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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Esmagadora maioria dos brasileiros acredita que Dilma será melhor ou igual a Lula

A maioria da população brasileira está bastante otimista com relação ao governo Dilma, que terá início dentro de duas semanas. É o que revela a pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira, 16. De acordo com os números apresentados, nada menos que 62% dos entrevistados afirmaram que o governo da Presidente eleita Dilma Rousseff (PT) deverá ser ótimo ou bom, enquanto 19% têm expectativas que seja um governo regular. Apenas 9% dos entrevistados declararam que o novo governo deve ser ruim ou péssimo,ao passo que 11% não souberam ou não quiseram opinar.

Quando analisados de forma segmentada, os dados revelam que o otimismo é maior na região Nordeste, onde o índice dos que consideram que Dilma fará um governo ótimo ou bom atinge 70%. Por outro lado, o desempenho menos otimista fica, como era de esperar, com as regiões Sul e Sudeste, onde os que avaliam que o próximo governo será ótimo ou bom totalizam 58%. De qualquer forma, é interessante observar que a expectativa positiva em relação ao governo Dilma fica 6 pontos percentuais acima da própria votação da Presidente eleita, que venceu o 2º turno da eleição, no dia 31 de outubro, com 56% dos votos válidos.

Para 76%, Dilma será melhor ou igual a Lula
O cenário de otimismo em relação ao novo governo é confirmado quando observamos a comparação entre o governo Dilma e o governo Lula: segundo a pesquisa CNI/Ibope, 18% dos entrevistados acreditam que Dilma fará um governo melhor que Lula, ao passo que 58% dos entrevistados esperam que o governo da Presidente eleita seja igual ao de Lula. Considerando que essa mesma CNI/Ibope revelou que o governo Lula tem aprovação de 80% da população, podemos considerar que a expectativa de que o governo Dilma seja igual ao governo Lula é algo bastante positivo.

Ou seja, 76% dos entrevistados consideram que Dilma fará um governo melhor ou igual a Lula. Nesta comparação, novamente o Nordeste lidera o otimismo: para 79% dos nordestinos, o governo Dilma será melhor ou igual ao governo Lula. No Sudeste, o percentual de entrevistados que tem essa mesma avaliação é de 76%, de açodo com a CNI/Ibope. Vale a pena destacar que, no cômputo total, apenas 14% dos entrevistados declaram que o governo Dilma deve ser pior que o governo Lula, ao passo que 10% não souberam ou não quiseram opinar.

Saúde deve ser a principal prioridade da Presidente eleita
O levantamento CNI/Ibope também trouxe informações sobre o que a população acha que deve ser tratado de forma prioritária pelo novo governo. Os dados revelam que saúde é apontado como tema prioritário para pouco mais da metade dos entrevistados – 51%. Em segundo lugar, com 11%, aparece educação, seguido de segurança pública, com 7%. Combate às drogas e combate à fome e à miséria aparecem, cada um, com 6% das citações. Pautas que vêm sendo cobradas por diversos setores da sociedade civil organizada e dos próprios movimentos sociais, não tiveram destaque no ranking de prioridades apontadas pela população.

Para se ter uma idéia, a Reforma Política é considerada prioritária para apenas 1% dos entrevistados, mesmo percentual alcançado pela Reforma Trabalhista. Outras reformas – como a agrária, a da previdência e a tributária – sequer pontuaram no levantamento feito pela CNI/Ibope. É interessante observar que os avanços conquistados pelo governo Lula podem ser claramente observados por uma mudança na prioridade de pauta quando confrontamos o levantamento divulgado nesta quinta-feira com uma pesquisa CNI/Ibope feita em dezembro de 2002, a poucos dias do então Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva tomar posse.

Naquela ocasião, a prioridade apontada por 43% dos entrevistados era promover o crescimento e a geração de empregos. Em segundo lugar, aparecia o combate à inflação, com 29%, enquanto a promoção de políticas sociais aparecia com 10%. Na pesquisa divulgada nesta quinta-feira, geração de empregos é apontada como prioridade para apenas 4% dos entrevistados. O fato de estes itens não terem mais destaque na lista de prioridades da atual pesquisa CNI/Ibope revela que, para o brasileiro, eles já constituem uma pauta cuja conquista foi consolidada ao longo dos oito anos do governo Lula, de forma que agora as prioridades são menos macroeconômicas e mais setoriais, por assim dizer.

A pesquisa CNI/Ibope foi feita entre os dias 4 e 7 de dezembro, em 140 municípios de todas as regiões brasileiras. Foram entrevistadas 2002 pessoas e a margem de erro do levantamento é de 2 pontos percentuais.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Dilma ao The Washington Post: "meu desafio é acabar com a pobreza absoluta no Brasil"

Na quinta-feira, 2, a Presidente eleita Dilma Rousseff recebeu no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde está funcionando o governo de transição, a repórter Lally Weymouth, do The Washington Post para uma entrevista sobre os planos para o novo governo. Segue abaixo a matéria publicada no jornal norte-americano.

"Quatro semanas atrás, os brasileiros elegeram sua primeira presidente do sexo feminino - Dilma Rousseff, a candidato escolhida por Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente mais popular do Brasi, que está de saída do cargo. Dilma Rousseff chega ao poder com um percurso incomum: ela lutou nos anos 60 contra o regime militar que então governava o Brasil, foi presa e torturada entre 1970 e 1972. Ela então começou na política local e entrou para o governo Lula, em 2002, como ministra de Minas e Energia, tornando-se em seguida sua ministra-Chefe da Casa Civil. Em 02 de dezembro, em sua primeira longa entrevista desde a eleição, Dilma Rousseff falou sobre seus planos para os próximos quatro anos. Trechos da entrevista:

O fato da sra ter sido uma prisioneira política faz com que tenha maior simpatia por outros prisioneiros políticos?
Não há dúvida sobre isso. Devido ao fato de eu ter experimentado pessoalmente a situação de um preso político, eu tenho um compromisso histórico para todos aqueles que foram ou estão presos apenas porque expressam seus pontos de vista, a opinião pública, as suas próprias opiniões.

Então isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apoiar um país que permite que as pessoas sejam apedrejadas, que os jornalistas sejam presos?
Creio que é necessário que façamos uma diferenciação [quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante], uma estratégia de construção da paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política - de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão do Iraque. Nós não conseguimos construir a paz, nem conseguimos resolver os problemas do Iraque. Hoje o Iraque está em guerra civil. Todo dia, soldados de ambos os lados morrem. Para tentar construir a paz e não ir para a guerra é o melhor caminho [relação diplomática com o Irã].

[Mas] eu não endosso apedrejamento. Eu não concordo com as práticas que têm características medievais em relação às mulheres. Não há ressalvas, não vou fazer quaisquer concessões a esse respeito.

Brasil se absteve de votar sobre a recente resolução sobre os direitos humanos da ONU.
Eu não sou o presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável como uma mulher eleita presidente em não dizer nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu tomar posse. Eu não concordo com a maneira como o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos tinham a simpatia pelo povo iraniano que se levantou nas ruas. É por isso que eu quis saber se a sua posição sobre o Irão seria diferente do que seu atual presidente, que tem boas relações com o regime iraniano.
O presidente Lula tem a sua própria reputação. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre defendeu a construção da paz.

Como a sra vê a relação do Brasil com os Estados Unidos? Como você gostaria de vê-la evoluir?
Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Vou tentar estreitar os laços com os EUA. Eu tive grande admiração pela eleição do presidente Obama. Eu acredito que os EUA naquele momento revelaram grande capacidade para mostrar que são uma grande nação, e surpreenderam o mundo. Pode ser muito difícil eleger um presidente negro nos EUA - como era muito difícil eleger uma mulher presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm de desempenhar um papel em conjunto no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis, a ajuda humanitária em todos os campos.

Acredito também, neste momento de grande instabilidade devido à crise global, que é fundamental encontrarmos maneiras que vão garantir a recuperação das economias dos países desenvolvidos, pois isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil estará confortável se os EUA carregarem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor extraordinário. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil.

O que a sra pensa sobre o “alívio quantitativo”?
O alívio quantitativo é um fato que nos preocupa muito porque isso significa uma política de desvalorização do dólar, que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização de nossas reservas de divisas que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel dos EUA devido ao fato de que a moeda norte-americana serve como uma reserva internacional. E uma política de desvalorização sistemática do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca são uma boa política a seguir.

*Observação: a expressão “alívio quantitativo” (em tradução literal do inglês “quantitative easing”) é usada na macroeconomia para designar um conjunto de ações que visam à ampliação da liquidez de mercado, com ampliação da quantidade de moeda em circulação, para impulsionar o consumo. Aqui, a repórter do The Washington Post faz menção às medidas que vem sendo adotadas pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA) para acelerar a economia daquele país e que têm preocupado os mercados emergentes, como o Brasil, pois pode catalisar uma guerra cambial.

Quando a sra planeja visitar os Estados Unidos? Eu sei que a sra foi convidada para ir antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas a sra não pôde ir.
Eu não estou aceitando todos os convites que recebo nem estou visitando todos os países estrangeiros. Eu tenho que montar o meu próprio governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele puder me receber.

E a sra vai convidar o presidente Barack Obama para vir ao Brasil?
Já convidei informalmente, durante a reunião do G-20.

Existem preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil vai continuar no caminho econômico definido pelo presidente Lula.
Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós esta foi a grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma administração única - é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de termos conseguido controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e uma solidez fiscal como a de hoje nos coloca entre os países no mundo que têm a menor relação dívida/PIB. Além disso, temos um déficit que não é muito significativo. Eu não quero me gabar, mas nós temos um déficit de 2,2%. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir ainda mais a relação dívida/PIB e garantir essa estabilidade inflacionária.

A sra já disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A sra vai promover cortes no orçamento ou reduzir o aumento anual dos gastos do governo?
Não há nenhuma maneira de você poder cortar as taxas de juros sem você reduzir seu déficit fiscal. Nós somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: a de que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, uma das questões mais importantes é a redução da dívida pública. A outra questão importante é melhorar a competitividade da nossa produção e da agricultura. Também é muito importante que o Brasil racionalize o seu sistema fiscal.

Se você quiser pressionar as taxas de juro, você deve cortar gastos ou aumentar a poupança doméstica.
Você não pode esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?
Meu plano é continuar a trajetória que temos seguido até hoje. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% [do PIB] para 42%. Nosso objetivo é chegar a 30% do nosso PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do nosso produto interno bruto, que fará o país avançar.

Então o que a sra quer dizer quando diz "racionalizar gastos"?
Não estamos em uma depressão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas continuaremos crescendo. Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento onde o país está crescendo. Nós temos a estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, temos muito orgulho no fato de termos conseguido reduzir a extrema pobreza no Brasil.

Nós trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Com políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos seus principais exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.
Nós pagamos um salário, que é um complemento de renda para os pobres. Eles ganham um cartão e retiram o seu rendimento, mas eles têm dois critérios que têm de respeitar: têm que colocar seus filhos na escola, e eles têm que provar que compareceram a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas, e eles têm que passar por uma avaliação médica quando começam suas vacinas. Este foi um fator que foi responsável, mas não foi o único.

Nós criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A sra é bastante próxima ao presidente Lula. A sra realmente vai ser diferente ou vai ser apenas uma continuação do seu governo?
Eu acredito que o meu governo será diferente do presidente Lula. O governo do presidente Lula, do qual eu fazia parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a sua administração, porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002. Eu tenho os programas governamentais em andamento, que eu ajudei a desenvolver, como o Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter de resolver questões como a qualidade dos serviços de saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública. O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões de transporte no Brasil, as ferrovias, as rodovias, os portos e aeroportos. Mas há uma boa notícia: Descobrimos petróleo em águas profundas.

A sra está dizendo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?
Criamos um Fundo Social [em que] alguns dos recursos do governo oriundos do petróleo encontrado serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A sra tem que preparar o país para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é o meu grande desafio.

Todos os empresários que eu encontrei em São Paulo disseram que eles tinham que estar muito preparados para se encontrar com a sra porque a sra está muito familiarizada com a maioria dos projetos.
Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles não.

O que significa para a sra ser a primeira mulher presidente do Brasil?
Ainda penso que é surpreendente.

Quando a sra decidiu que queria ser presidente?
Isso foi um processo. Não há nenhuma data. Comecei a trabalhar com o presidente Lula, e ele começou a dar algumas dicas sobre mim vir para a presidência, mas ele não foi claro sobre isso no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando por isso.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria nomeada, há dois anos, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível vencer as eleições. O presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu isso. Somos uma administração diferente - nós ouvimos o povo.

A sra recentemente um câncer.
Sim, mas eu acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobrir isso, melhores são suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . .

Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui por mim, pelos meus próprios méritos. Somos a maioria neste país".

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Formação do novo Ministério: há motivos reais para dúvidas sobre rumo da política econômica?

O processo de escolha do novo Ministério, sobretudo em relação aos nomes que ocuparão as pastas de Economia a partir de 1º de janeiro, parece estar gerando mais discussões fora do que dentro do próprio governo de transição. As especulações, num primeiro momento, eram direcionadas à permanência ou não do atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seu cargo. Após a sinalização na semana passada de que Mantega deverá ser mantido por Dilma à frente da Fazenda, o que pode ser confirmado ainda esta semana, a onda de especulações se volta, agora, para o comando do Banco Central.

Na tarde de segunda-feira, 22, a imprensa começou repercutir boatos de que uma fonte ligada ao governo dava como garantido de que o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não será mantido no cargo pela Presidente eleita, Dilma Rousseff. A razão, segundo esse boato, seria de que Dilma ficou profundamente irritada com uma declaração de Meirelles dada na semana passada, em Frankfurt, na qual ele condicionava sua permanência no Banco Central à autonomia operacional da instituição. Trocando em miúdos, seria como se Meirelles estivesse duvidando que, no governo Dilma, teria a mesma autonomia que teve no governo Lula.

A questão é que esses boatos serviram para criar um frisson no mercado financeiro e deixar os investidores de orelha em pé, a ponto dos contratos de juros futuros negociados na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) sofrerem um ligeiro aumento no final do dia para os vencimentos de mais curto prazo. O próprio periódico britânico Financial Times publicou nestas terça-feira, 23, uma matéria repercutindo essa ansiedade dos investidores pela definição da nova equipe que comandará a política econômica no governo Dilma. De acordo com o FT, “ao nomear Mantega primeiro, dizem os investidores, Dilma sinalizaria um apoio à ala menos ortodoxa do atual governo”.

Compromisso com austeridade monetária
Posto isso, cabe aqui a questão: até que ponto existem motivos reais para essa onda de especulações no mercado? Em primeiro lugar, é importante esclarecer que o posicionamento deste blog em defesa da permanência de Henrique Meirelles à frente do Banco Central. Afinal de contas, Meirelles tem feito uma condução exitosa da política monetária e garantido uma melhora consistente dos fundamentos econômicos do país, através da austeridade com que o BC tem conduzido a taxa básica de juro brasileira. É importante que se diga, por outro lado, que a análise que se segue não é contaminada pelo posicionamento deste blog, uma vez que os sinais emitidos por Dilma são de uma garantia da autonomia operacional da autoridade monetária.

Como bem se sabe, existe uma pressão tanto de natureza econômica quanto política para maiores reduções da taxa de juros no próximo governo. Os benefícios oriundos de uma taxa de juro menor são bastante óbvios: além de contribuir para uma aceleração do investimento privado e, com isso, ampliar a taxa de crescimento econômico e impulsionar a geração de empregos, há também o benefício direto sobre o câmbio. Em um cenário no qual o real está sobrevalorizado em relação ao dólar, uma redução da taxa de juro poderia reconduzir a moeda doméstica a um novo patamar de equilíbrio, no qual ela se estivesse em níveis que não deteriorassem as exportações brasileiras.

Por outro lado, temos que considerar o cenário interno de alta da inflação nos últimos meses, que não dá espaço para cortes abruptos na taxa de juros, pelo menos ao longo dos primeiros meses do governo Dilma. A Presidente eleita tem reforçado sistematicamente seu compromisso com a manutenção do tripé da política econômica: câmbio flutuante, metas de inflação e controle fiscal; e, como experiente economista que é, além de excelente gestora, isso por si só já deveria tranquilizar os mercados. O que se quer dizer aqui é que independentemente da permanência ou não de Meirelles à frente do Banco Central, a austeridade na condução da política monetária deve ser a mesma. E Dilma tem dado sua garantia em relação a isso.

Ou seja: os juros têm que cair sim, mas em um ritmo que não comprometa o equilíbrio geral do nível de preços. E diante das recentes pressões inflacionárias, é muito pouco provável que quem quer que esteja à frente do BC a partir de 1º de janeiro se aventure em promover uma mudança radical na atual forma de conduzir a política monetária. É claro que todos gostaríamos de que a política monetária fosse mais ousada no sentido de reduzir os juros, mas o BC tem a autonomia e responsabilidade de assegurar a convergência da inflação para o centro da meta. E num contexto de aceleração inflacionária, sobretudo da chamada “inflação de baixa renda”, há que se adotar mesmo uma postura mais rígida no que diz respeito à condução dos juros.

Logo, não existem motivos reais para tanta inquietação do mercado em relação aos nomes que integrarão a nova equipe econômica. Seja com Meirelles ou com outro à frente do Banco Central, Dilma já deu todas as garantias de que 1) a autoridade monetária continuará tendo autonomia operacional para decidir os rumos da política monetária; 2) o próximo governo continuará fundamentando a política econômica na manutenção do tripé; e 3) a convergência da taxa de juros para níveis menores ocorrerá de forma gradual, respeitando as condições macroeconômicas, e não à base de “canetadas”. Assim, toda essa especulação que vem sendo feita no mercado parece fruto mais de boatos da imprensa do que de sinais emitidos pelo governo de transição.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Em discurso emocionado ao PT, Dilma prega unidade e maturidade política

A Presidente eleita Dilma Rousseff participou no final da manhã desta sexta-feira, 19, da primeira reunião do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) após a campanha eleitoral. Em um pronunciamento de aproximadamente 20 minutos, Dilma evitou falar de planos de governo, restringindo seu discurso a agradecimentos à militância petista, à exortação quanto à “maturidade política” do PT para entender a relação com os aliados e também aos desafios que são colocados ao governo e também ao Partido, sobretudo na área social, ao longo dos próximos anos.

Em tom emocionado, Dilma iniciou sua fala agradecendo o apoio que recebeu da militância ao longo de toda campanha. “Andei o país de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Quando a gente é candidata e está sob pressão, isso é um verdadeiro abraço de mãe. Quando você desce do aeroporto, vê a camiseta [do PT]... Isso me comove”, declarou a Presidente eleita contendo o choro. Nesse mesmo tom, Dilma ainda destacou: “eu vi o PT vivo e atuante de Norte a Sul, Leste a Oeste. É para esse partido que eu apresento o meu reconhecimento, a minha gratidão e a certeza que eu dependo desse partido para bem governar o País. Dependo do esforço e da solidariedade de vocês, e da maturidade política para compreender os diversos desafios políticos”.

A Presidente eleita também aproveitou para destacar que o momento exige “maturidade política” do PT em relação aos aliados e à composição do novo governo. Neste sentido, Dilma declarou: “vou enfatizar a importância das alianças políticas, algo que fizemos de forma madura, com capacidade de conviver com a diferença, de entender que é possível ter posicionamentos diferenciados sobre algumas questões e construir o consenso político que vai mudar o nosso País. O PT foi aprendendo e teve maturidade para entender que o país era complexo, que tinha que se coligar, fazer aliança. Numa democracia, é assim que se deve governar”.

Dando sequência ao seu discurso, a Presidente eleita afirmou: “eu dependo da maturidade política para entender os complexos desafios do poder. Hoje somos mais experientes sobre as relações partido e governo, governo e movimentos sociais. Temos características diferentes. Cada um tem o seu papel. Mas isso não quer dizer que nós não temos um mesmo compromisso com o pais”. A exortação dada por Dilma vem após algumas queixas de lideranças petistas sobre o espaço que o partido terá no governo. Por isso, a Presidente eleita aproveitou a ocasião para pedir “unidade política” do PT.

Unidade e herança bendita
Dilma também voltou a reforçar que, passado o calor do confronto eleitoral, agora lhe cabe governar para todos, independentemente de coloração partidária: “a partir do momento em que ganhamos, vamos governar para aqueles que nos apoiaram e não nos apoiaram. O clima é de união e de compreensão, e o PT dará um exemplo de maturidade para a História nos próximos anos”, declarou a petista repetindo a linha adotada já no seu primeiro discurso como Presidente eleita, na noite do dia 31 de outubro.

Ao falar sobre a responsabilidade do seu governo, Dilma voltou a destacar a “herança bendita” que recebe do Presidente Lula, referindo-se às conquistas sociais desses últimos oito anos: “minha vantagem, quando olho para 2002, é que temos uma herança bendita. Essa herança nos coloca um desafio: nossas conquistas não podem se repetir, sob pena de não honrarmos o que construímos. Isso nos coloca a imposição de ir em frente, de aprofundar o que conquistamos. Esse projeto começou com Lula e teve toda uma experiência pessoal dele como líder sindical”.

Encerrando o seu discurso, Dilma destacou os desafios que virão pela frente e salientou o papel das mulheres: “nós temos uma herança e a trajetória de que é preciso não desistir. Nós estamos iniciando uma nova etapa e outras etapas ainda virão. Nós, mulheres, chegamos aqui. Eu acho que eu represento a luta de cada uma das militantes aqui presentes. Todas nós representamos milhões de mulheres brasileiras que progressivamente colocarão sua cara, brigando por um Brasil melhor”.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Touraine e os equívocos sobre o Brasil de Dilma

Principal teorizador da chamada “sociedade pós-industrial” e com uma grande contribuição à análise da dinâmica dos movimentos sociais, o sociólogo francês Alain Touraine naturalmente não está imune a equívocos na sua linha de pensamento. Isto fica bastante claro em uma entrevista dada pelo pensador, durante sua estada em São Paulo, ao jornal O Globo, publicada nesta segunda-feira, 15. Falando, em linhas gerais, das perspectivas para o Brasil e para o governo Dilma, Touraine comete alguns erros de interpretação, motivados, talvez, por seu distanciamento em relação à realidade do nosso país.

Defendendo a idéia de que tanto FHC quanto Lula têm igual importância na construção de um novo tipo de sociedade no Brasil, o sociólogo francês emenda que “não sabemos o que acontecerá daqui para frente”, argumentando que “a nova Presidente (Dilma) foi inventada por Lula”. A partir deste ponto, Touraine desfia uma série de avaliações equivocadas sobre um possível perfil do governo Dilma bem como sobre o próprio Partido dos Trabalhadores. Para o sociólogo, “o Brasil tem um longo passado de populismo e a ameaça persiste devido ao nível de desigualdade social extremamente elevado”. Abaixo, destacamos os principais equívocos no pensamento de Alain Touraine sobre o novo governo brasileiro:

“O perigo de um retrocesso [com Dilma] existe, até porque o passado do PT está longe de ser perfeito. Lula não foi autoritário, mas segmentos do PT o são”.
O primeiro grande equívoco de Touraine consiste em associar o PT a um maior risco de retrocesso no Brasil, argumentando que setores do Partido possuem tendências autoritárias. Ora, é fato conhecido por todos que a visão de que alguns setores do PT são autoritários é a versão vendida pela grande imprensa brasileira desde que o partido foi fundado, nos anos 80. Contudo, em nenhum dos governos petistas, seja na esfera municipal, estadual ou federal, houve quaisquer traços de autoritarismo. Muito pelo contrário, todos os governos do PT foram marcados por um profundo compromisso com a democracia. A própria rejeição do partido à idéia de um 3º mandato para Lula já deixa claro que o PT não compactua com autoritarismo ou populismo.

Além disso, Alain Touraine parece desconhecer o fato de que, ao longo desta campanha presidencial, as forças do retrocesso e do autoritarismo não se alinharam com Dilma, mas sim com o seu adversário, o tucano José Serra. Afinal de contas, a campanha de Serra contou com o apoio de forças como os monarquistas, a “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), além de setores mais conservadores da Igreja Católica, que todos juntos promoveram uma verdadeira “cruzada” contra a candidata do PT, levantando bandeiras extremamente conservadoras, como a questão do aborto. A aproximação de Serra com os setores ultraconservadores fica bastante clara em uma reportagem publicada pela revista IstoÉ dias antes do 2º turno das eleições.

A matéria da IstoÉ chegou inclusive a revelar documentos da regional Sul I da CNBB (estado de São Paulo) que orientavam os fiéis a não votarem em candidatos do PT. Enquanto Serra recebia o apoio dos setores mais conservadores, Dilma, ao contrário, recebeu o apoio de todos os setores progressistas da sociedade brasileira. Logo, é muito mais razoável que a possibilidade de retrocesso autoritário seria maior em um eventual governo Serra do que no governo Dilma, o que faz cair por terra a avaliação equivocada de Alain Touraine sobre incertezas acerca do comprometimento da nova Presidente com um governo amplamente democrático.

“A ideia de Dilma esquentar a cadeira por quatro anos para Lula também me desagrada. Em uma democracia, não pode haver presidente interino”.
Esta é outra falácia no pensamento de Touraine, expresso na entrevista dada pelo sociólogo ao Globo. É um grande equívoco acreditar que Dilma está simplesmente “esquentando a cadeira” para que Lula retorne em 2014. O próprio Presidente Lula já tratou inúmeras vezes de desmentir esse boato, reafirmando que é totalmente legítimo que Dilma, fazendo um bom governo, dispute novamente a Presidência e seja reeleita. Além disso, esse tipo de postura não condiz em nada com o perfil de Dilma, que jamais se prestaria ao papel de “segurar o lugar” para que Lula retornasse daqui quatro anos. Trata-se de um pensamento com grande teor machista que foi alardeado pela oposição ao longo da campanha e que, infelizmente, parece ter sido abraçado também pelo sociólogo francês.

“A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente, porque ela não tem experiência política”.
Outros dois grandes equívocos do pensador francês: 1) que não sabemos como será o governo de Dilma; 2) que Dilma não tem experiência política. Em primeiro lugar, embora seja impossível vislumbrar fatos que caracterizarão o governo Dilma, é bastante plausível trabalharmos com projeções de como será esse governo. Dilma não é Lula, mas representa o mesmo projeto político do Presidente e do seu partido. Logo, é de esperar que Dilma continue o trabalho iniciado no governo Lula e que aprofunde conquistas que foram obtidas nestes oito anos. Afinal de contas, foi exatamente devido a esta perspectiva de continuidade e avanço que 55 milhões de brasileiros depositaram nas urnas o voto em Dilma, elegendo-a a próxima Presidente do país.

Em segundo lugar, é totalmente equivocado dizer que Dilma não tem experiência política, haja vista que ela iniciou sua vida política ainda jovem, quando ingressou em grupos da esquerda clandestina para a luta contra o regime militar. Tendo sido presa e torturada, e após cumprir pena de três anos de detenção, acusada de “subversão”, Dilma iniciou sua vida pública no Rio Grande do Sul, onde foi inicialmente secretária das Finanças do então prefeito Alceu Colares. A partir daí, a nova Presidente ocupou sucessivos cargos gerenciais na administração pública, até chegar ao governo Lula, onde foi Ministra das Minas e Energia e, nos últimos cinco anos e meio, ministra-chefe da Casa Civil. Acaso isso não é experiência política?

Percebe-se, dessa maneira, que os pontos de vista de Alain Touraine sobre o novo governo, expressos em sua entrevista ao Globo, mostram-se bastante equivocados, já que não encontram consistência na realidade vista no Brasil, sobretudo ao longo da campanha eleitoral. Dizer que no governo Dilma o Brasil corre o risco de um retrocesso, por conta de um suposto autoritarismo do PT, é um exercício de futurologia totalmente desprovido de ligações com a realidade. Ao contrário do que diz o sociólogo francês, o governo Dilma deve ser marcado não pelo retrocesso, mas sim pelo avanço, pelo fortalecimento da democracia e pela continuidade das grandes conquistas do governo Lula, sem nenhum viés populista.

domingo, 14 de novembro de 2010

Como criar factóides: Folha omite informações dadas pela Petrobras para "fritar" ministeriável

É impressionante como a capacidade da Folha de São Paulo em criar factóides, transformando a realidade em uma “supra-realidade” existente somente dentro de suas redações, não conhece limites. Tanto na sua edição impressa quanto na edição online deste domingo, 14, a Folha trouxe uma matéria intitulada ”Petrobras tem 43 contratos com marido de ministeriável”, com o claro objetivo de associar a diretora de Gás e Energia da estatal, Maria das Graças Foster, nome cotado para o primeiro escalão do governo Dilma, a um esquema de favorecimento em que o beneficiado seria o seu marido.

De acordo com a reportagem da Folha, a empresa do marido de Graça, como é conhecida a diretora da Petrobras, “multiplicou os contratos com a Petrobras a partir de 2007, ano em que a engenheira ganhou cargo de direção na estatal”. O jornal prossegue dizendo que “nos últimos três anos, a C.Foster, de propriedade de Colin Vaughan Foster, assinou 42 contratos, sendo 20 sem licitação, para fornecer componentes eletrônicos para áreas de tecnologia, exploração e produção a diferentes unidades da estatal. Entre 2005 e 2007, apenas um processo de compra (sem licitação) havia sido feito com a empresa do marido de Graça, segundo a Petrobras”.

Quem lê a matéria fica exatamente com a impressão de que bastou Graça Foster assumir a diretoria de Gás e Energia da Petrobras para que a empresa de seu marido passasse a ser beneficiada em contratos com a estatal, dos quais quase a metade foi firmada sem licitação. Puro factóide. A reportagem feita pela Folha desconsidera uma série de informações relevantes que foram fornecidas pela estatal e que foram publicadas pelo Blog da Petrobras tão logo a estatal tomou conhecimento de mais esse factóide criado pela Folha.

Folha desconsidera informações dadas pela Petrobras
Passemos aos fatos. Para a elaboração da reportagem, a equipe da Folha enviou à Petrobras uma lista de sete perguntas, tratando exatamente da relação comercial entre a empresa do marido de Graça – a C.Foster – e a estatal. Contudo, ao elaborar a matéria, a Folha manipulou essas respostas, passando ao leitor informações incompletas e que inevitavelmente levariam a uma interpretação equivocada do seu conteúdo. Vejamos: na primeira questão, a Folha pede informações sobre o número de contratos feitos pela estatal com a C.Foster desde 2007, bem como o valor dos mesmos. A resposta da Petrobras foi a seguinte:

“A Petrobras tem processos de pequenas compras realizados diretamente e descentralizados pelas unidades da Companhia. No caso concreto, as pequenas compras realizadas pelas áreas de Tecnologia de Informação e Telecomunicações – TIC, Serviços Compartilhados e Exploração e Produção, feitas no período de 2007 a 2010, totalizaram 42 processos de compras de componentes eletrônicos que somaram o valor de R$ 599 mil, sendo 20 processos realizados por dispensa de licitação em razão do valor ser abaixo de R$ 10 mil e os 22 restantes, por meio de processo licitatório, conforme estabelece o Decreto nº 2.745/98 e o Manual de Procedimentos Contratuais. Cumpre informar que a Petrobras tem inúmeros fornecedores de componentes eletrônicos, cujo volume anual de compras é de cerca de R$ 10 milhões”.

Percebam que na sua reportagem, a Folha omite que 1) as compras não foram realizadas pela diretoria de Gás e Energia (a qual pertence Graça) e sim por outras áreas da empresa; 2) os 20 contratos firmados sem licitação foram feitos dessa forma pelo valor deles ser inferior a R$ 10 mil; 3) o valor total dos contratos com a C.Foster é R$ 599 mil, o que corresponde a apenas 6% do volume anual de compras de componentes eletrônicos pela estatal (R$ 10 milhões). Em seguida, a Folha pergunta quantos desses contratos foram assinados por Graça, tendo como resposta da estatal “[Graça] não assinou nenhum processo de compra”.

Também foi perguntado pelo jornal qual foi a participação de Graça na contratação da C.Foster. Novamente, a estatal responde “nenhuma”. Naturalmente, essas informações também foram oportunamente omitidas da matéria publicada pela Folha de São Paulo. Perguntada pela Folha se existe algum tipo de para firmar contratos da Petrobras com empresas de diretores, a estatal foi bastante clara: “as normas legais que tratam da matéria estão contidas no Código de Conduta da Alta Administração Federal, no Código de Ética da Petrobras e no Decreto n° 7.203/2010. Todos estabelecem que seja vedada à autoridade pública a contratação direta sem licitação na área sob sua responsabilidade na empresa, cujo titular ou sócio guarde relação de parentesco. Portanto, os processos de compra objeto desta matéria, não foram realizados por qualquer área subordinada à Diretoria de Gás e Energia”.

As respostas da Petrobras deixam absolutamente claro que todos os 42 contratos feitos entre a estatal e a C.Foster, empresa do marido de Graça, ocorreram dentro da legalidade, não havendo qualquer esquema de favorecimento. Contudo, em sua reportagem online, a Folha omitiu uma série de informações que foram dadas pela Petrobras, provocando, dessa maneira, um equívoco bastante oportuno na leitura da matéria. Essa atitude da Folha só pode ter duas razões: 1) ou uma total inexperiência do jornalista responsável pela matéria; 2) ou uma manipulação premeditada das informações dadas pela estatal buscando, com isso, criar um factóide e desconstruir a imagem de Graça Foster, cujo nome vem sendo cotado para o primeiro escalão do governo Dilma.

O histórico da Folha faz com que fiquemos com a segunda opção. Afinal de contas, não seria a primeira vez que o jornal da família Frias manipula informações para criar factóides no sentido de “fritar” nomes ligados de alguma forma ao governo federal. A leitura das respostas dadas pela Petrobras deixa claro que houve uma má intenção da Folha na edição desta reportagem: caso contrário, o jornal não teria omitido informações que demonstram que não houve qualquer favorecimento nos contratos firmados entre a estatal e a empresa do marido de Graça. Mais um tiro no pé dado pela Folha, cuja credibilidade já não anda lá essas coisas.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O "apetite imoderado" do Estadão pela crítica descabida e sem fundamentação

Segundo a Psicanálise, é comum que as pessoas busquem umas nas outras defeitos que enxergam em si mesmas, procurando assim uma forma de não se sentirem inferiores ao resto do mundo. Pois bem, deve ser essa a razão que explique o comportamento do Estadão, que tem procurado sistematicamente, nos últimos dias, encontrar “crises” no processo de composição do novo governo. Tendo sido derrotado nas urnas, já que apoiou o candidato tucano José Serra, o jornal O Estado de São Paulo tem empreendido um esforço hercúleo para tentar desqualificar os trabalhos do governo de transição e da formação da equipe ministerial da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT).

Em um editorial publicado nesta sexta-feira, 12, intitulado “Apetites imoderados”, o jornal insinua uma crise entre PT e PMDB, em torno dos cargos de primeiro escalão, que simplesmente não existe. Segundo o texto, “diante da mesa farta, o que [PT e PMDB] enxergam é a escassez das cadeiras em comparação com o que consideram seus direitos adquiridos nas urnas. Já se estimou que, para acomodar as pretensões petistas, peemedebistas e dos demais sócios da coalizão vencedora, o total de Ministérios deveria aumentar dos atuais 37 para qualquer coisa perto de 50”.

Disputa faz parte do jogo político
A idéia vendida pelo Estadão, em seu editorial, e comungada também por outros setores da grande imprensa, só pode ser explicada por duas razões: total ignorância ou desonestidade intelectual quanto aos procedimentos nos quais está circunscrito o jogo político. Dilma foi eleita não somente pelo PT, partido ao qual pertence, mas também por uma coalizão de partidos que, agora, passadas as eleições, disputam legitimamente seus espaços no novo governo. Que mal há nisso? A disputa de interesses e espaços é o que move a política.

Qualquer tentativa de encarar o jogo político como algo celestial ou puritano é totalmente equivocada! Não se faz política sem a disputa de idéias, posições e também de espaços. Cada grupo procura, neste sentido, construir a sua hegemonia e ampliar sua presença política. Ou será que o Estadão esperava que Dilma anunciasse ditatorialmente quais cargos daria para determinado partido sem que houvesse uma contraposição deste e também dos demais? Se essa era a expectativa do jornal, recomenda-se um curso urgente de ciência política em suas redações!

Assim como o editorial do Estadão, outros jornais, como a Folha de São Paulo, têm tentado recorrentemente tratar a disputa de espaços entre os partidos no novo governo como uma “crise”. Ora, existe uma diferença muito grande entre disputa e crise. Como dito anteriormente, a disputa está no centro da política. É a disputa que gera o debate, o entendimento e, posteriormente, o consenso. O fato de PT, PMDB e demais partidos que compuseram a coligação vitoriosa de Dilma pleitearem maiores espaços junto ao novo governo não significa dizer que existe uma crise instaurada. Muito pelo contrário, a crise existiria se não houvesse essa disputa.

Afinal de contas, a ausência de disputa poderia sugerir duas coisas: que um pequeno grupo estaria centralizando todas as decisões sem que houvesse discussão prévia com os demais partidos que ajudaram a eleger Dilma ou então que esses partidos estariam desinteressados em compor o novo governo. O que este texto pretende sublinhar é que os movimentos feitos por PT e PMDB, os dois maiores partidos da base governista, são totalmente legítimos e característicos do jogo democrático, não se tratando de um “apetite imoderado” por cargos, como insinua o Estadão.

Aliás, é bom que se diga que é o jornal quem parece possuir um “apetite imoderado” pela crítica ao governo Dilma sem sequer tomar o cuidado de apresentar uma fundamentação consistente. A fome do Estadão pela crítica descabida à nova Presidente é tanta que o jornal lança mão, em seus editoriais, dos argumentos mais estapafúrdios. Uma coisa é certa: “nunca antes na História desse país”, setores da grande imprensa basearam-se em argumentos tão desqualificados para tentar atacar um governo!