domingo, 14 de novembro de 2010

"Sinais de esperança": jornal argentino destaca importância de Dilma para América Latina

Passadas duas semanas da vitória de Dilma Rousseff (PT), as eleições brasileiras, dada sua importância, ainda têm ocupado a pauta de boa parte da imprensa internacional, sobretudo na América Latina. O Boteko Vermelho reproduz abaixo artigo de Boaventura de Sousa Santos (Doutor em Filosofia do Direito e professor das Universidades de Coimbra e Wisconsin), publicado nesta última semana no jornal argentino Página 12. Sob o título ”Sinais de Esperança”, o autor fala da importância da eleição de Dilma para os partidos de esquerda na Europa e também para as forças progressistas da América Latina, a despeito das ambições imperialistas de Washington.

Sinais de Esperança
As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem de acordo com a perspectiva geopolítica que se adota. Vistas da Europa, as eleições tiveram um significado especial para os partidos de esquerda. A Europa vive uma grande crise que ameaça liquidar com o núcleo duro de sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia. Desde o início de 2010 criou-se, quase de maneira instantânea, um novo senso comum, para o qual o modelo social europeu não é viável: a Europa deve abandoná-lo para recuperar o crescimento e aceitar os custos sociais que isto implicará. Aos latino-americanos, não lhes escapará o significado deste novo senso comum: o FMI já está sentado à mesa para discutir as políticas públicas européias.

Por outro lado, a dura derrota do partido social-democrata sueco nas eleições de setembro último – quando alcançaram 30,9% dos votos, seu pior resultado desde 1914 – teve um valor simbólico e político. Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil levantou nos últimos oito anos a bandeira da democracia social e reduziu significativamente a pobreza. Fez isso reivindicando a especificidade de seu modelo, mas o fundamentando na mesma idéia básica da democracia social: combinar aumento da produtividade econômica com o aumento da proteção social. Para os partidos na Europa que lutam por uma reforma do modelo social – mas não por sua extinção -, as eleições do Brasil trouxeram um pouco mais de ar para respirar.

No continente americano, as eleições brasileiras tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se enfrentaram. Para o governo dos Estados Unidos, o Brasil de Lula tem sido um parceiro relutante, desconcertante e, em última instância, pouco confiável. Combinou uma política econômica “aceitável” (ainda que criticada por não continuar com o processo de privatizações) com uma política externa “hostil”. Para os Estados Unidos, é hostil toda política externa que não esteja totalmente alinhada às decisões de Washington. Tudo começou ainda no início do primeiro mandato de Lula, quando o presidente brasileiro decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do setor petroleiro depois de ter sobrevivido a um golpe de Estado no qual estiveram envolvidos os norte-americanos.

Este ato significou um obstáculo enorme para a política dos Estados Unidos de isolar o governo de Chávez. Os anos seguintes confirmaram a posição autônoma do governo de Lula. O Brasil se pronunciou de maneira veemente contra o bloqueio econômico a Cuba e estabeleceu relações de confiança com os governos eleitos – porém considerados “hostis” pelos Estados Unidos – de Bolívia e Equador, defendendo-os das tentativas de golpe da direita em 2008 e 2010, respectivamente. O Brasil promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico quanto no político e militar, à revelia dos Estados Unidos. Mas a ousadia das ousadias foi buscar uma relação independente com o governo “terrorista” do Irã.

Na última década, a guerra no Oriente Médio fez com que os Estados Unidos “abandonassem” a América Latina. Agora os Estados Unidos estão voltando e as formas de intervenção são mais sofisticadas que antes. A obsessão do candidato derrotado José Serra em relação ao narcotráfico na Bolívia (um ator secundário) era o sinal do desejo de alinhamento [com Washington]. A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro (um “falcão”), Thomas Shannon, são sinais claros da estratégia norte-americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda de outros governos não alinhados no subcontinente.

A morte de Néstor Kirchner foi vista pelo imperialismo norte-americano como um importante impulso para gerar esse efeito dominó. Basta ver como a morte do grande político argentino foi recebida cinicamente pelos mercados financeiros, com a imediata valorização dos títulos da Argentina diante da expectativa de uma virada política para um modelo “mais amigável aos mercados”. Com a vitória de Dilma Rousseff, o projeto imperialista irá manter-se, pelo menos por hora, adiado.

A segunda perspectiva sobre as eleições é oposta à norte-americana, sendo assumida pelos governos “desalinhados” [a Washington] e progressistas do continente, assim como pelas classes e movimentos sociais que os levaram ao poder. Para todos eles, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança, um espaço para uma política regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de nacionalismo que aposte em uma maior redistribuição da riqueza coletiva.

sábado, 13 de novembro de 2010

O futuro do DEM

Em uma entrevista dada ao Estadão em julho de 2009, o cientista político Fernando Henrique Eduardo Guarnieri avaliou que a fusão é “o destino dos partidos que não lançarem candidatos, principalmente para presidente”, já que “a eleição para presidente é a eleição em torno da qual gravita toda a vida política do país”. Com base nisso, o cientista político já citava naquela época que “o DEM e o PTB têm perdido muito espaço nas eleições majoritárias”, apontando que “ou bem eles se fundem ou se renovam de alguma maneira”.

Passado menos de 18 meses dessa entrevista, pipocam em toda a imprensa brasileira notícias dando conta de movimentos do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), no sentido de articular uma fusão de sua legenda com o PMDB. Essa pauta ganhou ainda maior destaque após o resultado das eleições de outubro, nas quais o DEM saiu bastante enfraquecido, reduzindo consideravelmente sua bancada tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Embora o partido tenha elegido dois governadores (Rosalba Ciarlini, no Rio Grande do Norte, e Raimundo Colombo, em Santa Catarina), a queda na bancada parlamentar tem pesado bastante na discussão sobre o futuro da legenda.

Redução contínua da bancada no Congresso
Se levarmos em conta o critério definido por Guarnieri para balizar suas projeções de fusão partidária, verificaremos que de fato desde 1989 o DEM (na época PFL) não tem um candidato próprio à Presidência da República. Desde 1994, a legenda vem a reboque do PSDB, tendo tido ainda assim um maior destaque naquela eleição e na subseqüente (1998), ocasiões nas quais indicou o vice, Marco Maciel (PFL-PE), na chapa vitoriosa do tucano Fernando Henrique Cardoso. Contudo, a partir daí o DEM se transformou praticamente em uma “extensão” do PSDB, alimentando uma parceria quase que “automática” para as disputas presidenciais posteriores, à exceção de 2002, quando o partido ficou neutro.

Ainda que isso ajude a explicar o enfraquecimento do DEM, não podemos resumir esse processo de desgaste do partido à ausência de candidaturas próprias nas sucessões presidenciais. Um aspecto mais importante que esse não pode ser esquecido: o fraco desempenho que o DEM tem tido, recorrentemente, nas eleições legislativas. Neste sentido, o cientista político Maurice Duverger nos ensina que, nascido dentro ou fora do Parlamento, um partido político tem sua existência referenciada a ele. E é no âmbito do desempenho eleitoral parlamentar que se pretende buscar uma explicação para o enfraquecimento político do DEM nos últimos anos.

Para se ter uma idéia, o DEM tem visto sua bancada no Congresso ser reduzida sistematicamente nos últimos anos. Em 1998, o partido elegeu 105 deputados federais, sendo, à época, a maior bancada da Casa. Nas eleições seguintes, em 2002, o então PFL perdeu 21 cadeiras, elegendo uma bancada de 84 deputados federais, e perdendo também o posto de maior bancada da Câmara, que naquelas eleições ficou com o PT, vitorioso também na disputa presidencial. Em 2006, o Democratas sofre nova redução, elegendo apenas 65 deputados federais e caindo para quarta maior bancada da Câmara dos Deputados. Nas eleições deste ano, o partido sofre nova redução na bancada, elegendo apenas 43 deputados federais.

No Senado, a situação é semelhante: o DEM encerra 2010 com 13 cadeiras na Casa, mas inicia a próxima legislatura, em fevereiro, com apenas 6 senadores da sigla. Assim, o partido passa da condição de segunda maior bancada do Senado para a quarta colocação. Além da redução da bancada no Senado, outro fato teve impacto negativo no DEM: a derrota do ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, nas eleições para a Casa. Tendo iniciado a campanha com uma vitória praticamente certa, conforme captavam as primeiras pesquisas de intenções de voto, César Maia terminou em quarto lugar, atrás de Lindberg Farias e Marcelo Crivella (eleitos) e Jorge Picciani.

A vitória de César Maia nas eleições para o Senado poderia dar uma sobrevida ao DEM, já que o ex-prefeito seja talvez o quadro mais “ideológico” do partido, além de capitanear, junto ao seu filho e atual presidente da legenda, Rodrigo Maia, o bloco que resiste à idéia de dissolução do DEM. Para o ex-prefeito, a idéia de que o DEM ainda é um partido forte é corroborada por uma declaração do Presidente Lula em um comício feito em Santa Catarina, ainda no 1º turno, de que era preciso “extirpar o DEM”. Pela lógica de Maia, o fato do Presidente se preocupar com a legenda mostra que o DEM ainda é importante.

Kassab estaria articulando fusão com PMDB
Embora o grupo ligado ao ex-prefeito do Rio pressione para que haja uma resistência do partido à idéia de fusão com o PMDB, parece ser crescente uma pressão no sentido contrário, feita, sobretudo, pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e pelo ex-presidente da legenda, Jorge Bornhausen. Kassab ganhou projeção dentro do DEM em 2006, quando assumiu a prefeitura de São Paulo no lugar do então prefeito José Serra, que renunciou para concorrer ao governo do Estado. A vitória nas urnas em 2008, quando derrotou nomes fortes como a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), fortaleceu ainda mais Kassab dentro do DEM.

Segundo vem sendo noticiado pela imprensa, Kassab seria o responsável pela articulação de uma fusão da sigla com o PMDB, tendo em vista a sucessão para o governo de São Paulo em 2014. Vale destacar que o rumor não tem nada de absurdo, uma vez que é bastante razoável imaginar que o prefeito da maior cidade do país esteja fazendo um movimento para ocupar a lacuna deixada por Orestes Quércia no PMDB paulista. Quércia, que chegou a lançar candidatura ao Senado este ano, retirou-se do pleito por questões de saúde, deixando, assim, um vácuo no PMDB de São Paulo, que pode muito bem ser alvo dos anseios do atual prefeito de São Paulo.

De acordo com reportagem do jornal O Globo, Kassab promoveu na última quinta-feira, 11, um almoço em São Paulo com outras lideranças democratas, tendo como pauta a antecipação das eleições internas do partido marcadas inicialmente para outubro do próximo ano. A antecipação das eleições internas do DEM para o início do ano seria uma forma de Kassab assumir o comando do partido e catalisar o processo de fusão com o PMDB posteriormente. Segundo a reportagem do jornal, contudo, o grupo que participou do almoço nega que essa seja a finalidade da antecipação do processo eleitoral.

Para o Globo, o ex-presidente do DEM, Jorge Bornhausen, afirmou que “esse assunto [fusão com PMDB] não está em cogitação. O que precisamos é de uma mobilização para reforçar as bases partidárias, que tem que ser feita no início do ano que vem nas convenções. Se deixarmos isso para o fim do ano corremos o risco de não ter tempo suficiente para preparar o partido para as eleições municipais”. Ainda que a movimentação no sentido de uma fusão com o PMDB não seja admitida pelo grupo próximo ao prefeito Kassab (o que é uma postura óbvia), tudo indica que essa discussão caminha para o centro do debate na Executiva do DEM no próximo ano.

Depois de tentar uma oxigenação infrutífera em 2007, quando se buscou uma renovação até no nome – de PFL para Democratas -, parece que a melhor saída para o DEM é de fato apostar em uma fusão com outro partido. Longe de ser uma discussão fácil, o debate em torno do assunto é no mínimo necessário, especialmente após o sucessivo desgaste sofrido pelo partido nas urnas.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O "apetite imoderado" do Estadão pela crítica descabida e sem fundamentação

Segundo a Psicanálise, é comum que as pessoas busquem umas nas outras defeitos que enxergam em si mesmas, procurando assim uma forma de não se sentirem inferiores ao resto do mundo. Pois bem, deve ser essa a razão que explique o comportamento do Estadão, que tem procurado sistematicamente, nos últimos dias, encontrar “crises” no processo de composição do novo governo. Tendo sido derrotado nas urnas, já que apoiou o candidato tucano José Serra, o jornal O Estado de São Paulo tem empreendido um esforço hercúleo para tentar desqualificar os trabalhos do governo de transição e da formação da equipe ministerial da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT).

Em um editorial publicado nesta sexta-feira, 12, intitulado “Apetites imoderados”, o jornal insinua uma crise entre PT e PMDB, em torno dos cargos de primeiro escalão, que simplesmente não existe. Segundo o texto, “diante da mesa farta, o que [PT e PMDB] enxergam é a escassez das cadeiras em comparação com o que consideram seus direitos adquiridos nas urnas. Já se estimou que, para acomodar as pretensões petistas, peemedebistas e dos demais sócios da coalizão vencedora, o total de Ministérios deveria aumentar dos atuais 37 para qualquer coisa perto de 50”.

Disputa faz parte do jogo político
A idéia vendida pelo Estadão, em seu editorial, e comungada também por outros setores da grande imprensa, só pode ser explicada por duas razões: total ignorância ou desonestidade intelectual quanto aos procedimentos nos quais está circunscrito o jogo político. Dilma foi eleita não somente pelo PT, partido ao qual pertence, mas também por uma coalizão de partidos que, agora, passadas as eleições, disputam legitimamente seus espaços no novo governo. Que mal há nisso? A disputa de interesses e espaços é o que move a política.

Qualquer tentativa de encarar o jogo político como algo celestial ou puritano é totalmente equivocada! Não se faz política sem a disputa de idéias, posições e também de espaços. Cada grupo procura, neste sentido, construir a sua hegemonia e ampliar sua presença política. Ou será que o Estadão esperava que Dilma anunciasse ditatorialmente quais cargos daria para determinado partido sem que houvesse uma contraposição deste e também dos demais? Se essa era a expectativa do jornal, recomenda-se um curso urgente de ciência política em suas redações!

Assim como o editorial do Estadão, outros jornais, como a Folha de São Paulo, têm tentado recorrentemente tratar a disputa de espaços entre os partidos no novo governo como uma “crise”. Ora, existe uma diferença muito grande entre disputa e crise. Como dito anteriormente, a disputa está no centro da política. É a disputa que gera o debate, o entendimento e, posteriormente, o consenso. O fato de PT, PMDB e demais partidos que compuseram a coligação vitoriosa de Dilma pleitearem maiores espaços junto ao novo governo não significa dizer que existe uma crise instaurada. Muito pelo contrário, a crise existiria se não houvesse essa disputa.

Afinal de contas, a ausência de disputa poderia sugerir duas coisas: que um pequeno grupo estaria centralizando todas as decisões sem que houvesse discussão prévia com os demais partidos que ajudaram a eleger Dilma ou então que esses partidos estariam desinteressados em compor o novo governo. O que este texto pretende sublinhar é que os movimentos feitos por PT e PMDB, os dois maiores partidos da base governista, são totalmente legítimos e característicos do jogo democrático, não se tratando de um “apetite imoderado” por cargos, como insinua o Estadão.

Aliás, é bom que se diga que é o jornal quem parece possuir um “apetite imoderado” pela crítica ao governo Dilma sem sequer tomar o cuidado de apresentar uma fundamentação consistente. A fome do Estadão pela crítica descabida à nova Presidente é tanta que o jornal lança mão, em seus editoriais, dos argumentos mais estapafúrdios. Uma coisa é certa: “nunca antes na História desse país”, setores da grande imprensa basearam-se em argumentos tão desqualificados para tentar atacar um governo!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Câmbio em foco: ou o fatídico exercício de futurologia da grande imprensa

Em uma recente entrevista concedida à Folha de São Paulo, o marqueteiro da campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT), João Santana, destacou um aspecto interessante destas eleições: as lendas construídas pela oposição e pela mídia sobre a então candidata governista. Segundo Santana, oposição e alguns setores da mídia “construíram quatro lendas eleitorais: que Lula não transferia voto, que Dilma ia ser péssima na TV, que Dilma ia ser um desastre nos debates e que Dilma, a qualquer momento, iria provocar uma gafe irremediável nas entrevistas. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário”.

O marqueteiro prossegue, destacando que “construíram, pelo menos, quatro lendas biográficas: que Dilma tinha um passado obscuro na luta armada, que era uma pessoa de currículo inconsistente, que teve um mau desempenho no governo Lula, e que o fato de ter tido câncer seria fatal para a candidatura. Nada disso se confirmou. E construíram lendas políticas. As principais eram que Dilma não uniria o PT, não teria jogo de cintura para as negociações políticas e que não saberia dialogar com a base aliada. Outra vez, tudo foi por terra”.

As eleições passaram, mas a vitória de Dilma, a despeito de todas as lendas “furadas” que foram alimentadas pela oposição e parte da mídia, não foi suficiente para aplacar o exercício de futurologia praticado nas redações dos grandes jornais. Isto porque, se antes, durante a campanha, a futurologia dos grandes grupos de imprensa apontava para dificuldades eleitorais da então candidata, agora, essas mesmas redações apostam que, uma vez eleita, Dilma terá grandes dificuldades na área econômica.

Futurologia com guerra cambial
A bola da vez, neste sentido, diz respeito à questão da valorização do real frente ao dólar, que vem sendo apontada pela grande imprensa e por economistas nada isentos como “a” grande dificuldade que Dilma terá que enfrentar em seu primeiro ano de governo. A reunião do G-20 (grupo formado pelas 20 maiores economias do mundo) nesta semana veio colocar ainda mais combustível neste debate, ampliando ainda mais o côro pessimista dos que acham que o governo Dilma será amplamente prejudicado pela guerra cambial que se desenrola no cenário externo.

Ainda na semana passada, a revista Época trouxe como capa uma matéria intitulada O vento vai soprar a favor de Dilma?, na qual faz um exercício de futurologia barata que “revela” um cenário menos animador para Dilma do que aquele encontrado por Lula no início do seu mandato. Ao longo desta semana, por sua vez, pipocaram editoriais e análises traçando cenários dos mais nebulosos para o primeiro ano de governo da nova Presidente.

Segundo a revista Época, “uma das principais razões para o sucesso do governo Lula foi um cenário internacional extremamente favorável”, emendando logo em seguida que “há muitos sinais de que Dilma – e, com ela, a nação inteira – pode não ter a mesma sorte”. Cabe aqui a questão: até que ponto esta avaliação é coerente? Ou melhor: até que ponto este tipo de colocação não passa de uma mera manifestação da torcida do contra? Ora, a reflexão sobre as questões lançadas me fazem lembrar de algo que aprendi ainda na época da faculdade de Economia, com o professor João Sayad, que na época também era Secretário das Finanças da Prefeitura de São Paulo, na gestão Marta Suplicy (PT).

O professor Sayad nos ensinava que é preciso saber separar o homem do seu tempo. Ou seja, há que se ter a racionalidade de avaliar o que é mérito do homem e o que é mérito do seu tempo. Esse ensinamento é trazido para o centro do debate justamente para entender a primeira afirmação feita pela revista Época: a de que uma das principais razões do sucesso do governo Lula foi o cenário internacional extremamente favorável. Ao que tudo indica, a lição de João Sayad não é conhecida (ou caso seja, é oportunamente ignorada) na redação da revista Época.

Mérito do projeto político de Lula e Dilma
Naturalmente, o governo Lula encontrou um cenário internacional favorável, mas até aí dizer que isto foi um dos principais ingredientes para o seu sucesso soa como um exagero premeditado. Devemos lembrar que, logo no seu primeiro de governo, Lula não teve um cenário externo dos mais auspiciosos, já que em 2003 o preço do petróleo no mercado internacional sofreu um expressivo aumento por conta da invasão norte-americana no Iraque. Não é preciso ser um gênio da Economia para saber que o efeito de altas no petróleo sobre a inflação interna. Pois bem, e o governo Lula saiu-se muito bem para conter maiores repiques inflacionários no mercado interno.

Mais recentemente, em 2008, quando o mundo inteiro passava pela maior crise do capitalismo desde 1929, mais uma vez o governo Lula mostrou uma habilidade enorme ao adotar medidas anti-cíclicas que garantiram que o Brasil fosse o último país a entrar na crise e o primeiro a sair dela. Aqui retomamos a lição do professor Sayad: o êxito obtido pelo governo Lula decorre muito mais do mérito do seu projeto político do que propriamente do mérito do seu tempo. Fosse verdade que o governo Lula foi exitoso tão somente pelo cenário externo, seria plausível então imaginar que durante a crise o país também entrasse em colapso, como outras economias.

E não foi isto que aconteceu, o que corrobora a tese defendida por este blog de que o sucesso do governo deveu-se, sobretudo, ao projeto político adotado pelo mesmo, do qual Dilma é a legítima herdeira. Em 2008, os mesmos jornais e revistas que hoje dizem que Dilma enfrentará grandes dificuldades em seu primeiro ano de governo foram os que, nos seus exercícios de futurologia, previram um grande tsunami econômico para o Brasil no ano seguinte. Erraram daquela vez, erraram ao longo deste processo eleitoral e errarão novamente na sua torcida do contra. O projeto até aqui capitaneado por Lula e que a partir de janeiro será levado adiante por Dilma garantirá um crescimento vigoroso para a economia brasileira, com mais geração de empregos, inflação sob controle e maior renda para os brasileiros.

Que fique claro aqui: a intenção deste blog não é fechar os olhos ao problema real da guerra cambial que vem se verificando no cenário externo e que pode ter sim impactos negativos sobre a economia brasileira. Longe disso. A questão é que mais uma vez a grande imprensa super-dimensiona a questão, se esquecendo de forma proposital que o Brasil não depende somente das exportações, já que nos últimos anos foi capaz de criar um mercado interno de consumo robusto. Além disso, a equipe econômica já vem tomando medidas bastante plausíveis no sentido de conter uma maior valorização do real frente à moeda norte-americana.

Assim, de nada adianta parte da grande imprensa seguir com seus fatídicos exercícios de futurologia barata. Assim como falharam em momentos anteriores, irão falhar nesse momento, pois Dilma representa um projeto sólido de desenvolvimento, iniciado por Lula e que foi muito exitoso nos últimos anos, não obstante às intempéries da economia global no período.

Sobre Tiririca, democracia e a nova derrota das vozes do elitismo

A segunda vitória de Francisco Everardo Oliveira Silva – ou Tiririca, como ficou nacionalmente conhecido desde os anos 90 – foi conquistada nesta quinta-feira, 11 de novembro, junto ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo, onde o deputado eleito passou por uma avaliação com o intuito de verificar sua alfabetização. Após ter sido eleito no último dia 3 de outubro com mais de 1,3 milhão de votos para o cargo de Deputado Federal, Tiririca passou a ser vítima de uma onda de boatos que colocavam em xeque sua capacidade de ler e escrever.

Alvo de denúncias veiculadas em jornais e revistas, Tiririca chegou a ser acusado até mesmo de falsidade ideológica, já que a onda incessante de boatos dava conta que a declaração escrita a próprio punho pelo candidato, que atestava sua alfabetização, não tinha sido, na realidade, escrita por ele próprio. A fim de averiguar se Tiririca sabia ou não ler e escrever, o TRE-SP realizou nesta quinta-feira um teste com o deputado eleito, no qual ele teve que copiar um trecho de um livro e ler um outro texto. Feito o teste, ficou comprovado: Tiririca de fato sabe ler e escrever.

Vitória de Tiririca é vitória da democracia
A vitória de Tiririca deve ser encarada muito além da vitória de um cidadão que, tendo sido candidato, conquistou expressiva quantidade de votos e conseguiu se eleger parlamentar. Mais que isso: a vitória de Tiririca no Judiciário, passado o teste das urnas, deve ser comemorada por ser uma vitória da democracia contra as vozes do obscurantismo, do preconceito e do conservadorismo. Afinal de contas, boa parte da classe média “intelectualizada e formadora de opinião” condenava a eleição de Tiririca, escondendo sob o argumento de seu suposto “analfabetismo” o verdadeiro motivo: o preconceito por ele ser palhaço, de origem humilde e nordestino.

Para a classe média – sobretudo a paulistana – tornou-se intolerável o fato de ter como parlamentar mais votado de São Paulo um palhaço, que iniciou sua campanha com um bordão crítico que incomodou muita gente: “você sabe o que faz um deputado federal? Nem eu. Vota em mim que depois eu te conto”! Interessante que essas mesmas pessoas que criticavam a eleição de Tiririca se auto-denominavam como defensoras da democracia, esquecendo-se somente de um detalhe: democracia é muito mais do que o direito de votar e ser votado – é também representação.

E, neste sentido, há que se respeitar a representação conquistada por Tiririca de forma legítima, através do voto de 1,3 milhão de eleitores que se sentiram representados por sua fala. Voto de protesto ou não, o fato é que os eleitores de Tiririca o legitimaram para ocupar uma cadeira no Parlamento e isso já é razão mais que suficiente para que o deputado eleito seja diplomado e exerça seu mandato. Pior do que o argumento do suposto analfabetismo de Tiririca – que caiu por terra nesta tarde – é o discurso elitista e preconceituoso de uma parcela da sociedade que tenta, a todo custo, judicializar a política.

É a esse fato que devemos ater nossa atenção: os sistemáticos movimentos de uma parcela da sociedade civil que quer ferir a democracia no seu princípio mais valioso – o de que todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido –, substituindo-o pela idéia de que é a Justiça quem decide quem pode ou não ser elegível. Este tipo de discurso elitista é extremamente nocivo à democracia, pois transfere do voto popular para o voto de juízes o destino da Nação. Neste sentido, a vitória de Tiririca nesta quinta-feira vai além de sua vitória pessoal – é uma vitória política do campo progressista, uma vez que ratifica aquilo que mais de um milhão de eleitores decidiu nas urnas.

É ao mesmo tempo uma derrota dessas vozes do conservadorismo e do elitismo, que travestidas sob o manto de um suposto “moralismo” político, desejam na verdade retomar as rédeas do poder. E, já que não o conseguem por vias democráticas, lançam mão de todos os artifícios – e a judicialização da política é um deles – para verem seus desejos satisfeitos. Felizmente, mais uma vez os conservadores de plantão tiveram suas expectativas frustradas. Para o bem da democracia e para o bem do Brasil!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O ENEM e os diferentes pesos e medidas da grande imprensa

Se um extraterrestre, que nunca teve nenhum tipo de informação sobre a Terra e, muito menos, sobre o Brasil, chegasse nestes últimos dias ao nosso país e tentasse obter informações através dos nossos grandes jornais e emissoras de TV, certamente seria mais um dos que engrossam o coro de críticas ao ENEM – o Exame Nacional do Ensino Médio. Isto porque a grande imprensa tem feito sistematicamente nos últimos tempos um exercício de desconstrução do Exame, que além de ser um poderoso instrumento de avaliação do ensino médio, ainda serve como caminho para milhares de estudantes ingressarem em uma IES (Instituição de Ensino Superior).

Bastou uma falha de proporção residual no último sábado (dia 6 de novembro), quando foi aplicada a primeira etapa do Exame, para que uma enxurrada de críticas ao ENEM, ao ministro da Educação Fernando Haddad e ao governo Lula tivesse início. Antes de seguir, cabe aqui fazer uma ressalva: este blog não tem nenhum tipo de complacência com erros e falhas, defendendo sempre uma postura crítica às mesmas. Ou seja, o questionamento que se faz aqui ao comportamento da imprensa sobre o episódio do ENEM não se dá em função das críticas às falhas ocorridas no ENEM no último final de semana, mas sim ao super-dimensionamento dado a estas falhas.

Falha atingiu apenas 0,006% das provas
De acordo com informações do MEC (Ministério da Educação), a falha de impressão nos cadernos de questões ocorrida no último sábado atingiu um lote de apenas 21 mil provas, em um universo de 3,5 milhões de estudantes que participaram do ENEM. Se fizermos os cálculos, veremos que o lote com falha corresponde à incrível (!) parcela de 0,006% do total: ou seja, em 99,94% dos casos, os cadernos de questões estavam totalmente corretos. Considerando que boa parte desses cadernos com falhas foram trocados por outros, estes corretos, ainda durante os primeiros minutos da prova, apenas 2 mil estudantes foram prejudicados pelo erro da gráfica.

Refaçamos então os cálculos: foram prejudicados 2 mil estudantes dentro de um universo de 3,5 milhões, correspondendo à cifra de 0,0006%, o que deixa claro o super-dimensionamento da falha que vem sendo praticado por boa parte da imprensa brasileira. É claro que o Ministério da Educação terá que encontrar uma solução para que estes 2 mil estudantes que foram prejudicados na primeira etapa do Exame não sejam mais prejudicados ainda para posterior seleção nas IES. E neste ponto é justo que a imprensa faça a devida cobrança. Por outro lado, transformar uma falha pontual em uma “crise”, como foi apregoado pelo blog do Reinaldo de Azevedo, na revista Veja, é um pouco demais!

Deve-se destacar o quão importante tem sido o aperfeiçoamento do ENEM ao longo dos últimos anos, sobretudo no que diz respeito à democratização do acesso ao ensino superior. Afinal de contas, o Exame Nacional do Ensino Médio é um dos principais critérios utilizados pelo ProUni para concessão de bolsas de estudo a milhares de estudantes de baixa renda, que sem esse auxílio do governo federal não teriam condições de freqüentar uma universidade. Dizer, portanto, que existe uma “crise” no ENEM só pode ser explicado por duas razões: desconhecimento sobre o Exame ou então pura má-fé mesmo! Se formos nos basear nessa lógica – a de transformar pequenas falhas em grandes crises – então a imprensa brasileira está perdida, pois vive numa crise monumental há muito tempo.

Dois pesos, duas medidas
De qualquer forma, essa cobertura oportunista que vem sendo dada pela grande imprensa ao episódio do ENEM nos mostra que o embate dos grandes veículos de comunicação com o governo federal nos próximos anos só tende a aumentar. Engana-se quem pensa que a grande luta com a imprensa golpista foi travada na arena da sucessão presidencial: muito pelo contrário, ao que tudo indica a grande imprensa fará o jogo da oposição de forma contundente ao longo de todo governo Dilma. Veja, Globo, Estadão, Folha e Cia não engoliram a derrota nas urnas que sofreram há 10 dias, o que nos faz pensar que a cobertura descaradamente parcial só tende a aumentar nos próximos anos.

Isso fica muito claro quando essa grande mídia super dimensiona uma pequena falha ocorrida no ENEM e esconde, por exemplo, o escândalo da licitação do metrô de São Paulo, denunciado na última semana do segundo turno das eleições presidenciais. Por que os jornais e revistas não dão ao escândalo de favorecimento nas licitações do metrô de SP o mesmo destaque dado a esta pequena falha ocorrida no ENEM? Sejamos claros: o que é mais importante do ponto de vista jornalístico – uma falha que afeta 0,0006% dos estudantes que prestaram o ENEM ou um esquema denunciado pela própria Folha de São Paulo que teve acesso seis meses antes do anúncio oficial pelo Metrô de SP aos vencedores da licitação para a Linha 5?

Por que é tão recorrente esta prática da grande imprensa de inflar pequenas falhas ocorridas na gestão petista e jogar debaixo do tapete grandes erros ocorridos em governos tucanos? Não se trata de justificar um erro pelo outro, mas sim de dar o devido peso a cada falha. É inadmissível, como dito anteriormente, que uma pequena falha que não atingiu nem 1% dos estudantes que prestaram o ENEM se transforme agora em uma “crise” de proporções homéricas na educação brasileira, como quer fazer parecer a grande imprensa. Longe de querer pedir imparcialidade, o que este blog pede à grande imprensa é o mínimo de coerência.

Passada a correria eleitoral, é hora do Boteko retomar suas atividades!

Após ficar “fechado” durante quase 120 dias em função do mergulho total deste blogueiro na campanha dos companheiros José Genoino e Dilma Rousseff, o Boteko Vermelho reabre nesta quarta-feira suas portas virtuais. Vencidas as eleições presidenciais, agora é o momento de prosseguir as análises e fazer o contraponto à grande imprensa, que mais uma vez mostrou, ao longo deste processo eleitoral, qual é o seu verdadeiro lado.

É redundante dizer aqui que esta foi uma das campanhas eleitorais mais baixas e sórdidas já vistas na recente história da República brasileira. Acusações de dossiês e quebra de sigilo fiscal da filha do candidato tucano tornaram-se “fichinha” perto do arsenal sórdido que a campanha do PSDB lançou mão na reta final do primeiro turno, trazendo questões moralistas e hipócritas ao centro do debate político.

O candidato José Serra (felizmente derrotado nas urnas) prestou, neste sentido, um grande desserviço à democracia brasileira, já que sua campanha, ao invés de centrar-se na discussão de programas e projetos, preferiu incentivar o ódio e a mentira, dividindo a sociedade em torno de temas como o aborto e a união civil homoafetiva. Mas, tal como prenuncia o ditado popular, o “feitiço virou contra o feiticeiro” e Serra pagou o preço por ter fomentado uma campanha extremamente leviana.

O povo brasileiro mostrou, no último dia 31 de outubro, que não é mais “massa de manobra”, sujeita a todo tipo de promessas eleitoreiras, tais quais aquelas que Serra lançou mão ao longo do processo (vide exemplo do salário mínimo de R$ 600). A maioria dos eleitores colocou na balança os dois projetos que estavam em disputa e decidiu pela continuidade do governo vitorioso de Lula, que a partir de 1º de janeiro próximo será seguido pela nossa 1ª Presidente mulher, Dilma Rousseff.

Mais que um governo que garantiu a mobilidade social de milhões de brasileiros, que gerou 15 milhões de empregos, que recuperou o país de uma situação desastrosa na qual se encontrava em 2002, o governo Lula representa um governo para todos os brasileiros. E é isso que Dilma dará sequência: a um Brasil de todos e não de poucos. O governo Dilma continuará incluindo e não excluindo, como feito por governos anteriores ao de Lula. Com Dilma, o Brasil será muito melhor!

E é exatamente por isso que o Boteko Vermelho reabre suas “portas” em clima de festa! Passadas as eleições, agora é hora de trabalharmos duro para continuar, com Dilma, os grandes avanços conquistados ao longo dos últimos anos! Como dito em um dos jingles de campanha: “e o Brasil vai seguir mudando, é o que a gente quer, seguro e com fé nas mãos dessa mulher! Meu Brasil ta querendo Dilma, meu Brasil ta querendo continuar, com a força da massa, o povo te abraça, agora é Dilma, é a vez da mulher”!