quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Xenofobia na Catalunha: partido conservador lança game que "elimina" imigrantes

Um “game” veiculado no site do conservador Partido Popular (PP), de direita, está provocando grande polêmica na campanha eleitoral da Catalunha, província autônoma situada no nordeste da Espanha. À semelhança do game Tomb Rider, no qual a heróina Lara Croft (interpretada pela atriz Angelina Jolie nos cinemas) persegue e aniquila uma série de inimigos, no jogo do PP catalão é a candidata ao governo da província, Alícia Sánchez (chamada no jogo de Alícia Croft), quem persegue os “inimigos” da Catalunha. O objetivo do jogo é, dessa forma, atirar e acertar os alvos que “criam problemas para a Catalunha”, somando, assim, pontos.

A polêmica deve-se ao fato de que, entre os inúmeros “inimigos” que aparecem para ser derrotados pela candidata Alícia Sanchez, estão os imigrantes. Na tela do jogo (que recebeu o nome de Resgate), Alícia “Croft” aparece montada em um enorme pássaro branco– símbolo do PP – chamado Pepe e logo se depara com alvos que caem com pára-quedas à sua frente: são os “imigrantes ilegais”, como aparece no jogo. Assim, o jogador é incentivado a destruir esses imigrantes e com isso somar pontos, além de ajudar, na lógica do game, a “heroína” Alícia Croft libertar a Catalunha dos problemas que assolam atualmente a região.

Socialistas repudiam xenofobia em game do PP
O jogo naturalmente causou um forte repúdio de outros partidos, como o PSC (Partido Socialista Catalão), que acusou o PP e Alícia Sanchez de xenofobia. Vale destacar que ao longo da campanha eleitoral, Alícia tem colocado como uma de suas principais bandeiras o combate à imigração “ilegal” na região, associando os imigrantes à crise econômica pela qual passa a Catalunha. De acordo com informações da BBC, em um comício realizado na região de Barcelona, Alícia Sánchez prometeu que, se eleita, criará uma “lei regional de contrato de convivência para os estrangeiros”.


De acordo com essa lei, os imigrantes (mesmo os em situação de legalidade) assinariam um contrato no qual se comprometeriam a deixar a Catalunha caso fiquem desempregados. A lei proposta pela candidata conservadora também incentiva os catalães a denunciarem imigrantes ilegais nas delegacias, a fim de que estes sejam identificados e expulsos da província. Para os socialistas, que atualmente governam a Catalunha, o jogo veiculado no site do PP revela uma campanha extremamente “racista, xenófoba e perigosa” do partido conservador. Após a polêmica, o PP retirou o game do site oficial do partido.

Em um comunicado oficial, o PP declarou que o fabricante do jogo não seguiu suas orientações. De qualquer maneira, a xenofobia do PP fica clara também nas declarações do secretário-geral de política regional do partido, Javier Arenas, que após o episódio afirmou que houve “um pequeno erro; embora o importante não seja este erro, mas a questão de fundo num país com um discurso absolutamente irresponsável do governo socialista dizendo que na Espanha cabe todo o mundo”. Ou seja, embora o PP tenha retirado o jogo do ar, o pensamento xenófobo de seus dirigentes permanece.

Eleições na Catalunha
O governo da província autônoma da Catalunha é chamado de Generalitat de Catalunya, sendo constituído por um Parlamento (com 135 deputados), um Conselho Executivo e um Presidente, eleito entre os membros do Parlamento e nomeado pelo rei da Espanha. Atualmente, o presidente da Generalitat é José Montilla, do PSC (Partido Socialista Catalão), que concorre à reeleição, com poucas chances de êxito, segundo o jornal espanhol El País.

O grande favorito para as eleições é o candidato do CiU (Convergência i Unió), Artur Más, de centro, e que possui maior número de cadeiras no Parlamento (48 deputados de um total de 135). O PSC, de Montilla, é a 2ª maior força no Parlamento Catalão, com 37 assentos. O PP, de Alícia Sánchez, ocupa o 4º lugar, com 14 cadeiras e seu principal desafio nestas eleições regionais é voltar a ser a 3ª maior força do Parlamento, posição que perdeu em 2006 para o ERC (Esquerra Republicana Catalã, de caráter separatista). As eleições regionais da Catalunha serão realizadas no próximo dia 28 de novembro.

Administrativamente, a Catalunha é dividida em 4 províncias (Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona), possuindo 41 comarcas e 946 municípios. Com informações da BBC Brasil e do El País.

Trem-bala: a mais perfeita expressão do novo Brasil

Sem quaisquer sombras de dúvidas, um dos projetos mais ousados e importantes para o atual modelo de desenvolvimentismo desenhado pelo Brasil é o trem-bala ou Trem de Alta Velocidade (TAV), como é tecnicamente conhecido. Embora a oposição faça coro para criticar a execução do projeto, verdade é que o trem-bala trará inúmeros benefícios para o Brasil, não restritos apenas à questão da mobilidade urbana intermunicipal. Maior desenvolvimento econômico, maior geração de empregos, alívio em gargalos existentes na área de infra-estrutura são alguns dos benefícios que serão decorrentes do TAV-Brasil, que se estenderá inicialmente pelo eixo Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro, totalizando 518 quilômetros.

Nesta quarta-feira, 17, foi confirmada a data para o leilão do trem-bala, que ocorrerá no próximo dia 29 de novembro. De acordo com informações do governo federal, o custo estimado da obra é de R$ 33,1 bilhões, dos quais R$ 20 bilhões poderão ser financiados pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Além disso, o valor máximo da tarifa (considerando-se classe econômica, em horário de pico) será de R$ 199, com tempo de viagem previsto para 90 minutos no trecho Rio-São Paulo, de acordo com informações do governo federal. Por ser um projeto extremamente interessante e com projeção de forte demanda, o trem-bala brasileiro tem despertado interesse de investidores da Coréia do Sul, China, Japão, Alemanha, França e Espanha.

Grandes economias já adotam trem-bala
É interessante destacar que todos os países citados anteriormente já possuem o chamado TAV. O pioneiro em adotar esse meio de transporte de passageiros foi o Japão, em 1964. Inicialmente, o país contava com 515 km de trilhos para o trem-bala, sendo que atualmente a extensão da malha é de 2.387 km. Após ser implantado no Japão, o trem-bala passou a ser utilizado em diversos países do mundo, cada vez com tecnologias mais sofisticadas. Para se ter uma idéia, quando foi implantado no Japão, na década de 60, a velocidade operacional do TAV era de 210 km/h. Atualmente, essa velocidade pode chegar a nada menos que 350 km/h e já está sendo lançada a próxima geração de trens, com capacidade de velocidade operacional para patamares entre 350 e 400 km/h.

O fato de muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento estarem aderindo ao TAV já nos dá indícios de sua utilidade. Afinal de contas, constitui um meio de transporte de passageiros rápido e de certa forma barato. Vale destacar que a chamada ferrovia de alta velocidade se mostra mais adequada quando opera entre cidades nas quais a distância fica entre 500 e 600 km. Para intervalos superiores a estes patamares, a viagem aérea torna-se mais competitiva e, portanto, a participação relativa de mercado da ferrovia de alta velocidade torna-se menor. Por aí já se entende o ganho econômico que se tem ao construir o trem-bala entre os dois maiores pólos econômicos do Brasil, a saber São Paulo e Rio de Janeiro, estendendo-o também a Campinas, nas proximidades das Grande São Paulo.

Esse eixo representado por estas três cidades correspondem ao “coração” do transporte brasileiro, já que é responsável por nada menos que 33% do PIB (Produto Interno Bruto) do país e por 20% de toda a população brasileira, segundo relatório feito pela consultoria Halcrow/Sinergia. Vale destacar ainda que esta região tem enfrentado um enorme gargalo no que diz respeito aos meios de transporte, de forma que a adoção do TAV é um mecanismo extremamente eficiente adotado pelo governo federal para acelerar o crescimento econômico destas áreas. Assim, uma primeira grande vantagem do TAV seria justamente o desenvolvimento regional desse importante corredor (Campinas-São Paulo-Rio).

Mais empregos e desenvolvimento regional
Esse maior desenvolvimento regional seria traduzido pela geração de milhares de empregos diretos e indiretos associados tanto à construção da ferrovia de alta velocidade como à sua operação/manutenção. É de se esperar, por exemplo, que ao longo de toda sua extensão haja uma maior dinamização do comércio, do setor de serviços e da própria indústria. Sem contar que outra grande vantagem do trem-bala diz respeito ao fato dele desafogar os maiores aeroportos brasileiros: Congonhas e Cumbica (em São Paulo) e Galeão e Santos Dumont (no Rio). Para se ter uma idéia, enquanto o trajeto Rio-São Paulo poderá ser feito em 90 minutos através do TAV, em uma ponte aérea o passageiro gastaria em média 110 minutos (contando aí tempo de vôo + tempo de check-in + embarque + desembarque).

Além disso, há que se levar em conta o menor custo relativo do TAV na comparação com a ponte aérea. De acordo com o estudo da Halcrow/Sinergia, enquanto o custo médio do trem-bala seria de R$ 200 (classe econômica) e R$ 325 (classe executiva) no horário de pico e de R$ 150 (econômica) e R$ 250 (executiva) fora do horário de pico, a ponte aérea custa em média, excetuando-se tarifas promocionais, R$ 400 no horário de pico e R$ 180 fora do horário de pico. Ou seja: existe uma vantagem comparativa do TAV em relação ao transporte aéreo no trecho Rio-São Paulo tanto sob o aspecto do preço quanto do tempo gasto na viagem. Uma pesquisa feita pelo Ibope em 2008 mostra que o trem-bala tem ampla aceitação junto aos usuários.

De acordo com este estudo do Ibope encomendado pela Secretaria de Transportes do Rio de Janeiro, a maioria das pessoas, 95%, acredita que o trem-bala tornaria melhor a viagem entre as duas principais cidades do país, sendo que 87% afirmam que usarão o trem quando o sistema estiver funcionando e 71% dizem que, se o trem-bala existisse, iriam com mais freqüência para o Estado vizinho. Outro dado significativo é quanto ao custo da passagem: mesmo se o preço do bilhete de avião fosse mais barato do que o do trem, mais pessoas (58%) escolheriam o trem. Se a passagem custasse R$ 120, 63% dos entrevistados optariam pelo transporte sobre trilhos, segundo os dados do Ibope.

Projeções da Halcrow/Sinergia apontam para uma demanda de 32,6 milhões de passageiros por ano utilizando o TAV em 2014. A demanda pela ferrovia de alta velocidade teria um ritmo crescente, de acordo com o estudo, passando para 46 milhões de passageiros/ano em 2024, 69,1 milhões em 2034 e 99,4 milhões de passageiros/ano em 2044. O crescimento se daria tanto no serviço expresso (Rio-São Paulo e Rio-Campinas) quanto no serviço regional (feito entre as cidades menores situadas no eixo ferroviário, como Barra Mansa, Volta Redonda e São José dos Campos). As receitas geradas pelo TAV também tendem a crescer ano a ano, segundo a consultoria, sendo estimadas em R$ 2,3 bilhões para 2014 e R$ 8,2 bilhões para 2044.

Percebe-se, dessa maneira, a importância do trem-bala no contexto desse novo modelo de desenvolvimento iniciado pelo governo Lula e que terá continuidade no governo Dilma. Como dito no início, mais que uma questão de mobilidade, o trem-bala representa importantes ganhos econômicos ligados ao desenvolvimento regional, geração de empregos, redução de gargalos de infra-estrutura e tudo isto feito com menores impactos ambientais que as rodovias, por exemplo. Não é exagero dizer, partindo-se deste ponto de vista, que o trem-bala tende a se tornar a melhor expressão desse novo Brasil que está sendo construído nos últimos 8 anos e que seguirá sendo construído nos próximos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Jornal britânico destaca que Petrobras deve ser maior produtora mundial de petróleo até 2015

O extraordinário crescimento da Petrobras nos últimos anos, sobretudo após a descoberta do pré-sal, tem chamado atenção em todo o mundo. A estatal, que há uma década estava totalmente desacreditada pelo então governo FHC e estava na lista das próximas empresas a serem privatizadas, tornou-se uma das mais importantes empresas do mundo e caminha para dominar o setor de petróleo até 2015. Nesta terça-feira, 16, o jornal britânico The Guardian publicou uma matéria de página inteira destacando as excelentes perspectivas para a estatal brasileira. Confira abaixo a íntegra da reportagem.

Petrobras aspira ser maior produtora mundial de petróleo
A Petrobras pretende ser o maior produtor mundial de petróleo até 2015, de acordo com o diretor financeiro do grupo brasileiro de energia. Uma série de enormes blocos do “pré-sal” encontrados ao longo da costa do Brasil impulsionaram as riquezas da companhia e catapultaram o Brasil ao grupo dos líderes mundiais de energia e potências econômicas.

Em uma de suas primeiras entrevistas a um jornal britânico, Almir Guilherme Barbassa, disse ao The Guardian que a Petrobras seria um dos maiores beneficiários da nova legislação que irá conceder à empresa uma participação mínima de 30% em cada nova descoberta, e também será a principal operadora em todos os novos projetos. Isso significa que o "Big Oil" - empresas como a BP, Shell e ExxonMobil – ficará em segundo plano, atrás da Petrobras, para o acesso às vastas reservas do Brasil.

A Petrobras pretende mais do que dobrar sua produção na próxima década para 5,4 milhões de barris de petróleo e gás por dia, o que é provavelmente o maior valor produzido por qualquer empresa cotada em bolsa no mundo. A BP foi o maior produtor do ano passado, com pouco menos de 4 milhões de barris por dia, mas já deu indicativos que, no futuro, produzirá menos em função de reestruturações e venda de ativos após o desastre do Golfo do México. ExxonMobil - que tinha sido ultrapassada pela BP – está projetando um crescimento anual de cerca de 2% a 3% nos próximos anos.

Barbassa indicou que a Petrobras pode atingir seu objetivo mais cedo, tornando-se maior produtora mundial de petróleo, com capital aberto, já em 2015. "Nós vamos trabalhar duro para atingir esta meta [de se tornar produtor mundial de petróleo], logo que pudermos", disse ele. "O nosso mercado [de produção] está crescendo rapidamente. Mercados de outros países estão estabilizados ou em tendência de retardamento. Entre 2015 e 2020, a meta pode ser alcançada."

Apenas 10-15% da produção total de hidrocarbonetos da Petrobras vem do gás natural, em contraste com outras empresas de energia de capital aberto, disse Barbassa. Mais de um terço da produção da BP é composta por gás, enquanto a Shell pretende produzir mais gás do que petróleo até 2012. Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), na semana passada disse que "Big Oil" estava sofrendo uma "crise de identidade", porque as empresas viram-se afastadas de regiões produtoras de petróleo, como o Oriente Médio, forçando-os a se reposicionarem como produtores de gás.

Segundo Barbassa, "você não vai encontrar outra empresa que tem o mesmo potencial que a Petrobras em todo o mundo A maioria das grandes empresas estão produzindo 40% ou mais de gás. É um tipo diferente de energia em termos de preço e capacidade comercial”. Em setembro, a Petrobras captou US$ 70 bilhões (R$ 43 bilhões) na maior oferta pública de ações do mundo, deixando o governo brasileiro com uma participação de 55%.

Uma série de descobertas de enormes blocos de petróleo nos últimos dois anos está por trás da ascensão meteórica da Petrobras. Eles são chamados de "pré-sal", porque estão quatro quilômetros abaixo do fundo do mar, sob uma camada maciça de sal compactado. A Petrobras ampliou suas reservas em 15 bilhões de barris de petróleo e gás, para pelo menos 30 bilhões de barris a partir de apenas 11,5 bilhões de barris de reservas comprovadas em 2006. Com a continuidade da exploração do pré-sal, essas reservas podem atingir entre 50 bilhões e 100 bilhões de barris, no mesmo nível que as reservas da Rússia e do Kuwait.

Juliette Kerr, analista da IHS Global Insight, disse que a Petrobras tinha sido relativamente cautelosa em anunciar reservas recuperáveis, que precisam ser verificadas antes de serem classificados como "comprovadas" pelos reguladores. Mas ela advertiu que a Petrobras teria de superar importantes desafios tecnológicos para explorar o petróleo.

A Petrobras pretende investir US$ 224 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para desenvolver as novas descobertas. Segundo a AIE, em 2010 a Petrobras vai investir US$ 44,8 bilhões - mais do que qualquer outra empresa cotada em bolsa no mundo e mais de duas vezes o valor gasto pela BP - , representando um crescimento de 28% sobre o ano anterior.

Os riscos sociais da onda reacionária e do discurso da intolerância no Brasil

Charge de Ivan Cabral
Três fatos “independentes” ocorridos em diferentes partes do país no último final de semana, mas que parecem guardar entre si uma forte correlação em suas motivações: a agressão sofrida por três jovens homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo, o tiro levado por um jovem após a 15ª edição da Parada Gay, no Rio de Janeiro, e o assassinato do 32º morador de rua, em Maceió, Alagoas. O preconceito em suas mais diferentes formas tem sido a causa central de barbáries como essas, nas quais a intolerância e a aversão a todo tipo de diferença têm se materializado através de agressões que muitas vezes terminam em morte.

É verdade que o preconceito é algo que sempre existiu na sociedade brasileira, mas é também verdade que de uns tempos para cá uma verdadeira onda reacionária parece ter trazido à tona velhos tipos de condutas preconceituosas que, se continuavam existindo, pelo menos não eram abertamente declaradas. Exemplo claro disto é o discurso xenófobo contra nordestinos adotado por certos grupos de pessoas, sobretudo em São Paulo, logo após a vitória de Dilma Rousseff na disputa presidencial. Eleitores serristas, como a estudante de Direito Mayara Petruso, atribuíam aos nordestinos a “culpa” pela vitória petista e lançavam mão, nas redes sociais, das mais perversas expressões de intolerância e violência.

Apesar de terem sido amplamente repudiadas pelos mais diversos setores da sociedade civil organizada, as declarações da jovem paulistana foram apenas o ponta-pé inicial de uma série de manifestações preconceituosas, como as ocorridas neste final de semana. Neste sentido, o “discurso do ódio” promovido pelos apoiadores do tucano José Serra no subterrâneo da internet, através das redes sociais e e-mails, ainda na campanha presidencial, parece ter servido como impulso para que os defensores de tais idéias ressurgissem e dessem fôlego a atitudes e pensamentos que não ficam em nada a dever ao nazi-fascismo. Homofobia, xenofobia e eugenia são as principais formas através das quais tem se manifestado esse pensamento retrógrado.

Onda reacionária deve ser barrada!
Se de um lado temos essas manifestações deploráveis de preconceito, por outro temos uma estrutura legal altamente permissiva, que ao invés de coibir esse tipo de comportamento parece incentivá-lo, já que deixa seus praticantes totalmente impunes. Maior exemplo disso são os cinco jovens que agrediram os garotos homossexuais na Avenida Paulista: após passarem apenas 24 horas detidos, já estão soltos, novamente “prontos” para cometerem outras barbaridades semelhantes. Cabe aqui a questão: como esperar que novas agressões de cunho preconceituoso sejam evitadas se os praticantes desse tipo de ato não são devidamente punidos?

É importante que se diga: além de uma Justiça que parece cada vez mais fechar os olhos a este tipo de conduta, temos também um Legislativo que colabora para estes atos à medida que não aprova leis que sirvam de coerção para os mesmos. Maior prova disso é o PL 122/06, que prevê a criminalização da homofobia e que está há um bom tempo “parado” no Senado Federal. Razões para aprovar esse projeto de lei não faltam: de acordo com estatísticas do Grupo Gay da Bahia, a cada dois dias um homossexual é morto no Brasil por crime de homofobia. Quantas mortes ainda serão necessárias para que nossos representantes sejam encorajados a aprovar este projeto de lei que prevê punição rigorosa para este tipo de crime?

É lastimável que em pleno século 21 e em um país constitucionalmente laico, o Legislativo fique à mercê de alguns grupos religiosos, que ao trabalharem para que leis como esta que criminaliza a homofobia não sejam aprovadas estão, na verdade, indo contra toda idéia de “amor ao próximo” que pregam em seus templos. Urge que o Congresso Nacional aprove leis, como o PL 122/06, que punam rigorosamente o preconceito, seja qual for a forma que ele assuma, e também que o Judiciário aplique adequadamente estas leis. Esta é a condição mais que necessária para que esta onda reacionária e preconceituosa não se transforme em um verdadeiro tsunami, trazendo consigo um retrocesso cultural sem precedentes.

Afinal de contas, o preconceito e a intolerância são posturas que definitivamente não condizem com o papel que o Brasil vem assumindo na comunidade internacional. Não há dúvidas de que nosso país tem tudo para se transformar na 5ª maior economia do mundo, como vem destacando nossa Presidente eleita Dilma Rousseff, através da continuidade do projeto de desenvolvimentismo iniciado por Lula e pela erradicação total da miséria. Mas paralelamente a estas ações extremamente importantes, é preciso que se coíba toda e qualquer forma de preconceito em nosso país. Somente dessa forma, teremos justiça social em toda sua amplitude e assim construiremos, de fato, um Brasil para todos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Touraine e os equívocos sobre o Brasil de Dilma

Principal teorizador da chamada “sociedade pós-industrial” e com uma grande contribuição à análise da dinâmica dos movimentos sociais, o sociólogo francês Alain Touraine naturalmente não está imune a equívocos na sua linha de pensamento. Isto fica bastante claro em uma entrevista dada pelo pensador, durante sua estada em São Paulo, ao jornal O Globo, publicada nesta segunda-feira, 15. Falando, em linhas gerais, das perspectivas para o Brasil e para o governo Dilma, Touraine comete alguns erros de interpretação, motivados, talvez, por seu distanciamento em relação à realidade do nosso país.

Defendendo a idéia de que tanto FHC quanto Lula têm igual importância na construção de um novo tipo de sociedade no Brasil, o sociólogo francês emenda que “não sabemos o que acontecerá daqui para frente”, argumentando que “a nova Presidente (Dilma) foi inventada por Lula”. A partir deste ponto, Touraine desfia uma série de avaliações equivocadas sobre um possível perfil do governo Dilma bem como sobre o próprio Partido dos Trabalhadores. Para o sociólogo, “o Brasil tem um longo passado de populismo e a ameaça persiste devido ao nível de desigualdade social extremamente elevado”. Abaixo, destacamos os principais equívocos no pensamento de Alain Touraine sobre o novo governo brasileiro:

“O perigo de um retrocesso [com Dilma] existe, até porque o passado do PT está longe de ser perfeito. Lula não foi autoritário, mas segmentos do PT o são”.
O primeiro grande equívoco de Touraine consiste em associar o PT a um maior risco de retrocesso no Brasil, argumentando que setores do Partido possuem tendências autoritárias. Ora, é fato conhecido por todos que a visão de que alguns setores do PT são autoritários é a versão vendida pela grande imprensa brasileira desde que o partido foi fundado, nos anos 80. Contudo, em nenhum dos governos petistas, seja na esfera municipal, estadual ou federal, houve quaisquer traços de autoritarismo. Muito pelo contrário, todos os governos do PT foram marcados por um profundo compromisso com a democracia. A própria rejeição do partido à idéia de um 3º mandato para Lula já deixa claro que o PT não compactua com autoritarismo ou populismo.

Além disso, Alain Touraine parece desconhecer o fato de que, ao longo desta campanha presidencial, as forças do retrocesso e do autoritarismo não se alinharam com Dilma, mas sim com o seu adversário, o tucano José Serra. Afinal de contas, a campanha de Serra contou com o apoio de forças como os monarquistas, a “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), além de setores mais conservadores da Igreja Católica, que todos juntos promoveram uma verdadeira “cruzada” contra a candidata do PT, levantando bandeiras extremamente conservadoras, como a questão do aborto. A aproximação de Serra com os setores ultraconservadores fica bastante clara em uma reportagem publicada pela revista IstoÉ dias antes do 2º turno das eleições.

A matéria da IstoÉ chegou inclusive a revelar documentos da regional Sul I da CNBB (estado de São Paulo) que orientavam os fiéis a não votarem em candidatos do PT. Enquanto Serra recebia o apoio dos setores mais conservadores, Dilma, ao contrário, recebeu o apoio de todos os setores progressistas da sociedade brasileira. Logo, é muito mais razoável que a possibilidade de retrocesso autoritário seria maior em um eventual governo Serra do que no governo Dilma, o que faz cair por terra a avaliação equivocada de Alain Touraine sobre incertezas acerca do comprometimento da nova Presidente com um governo amplamente democrático.

“A ideia de Dilma esquentar a cadeira por quatro anos para Lula também me desagrada. Em uma democracia, não pode haver presidente interino”.
Esta é outra falácia no pensamento de Touraine, expresso na entrevista dada pelo sociólogo ao Globo. É um grande equívoco acreditar que Dilma está simplesmente “esquentando a cadeira” para que Lula retorne em 2014. O próprio Presidente Lula já tratou inúmeras vezes de desmentir esse boato, reafirmando que é totalmente legítimo que Dilma, fazendo um bom governo, dispute novamente a Presidência e seja reeleita. Além disso, esse tipo de postura não condiz em nada com o perfil de Dilma, que jamais se prestaria ao papel de “segurar o lugar” para que Lula retornasse daqui quatro anos. Trata-se de um pensamento com grande teor machista que foi alardeado pela oposição ao longo da campanha e que, infelizmente, parece ter sido abraçado também pelo sociólogo francês.

“A verdade é que não sabemos o que será o governo da nova presidente, porque ela não tem experiência política”.
Outros dois grandes equívocos do pensador francês: 1) que não sabemos como será o governo de Dilma; 2) que Dilma não tem experiência política. Em primeiro lugar, embora seja impossível vislumbrar fatos que caracterizarão o governo Dilma, é bastante plausível trabalharmos com projeções de como será esse governo. Dilma não é Lula, mas representa o mesmo projeto político do Presidente e do seu partido. Logo, é de esperar que Dilma continue o trabalho iniciado no governo Lula e que aprofunde conquistas que foram obtidas nestes oito anos. Afinal de contas, foi exatamente devido a esta perspectiva de continuidade e avanço que 55 milhões de brasileiros depositaram nas urnas o voto em Dilma, elegendo-a a próxima Presidente do país.

Em segundo lugar, é totalmente equivocado dizer que Dilma não tem experiência política, haja vista que ela iniciou sua vida política ainda jovem, quando ingressou em grupos da esquerda clandestina para a luta contra o regime militar. Tendo sido presa e torturada, e após cumprir pena de três anos de detenção, acusada de “subversão”, Dilma iniciou sua vida pública no Rio Grande do Sul, onde foi inicialmente secretária das Finanças do então prefeito Alceu Colares. A partir daí, a nova Presidente ocupou sucessivos cargos gerenciais na administração pública, até chegar ao governo Lula, onde foi Ministra das Minas e Energia e, nos últimos cinco anos e meio, ministra-chefe da Casa Civil. Acaso isso não é experiência política?

Percebe-se, dessa maneira, que os pontos de vista de Alain Touraine sobre o novo governo, expressos em sua entrevista ao Globo, mostram-se bastante equivocados, já que não encontram consistência na realidade vista no Brasil, sobretudo ao longo da campanha eleitoral. Dizer que no governo Dilma o Brasil corre o risco de um retrocesso, por conta de um suposto autoritarismo do PT, é um exercício de futurologia totalmente desprovido de ligações com a realidade. Ao contrário do que diz o sociólogo francês, o governo Dilma deve ser marcado não pelo retrocesso, mas sim pelo avanço, pelo fortalecimento da democracia e pela continuidade das grandes conquistas do governo Lula, sem nenhum viés populista.

domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre tucanos e lobos: a visão elitista e retrógrada do presidente do PSDB

Elitismo, preconceito e contradição são elementos recorrentes na entrevista dada pelo presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, ao jornal O Globo, publicada neste domingo, 14. Além de fazer um balanço do processo eleitoral, que culminou na terceira derrota consecutiva do PSDB na disputa pela Presidência da República, o tucano fala do futuro da oposição e deixa escapar, de maneira bastante evidente, a visão bipartite (e bastante equivocada, por sinal) que tem da sociedade brasileira.

Defendendo uma reestruturação do PSDB, Guerra diz ao Globo que o partido “deve ser reconstruído e ganhar um caráter nacional, reestruturando não apenas seu pensamento, mas também a sua linguagem, ganhando organização e conteúdo para que o partido seja mais forte do que as pessoas”. Mais à frente, o senador emenda: “a impressão é que o partido é comandado por um pequeno grupo, ainda que de excelente qualidade. Quanto mais abrir para a participação, colaboração, melhor. Há clara falta de sintonia entre o partido e setores sociais emergentes e organizados, que não têm canal com o PSDB”.

Até aí, nada de mais. A auto-crítica feita pelo presidente do PSDB mereceria até elogios, não fosse o trecho seguinte da entrevista, no qual Guerra contradiz totalmente essa “reestruturação” de pensamento e linguagem defendida anteriormente. Vejamos o que diz o tucano quando o repórter do Globo o questiona sobre quais setores sociais o líder do PSDB falara na questão anterior. “O PSDB ganhou as eleições nos centros brasileiros. Foi a regra. Perdeu as eleições nos grotões, nas áreas menos críticas do país. Não falo do Nordeste contra Sul, nem do Sudeste contra o Centro-Oeste. Em todas as regiões, este fato se deu. O eleitorado mais dependente, menos crítico, votou no PT. O mais crítico e menos dependente tende a votar no PSDB”, afirmou Guerra.

Prepotência, elitismo e preconceito
A resposta dada pelo presidente do PSDB é de uma prepotência sem limites, já que rotula o perfil do seu eleitorado e do eleitorado petista de acordo com critérios bastante discutíveis, como “dependência econômica” (possivelmente se referindo aos programas sociais do governo federal) e “capacidade crítica”. O senador chega ao cúmulo de desqualificar os eleitores do PT ao afirmar que “o eleitorado mais dependente, menos crítico, votou no PT”, salientando ainda que, ao contrário destes, os eleitores mais críticos e menos dependentes votaram no PSDB. Além de se tratar de uma visão totalmente elitista e preconceituosa, a afirmação de Sérgio Guerra é totalmente equivocada e desprovida de fundamentos.

Cabe aqui a pergunta: como o presidente do PSDB fala em reestruturação do pensamento e da linguagem do partido se logo em seguida ele próprio se contradiz e recorre a uma visão totalmente retrógrada para explicar a derrota tucana nas urnas?. Além disso, é de uma pretensão muito grande do líder tucano dizer que “quem é menos crítico votou no PT e quem é mais crítico votou no PSDB”. Em primeiro lugar, basta nos lembrarmos da extensa lista de apoiadores da candidatura de Dilma no meio artístico e intelectual. Ou será que Sérgio Guerra acha que figuras como Chico Buarque, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer, Marilena Chauí, dentre tantos outros, são de fato “menos críticas” só porque votaram em Dilma?

Em segundo lugar, vamos convir: é de um profundo elitismo associar baixo nível de renda (Sérgio Guerra usa a expressão “mais dependentes”) a menor nível crítico. O eleitorado brasileiro, incluindo a parcela de menor renda da população, está a cada eleição que passa mais crítico e menos propenso a ser “massa de manobra” deste ou daquele grupo político. Prova disso é a cultura do segundo turno que vem se consolidando na disputa presidencial ao longo das três últimas eleições. Por mais que a população brasileira aprove (ou não) determinado governo, ela quer ter uma segunda oportunidade para refletir e comparar os projetos, para somente então referendar sua decisão.

Outra coisa: o presidente do PSDB se equivoca ao dizer que 56% dos eleitores votaram em Dilma porque são “mais dependentes e menos críticos”. Pelo contrário, a eleição de Dilma – que até o início deste ano era pouco conhecida dos brasileiros – mostra uma reflexão bastante sofisticada do eleitor brasileiro, que ao longo do processo eleitoral, comparou os projetos apresentados e optou pela continuidade do governo Lula. Aqui cabe explicitar: o fato de Lula transferir voto para Dilma não quer dizer que o eleitor votou na petista só porque gosta ou simpatiza com Lula. Existe uma razão anterior para isso. Ou será que Guerra pensa que se o governo Lula não tivesse trazido benefícios concretos para a população, o presidente teria feito sua sucessora?

É por isso que é uma vitória do projeto político: porque os 55 milhões de brasileiros que votaram em Dilma tomaram sua decisão de voto levando em conta os benefícios diretos que constataram em suas vidas ao longo desses anos e não porque foram manobrados pelo presidente. Logo, é um tanto pretensioso da parte do senador Sérgio Guerra desqualificar esses votos através da alcunha de “mais dependentes” e “menos críticos”. Percebe-se, dessa maneira, que embora o PSDB venha falando de reestruturação e até mesmo de refundação, seus quadros parecem continuar ligados ao que há de mais conservador e retrógrado em termos de pensamento, corroborando o velho jargão popular, de que “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”.

Como criar factóides: Folha omite informações dadas pela Petrobras para "fritar" ministeriável

É impressionante como a capacidade da Folha de São Paulo em criar factóides, transformando a realidade em uma “supra-realidade” existente somente dentro de suas redações, não conhece limites. Tanto na sua edição impressa quanto na edição online deste domingo, 14, a Folha trouxe uma matéria intitulada ”Petrobras tem 43 contratos com marido de ministeriável”, com o claro objetivo de associar a diretora de Gás e Energia da estatal, Maria das Graças Foster, nome cotado para o primeiro escalão do governo Dilma, a um esquema de favorecimento em que o beneficiado seria o seu marido.

De acordo com a reportagem da Folha, a empresa do marido de Graça, como é conhecida a diretora da Petrobras, “multiplicou os contratos com a Petrobras a partir de 2007, ano em que a engenheira ganhou cargo de direção na estatal”. O jornal prossegue dizendo que “nos últimos três anos, a C.Foster, de propriedade de Colin Vaughan Foster, assinou 42 contratos, sendo 20 sem licitação, para fornecer componentes eletrônicos para áreas de tecnologia, exploração e produção a diferentes unidades da estatal. Entre 2005 e 2007, apenas um processo de compra (sem licitação) havia sido feito com a empresa do marido de Graça, segundo a Petrobras”.

Quem lê a matéria fica exatamente com a impressão de que bastou Graça Foster assumir a diretoria de Gás e Energia da Petrobras para que a empresa de seu marido passasse a ser beneficiada em contratos com a estatal, dos quais quase a metade foi firmada sem licitação. Puro factóide. A reportagem feita pela Folha desconsidera uma série de informações relevantes que foram fornecidas pela estatal e que foram publicadas pelo Blog da Petrobras tão logo a estatal tomou conhecimento de mais esse factóide criado pela Folha.

Folha desconsidera informações dadas pela Petrobras
Passemos aos fatos. Para a elaboração da reportagem, a equipe da Folha enviou à Petrobras uma lista de sete perguntas, tratando exatamente da relação comercial entre a empresa do marido de Graça – a C.Foster – e a estatal. Contudo, ao elaborar a matéria, a Folha manipulou essas respostas, passando ao leitor informações incompletas e que inevitavelmente levariam a uma interpretação equivocada do seu conteúdo. Vejamos: na primeira questão, a Folha pede informações sobre o número de contratos feitos pela estatal com a C.Foster desde 2007, bem como o valor dos mesmos. A resposta da Petrobras foi a seguinte:

A Petrobras tem processos de pequenas compras realizados diretamente e descentralizados pelas unidades da Companhia. No caso concreto, as pequenas compras realizadas pelas áreas de Tecnologia de Informação e Telecomunicações – TIC, Serviços Compartilhados e Exploração e Produção, feitas no período de 2007 a 2010, totalizaram 42 processos de compras de componentes eletrônicos que somaram o valor de R$ 599 mil, sendo 20 processos realizados por dispensa de licitação em razão do valor ser abaixo de R$ 10 mil e os 22 restantes, por meio de processo licitatório, conforme estabelece o Decreto nº 2.745/98 e o Manual de Procedimentos Contratuais. Cumpre informar que a Petrobras tem inúmeros fornecedores de componentes eletrônicos, cujo volume anual de compras é de cerca de R$ 10 milhões”.

Percebam que na sua reportagem, a Folha omite que 1) as compras não foram realizadas pela diretoria de Gás e Energia (a qual pertence Graça) e sim por outras áreas da empresa; 2) os 20 contratos firmados sem licitação foram feitos dessa forma pelo valor deles ser inferior a R$ 10 mil; 3) o valor total dos contratos com a C.Foster é R$ 599 mil, o que corresponde a apenas 6% do volume anual de compras de componentes eletrônicos pela estatal (R$ 10 milhões). Em seguida, a Folha pergunta quantos desses contratos foram assinados por Graça, tendo como resposta da estatal “[Graça] não assinou nenhum processo de compra”.

Também foi perguntado pelo jornal qual foi a participação de Graça na contratação da C.Foster. Novamente, a estatal responde “nenhuma”. Naturalmente, essas informações também foram oportunamente omitidas da matéria publicada pela Folha de São Paulo. Perguntada pela Folha se existe algum tipo de para firmar contratos da Petrobras com empresas de diretores, a estatal foi bastante clara: “as normas legais que tratam da matéria estão contidas no Código de Conduta da Alta Administração Federal, no Código de Ética da Petrobras e no Decreto n° 7.203/2010. Todos estabelecem que seja vedada à autoridade pública a contratação direta sem licitação na área sob sua responsabilidade na empresa, cujo titular ou sócio guarde relação de parentesco. Portanto, os processos de compra objeto desta matéria, não foram realizados por qualquer área subordinada à Diretoria de Gás e Energia”.

As respostas da Petrobras deixam absolutamente claro que todos os 42 contratos feitos entre a estatal e a C.Foster, empresa do marido de Graça, ocorreram dentro da legalidade, não havendo qualquer esquema de favorecimento. Contudo, em sua reportagem online, a Folha omitiu uma série de informações que foram dadas pela Petrobras, provocando, dessa maneira, um equívoco bastante oportuno na leitura da matéria. Essa atitude da Folha só pode ter duas razões: 1) ou uma total inexperiência do jornalista responsável pela matéria; 2) ou uma manipulação premeditada das informações dadas pela estatal buscando, com isso, criar um factóide e desconstruir a imagem de Graça Foster, cujo nome vem sendo cotado para o primeiro escalão do governo Dilma.

O histórico da Folha faz com que fiquemos com a segunda opção. Afinal de contas, não seria a primeira vez que o jornal da família Frias manipula informações para criar factóides no sentido de “fritar” nomes ligados de alguma forma ao governo federal. A leitura das respostas dadas pela Petrobras deixa claro que houve uma má intenção da Folha na edição desta reportagem: caso contrário, o jornal não teria omitido informações que demonstram que não houve qualquer favorecimento nos contratos firmados entre a estatal e a empresa do marido de Graça. Mais um tiro no pé dado pela Folha, cuja credibilidade já não anda lá essas coisas.