
Esperava-se, dessa forma, uma “nacionalização” das eleições municipais em São Paulo, com os dois principais partidos do país se enfrentando numa disputa acirrada. E as pesquisas de intenções de voto confirmavam essa tendência de polarização: para se ter uma idéia, a primeira pesquisa Datafolha feita após a oficialização das candidaturas, no final de junho de 2008, mostrava Marta liderando a corrida para a Prefeitura, com 38% das intenções de voto, sendo seguida por Alckmin, com 31%. Em terceiro lugar, bem afastado dos dois principais postulantes ao Palácio do Anhangabaú, estava o candidato do DEM, Gilberto Kassab, com 13% das intenções de voto.
Porém, contrariando todas as análises que apostavam em uma eleição polarizada entre PT e PSDB, tão logo começou a campanha, Kassab mostrou uma tendência de crescimento – de início, um avanço tímido, mas que se tornou maior após o início da propaganda eleitoral no rádio e TV, em agosto. E o que aconteceu? O candidato do DEM desbancou Alckmin e encerrou o 1º turno em primeiro lugar nas urnas, com 33,6% dos votos, enquanto Marta teve 32,8%. O candidato tucano amargou 22,5% dos votos. No segundo turno com Marta, Kassab levou a melhor, sendo eleito prefeito com 60% dos votos e cunhando a expressão no meio dos analistas políticos de “efeito Kassab”.
A questão levantada aqui é se, tal como na disputa municipal de São Paulo em 2008, é possível que se repita o chamado “efeito Kassab”, desta vez com a candidatura de Marina Silva, do PV, na disputa presidencial de 2010? Para responder a esta questão, devemos levar em conta alguns aspectos que diferem o cenário daquele ano com o quadro traçado nestas eleições e nos ajudam a entender se a “terceira via” proposta por Marina é algo que pode “pegar” na disputa presidencial:
01. Diferença do centro do debate político: o primeiro aspecto que deve ser levado em conta diz respeito à pauta central do debate em cada caso e, neste sentido, já notamos uma primeira diferença. Enquanto nas eleições paulistanas de 2008, o grande foco foi o aspecto administrativo, no qual se discutiram basicamente as “realizações” de cada candidato, nas eleições presidenciais deste ano o foco tende a ser os aspectos econômicos e sociais. Naturalmente, que esse tipo de discussão passa pelo mérito das “realizações” e aqui vemos uma desvantagem na situação em que se encontra Marina hoje com aquela se encontrava Kassab dois anos atrás.
Em 2008, Kassab era o prefeito de São Paulo, posto que assumiu em meados de 2006, quando o seu antecessor (e hoje candidato à Presidência da República) José Serra renunciou ao cargo para a disputa do governo do Estado. Como Kassab era o vice de Serra, ele assumiu e tocou a administração municipal. Assim como seu “padrinho político”, o prefeito do DEM continuou as principais obras feitas na gestão anterior – da petista Marta Suplicy (2000-2004) -, embora seja bom que se diga descaracterizando-as. De qualquer maneira, quando começou a campanha de 2008, Kassab tinha o que mostrar e o debate acabou sendo reduzido em torno da “paternidade” de obras como CEUs e Bilhete Único.
E embora Marta tenha sido a criadora desses projetos, no final Kassab acabou levando a melhor, pois sua comunicação com o eleitorado foi mais “eficiente” que a comunicação petista. Voltando a 2010, Marina não tem nada de concreto para mostrar, de forma que o seu discurso não passa pelo campo das “realizações”, o que a deixa em desvantagem em relação aos dois principais postulantes à Presidência da República: a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra. Vê-se aqui, portanto, que sob o prisma da “munição para o debate” Marina leva desvantagem em relação à situação que Kassab tinha em suas mãos em 2008 e que, sem dúvida, o ajudou sobremaneira a reverter o quadro inicial e ser vitorioso nas urnas.
02. Apoio político: não é preciso explicar o peso que se tem o fator “apoio político” em uma disputa, seja ela local ou nacional. O apoio político é um poderoso instrumento de capilarização da candidatura entre o eleitorado, sendo que candidaturas com maior apoio político tendem a ter mais sucesso que aquelas que contam com pouco ou nenhum apoio. Aqui, mais uma diferença entre a situação de Marina e a de Kassab em 2008. Enquanto Marina conta basicamente com o apoio somente do seu partido – o PV – no plano nacional, Kassab foi capaz de costurar uma forte aliança em 2008, que lhe permitiu o crescimento até a vitória.
Para se ter uma idéia, além do seu partido, o DEM, Kassab tinha o apoio do PR, do PV, do PSC, do PRP e principalmente do PMDB do ex-governador Orestes Quércia, que indicou a vice em sua chapa, Alda Marco Antônio. Essa aliança costurada por Kassab foi um fator importante e decisivo, como veremos adiante, para a vitória do demo nas eleições de 2008, sem contar o apoio político extra-oficial recebido por parte do então governador de São Paulo, José Serra. Esse, sem dúvida, foi um grande trunfo de Kassab, uma vez que enquanto o PSDB de Alckmin se dividiu (uma ala apoiando o ex-governador e a outra ala, de Serra, apoiando o prefeito do DEM), a candidatura do demo recebeu um apoio “de peso”.
E essa não é a situação de Marina no quadro sucessório de 2010. Embora em alguns estados, como o Rio de Janeiro, o PV tenha articulado alianças com outros partidos, estas vão muito mais no sentido de servirem para palanque de José Serra do que de Marina, o que não altera, portanto, a desvantagem da candidata do PV. Enquanto Kassab foi para a disputa cercado por partidos de peso, Marina vai só, o que torna ainda menos provável que ocorra com ela um “efeito Kassab” tal como o ocorrido em São Paulo em 2008.
03. Tempo de propaganda no rádio e na TV: desdobramento direto do apoio político recebido, este fator foi decisivo para o desenrolar do quadro político-eleitoral de 2008 em São Paulo, que conduziu o candidato-prefeito, inicialmente em 3º lugar nas pesquisas, à vitória e novamente à cadeira de Prefeito da maior cidade do país. Com o apoio do PMDB e dos outros partidos já mencionados anteriormente, Kassab conseguiu o maior tempo de rádio e TV no primeiro turno das eleições municipais de 2008, o que sem dúvida favoreceu sobremaneira o seu desempenho nas urnas. Enquanto Marta dispunha de 6 minutos e 40 segundos de propaganda na TV e Alckmin 4 minutos e 27 segundos, Kassab tinha 8 minutos e 44 segundos.
Essa maior exposição do candidato do DEM foi imprescindível para que ele saísse do 3º lugar nas pesquisas e fosse reeleito prefeito de São Paulo. E é bom que se diga que foi exatamente após o início do horário eleitoral gratuito, em agosto, que Kassab teve o seu crescimento acelerado nas sondagens de intenções de voto. Foi graças a esse tempo de TV que o candidato do DEM conseguiu polarizar com Marta e jogar Alckmin para escanteio na disputa eleitoral. Na cena política deste ano, Marina não tem essa vantagem. Saindo com o apoio nacional apenas do seu próprio partido, a candidata do PV tem míseros 44 segundos de propaganda no rádio e na TV, que naturalmente são insuficientes para que se apresentem propostas e se debatam projetos.
Analisadas as diferenças entre as candidaturas de Kassab, em 2008, e Marina este ano sobre estes três prismas percebemos que, nesta disputa, é pouquíssimo provável que ocorra o chamado “efeito Kassab” com a candidata do PV. Sem realizações para mostrar, sem apoio político e, sobretudo, sem tempo de propaganda na TV, as chances de um maior crescimento de Marina Silva são escassas. O leitor pode indagar sobre a questão das redes sociais, que seriam um instrumento para divulgar a candidatura de Marina. De fato, as redes sociais – como Orkut, Facebook, Twitter – serão importantes nestas eleições; contudo não são um trunfo de Marina, já que as outras candidaturas também as usam, sendo, portanto, apenas uma alternativa.
Sobre os debates, é difícil que eles voltem as vistas do eleitor para uma candidatura considerada “pequena” e “sem chances”. Eles são importantes sim – até mesmo do ponto de vista da decisão do voto – para as grandes candidaturas, uma vez que o eleitor indeciso tende a prestar mais atenção nos candidatos que têm maior chance segundo as pesquisas de intenções de voto. Considerando esta série de fatores, podemos concluir que a repetição do “efeito Kassab” nas eleições de 2010, desta vez com a candidatura de Marina Silva, é praticamente descartada, já que a candidata do PV não reúne a série de “munições” que Kassab conseguiu reunir dois anos atrás. Evidentemente, não podemos nos precipitar, mas ao que tudo indica a campanha presidencial terá, como projetado inicialmente, um tom plebiscitário.
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