
Aparentemente, após um período de “festa”, de “sucesso”, eis que o eu-lírico drummondiano se depara com as mais diversas situações adversas, o que nos permite identificar uma íntima correlação com o momento político que vive o José das eleições presidenciais de 2010. Com um leque reduzido de aliados, o que lhe confere uma desvantagem no processo eleitoral, “a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu” também para José Serra. Isso é nítido. A segunda razão, por sua vez, que faz emergir um tom profético dos versos de Drummond diz respeito à própria naturalidade do poeta: assim como em 1942 um poeta mineiro sentencia um futuro obscuro para o seu “José”, em 2010 é Minas Gerais que também sentencia um cenário ruim para o José da disputa eleitoral.
Afinal de contas, a última esperança da oposição, que lança a candidatura do seu José, era de que o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, aceitasse ser vice da chapa demo-tucana. Impelido talvez pelo mesmo sentimento que tomou conta de Drummond mais de 50 atrás, o mineiro Aécio determina um futuro nebuloso para José. “Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope”, o José da disputa presidencial de 2010 segue marchando, mas, da mesma forma que o eu-lírico de Drummond, sem saber para onde. Abaixo, os versos proféticos de Drummond, que mostram que literatura e política podem ter muito mais coisas em comum do que se pressupõe.
José
"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"
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