sábado, 20 de março de 2010

Cartilha tucana: como recursos da Saúde podem render juros



Conhecido por sua atuação no Ministério da Saúde (no qual esteve à frente entre 1998 e 2000), o virtual candidato tucano à Presidência da República, José Serra, talvez não seja tão preocupado de fato com a saúde dos brasileiros. No final de fevereiro, uma matéria da revista “Carta Capital” dava conta que os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal, estavam aplicando irregularmente verbas do SUS (Sistema Único de Saúde) no mercado financeiro.

A constatação foi feita pelo Denasus (Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde), que desde março de 2009 vinha realizando auditoria em todos os estados brasileiros para verificar o cumprimento da Emenda Constitucional 29/2000, que estipula que os estados devem aplicar na saúde 12% da receita líquida obtida com o recolhimento de todos os impostos estaduais. Além de verificar que os estados mencionados acima não cumpriam a emenda, o relatório dos auditores mostrava que uma boa parte dos recursos oriundos do SUS estavam sendo aplicados no mercado financeiro por um prazo maior que o permitido.

De acordo com a Constituição Federal, os Estados podem fazer esse tipo de aplicação, desde que seja respeitado o prazo de utilização dos recursos, que é de 90 dias. No caso de São Paulo, Minas, Rio Grande e DF, foram detectadas aplicações com verbas do SUS com prazo muito superior ao permitido pela constituição. Isto significa que, ao invés de destinarem os recursos do SUS para as devidas áreas, como farmácia popular, programas de combate a epidemias etc, os governos desses estados estavam usando essas verbas para fazer frente aos seus “choques de gestão” e garantir déficit zero nos estados.

Serra deixa de aplicar mais de R$ 2 bilhões em saúde
A auditoria do Denasus revela que do total de R$ 77,8 milhões do SUS aplicados no mercado financeiro paulista, R$ 39,1 milhões deveriam ter sido destinados a programas de assistência farmacêutica, R$ 12,2 milhões a programas de gestão, R$ 15,7 milhões à vigilância epidemiológica e R$ 7,7 milhões ao combate a DST/Aids, entre outros programas. Ou seja, ao invés desses recursos serem utilizados para melhorar o bem estar da população paulista e garantir-lhes o direito à saúde, eles acabaram sendo utilizados em aplicações financeiras do Estado.

Uma outra constatação de irregularidade apontada pelo Denasus é de que, em São Paulo, os recursos federais do SUS, tanto os repassados pelo governo federal como os que tratam da Emenda nº 29, são movimentados na Conta Única do Estado, controlada pela Secretaria da Fazenda. O correto, pela legislação vigente, é que esses recursos sejam movimentados pelo Fundo Estadual da Saúde e não em uma conta que é administrada pela Secretaria da Fazenda. Pelos cálculos do Ministério da Saúde, o governo paulista deixou de aplicar na saúde, apenas nos dois exercícios analisados, um total de R$ 2,1 bilhões.

Ministério Público determina readequação das verbas
Diante destes fatos, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado de São Paulo enviaram, na última quarta-feira, dia 17 de março, uma recomendação ao Secretário Estadual da Saúde de SP e também ao Secretário Estadual da Fazenda. O documento recomenda, dentre outras, o imediato repasse de todos os recursos do SUS para o Fundo Estadual de Saúde e a imediata devolução (com prazo de 5 dias úteis) de todas as verbas do SUS que se encontram em aplicações financeiras ou outras contas ao Fundo Estadual de Saúde.

Vê-se, dessa forma, que na visão do governo Serra, é necessário manter o equilíbrio fiscal a qualquer custo, ainda que para isso seja necessário aplicar os recursos do SUS, que deveriam ser destinados à saúde de milhões de paulistas, no mercado financeiro. Infelizmente, quem acaba pagando o maior preço por esse tipo de política irresponsável é a população mais pobre.


Para acessar o documento enviado pelo Ministério Público aos secretários da Saúde e da Fazenda de Serra, clique aqui.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Políticas sociais do governo Lula tiram 10 milhões de brasileiros de favelas

Estudo da ONU revela que número de brasileiros em favelas caiu 16% na década. Políticas de transferência de renda do governo Lula favoreceram.
Às vésperas do Fórum Urbano Mundial 5, que ocorrerá entre os dias 22 e 26 de março, no Rio de Janeiro, a ONU-Habitat divulgou, dia 18, quinta-feira, um estudo chamado “State of the world´s cities 2010/2011”, trazendo revelações importantes sobre as condições de vida da população nas grandes cidades do mundo.

O principal aspecto abordado pelo relatório da ONU diz respeito ao crescimento do número absoluto de pessoas que vivem em favelas em todo o mundo. De acordo com o estudo, entre 2000 e 2010 a população que habita em favelas cresceu 55 milhões, passando de 776,7 milhões para 827,6 milhões neste período.

Segundo o documento, este aumento no número de moradores de favelas é explicado pela expansão da quantidade de assentamentos informais, sobretudo nos países em desenvolvimento. A pior situação ocorre na África sub-saariana, onde a cada ano, 14 milhões de pessoas se incorporam à população urbana. Desse total, apenas 30% vivem em condições consideradas boas, sendo que os 70% restantes passam a viver em condições precárias de moradia.

10 milhões de brasileiros deixam de viver em favelas
Em tendência contrária, houve uma melhora em toda a América Latina, onde 30 milhões de pessoas deixaram de morar em favelas na última década, segundo a ONU. Somente no Brasil, o número de favelados caiu 16% na década, o que corresponde a um recuo de 10,4 milhões de pessoas morando em favelas, de acordo com o estudo.

A ONU-Habitat explica essa redução como efeito direto das políticas econômicas e sociais desenvolvidas pelo governo brasileiro nesses últimos anos, que possibilitou uma substancial melhora na renda das famílias brasileira no período, sobretudo das mais pobres. Devemos lembrar que no período do estudo (2000-2010), 8 anos correspondem ao período do governo Lula, responsável pelas políticas de transferência de renda que tanto beneficiaram os brasileiros mais pobres.

Só para se ter uma idéia, o principal programa social do governo Lula – o Bolsa Família – atende mais de 11 milhões de famílias desde a sua criação, em 2003. Vale lembrar que têm direito ao benefício as famílias que têm renda per capita de até R$ 140, ou seja, justamente aquelas que estão em situação de pobreza ou extrema pobreza. Podemos portanto verificar uma correlação direta entre a criação do benefício, o aumento do número de pessoas atendidas por ele e a redução do número de pessoas em condições precárias.

Políticas sociais do governo Lula foram decisivas
Um outro ponto destacado pelo relatório da ONU para explicar a redução do número de brasileiros em favela diz respeito a uma taxa de crescimento populacional cada vez menor, bem como uma redução na migração para as grandes cidades. Podemos dizer que essa é uma conseqüência também dos programas de transferência de renda do governo federal, uma vez que recebendo o benefício onde moram, pessoas que moravam em regiões interioranas ou no campo não precisam mais se deslocar para as grandes cidades em busca de renda.

O documento ainda aponta que o desenvolvimento de políticas de habitação de baixa renda que subsidiam os custos de material de construção, terrenos e serviços foi um outro fator importante para o bom resultado do Brasil. Além disso, a urbanização de favelas e a regularização fundiária em conjunto com novas habitações sociais e projetos de infra-estrutura urbana também foram preponderantes para o êxito do governo brasileiro no que diz respeito à melhoria da qualidade de vida da população.

Na visão da ONU também contribuiu bastante para a implementação dessas políticas e, por conseguinte, para a obtenção desse resultado, a atuação do Ministério das Cidades, que foi criado exatamente pelo governo Lula, no dia 1 de janeiro de 2003. Percebe-se, assim, que essa redução no número de brasileiros vivendo em favelas constatada pela ONU deveu-se sobretudo às políticas desenvolvidas ao longo do governo Lula e que tanto foram criticadas pela oposição ao longo destes anos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Rumo aos 140 anos da Comuna de Paris - Parte 2


"Ultimamente, as palavras 'ditadura do proletariado' voltaram a despertar sagrado terror ao filisteu social-democrata. Pois bem, senhores, quereis saber que face tem essa ditadura? Olhai para a Comuna de Paris: eis aí a ditadura do proletariado!" (Engels)


Um governo de inspiração socialista
Como nos relata Marx, o primeiro decreto da Comuna de Paris foi a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas. Além disso, o governo comunal substituiu o Estado centralizador por um governo popular, composto por conselheiros municipais, eleitos pelo sufrágio universal em todos os bairros da cidade. Ou seja, esses conselheiros eram, em sua esmagadora maioria, operários ou líderes reconhecidos pela classe operária.

Um aspecto interessante a ser destacado é que a Comuna exercia ao mesmo tempo as funções de Executivo e de Legislativo. A polícia de Paris, por sua vez, deixou de ser um instrumento de repressão política e passou a ser um instrumento da Comuna, podendo ser revogada a qualquer momento. Esse mesmo princípio foi aplicado a todos os funcionários da administração pública: todos eles – inclusive os próprios membros da comuna – passaram a receber os mesmos salários que os operários.

Após os revolucionários colocarem os maiores símbolos de poder material do antigo governo – exército permanente e polícia – a serviço da Comuna, era a vez de quebrar o “instrumento espíritual da opressão”, como aponta Marx. Neste sentido, procurando aniquilar o poder dos padres, a Comuna dissolveu e expropriou todas as Igrejas de Paris, passando os padres a dependerem de doações dos fiéis. No campo da educação, a Comuna abriu todas as escolas de Paris ao povo, de forma totalmente gratuita.

Blanquistas x Proudhonistas
Do ponto de vista da caracterização política, a Comuna de Paris era formada por Blanquistas e Proudhonistas. Os blanquistas constituiam maioria da Comuna e, segundo Engels, “eram socialistas só por instinto revolucionário e proletário”. Eles acreditavam que era possível arrastar todo o povo para a Revolução e reuni-lo em torno do grupo dirigente, bastando para isso centralizar o poder nas mãos do governo revolucionário. Tomado o poder, seria possível introduzir o socialismo ou comunismo.

Do outro lado, os proudhonistas, defensores de uma organização social baseada no mutualismo e na cooperação. Segundo Engels, “cabe aos proudhonianos a principal responsabilidade pelos decretos econômicos da Comuna, tanto no que tinham de positivo como de negativo; aos blanquistas, cabe a principal responsabilidade pelos atos e as omissões no terreno político”. Ainda segundo Engels, “ em ambos os casos quis a ironia da história - como geralmente acontece, quando o poder passa para as mãos dos doutrinários - que tanto uns como outros fizessem o contrário daquilo que prescrevia a doutrina de sua escola respectiva”.


Medidas em favor do operariado
No campo das ações, a Comuna de Paris caracterizou-se por um governo amplamente favorável aos operários. Além de decretar a abolição do trabalho noturno, a Comuna reduziu a jornada de trabalho em Paris, propondo inclusive a jornada de 8 horas. Além disso, foram abolidos todos os tipos de descontos salariais e os sindicatos passaram à legalidade.

Além disso, a Comuna passou a aplicar o internacionalismo: ou seja, o fato de um habitante de Paris ser estrangeiro não era mais levado em conta. Tanto é que a Comuna era integrada por pessoas de outros países da Europa. Uma outra preocupação da Comuna de Paris era evitar o que aconteceu em todos os governos anteriores na França: que o Estado se tornasse “senhor” da sociedade e não servidor como deve ser.

Para isso, a Comuna preencheu todos os cargos administrativos, judiciais e do magistério através de eleições, mediante o sufrágio universal, concedendo aos eleitores o direito de revogar a qualquer momento o mandato concedido. Todos os funcionários, graduados ou modestos, eram retribuídos como os demais trabalhadores. O salário mais alto pago pela Comuna era de 6 mil francos.

A Semana Sangrenta e o fim da Comuna
As medidas exitosas da Comuna de Paris, contudo, não teriam vida longa. O governo oficial de Thiers, instalado em Versalhes, preparava uma ofensiva para derrotar os revolucionários. Após a Alemanha (recém formada a partir da unificação da Prússia com outros Estados) libertar soldados franceses que estavam sob seu domínio como prisioneiros de guerra, o poder oficial de Versalhes reorganizou seu exército e preparou a invasão de Paris.

Segundo Marx, "após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848 não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em 1871."

Encerrava-se assim aquela que foi uma das maiores experiências de governo operário da História e que Marx certamente descreveu como “a gloriosa precursora de uma sociedade nova”.

Rumo aos 140 anos da Comuna de Paris - Parte 1


"Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE!” (Marx)

Segunda metade do século XIX: faltando ainda alguns anos para o primeiro centenário da Grande Revolução Francesa, ventos revolucionários ainda varriam o território francês e também toda a Europa. Após a derrota para a então Prússia, em 1870, e em meio ao processo de unificação da Itália e da Alemanha, a França e toda a Europa assistem a primeira experiência de governo operário da História: a Comuna de Paris.

O dia era 18 de março de 1871. Apesar de uma curta duração – apenas 72 dias – a Comuna de Paris tornou-se um símbolo da esquerda mundial, pelo cunho socialista adotado pelo governo comunal em Paris. Marx sabiamente diz, em seu “Guerra Civil em França”, que “a Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los”.

Antecedentes da Comuna
Em meados do século XIX, a França adotava o regime republicano, sendo governada por Luís Bonaparte (sobrinho de Napoleão Bonaparte, que governou a França até 1815). Em 1851, tendo intenções de continuar no poder mas tendo o impeditivo constitucional, Luís Bonaparte dá um golpe, semelhante àquele que foi dado por Napoleão em 1799, e institui a ditadura. Era o “18 Brumário de Luís Bonaparte”.

Tendo o apoio da população francesa, Luís Bonaparte realiza um plebiscito em 1852 e institui novamente o Império na França, sendo coroado imperador e recebendo o título de Napoleão III. O Segundo Império – como ficou conhecido historicamente este período – foi marcado por uma opressão intensa ao Legislativo e às forças opositoras ao imperador. Do ponto de vista econômico, Napoleão III favoreceu a modernização e o desenvolvimento da França, além de realizar um operação de reurbanização de Paris.

Na política externa, Napoleão III tentou resgatar a política expansionista implementada anteriormente por seu tio, no início daquele século, mas esbarrou nos interesses de um Estado vizinho – a Prússia, que já despontava como um poderoso território industrial. Assim, em 1870 tem início a Guerra Franco-Prussiana. Contudo, como o exército prussiano era melhor preparado e mais numeroso que o francês, a Prússia derrotou facilmente a França, prendendo Napoleão III e impondo um armistício bem humilhante à França.

Governo Provisório e a formação da Comuna
Com a prisão de Napoleão III e o fim do Segundo Império Francês, foi formado um Governo Provisório – a Terceira República Francesa -, tendo como presidente Adolphe Thiers. O novo presidente, cumprindo o tratado de paz feito com Bismarck, da Prússia, teve que entregar boa parte do seu Exército Permanente ao Estado vizinho, bem como suas armas. Naturalmente, a submissão aos termos prussianos gerou um descontentamento generalizado na população de Paris.

Diante da baixa do Exército Permanente, o único setor armado na França era a Guarda Nacional, formada basicamente por operários e poucos membros da pequena burguesia. Assim, com o objetivo de formar uma resistência ao exército prussiano, a Guarda Nacional toma a Prefeitura de Paris, onde estava sediado o Governo Provisório, e expulsa os membros da Assembléia, que se refugiam em Versalhes. No dia 18 de março de 1871, Thiers mobiliza alguns correligionários e tenta invadir durante a madrugada a Prefeitura de Paris.

Mesmo pegos de surpresa, o Comitê Central da Guarda Nacional conta com o apoio armado da população, conseguindo expulsar o grupo de Thiers e proclamando um governo popular, de cunho socialista, independente da Assembléia de Versalhes: era a Comuna de Paris. Começava nesse 18 de março de 1871 a primeira experiência de governo operário e socialista da História.

O inferno astral de Serra





Às vésperas do seu aniversário, o governador de SP e presidenciável do PSDB, José Serra, parece enfrentar um inferno astral dos mais implacáveis. Ao mesmo tempo em que vê seu nome cair cada vez mais nas pesquisas de intenções de voto, Serra ainda enfrenta uma greve do magistério paulista, iniciada em 8 de março, e ao que tudo indica ainda terá que enfrentar uma greve dos servidores da Saúde.

Se fosse somente isso, ainda poderíamos dizer que a maré para Serra de fato não está boa, mas a situação do presidenciável tucano se complica mais ainda com o noticiário nada favorável envolvendo seus demo-aliados, como o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Pelo visto, Serra é abalado não por uma maré “brava”, mas por uma tsunami das mais fortes.

Tendência de queda de Serra também no Sudeste
Certamente, uma das maiores preocupações da oposição diz respeito à tendência declinante verificada pela candidatura de Serra nas pesquisas de intenção de voto. O governador de SP tenta se esquivar, dizendo que “não comenta pesquisa nem quando está disparado”, enquanto seus aliados tentam minimizar os resultados da pesquisa, dizendo que o crescimento da candidatura governista deve-se à maior exposição da ministra Dilma.

Verdade é que inclusive na região Sudeste, onde o desempenho de Serra é melhor, ele já registra tendência de queda. De acordo com o levantamento do Datafolha, em agosto de 2009, o tucano tinha 44% das intenções de voto no Sudeste, caindo para 41% em dezembro daquele ano e chegando aos 38% em fevereiro de 2010. Enquanto isso, Dilma passou de 13% das intenções de voto no Sudeste em agosto/09 para 19% em dezembro/09, atingindo 24% em fevereiro/10 no Sudeste.

Noticiário negativo dos aliados atrapalha
O noticiário político relacionado aos seus aliados também é um fator negativo que tem que ser administrado por Serra. Desde o final do ano passado, quando surgiram as denúncias contra o então governador do DF, Arruda, a situação já inspirava preocupação na oposição. Com a prisão de Arruda, em fevereiro deste ano, e a cassação do seu mandato, nesta semana, o cenário ficou ainda mais nebuloso.

Não bastasse isso, outro aliado do governador – o prefeito de São Paulo, Kassab – também tem sua popularidade em queda. Isto porque desde dezembro a maior cidade do país tem registrado índices pluviométricos bem altos e, diante da falta de planejamento e investimento da prefeitura em infra-estrutura que comportasse essas chuvas, São Paulo teve que enfrentar inundações constantes, prejudicando grande parte da população paulistana.

Serra enfrenta greves de servidores em SP
Além de tudo isso, Serra enfrenta desde o início de março uma greve dos professores da rede estadual, que reivindicam, além de uma reposição salarial de 34,3%, uma reestruturação da política de educação desenvolvida pelo governo do Estado. A greve já completa sua segunda semana e ainda não tem previsão do final. Na semana passada, uma manifestação de professores na Avenida Paulista reuniu 40 mil pessoas, segundo informações da Apeoesp (Sindicato dos Professores).

E não são apenas os professores que estão insatisfeitos com as políticas públicas do governo Serra: na próxima sexta-feira, 19, servidores da Saúde deverão aprovar em Assembléia uma greve, a começar já na próxima semana. A pauta de reivindicação engloba reposição de 40% referente a perdas salariais e o fim da terceirização dos serviços, além do sucateamento do SUS no Estado de SP.

Percebe-se, assim, que o cenário para Serra não é nada favorável. E ao contrário dos infernos astrais tradicionais, que acabam no dia do aniversário, o de Serra parece que ainda vai durar muito tempo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pesquisa CNI/Ibope confirma cenário otimista para candidatura governista



O fato de as pesquisas tratarem de “retratos do momento” e o mais importante ser, por isso, a análise da tendência da intenção de voto nos diversos candidatos é ponto consensual dentre os analistas políticos. Partindo dessa premissa, a pesquisa CNI/Ibope, divulgada nesta quarta-feira, 17 de março, veio confirmar o cenário amplamente favorável para a pré-candidata do governo, Dilma Rousseff.

Na pesquisa estimulada, ou seja, naquela em que uma lista de nomes é apresentada aos entrevistados, Dilma aparece com 30% das intenções de voto, encostando em Serra, que tem 35%. Esses números por si só já revelam um cenário otimista para a pré-candidata do PT, visto que em dezembro de 2009, quando foi feito o último levantamento CNI/Ibope, Dilma contava com 17% das intenções de voto contra 38% de Serra. Ou seja, enquanto Dilma subiu 13 pontos percentuais, o tucano caiu 3 pontos.

Diante do quadro, a oposição já se apressa em pontuar argumentos para minimizar esse avanço significativo de Dilma nas pesquisas de intenções de voto. O primeiro desses argumentos é que o crescimento de Dilma está relacionado à maior exposição da ministra na mídia, já que tem aparecido bastante ao lado do presidente Lula na inauguração de obras e nos eventos oficiais. O segundo ponto, defendido principalmente pelo ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM), é de que esse crescimento já era esperado, visto que o PT tem um patamar histórico de votos em torno dos 30%.

Um terceiro ponto, destacado pela oposição, é de que a tendência, a partir de abril, seja de que a intenção de votos na ministra se estabilize na casa dos 30%, visto que após o dia 2 do próximo mês, Dilma deverá se retirar do cargo de ministra-chefe da Casa Civil, atendendo agenda estipulada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Passemos a analisar esses três pontos destacados no discurso da oposição a partir das recentes pesquisas e fatos:

Serra tem maior exposição que Dilma
O primeiro ponto que devemos destacar é que Serra é um candidato mais conhecido do que Dilma. De acordo com os números apresentados pela pesquisa CNI/Ibope de março, 65% dos entrevistados declararam conhecer bem ou “mais o menos” o candidato tucano. Enquanto isso, o percentual de entrevistados que conhecem bem ou “mais ou menos” Dilma é de 44%.

Ou seja, este argumento de super-exposição da ministra apresentado pela oposição não confere, já que Serra é bastante conhecido no Brasil desde 1998, quando assumiu o ministério da Saúde no então governo FHC. Além do fato de que o noticiário durante o período de coleta dos dados da entrevista (6 e 10 de março) foi recheado por factóides criados pela mídia direitista e que supostamente poderiam repercutir negativamente na pré-candidatura de Dilma.

Mudança no perfil do eleitorado petista
A afirmação de que Dilma encontra-se no patamar histórico de votos do PT e por isso tende a se estabilizar é duplamente falaciosa. Isto porque houve uma mudança significativa no perfil do eleitorado petista, especialmente a partir de 2006. Desde o seu surgimento, em 1980, o PT ganhou a simpatia de setores da classe média (especialmente ligados à intelectualidade) e também dos setores sindicais. Contudo, não havia uma identificação das classes mais baixas com o PT, fato que explica inclusive os resultados eleitorais nos pleitos de 1989, 1994 e 1998.

A partir do primeiro mandato do presidente Lula (2002-2006), o desenvolvimento de programas sociais de transferência de renda passou a beneficiar decisivamente milhões de brasileiros considerados em situação de pobreza e de extrema pobreza. Já nas eleições de 2006, Lula foi reeleito com folga justamente devido ao voto desses milhões de brasileiros beneficiados pelos programas do governo federal. Ou seja, enquanto uma parcela da classe média se afastou do PT, setores mais populares tendem a se aproximar muito do Partido, em função da identificação com Lula.

Logo, hoje a base eleitoral do PT tende a ser consideravelmente maior do que no passado, quando o partido só contava com os votos de setores da classe média e por isso seu desempenho eleitoral ficava em torno dos 30%. A tendência é de que se firme um novo patamar histórico de intenções de votos no partido, bem maior do que esses 30% sugeridos pela oposição, exatamente em função da aglutinação das classes mais populares.

Capacidade de votos de Dilma é muito grande
Um outro aspecto revelado pela pesquisa CNI/Ibope é crucial para derrubar o discurso demo-tucano de que a candidatura de Dilma deve se estabilizar na casa dos 30%: de acordo com o levantamento, 53% dos entrevistados pretendem votar no candidato apoiado pelo presidente Lula. Contudo, a parcela de entrevistados que conhece a candidata de Lula é de 58%. Ou seja, uma parcela expressiva de 42% dos entrevistados ainda desconhece que Dilma é candidata de Lula, o que amplia consideravelmente a capacidade de votos da petista.

Sem contar que, se analisarmos os dados do Ibope segmentados por faixa de renda, notaremos que dentre os que ganham até 1 salário mínimo, apenas 28% conhecem bem ou “mais ou menos” Dilma. Isso nos traz uma revelação importante: que justamente nesse novo eleitorado petista, o conhecimento da ministra como candidata de Lula ainda é relativamente baixo e tende a ser ampliado com o início da campanha, em julho.

Para se ter uma idéia, no Nordeste e entre os que ganham até 1 salário mínimo, o peso da apoio de Lula atinge a expressiva marca dos 69%. Ou seja, a pesquisa CNI/Ibope confirma o cenário otimista para a candidatura governista, já apontado pelo Datafolha, e certamente deve tirar o sono da oposição nos próximos meses.

terça-feira, 16 de março de 2010

Questionamento de um filósofo de boteko




“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes)

Interessante é andar despreocupado em meio à multidão. Ou ainda, andar mais despreocupado ainda em meio ao silêncio da noite. Dois extremos que podem nos levar à mesma reflexão: angustiante, mas certeira em demonstrar o quão paradoxal é a busca a que muitas vezes nos lançamos. Seis da tarde e as luzes da Paulista, a síntese da paulicéia desvairada, começam a se acender.

De dentro dos arranha-céus espalhados entre o Paraíso e a Consolação milhares de seres humanos marcham, em ritmo apressado, num verdadeiro frenesi urbano, a caminho de suas casas, de um barzinho, de algo. O que tanto querem encontrar? Em meio à loucura da selva de pedra, embalado pela busca rasteira da multidão, mudo o questionamento: O que tanto queremos encontrar?

Fato é que ao longo da vida encontramos muitas coisas, diferentes pessoas, variados amores. E quando tudo parece equacionado, somos tomados por uma inquietude d’alma que nos atormenta, que parece sussurrar aos nossos ouvidos que todos esses encontros na verdade nos levaram a um desencontro maior. Encontrar um amor, um verdadeiro amigo, uma canção que nos toque, o emprego ideal sem dúvida é tarefa mais fácil do que a jornada de encontrar a si mesmo.

Engraçado que o mais contraditório de tudo isso é que essa jornada não nos é opcional, é algo praticamente “imposto”, como se ao nascer, tivéssemos como missão, em meio a tantos desencontros, nos encontrar, em algum lugar, em alguém, ao longo da vida. Idéia nada original esta: diversas religiões, filosofias, crenças difundem esse propósito universal da vida. Não por menos o próprio Oráculo de Delfos já continha a inscrição em sua porta: “conheça-te a ti mesmo”.

E o que é o auto conhecimento senão o encontro do ser em si? Talvez essa a questão paradoxal mais irônica que nos defrontamos na vida – como necessitamos de tantos desencontros para o grande encontro, o encontro conosco, com a própria razão de ser! E como o passageiro, que aguarda ansioso seu vôo ou seu ônibus, vamos vivendo, esperando, tomando um café, um lanche. Pequenos desencontros que antecedem um encontro.

A noite começa na maior cidade do país. Tudo cheira à pressa. Pequenos desencontros ocorrem, enquanto outros tantos encontros estão a caminho. Em meio às luzes da megalópole, Clarice alivia a alma quando diz que “perder-se também é caminho”.