documento diz respeito a um depoimento de Dilma à Justiça Militar no dia 21 de outubro de 1970, em que a então guerrilheira do grupo VAR-Palmares explica aos militares porque aderiu à luta armada.

De acordo com parte do conteúdo revelada pelo jornal O Globo, o trecho do documento militar diz o seguinte: “que se declara marxista-leninista e, por isto mesmo, em função de uma análise da realidade brasileira, na qual constatou a existência de desequilíbrios regionais de renda, o que provoca a crescente miséria da maioria da população, ao lado da magnitude riqueza de uns poucos que detêm o poder e impedem, através da repressão policial, da qual hoje a interroganda é vítima, todas as lutas de libertação e emancipação do povo brasileiro. Dessa ditadura institucionalizada optou pelo caminho socialista”.

É extraordinário sabermos que nossa Presidente eleita, sob tortura física e psicológica, teve a grandeza e coragem de dizer aos seus algozes que optou pelo socialismo porque era contrária aos “desequilíbrios regionais de renda” existentes no país. É, neste sentido, tentador fazer um exercício e tentar imaginar a cena: a jovem Dilma, então com 22 anos de idade, sentada em uma cadeira e cercada por militares, olhando no olho deles e dizendo que fez a opção pelo socialismo porque era contrária à miséria crescente de uma maioria em contraposição à riqueza de poucos.

Coragem e compromisso com justiça social
Imaginem a coragem dessa jovem, que nem imaginava que um dia seria Presidente da República, ao dizer aos militares que a repressão policial do regime instituído por eles era responsável pela existência de tamanho abismo social e que por isso optou pelo caminho do socialismo. Não há como deixar de reverenciar as palavras de Dilma, ditas em um dos interrogatórios aos quais foi submetida pelos militares. E é aí que os grandes jornalões perderam mais essa batalha: se esperavam sensibilizar a população com algum suposto “crime” cometido por Dilma, sensibilizaram sim, mas na contramão, pois os documentos revelados essa semana mostram que desde jovem a nossa Presidente eleita tem uma sensibilidade social extraordinária.

Dilma, como jovem de classe média que era, poderia ter continuado seus estudos em Belo Horizonte sem jamais ter participado do movimento estudantil e da luta contra a ditadura militar. Poderia ter se casado, tido filhos e seguido um caminho que era “natural” para pessoas de sua condição social. Mas não. Dilma não fechou os olhos à nebulosa situação em que se encontrava o país: ela optou pelo caminho mais difícil – optou por lutar contra a censura, contra a ditadura, contra a opressão e contra toda e qualquer forma de abismo social. Ela, que é apontada pelos documentos como “uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais”, optou por lutar pela democracia no Brasil.

Como não reconhecer a contribuição valorosa de Dilma para a luta pela redemocratização do Brasil, se os próprios militares, em certa altura dos documentos, comentam a capacidade intelectual da ex-guerrilheira: “trata-se de uma pessoa de dotação intelectual bastante apreciável”. É confortante pensar que nosso país, a partir de 1º de janeiro, será governado por uma mulher que não fugiu à luta, que resistiu bravamente à opressão do regime militar e que, além de todas essas credenciais, tem um compromisso histórico com a luta em prol da justiça social. De fato, o Brasil não poderia estar em melhores mãos. Afinal, Dilma somos todos nós!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Touraine e os equívocos sobre o Brasil de Dilma

Principal teorizador da chamada “sociedade pós-industrial” e com uma grande contribuição à análise da dinâmica dos movimentos sociais, o sociólogo francês Alain Touraine naturalmente não está imune a equívocos na sua linha de pensamento. Isto fica bastante claro em uma entrevista dada pelo pensador, durante sua estada em São Paulo, ao jornal O Globo, publicada nesta segunda-feira, 15. Falando, em linhas gerais, das perspectivas para o Brasil e para o governo Dilma, Touraine comete alguns erros de interpretação, motivados, talvez, por seu distanciamento em relação à realidade do nosso país.

Defendendo a idéia de que tanto FHC quanto Lula têm igual importância na construção de um novo tipo de sociedade no Brasil, o sociólogo francês emenda que “não sabemos o que acontecerá daqui para frente”, argumentando que “a nova Presidente (Dilma) foi inventada por Lula”. A partir deste ponto, Touraine desfia uma série de avaliações equivocadas sobre um possível perfil do governo Dilma bem como sobre o próprio Partido dos Trabalhadores. Para o sociólogo, “o Brasil tem um longo passado de populismo e a ameaça persiste devido ao nível de desigualdade social extremamente elevado”. Abaixo, destacamos os principais equívocos no pensamento de Alain Touraine sobre o novo governo brasileiro:

“O perigo de um retrocesso [com Dilma] existe, até porque o passado do PT está longe de ser perfeito. Lula não foi autoritário, mas segmentos do PT o são”.
O primeiro grande equívoco de Touraine consiste em associar o PT a um maior risco de retrocesso no Brasil, argumentando que setores do Partido possuem tendências autoritárias. Ora, é fato conhecido por todos que a visão de que alguns setores do PT são autoritários é a versão vendida pela grande imprensa brasileira desde que o partido foi fundado, nos anos 80. Contudo, em nenhum dos governos petistas, seja na esfera municipal, estadual ou federal, houve quaisquer traços de autoritarismo. Muito pelo contrário, todos os governos do PT foram marcados por um profundo compromisso com a democracia. A própria rejeição do partido à idéia de um 3º mandato para Lula já deixa claro que o PT não compactua com autoritarismo ou populismo.

Além disso, Alain Touraine parece desconhecer o fato de que, ao longo desta campanha presidencial, as forças do retrocesso e do autoritarismo não se alinharam com Dilma, mas sim com o seu adversário, o tucano José Serra. Afinal de contas, a campanha de Serra contou com o apoio de forças como os monarquistas, a “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), além de setores mais conservadores da Igreja Católica, que todos juntos promoveram uma verdadeira “cruzada” contra a candidata do PT, levantando bandeiras extremamente conservadoras, como a questão do aborto. A aproximação de Serra com os setores ultraconservadores fica bastante clara em uma reportagem publicada pela revista IstoÉ dias antes do 2º turno das eleições.

A matéria da IstoÉ chegou inclusive a revelar documentos da regional Sul I da CNBB (estado de São Paulo) que orientavam os fiéis a não votarem em candidatos do PT. Enquanto Serra recebia o apoio dos setores mais conservadores, Dilma, ao contrário, recebeu o apoio de todos os setores progressistas da sociedade brasileira. Logo, é muito mais razoável que a possibilidade de retrocesso autoritário seria maior em um eventual governo Serra do que no governo Dilma, o que faz cair por terra a avaliação equivocada de Alain Touraine sobre incertezas acerca do comprometimento da nova Presidente com um governo amplamente democrático.

“A ideia de Dilma esquentar a cadeira por quatro anos para Lula também me desagrada. Em uma democracia, não pode haver presidente interino”.
Esta é outra falácia no pensamento de Touraine, expresso na entrevista dada pelo sociólogo ao Globo. É um grande equívoco acreditar que Dilma está simplesmente “esquentando a cadeira” para que Lula retorne em 2014. O próprio Presidente Lula já tratou inúmeras vezes de desmentir esse boato, reafirmando que é totalmente legítimo que Dilma, fazendo um bom governo, dispute novamente a Presidência e seja reeleita. Além disso, esse tipo de postura não condiz em nada com o perfil de Dilma, que jamais se prestaria ao papel de “segurar o lugar” para que Lula retornasse daqui quatro anos. Trata-se de um pensamento com grande teor machista que foi alardeado pela oposição ao longo da campanha e que, infelizmente, parece ter sido abraçado também pelo sociólogo francês.

“A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente, porque ela não tem experiência política”.
Outros dois grandes equívocos do pensador francês: 1) que não sabemos como será o governo de Dilma; 2) que Dilma não tem experiência política. Em primeiro lugar, embora seja impossível vislumbrar fatos que caracterizarão o governo Dilma, é bastante plausível trabalharmos com projeções de como será esse governo. Dilma não é Lula, mas representa o mesmo projeto político do Presidente e do seu partido. Logo, é de esperar que Dilma continue o trabalho iniciado no governo Lula e que aprofunde conquistas que foram obtidas nestes oito anos. Afinal de contas, foi exatamente devido a esta perspectiva de continuidade e avanço que 55 milhões de brasileiros depositaram nas urnas o voto em Dilma, elegendo-a a próxima Presidente do país.

Em segundo lugar, é totalmente equivocado dizer que Dilma não tem experiência política, haja vista que ela iniciou sua vida política ainda jovem, quando ingressou em grupos da esquerda clandestina para a luta contra o regime militar. Tendo sido presa e torturada, e após cumprir pena de três anos de detenção, acusada de “subversão”, Dilma iniciou sua vida pública no Rio Grande do Sul, onde foi inicialmente secretária das Finanças do então prefeito Alceu Colares. A partir daí, a nova Presidente ocupou sucessivos cargos gerenciais na administração pública, até chegar ao governo Lula, onde foi Ministra das Minas e Energia e, nos últimos cinco anos e meio, ministra-chefe da Casa Civil. Acaso isso não é experiência política?

Percebe-se, dessa maneira, que os pontos de vista de Alain Touraine sobre o novo governo, expressos em sua entrevista ao Globo, mostram-se bastante equivocados, já que não encontram consistência na realidade vista no Brasil, sobretudo ao longo da campanha eleitoral. Dizer que no governo Dilma o Brasil corre o risco de um retrocesso, por conta de um suposto autoritarismo do PT, é um exercício de futurologia totalmente desprovido de ligações com a realidade. Ao contrário do que diz o sociólogo francês, o governo Dilma deve ser marcado não pelo retrocesso, mas sim pelo avanço, pelo fortalecimento da democracia e pela continuidade das grandes conquistas do governo Lula, sem nenhum viés populista.

domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre tucanos e lobos: a visão elitista e retrógrada do presidente do PSDB

Elitismo, preconceito e contradição são elementos recorrentes na entrevista dada pelo presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, ao jornal O Globo, publicada neste domingo, 14. Além de fazer um balanço do processo eleitoral, que culminou na terceira derrota consecutiva do PSDB na disputa pela Presidência da República, o tucano fala do futuro da oposição e deixa escapar, de maneira bastante evidente, a visão bipartite (e bastante equivocada, por sinal) que tem da sociedade brasileira.

Defendendo uma reestruturação do PSDB, Guerra diz ao Globo que o partido “deve ser reconstruído e ganhar um caráter nacional, reestruturando não apenas seu pensamento, mas também a sua linguagem, ganhando organização e conteúdo para que o partido seja mais forte do que as pessoas”. Mais à frente, o senador emenda: “a impressão é que o partido é comandado por um pequeno grupo, ainda que de excelente qualidade. Quanto mais abrir para a participação, colaboração, melhor. Há clara falta de sintonia entre o partido e setores sociais emergentes e organizados, que não têm canal com o PSDB”.

Até aí, nada de mais. A auto-crítica feita pelo presidente do PSDB mereceria até elogios, não fosse o trecho seguinte da entrevista, no qual Guerra contradiz totalmente essa “reestruturação” de pensamento e linguagem defendida anteriormente. Vejamos o que diz o tucano quando o repórter do Globo o questiona sobre quais setores sociais o líder do PSDB falara na questão anterior. “O PSDB ganhou as eleições nos centros brasileiros. Foi a regra. Perdeu as eleições nos grotões, nas áreas menos críticas do país. Não falo do Nordeste contra Sul, nem do Sudeste contra o Centro-Oeste. Em todas as regiões, este fato se deu. O eleitorado mais dependente, menos crítico, votou no PT. O mais crítico e menos dependente tende a votar no PSDB”, afirmou Guerra.

Prepotência, elitismo e preconceito
A resposta dada pelo presidente do PSDB é de uma prepotência sem limites, já que rotula o perfil do seu eleitorado e do eleitorado petista de acordo com critérios bastante discutíveis, como “dependência econômica” (possivelmente se referindo aos programas sociais do governo federal) e “capacidade crítica”. O senador chega ao cúmulo de desqualificar os eleitores do PT ao afirmar que “o eleitorado mais dependente, menos crítico, votou no PT”, salientando ainda que, ao contrário destes, os eleitores mais críticos e menos dependentes votaram no PSDB. Além de se tratar de uma visão totalmente elitista e preconceituosa, a afirmação de Sérgio Guerra é totalmente equivocada e desprovida de fundamentos.

Cabe aqui a pergunta: como o presidente do PSDB fala em reestruturação do pensamento e da linguagem do partido se logo em seguida ele próprio se contradiz e recorre a uma visão totalmente retrógrada para explicar a derrota tucana nas urnas?. Além disso, é de uma pretensão muito grande do líder tucano dizer que “quem é menos crítico votou no PT e quem é mais crítico votou no PSDB”. Em primeiro lugar, basta nos lembrarmos da extensa lista de apoiadores da candidatura de Dilma no meio artístico e intelectual. Ou será que Sérgio Guerra acha que figuras como Chico Buarque, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer, Marilena Chauí, dentre tantos outros, são de fato “menos críticas” só porque votaram em Dilma?

Em segundo lugar, vamos convir: é de um profundo elitismo associar baixo nível de renda (Sérgio Guerra usa a expressão “mais dependentes”) a menor nível crítico. O eleitorado brasileiro, incluindo a parcela de menor renda da população, está a cada eleição que passa mais crítico e menos propenso a ser “massa de manobra” deste ou daquele grupo político. Prova disso é a cultura do segundo turno que vem se consolidando na disputa presidencial ao longo das três últimas eleições. Por mais que a população brasileira aprove (ou não) determinado governo, ela quer ter uma segunda oportunidade para refletir e comparar os projetos, para somente então referendar sua decisão.

Outra coisa: o presidente do PSDB se equivoca ao dizer que 56% dos eleitores votaram em Dilma porque são “mais dependentes e menos críticos”. Pelo contrário, a eleição de Dilma – que até o início deste ano era pouco conhecida dos brasileiros – mostra uma reflexão bastante sofisticada do eleitor brasileiro, que ao longo do processo eleitoral, comparou os projetos apresentados e optou pela continuidade do governo Lula. Aqui cabe explicitar: o fato de Lula transferir voto para Dilma não quer dizer que o eleitor votou na petista só porque gosta ou simpatiza com Lula. Existe uma razão anterior para isso. Ou será que Guerra pensa que se o governo Lula não tivesse trazido benefícios concretos para a população, o presidente teria feito sua sucessora?

É por isso que é uma vitória do projeto político: porque os 55 milhões de brasileiros que votaram em Dilma tomaram sua decisão de voto levando em conta os benefícios diretos que constataram em suas vidas ao longo desses anos e não porque foram manobrados pelo presidente. Logo, é um tanto pretensioso da parte do senador Sérgio Guerra desqualificar esses votos através da alcunha de “mais dependentes” e “menos críticos”. Percebe-se, dessa maneira, que embora o PSDB venha falando de reestruturação e até mesmo de refundação, seus quadros parecem continuar ligados ao que há de mais conservador e retrógrado em termos de pensamento, corroborando o velho jargão popular, de que “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O ENEM e os diferentes pesos e medidas da grande imprensa

Se um extraterrestre, que nunca teve nenhum tipo de informação sobre a Terra e, muito menos, sobre o Brasil, chegasse nestes últimos dias ao nosso país e tentasse obter informações através dos nossos grandes jornais e emissoras de TV, certamente seria mais um dos que engrossam o coro de críticas ao ENEM – o Exame Nacional do Ensino Médio. Isto porque a grande imprensa tem feito sistematicamente nos últimos tempos um exercício de desconstrução do Exame, que além de ser um poderoso instrumento de avaliação do ensino médio, ainda serve como caminho para milhares de estudantes ingressarem em uma IES (Instituição de Ensino Superior).

Bastou uma falha de proporção residual no último sábado (dia 6 de novembro), quando foi aplicada a primeira etapa do Exame, para que uma enxurrada de críticas ao ENEM, ao ministro da Educação Fernando Haddad e ao governo Lula tivesse início. Antes de seguir, cabe aqui fazer uma ressalva: este blog não tem nenhum tipo de complacência com erros e falhas, defendendo sempre uma postura crítica às mesmas. Ou seja, o questionamento que se faz aqui ao comportamento da imprensa sobre o episódio do ENEM não se dá em função das críticas às falhas ocorridas no ENEM no último final de semana, mas sim ao super-dimensionamento dado a estas falhas.

Falha atingiu apenas 0,006% das provas
De acordo com informações do MEC (Ministério da Educação), a falha de impressão nos cadernos de questões ocorrida no último sábado atingiu um lote de apenas 21 mil provas, em um universo de 3,5 milhões de estudantes que participaram do ENEM. Se fizermos os cálculos, veremos que o lote com falha corresponde à incrível (!) parcela de 0,006% do total: ou seja, em 99,94% dos casos, os cadernos de questões estavam totalmente corretos. Considerando que boa parte desses cadernos com falhas foram trocados por outros, estes corretos, ainda durante os primeiros minutos da prova, apenas 2 mil estudantes foram prejudicados pelo erro da gráfica.

Refaçamos então os cálculos: foram prejudicados 2 mil estudantes dentro de um universo de 3,5 milhões, correspondendo à cifra de 0,0006%, o que deixa claro o super-dimensionamento da falha que vem sendo praticado por boa parte da imprensa brasileira. É claro que o Ministério da Educação terá que encontrar uma solução para que estes 2 mil estudantes que foram prejudicados na primeira etapa do Exame não sejam mais prejudicados ainda para posterior seleção nas IES. E neste ponto é justo que a imprensa faça a devida cobrança. Por outro lado, transformar uma falha pontual em uma “crise”, como foi apregoado pelo blog do Reinaldo de Azevedo, na revista Veja, é um pouco demais!

Deve-se destacar o quão importante tem sido o aperfeiçoamento do ENEM ao longo dos últimos anos, sobretudo no que diz respeito à democratização do acesso ao ensino superior. Afinal de contas, o Exame Nacional do Ensino Médio é um dos principais critérios utilizados pelo ProUni para concessão de bolsas de estudo a milhares de estudantes de baixa renda, que sem esse auxílio do governo federal não teriam condições de freqüentar uma universidade. Dizer, portanto, que existe uma “crise” no ENEM só pode ser explicado por duas razões: desconhecimento sobre o Exame ou então pura má-fé mesmo! Se formos nos basear nessa lógica – a de transformar pequenas falhas em grandes crises – então a imprensa brasileira está perdida, pois vive numa crise monumental há muito tempo.

Dois pesos, duas medidas
De qualquer forma, essa cobertura oportunista que vem sendo dada pela grande imprensa ao episódio do ENEM nos mostra que o embate dos grandes veículos de comunicação com o governo federal nos próximos anos só tende a aumentar. Engana-se quem pensa que a grande luta com a imprensa golpista foi travada na arena da sucessão presidencial: muito pelo contrário, ao que tudo indica a grande imprensa fará o jogo da oposição de forma contundente ao longo de todo governo Dilma. Veja, Globo, Estadão, Folha e Cia não engoliram a derrota nas urnas que sofreram há 10 dias, o que nos faz pensar que a cobertura descaradamente parcial só tende a aumentar nos próximos anos.

Isso fica muito claro quando essa grande mídia super dimensiona uma pequena falha ocorrida no ENEM e esconde, por exemplo, o escândalo da licitação do metrô de São Paulo, denunciado na última semana do segundo turno das eleições presidenciais. Por que os jornais e revistas não dão ao escândalo de favorecimento nas licitações do metrô de SP o mesmo destaque dado a esta pequena falha ocorrida no ENEM? Sejamos claros: o que é mais importante do ponto de vista jornalístico – uma falha que afeta 0,0006% dos estudantes que prestaram o ENEM ou um esquema denunciado pela própria Folha de São Paulo que teve acesso seis meses antes do anúncio oficial pelo Metrô de SP aos vencedores da licitação para a Linha 5?

Por que é tão recorrente esta prática da grande imprensa de inflar pequenas falhas ocorridas na gestão petista e jogar debaixo do tapete grandes erros ocorridos em governos tucanos? Não se trata de justificar um erro pelo outro, mas sim de dar o devido peso a cada falha. É inadmissível, como dito anteriormente, que uma pequena falha que não atingiu nem 1% dos estudantes que prestaram o ENEM se transforme agora em uma “crise” de proporções homéricas na educação brasileira, como quer fazer parecer a grande imprensa. Longe de querer pedir imparcialidade, o que este blog pede à grande imprensa é o mínimo de coerência.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quando até a velha imprensa admite cenário de favoritismo para Dilma

A infindável demora para escolha do vice de José Serra e a crise instaurada em sua base de apoio, em decorrência dos desentendimentos entre DEM e PSDB na última semana, deram à campanha da oposição um ar de derrota prenunciada. No entra e sai de vices para Serra, uma coisa parece certa: a escolha de Índio da Costa, deputado federal pelo DEM-RJ em seu primeiro mandato, ocorreu muito mais no sentido de ceder às pressões do DEM pela vaga da vice do que um desejo propriamente dito de Serra. Basta lembrar que, antes da escolha, o candidato tucano só tinha visto o seu atual vice uma única vez.

E o interessante, terminado todo esse processo esquizofrênico de escolha do vice de Serra, que nem a tradicional imprensa, acostumada a apoiar incondicionalmente a oposição, conseguiu esconder o que já é bastante óbvio: que a campanha tucana vai de mal a pior. Dois grandes jornais a serviço do demo-tucanato – a Folha de São Paulo e O Globo – trouxeram nesta quinta-feira, 1º de julho, análises que mostram o que as pesquisas de intenções de voto têm traduzido em números: um cenário de amplo favoritismo para a candidatura da petista Dilma Rousseff. A saber, tanto Ibope quanto Vox Populi mostram a ex-ministra com 40% das intenções de voto, à frente do tucano, que tem 35%.

Artigo do Globo admite que situação de Serra pode piorar
De acordo com a análise do cientista político Murillo de Aragão, reproduzida no Blog do Noblat nesta quinta-feira, “a situação, ao final de junho, confirma as expectativas que tínhamos tanto quanto ao desempenho de Dilma quanto ao seu favoritismo. No momento, as melhores chances de Serra estão em levar a disputa para o segundo turno e tentar reverter a liderança de Dilma, cooptando votos que irão para Marina Silva no primeiro turno”. Nas entrelinhas podemos perceber que há um pessimismo não declarado em relação à candidatura de Serra: ainda que ele consiga levar a disputa para o segundo turno, ele terá que batalhar pelos votos que foram dados a Marina e ainda não se sabe quais são as chances dele receber de fato esses votos.

Aragão destaca como pontos positivos para a candidatura governista o fato de que “o PMDB fechou com Dilma e a coalizão resolveu o principal problema de entendimento entre os partidos em Minas Gerais. O PP – após flertar com Serra – decidiu pelo apoio informal a Dilma. Vinte diretórios do partido vão apoiar a candidata governista. Aécio Neves não topou a candidatura a vice na chapa com Serra. Pior, a escolha se arrastou por junho e terminou em conflito entre o PSDB e o DEM. Ainda a favor de Dilma, a popularidade de Lula é ampla e sólida, e o desempenho da economia continua muito positivo”. O artigo salienta também que “José Serra, pelo seu lado, além de perder a liderança, provocou um conflito com o DEM pela escolha de Álvaro Dias (PSDB/PR) para ser seu vice”.

E se o leitor pensa que o artigo do Globo admite chances de Serra voltar à liderança, engana-se. A análise do cientista político Murillo de Aragão sentencia que “aparentemente, a situação ainda pode piorar para Serra ao longo de julho. Após a Copa do Mundo, o Brasil se voltará com mais atenção para o processo eleitoral. Com a campanha oficialmente em curso, Lula poderá ser mais enfático em seu apoio a Dilma. Ou seja, sem fato novo e extraordinário, as tendências apontam para a consolidação da liderança de Dilma na abertura oficial da campanha”. Jogando uma pá de cal na esperança da oposição, Aragão destaca que “historicamente, quem lidera a pré-campanha tende a ganhar as eleições. Foi assim desde a eleição de Fernando Collor. De acordo com o Ibope, Dilma estaria a 3,3 pontos de liquidar a campanha em primeiro turno. O que antes parecia impossível, já passa a ser possível, ainda que não seja provável”.

Na Folha, Josias de Souza critica erros do PSDB
E até a Folha de São Paulo, quem diria, não poupou críticas à condução da campanha demo-tucana. O jornalista Josias de Souza publicou um texto nesta quinta-feira chamando a condução da escolha do vice por Serra de um “processo de autofagia cibernética”, afirmando que “envolto em atmosfera de volúpia e traição, o presidenciável tucano converteu a escolha de seu vice num striptease autofágico”. A massiva exposição da crise na base de apoio de Serra pesou, segundo Josias de Souza, de forma negativa sobre os rumos da campanha oposicionista. O jornalista lembrou como as relações entre DEM e PSDB foram abaladas e a dimensão que o fato ganhou sendo exposto na internet.

“Com a alcova sob holofotes, Serra portou-se com inocência inaudita. Imaginou que o DEM aceitaria o papel de mulher traída que evita um rompimento em nome da integridade da família. Esqueceu-se de que lidava com uma sigla que assumiu o poder logo após as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportarem em Porto Seguro”, anunciou o artigo de Josias de Souza, para em seguida dirigir suas críticas de forma mais veemente à forma com a qual Serra conduziu todo o processo. Chamando o PSDB de “uma agremiação de amigos integralmente composta de inimigos”, Josias de Souza afirmou que “o DEM é um partido razoavelmente coerente” se comparado aos tucanos.

Segundo Josias de Souza, “dono de estilo ‘indiocentrista’, Serra imaginou-se capaz de trafegar pela selva de sua coligação com distanciamento de antropólogo”. E assim como o cientista político Murillo de Aragão sentenciou em seu artigo publicado no Globo, Josias de Souza revelou um pensamento similar, ao dizer que “no Big Brother do tucanato, os morubixabas do DEM levaram Serra não ao paredão, mas ao caldeirão. Obrigaram-no a regurgitar Álvaro Dias e atravessaram-lhe Indio da Costa na traqueia. De erro em erro, Serra virou uma espécie de bispo Sardinha da era da internet. Em autofagia pública, foi mastigado pelos caetés do DEM à luz do twitter”.

Percebe-se, dessa maneira, que a cinco dias do começo oficial da campanha, marcado para 6 de julho, a própria imprensa, que sempre procurou dar sobrevida à campanha demo-tucana, mesmo em seus piores momentos, parece ter perdido seus argumentos. Talvez até mesmo porque se insistisse muito na idéia de que tudo vai bem para a oposição, além de perder a campanha política poderia perder mais ainda sua credibilidade. Não é exagero, neste sentido, afirmar que se a própria velha imprensa admite um cenário nebuloso para a campanha de Serra é porque de fato as coisas para a oposição estão piores do que eles gostariam que estivessem.

domingo, 13 de junho de 2010

O Jornal Nacional e a propaganda descarada da Vênus Platinada para Serra

Se alguém tinha alguma dúvida sobre de que lado a Globo está nestas eleições, certamente esta dúvida foi sanada na noite deste sábado, 12, quando o Jornal Nacional fez uma propaganda descarada para o tucano José Serra a pretexto de cobertura da convenção do PSDB que oficializou sua candidatura nesta manhã. Como qualquer veículo de comunicação que se preze, naturalmente a Globo, através de seu telejornal de maior audiência, teria que noticiar a convenção tucana. Até aí nada de mais, não fossem dois pontos problemáticos: o amplo tempo que durou a matéria e a forma com a qual foi apresentada, destacando os “melhores” pontos da convenção, se é que houve de fato algum ponto melhor.

A matéria começou relatando as convenções do PDT e do PMDB, que oficializaram neste sábado o apoio à candidatura da petista Dilma Rousseff, apresentando a ex-ministra nos dois eventos. Este trecho durou 41 segundos. Em seguida, o Jornal Nacional começou a apresentar trechos da convenção do PSDB, dedicando nesta parte da matéria nada menos que 4 minutos e 51 segundos, ou seja, sete vezes mais tempo do que aquele destinado à cobertura das convenções dos partidos aliados a Dilma. A matéria do Jornal Nacional exibiu parte do discurso do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, em que ele acusa o PT e a campanha de Dilma de estarem produzindo “dossiês” contra Serra, e também uma parte do discurso do ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

Em seguida, passaram a apresentar partes do discurso de Serra, em que ele fala de sua infância pobre em São Paulo. Não bastasse isso, a edição do Jornal Nacional ainda fez propaganda das “propostas” apresentadas por Serra ao longo da convenção, tendo o cuidado de produzir infográficos em formato de “cadernos”, que traziam os principais pontos ditos por Serra abaixo do símbolo do PSDB. Ora, se isso não for propaganda descarada em favor da candidatura tucana, que outro nome então se pode dar? Afinal de contas, havemos de convir que a matéria não seria prejudicada se tais infográficos não fossem apresentados. Porém, a partir do momento que o jornal se dispõe a apresentar essas “propostas” é porque a Globo caminha cada vez mais para um posicionamento descarado, ignorando a suposta bandeira da imparcialidade jornalística.


Globo procura compensar menor tempo de TV de Serra?
A pergunta que vem imediatamente à cabeça do telespectador mais atento do Jornal Nacional é a seguinte: estaria a Rede Globo pretendendo fazer uso de seus telejornais para compensar o menor tempo de propaganda partidária na TV da coligação de José Serra? Sim, porque a impressão que se tem é justamente essa: de que a emissora dos Marinho quer alongar o escasso tempo de televisão do PSDB, de forma a usar seus telejornais para que “propostas” de Serra possam ser apresentadas aos eleitores. Seria uma maneira astuta de compensar a desvantagem que o tucano terá em suas aparições nas propagandas de rádio e televisão, não bastando o imenso favorecimento que Serra já tem por parte da imprensa escrita, que usa suas páginas para produzir noticiário pró-Serra e anti-Dilma na maioria das vezes.

Estivesse essa hipótese equivocada, o que explicaria então o fato do Jornal Nacional conceder um tempo sete vezes maior a Serra do que a Dilma em sua edição desse sábado? Especialmente levando-se em conta de que no domingo não há Jornal Nacional e o Fantástico, jornalístico que é exibido pela Globo na mesma faixa de horário, não tem a mesma audiência que o telejornal noturno exibido de segunda-feira a sábado pela emissora. Ainda assim, cabe outra questão: será que a Rede Globo dará esse mesmo espaço – de 4 minutos e 51 segundos – para uma matéria no Fantástico deste domingo, 13, quando será realizada a convenção do PT, que oficializará Dilma candidata do partido?

Em caso positivo, a equipe de jornalismo do Fantástico terá o mesmo “zelo” que a equipe do Jornal Nacional para apresentar as propostas de Dilma? Será mesmo que serão feitos infográficos com os principais pontos da proposta da petista, devidamente categorizados por temas, e com uma estrelinha do PT no alto das páginas dos caderninhos? À primeira vista, isso pode até parecer irrelevante, mas não é, pois o que o Jornal Nacional fez neste sábado foi aplicar técnicas de marketing eleitoral dentro de uma matéria aparentemente de cunho jornalístico. Um eleitor neutro que viu a reportagem neste sábado da convenção do PSDB e que veja a matéria da convenção do PT – se é que haverá reportagem sobre o ato – tende a ficar mais “pendido” para o lado tucano se a matéria sobre a convenção do PT não tiver o mesmo cuidado gráfico que a da convenção do PSDB.



Ou seja: há que se prestar atenção não somente no tempo que a Globo destinará à convenção do PT no seu noticiário de domingo, mas também à forma como será noticiado o ato político que oficializará a candidatura de Dilma. O que se percebe, dessa maneira, é que cada vez mais a grande imprensa assume, se não posturas condenáveis do ponto de vista da ética jornalística, práticas que podem comprometer a sua imagem junto ao público, haja vista que o mesmo tratamento dado a uma candidatura pode ser cobrado por outra que se sinta lesada ou prejudicada. O mínimo que se espera neste caso é que uma emissora que já errou gravemente no passado, quando do episódio da edição do último debate as eleições de 1989, tenha cuidado para não privilegiar uma campanha em detrimento da outra. Em se tratando da Globo, o melhor a fazer é sempre ficar atento.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os filhotes da ditadura, por Emir Sader



A TV Globo surgiu no auge da ditadura militar, quando assinou um acordo com a Time-Life para instaurar seu canal de televisao no Brasil, que rapidamente se tornou o órgão oficial da ditadura militar. Gozando do monopólio de fato e das graças do regime mais brutal que o país conheceu, fundado no terrorismo de Estado, conquistou a audiência que lhe permitiu consolidar-se economicamente.

Terminada a ditadura – contra as resistências da própria Globo -, a empresa foi pega em flagrante no caso da Proconsult, tentando fraudar a vitória de Brizola nas eleições para governador, em 1982, assim como tentou desconhecer a campanha das diretas e aquela pela derrubada do Collor (seu candidato). Revelava como não tinha mudado desde os tempos da ditadura.

Nascida das entranhas da ditadura militar, apoiada em um acordo com uma empresa emblemática do império estadunidense, o jornal principal da empresa, O Globo, não poderia ser outra coisa, senão o que é: um órgão sem nenhuma credibilidade. “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo” – persegue a todos os funcionários da empresa da família Marinho. A morte do patriarca – amigo íntimo e sócio de ACM, como herança dos tempos da ditadura – tornou ainda mais grotesca a empresa, porque nenhum dos filhos revela qualquer capacidade para dirigir a empresa do pai, acelerando seu mergulho na decadência, sem nunca ter conseguido superar a falta de credibilidade. Um jornal que tem em Ali Kamel, Merval Pereira e Miriam Leitão como seus principais expoentes, não poderia mesmo nunca conquistar credibilidade alguma.

O que a empresa conseguiu foi comprar uma série de artistas, que conseguiram espaço para repetir o que os donos da empresa desejam, sem nenhuma credibilidade. Um ex-diretor de cinema tentou retomar o caminho de Paulo Francis, foi para a sede da Time-Life, mas fracassou estrepitosamente, refugiando-se na amargura de lamentar que o Brasil saiu das mãos dos seus patrões para cair nas de um retirante nordestino.

Outros funcionam como penosos escribas preenchendo lamentavelmente as páginas do jornal e os espaços da televisão, para tentar ser os lacerdistas – os corvos – de hoje. Um ex-jornalista, em fim de carreira, também se tornou assalariado dos Marinhos, que lhe dão espaço para atacar a esquerda, defendendo o ponto de vista da empresa favorita da ditadura, agora querendo posar de democrática.

E o que mais agrada os patrões do que atacar o MST, Cuba, Venezuela, Lula, a esquerda? E defender a empresa, em situação econômica periclitante, atacando a generalização da banda larga para todo o país? Ainda mais alguém especialmente desqualificado para falar de um tema tão importante para a inclusão tecnológica, a superação das desigualdades sociais e para a democratização da formação da opinião pública. Mal pode disfarçar, com agressões grosseiras, o nervosismo que medidas como essa provocam na empresa da família Marinho.

Triste fim de gente que termina suas carreiras como ventríloquos dos descendentes da família Marinho, como filhotes da ditadura, que ainda não sabem que “o povo não é bobo”, povo que sabe que “Globo e ditadura, tudo a ver”. É o desespero de continuar sem conseguir eleger seus candidatos, nem na cidade do Rio de Janeiro, nem no Estado do Rio de Janeiro, nem no Brasil, revelando como estão na contramão do povo do Rio e do povo do Brasil.

(Emir Sader é sociólogo)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A "comovente" solidariedade da imprensa demo-tucana à Vênus Platinada

Foi só a Vênus Platinada tirar do ar o patético jingle exibido na noite de domingo, 18, que trazia uma mensagem subliminar pró-Serra disfarçada de vídeo comemorativo do aniversário da emissora, que a imprensa defensora do demo-tucanato se doeu toda. Vozes do conservadorismo demo-tucano e da mídia que o apóia saíram em defesa da Globo, acusando o PT e a campanha da Dilma de estarem “censurando” a emissora. Ora, há uma nítida inversão de papéis aí.

Primeiro, porque as críticas não partiram do PT ou do comando da campanha de Dilma, mas sim de muitos petistas e simpatizantes. Segundo, porque a peça que a Globo colocou no ar possuía sim uma mensagem subliminar favorável ao tucano: ou não lembra o slogan de Serra “o Brasil pode mais” o trecho do jingle que diz “todos queremos mais. Educação, saúde e, claro, amor e paz. Brasil? Muito mais”? Acreditar que isso foi uma coincidência – como quis dizer a Rede Globo – é no mínimo muito inocente, ainda mais vindo de uma emissora tendenciosa como o Plim-Plim!

A emissora defendeu-se, dizendo que o texto do vídeo foi produzido em novembro de 2009, quando “não existiam nem candidaturas muito menos slogans”, mas que ainda assim “a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação do filme”. Bastou a Globo tirar o vídeo do ar e a oposição passou a vociferar contra o PT, acusando o partido de “autoritário”. A primeira voz do demo-tucanato a aparecer foi a do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO).

Imprensa e demo-tucanos atacam o PT
O demo Caiado escreveu, em sua página do serviço de microblog Twitter, que “agora vejo que a Globo foi coagida pelo PT a tirar a campanha dos seus 45 anos. A pesquisa mexeu muito com as ideias dos petistas”. O deputado ainda acrescentou que “daqui a pouco Dilma diz que Roberto Marinho lançou a TV há 45 anos de forma calculada. É muita falta do que fazer”, se referindo às críticas feitas contra a pela como “Chavismo do PT aflorado” e “censura”.

E nesta terça-feira, 20, foi a vez do colunista Josias de Souza, da Folha de São Paulo, sair em defesa da Vênus Platinada: em seu blog ele escreveu que “quando as patrulhas começam a enxergar fantasmas em inofensivos vídeos comemorativos, é porque o país está maduro para a carnificina ideológica”. Inofensivos vídeos? Carnificina ideológica? Chavismo? Censura? Pelo visto a imprensa e o demo-tucanato estão invertendo de vez os papéis e confundindo os conceitos de liberdade de expressão com censura.

Comecemos pelo fato de que os vídeos não têm nada de inofensivos – eles fazem alusão clara ao slogan tucano. Aliás, a Globo já havia deixado claro sua campanha escancarada ao tucano José Serra desde a edição do Jornal Nacional do dia 10 de abril, quando o programa dedicou um bom tempo à festa de lançamento da pré-candidatura do tucano, ocorrida naquela manhã. Sem contar que o Jornal Nacional chegou a exibir, naquela ocasião, uma apresentação em que trazia as propostas de Serra em caderninhos com o logotipo do PSDB, conforme pode se ver na figura abaixo.


Oposição menospreza a democracia
Portanto, não venha a imprensa dizer que o vídeo “comemorativo” da Rede Globo é inocente, pois dessa inocência ele passa longe. Além do mais, o fato de se criticar essa mensagem subliminar não representa, em hipótese nenhuma, algum tipo de censura: pelo contrário, é um ato legítimo garantido pelo Estado democrático. Ou o deputado Caiado e o colunista da Folha acreditam que tudo que a Globo ou outras mídias fazem não pode ser criticado? Pois a visão deles é essa – quem critica uma ação da imprensa, está censurando!

Nada mais ridículo e incoerente do que este pensamento, pois mostra que as pessoas que assim agem – estas sim – defendem o pensamento único, ditado por elas e pela imprensa a seu serviço. Em sua página do Twitter, Marcelo Branco, coordenador de campanha nas redes sociais da pré-candidata petista Dilma, declarou nesta manhã que “liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos. Criticar um artigo ou peça publicitária é uma forma legítima de manifestação da liberdade de expressão. Isso não é censura!”.

Branco ainda acrescentou: “Enquadrar a liberdade de expressão, mesmo que crítica a publicações de terceiros, como censura, é um menosprezo com a democracia”. E é exatamente isso que os demo-tucanos e a grande imprensa fazem: eles menosprezam a democracia e não aceitam críticas. Qualquer um que critique o modu operandis deles é logo taxado de “autoritário”. De qualquer forma, o que importa é que a Vênus Platinada percebeu que o povo está atento e não aceitar qualquer tipo de manipulação ou informação tendenciosa!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Petiscos do dia - 19 de abril


Dilma lança seu blog em evento positivo com internautas: a pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, lançou na tarde desta segunda-feira, 19, o seu blog pessoal e seus perfis nas redes sociais Orkut e Facebook. A atividade durou cerca de 40 minutos e foi transmitida ao vivo por streaming, sendo acompanhada por nada menos que 4.437 conexões simultâneas, um número bem elevado para este tipo de evento.

Dilma respondeu perguntas de internautas, ao lado de Marcelo Branco, coordenador da campanha da petista pela internet, e de Helena Chagas, também coordenadora da pré-campanha. Segundo a ex-ministra, ela espera realizar esses encontros virtuais uma vez por semana: “toda semana, talvez não uma hora, talvez um pouco menos, eu quero fazer esse diálogo”, acrescentando “eu tenho certeza que vai ser um canal de comunicação entre nós”.

A pré-candidata falou sobre a participação das mulheres na política, sobre a necessidade do combate ao avanço do crack e também sobre questões relacionadas à inclusão digital e banda larga, além do software livre. Perguntada por um internauta se gostava de novelas, Dilma disse que sim, mas que andava sem tempo para ver. Após a atividade com os internautas, a pré-candidata do PT concedeu uma coletiva à imprensa.

Perguntada por repórteres se Serra agia como “lobo em pele de cordeiro” ao dizer que o PAC não passava de uma lista de obras, Dilma comparou o pré-candidato tucano a “uma biruta de aeroporto, porque cada dia é de um jeito”. A ex-ministra ainda disparou: “Lamento que ele fale isso quando voltamos a financiar Estados e municípios de forma exemplar, voltamos a investir o Orçamento Geral da União em municípios e Estados da federação”.

Lula defende direitos indígenas em Raposa Serra do Sol: o presidente Lula participou nesta segunda-feira da comemoração do Dia do Índio na reserva de Raposa Serra do Sol, em Roraima, que foi palco de um conflito entre agricultores e índios por ocasião da demarcação de terras indígenas na região. Lula destacou que interessa muito ao governo federal o desenvolvimento econômico de Roraima, mas respeitando os direitos indígenas.

“Passamos 6 milhões de hectares do governo federal para o estado de Roraima para que a gente pudesse dar terra para quem quisesse trabalhar, sobretudo para pequenos e médios proprietários porque a nos interessa que Roraima seja desenvolvido, cresça economicamente sem tirar o direito dos índios viverem tal como eles queiram viver”, declarou o presidente. O presidente também relembrou que ele e o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foram “demonizados” por agricultores na época da demarcação das terras.

“Era como se nós fôssemos o demônio, porque diziam que iríamos tirar a terra que Roraima precisava para produzir. Um estado com tanta terra ainda sem produzir e alguns queriam exatamente a terra que não era deles, que era dos índios”, afirmou Lula. De acordo com o Blog do Planalto, antes da cerimônia, Lula se reuniu com lideranças indígenas, recebendo os agradecimentos pela demarcação contínua das terras indígenas e também algumas reivindicações: “com uma mão eles me entregaram um documento agradecendo e com a outra entregaram outros 20 documentos reivindicando”, afirmou o presidente.

Globo tira do ar jingle com mensagem pró-Serra: após um jingle em comemoração aos 45 anos da Rede Globo, exibido desde a noite de domingo, gerar muita polêmica por conter uma mensagem subliminar pró-Serra, a emissora decidiu tira-lo do ar nesta segunda-feira. No vídeo veiculado, aparecem atores, jornalistas e apresentadores da emissora e, em um determinado momento, a mensagem: “todos queremos mais. Educação, saúde e, claro, amor e paz. Brasil? Muito mais”!

De acordo com Marcelo Branco, coordenador de campanha da internet da pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, a mensagem tinha um componente subliminar pró-Serra, já que o slogan de campanha do tucano é justamente “O Brasil pode mais”. Diante de toda esta polêmica, a Globo deixou de exibir o jingle em sua grade de programação e também retirou do ar a página que hospedava o vídeo. Segundo informações da Folha Online: “a página da emissora que mostrava a propaganda também saiu do ar. Quem clica nela recebe a seguinte informação: página não encontrada”.

A emissora informou, em comunicado oficial, que “qualquer profissional de comunicação sabe que uma campanha como esta demanda tempo para ser elaborada. Mas a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação do filme”.

Serra cumpre agenda em MG, de olho nos votos do Estado: o pré-candidato tucano à Presidência da República, José Serra, cumpriu agenda nesta segunda-feira em Minas Gerais, ao lado do ex-governador Aécio Neves. Novamente, Aécio chamou mais atenção que Serra, já que apareceu de barba ao lado do pré-candidato tucano. Perguntando por jornalistas o novo visual era para se aproximar de Lula, o ex-governador mineiro declarou que não.

“Qual a exclusividade que ele [Lula] tem da barba? Estou aproveitando uns dias para vocês descansarem de mim e eu ir descansando um pouco a pele também”, afirmou Aécio. Em sua estada em Belo Horizonte, Serra deu uma palestra a empresários na Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e mostrou-se confiante em sua vitória no segundo maior colégio eleitoral do país: “nunca tive dúvidas disso [de que terá a maioria em Minas]. Agora, acho que foi um bom começo. Começo esta pré-campanha aqui e chego com energia e saio com mais energia”.